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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478

Cienc. Rural vol.24 no.2 Santa Maria  1994

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-84781994000200020 

CARACTERIZAÇÃO DO STAPHYLOCOCCUS COAGULASE NEGATIVO ISOLADOS DE QUARTOS MAMÁRIOS DE VACAS COM MASTITE SUBCLÍNICA

 

CHARACTERIZATION OF COAGULASE NEGATIVE STAPHYLOCOCCUS ISOLATED FROM THE MAMARY QUARTERS OF THE COWS WITH SUBCLINICAL MASTITIS

 

Marlice Teixeira Ribeiro1 Wanderlei Ferreira de Sá2 Leda Aroni Melchíades3 Vânia Maria de Oliviera Veiga4 Iveraldo Santos Dutra5

 

 

RESUMO

O presente trabalho foi desenvolvido na Zona da Mata - MG, durante três meses. De quatro rebanhos utilizados, trabalhou-se com 16 animais mestiços e 19 holandeses. O objetivo foi caracterizar Staphylococcus coagulase negativos, isolados de quartos mamários de vacas, que inicialmente reagiam à prova do "Califórnia Mastitis Test" (CMT), em quatro testes consecutivos, a intervalo de uma semana. A caracterização das 116 amostras encontradas, correspondentes a Staphylococcus coagulase negativo, foram: S. epidermidis (71,55%), S. hyicus subsp. chromogenes (6,03%), S. simulans (6,03%), S. warneri (4,31%), S. hominis (3,45%), S. cohnii (3,45%), S. sciuri (3,45%) e S. haemolyticus (1,73%).

Palavras-chave: mastite, Staphyiococcus coagula-se negativo, mastite subclínica.

 

SUMMARY

The present work was carried out in the region of "Zona da Mata-MG", Brazil, during three months. Sixteen crossbreed cows and nineteen Holstein-Friesian cows from four herds were used. The work aimed to characterize coagulase negative Staphylococcus spp. from those animals. The mammary quarters which reacted positive with the California Mastitis test on four consecutive weeks were sampled. A total of 166 strains were isolated. The identified species and the percentage of isolation were as follows: S. epidermidis (71.55%), S. hyicus subsp. chromogenes (6.03%), S. simulans (6.03%), S. warneri (4.31%), S. hominis (3.45%), S. cohnii (3.45%), S. sciuri (3.45%) and S. haemolyticus (1.73%).

Key words: mastitis, coagulase negative Staphylococcus, subclinical mastitis.

 

 

INTRODUÇÃO

A mastite é uma inflamação da glândula mamaria, associada freqüentemente à presença de bactérias patogênicas, que levam a uma alteração na composição físico-química do leite e determinam um aumento do nível de células somáticas, especialmente os leucócitos. É muito comum nas vacas leiteiras, atingindo um ou mais quartos mamários.

Segundo LANGENEGGER et al. (1981), a intensidade com que a mastite subclínica afeta a produção do leite, em quantidade e qualidade, varia de acordo com a natureza do(s) agente(s) etiológico(s) envolvido(s), com a resposta imunitária do animal, evolução e duração das infecções e propagação da mastite no rebanho. Com relação a outros agentes etiológicos da mastite, espécies do gênero Staphylococcus causam menores danos à produção de leite, embora seu controle seja difícil ao nível de rebanho.

FERREIRO, (1980); LANGENNEGER et al. (1981), OLIVEIRA, (1989) consideram o Staphylococcus aureus como o agente etiológico predominante em relação a outras bactérias que causam a mastite em rebanhos bovinos brasileiros. Este foi mencionado como principal patógeno da glândula mamaria de bovinos no Brasil, enquanto o Staphylococcus epidermidis e demais espécies coagulase negativos são reconhecidos como não patogênicos, não somente no País, como, também, nos estudos de BRAMLEY (1978), WARD (1981) e WATTS (1984).

Staphylococcus coagulase negativo (SCN) foram isolados de quartos mamários com mastite subclínica e também de amostras de leite de úberes normais, constituindo-se no mais numeroso grupo de microrganismos presentes na teta e pele do úbere das vacas (CULLEN & HERBERT, 1967; DEVRIESE, 1979).

DEVRIESE & KEYSER (1980) verificaram que algumas bactérias, tais como: S. epidermidis, S. hyicus Subsp. chromogenes e S. simulans, formariam um grupo "M" mais freqüentemente encontrado em amostras provenientes de quartos com sinais de inflamação e aumento da contagem de células somáticas do leite. DEVRIESE (1984) adicionou ao grupo "M" a espécie S. warneri, que predomina no canal da teta.

Numa revisão a respeito dos agentes etiológicos da mastite, WATTS (1988) mencionou 23 espécies para o gênero Staphylococcus, caracterizadas por diversos autores. Destas espécies, 14 foram isoladas da glândula mamaria de bovinos por DEVRIESE (1979), BABA et al. (1980), DEVRIESE & KEYSER (1980), GARCIA et al. (1980) e WATTS & NICKERSON (1986).

O objetivo deste trabalho foi o de caracterizar Staphylococcus coagulase negativos isolados de quartos mamários de bovinos, inicialmente reagentes à prova do "California Mastitis Test", em quatro testes consecutivos, a intervalos de uma semana.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Quatro rebanhos bovinos localizados na Zona da Mata, em Minas Gerais, foram utilizados no presente estudo, durante três meses consecutivos.

Preliminarmente foi realizado o "California Mastitis Test" (CMT) (SCHALM & NOORLANDER. 1957), em 612 quartos mamários de 153 animais. A partir de escores positivos (++ e +++) no CMT e isolamento bacteriano, foram selecionados 16 animais mestiços e 19 holandeses, de ordenha manual e mecânica, respectivamente. Nesta ocasião foram considerados, portanto, animais que apresentaram pelo menos um quarto mamário reagente ao CMT com isolamento correspondente a SCN.

Quatro CMT(s) consecutivos, acompanhados de exames bacteriológicos, foram realizados, com intervalos de sete dias aproximadamente.

Após lavar e secar as tetas, a desinfecção foi feita com gaze embebida em álcool 70°GL. O leite foi colhido em tubos estéreis e incubados a 37°C por 18 horas. O isolamento foi realizado em ágar sangue de carneiro, para verificação da morfologia, aspecto da colônia e produção de pigmentos (COX, 1984, KLOOS, 1990). A obtenção de culturas puras foi por meio da semeadura da amostra em BHI (Difco) e ágar Baird-Parker. Foi realizada coloração de Gram em bactérias provenientes de todos os três meios de cultura.

Para caracterização bioquímica das cepas, adotou-se o procedimento de BIER (1978). GARCIA et al. (1980) e HARVEY (1985).

Para o estudo da fermentação de carboidratos, com vistas à identificação das espécies de Staphylococcus, foram obedecidas as recomendações do "Subcommitee on Taxonomy of Staphylococci and Micrococci", conforme recomendações do manual Bergey's (KLOOS & SCHLEIFER, 1986). As amostras foram inoculadas nos tubos contendo o carboidrato numa concentração final de 1% e incubados a 37°C por 24 horas.

Os carboidratos utilizados foram: manita, lactose, rafinosedulcitol, celobiose, maltose, galactose, trealose e sorbitol. A identificação das espécies foi de acordo com SCHELEIFER, (1986).

Para o estudo da presença de coagulase utilizando plasma de coelho; produção de ácidos em aerobiose em presença de sorbitol, adonitol, dulcitol; lipase e gelatinase, procedeu-se conforme DEVRIESE, (1979). A resistência à bacitracina foi verificada para confirmação do gênero Staphylococcus.

 

RESULTADOS

A caracterização de amostras de Staphylococcus, em estudo longitudinal associado com o CMT das mastites subclínicas dos animais, em que foram inicialmente identificadas como SCN, está descrita na Tabela 1, onde também estão explícitos os resultados das provas bioquímicas, fisiológicas e de sensibilidade frente à novobiocina, para espécies de Staphylococcus propostas por SCHLEIFER (1986).

 

 

Das amostras testadas, 116 corresponderam aos SCN, sendo 71,55% de S. epidermidis, 6,03% de S. hyicus subsp. chromogenes e S. simulans, 4,31% de S. warneri, 3,45% para cada uma das espécies: S. hominis, S. cohnii e S. sciuri e, finalmente, 1,73% de S. haemolyticus (Tabela 2).

 

 

 

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

Os variados quadros de mastite subclínica causados por SCN, são, em alguns casos, de caráter acentuado; em outros, brandos. A dificuldade de diferenciar os SCN da única espécie, S.epidermidis, até então considerada como o único Staphylococcus coagulase negativo envolvido em casos de mastite, tem motivado o desenvolvimento de estudos para melhor caracterizar as espécies que apresentam semelhanças fisiológicas entre si.

A espécie mais freqüentemente isolada foi o S. epidermidis, seguida de S. hyicus subsp. chromogenes, S. simulans, S. warneri, S. hominis, S. cohnii, S. sciuri e S. haemolyticus, concordando com as observações de DEVRIESE (1979).

DEVRIESE (1979) utilizou a celobiose para diferenciar os S. xilosus negativos dos S. sciuri positivos. Os resultados para as quatro amostras de S. sciuri isoladas foram positivos.

Pelos dados da Tabela 1, observaram-se cepas de S. haemolyticus e S. sciuri negativas para urease, concordando com DEVRIESE (1984), que também verificou resultados negativos para todas as cepas de S. sciuri, e de grande variação, em relação ao teste, para as cepas de S. haemolyticus.

Para DEVRIESE (1979), a atividade de fosfatase é típica de S. haemolyticus e S. simulans. Foi verificado que as duas cepas de S. haemolyticus encontradas foram fosfatases negativas. GARCIA et al. (1980) verificaram que somente 16,66% das cepas de S. epidermidis foram positivas para gelatinase. Estes resultados contrastam com os obtidos no presente trabalho, onde se verificaram 69 cepas positivas, conforme Tabela 1, correspondendo a 83,13% do total de amostras dessa espécie.

Baseando-se na caracterização das espécies de Staphylococcus, suas características bioquímicas, fisiológicas e de sensibilidade frente aos antibacterianos, isolados nos testes de CMT, dos quartos mamários com mastite subclínica, conclui-se que:

1. S. hyicus subsp chromogenes, S. simulans, S. epidermidis, S. sciuri, S. warneri, S. hominis, S. haemolyticuse S. cohnii, espécies de Staphylococcus coagulase negativo, foram isoladas nas amostras de leite dos bovinos.

2. Dentre as espécies de Staphylococcus coagulase negativo identificadas, S. epidermidis foi a de maior prevalência.

3. Os testes de verificação da produção de ácidos por rafinose, adonitol e sorbitol não contribuíram para a diferenciação das espécies de Staphylococcus.

 

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1Farmacêutico Bioquímico. M.Sc., Microbiologia Veterinária, Técnico Especializado da EMBRAPA/CNPGL, Rodovia MG 133-42.36155-000 Coronel Pacheco, MG.

2Médico Veterinário, Doutor, Pesquisador da EMBRAPA/CNPGL.

3Farmacêutico Bioquímico, M.Sc., Microbiologia Veterinária, Severiano Sarmento, 156/304, Passos. 36026-420 Juiz de Fora, MG.

4Médico Veterinário, M.Sc., Pesquisador da EMBRAPA/CNPGL.

5Médico Vetrinário, Doutor, Professor no Departamento de Apoio da UNESP-Araçatuba. 05340-901 Araçatuba, SP.

 

Recebido para publicação em 14.03.94. Aprovado em 10.05.94.

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