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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478

Cienc. Rural vol.26 no.1 Santa Maria Jan./Apr. 1996

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-84781996000100019 

TRANSPLANTE DE CARTILAGEM COSTAL AUTÓLOGA NO REPARO DE DESVIO DO PAVILHÃO AURICULAR DE CÃES. ESTUDO EXPERIMENTAL1

 

AUTOLOGUS COSTICARTILAGE GRAFT TO REPAIR EXTERNAL EAR DEVIATION OF DOGS. AN EXPERIMENTAL STUDY

 

Duvaldo Eurides2

 

 

RESUMO

Neste experimento, 12 cães com idade entre 7 e 12 meses foram submetidos a técnica cirúrgica com objetivo de apresentar novo método para reparo de desvio lateral da orelha externa, mediante transplante autólogo de cartilagem costal. Verificou-se que as orelhas apresentaram postura ereta, movimentos aparentemente normais e ausência de desvio. Macroscopicamente o enxerto encontrava-se firmemente aderido a cartilagem auricular e a pele. Pela microscopia óptica observou-se em torno da cartilagem costal presença de tecido conjuntivo fibroso. A técnica cirúrgica avaliada poderá ser utilizada para correção de desvio lateral da orelha de cães.

Palavras-chave: cão, cirurgia, transplante, orelha.

 

SUMMARY

To perform the research twelve dogs between 7 and 12 months old were submitted to a surgical technique in order to test new method to repair lateral external ear deviation with an autologus costicartilage implant. The ears presented erect posture, normal appearance, movement and no deviations. Macroscopic examination showed that the implant was firmly attached to the auricular cartilage and skin. Around the costicartilage fibrous connective tissue was observed by optical microscopy. This surgical technique can be used to correct lateral deviations of dogs ears.

Key words: dog, surgery, graft, ear.

 

 

INTRODUÇÃO

Defeitos de postura do pavilhão auricular de cães são de ocorrência comum, causados por diferentes fatores ou pela combinação destes, como congênitos, psicológicos, doenças, ferimentos, nutricionais, idade imprópria para conchectomia, técnica cirúrgica deficiente e cuidados inadequados na convalescença (SMITH, 1986).

Diversas técnicas cirúrgicas já foram descritas para corrigir defeitos de posicionamento do pavilhão auricular de cães. Com objetivo de reforçar a cartilagem auricular através da proliferação de tecido conjuntivo, ARANEX (1959) & VINE (1974) praticaram na face interna da orelha incisões paralelas de pele e cartilagem, sem atingir a pele da face externa, onde foram atravessadas fitas umbilicais ou gazes. Para corrigir desvio lateral VINE (1974) recomendou remover pequena tira elíptica de pele na face interna da base da orelha para aproximação através de pontos simples de fio inabsorvível, podendo ser incluída na síntese a cartilagem auricular. Com os mesmos propósitos HORNE (1979) e COSENZA (1988), além de removerem um segmento elíptico de pele na face externa da orelha, aplicaram pontos de sutura na cartilagem escutiforme, fáscia temporal e base da cartilagem auricular para promover retração da orelha no sentido medial. HORNE (1979), no entanto, indicou manter as orelhas erguidas com bandagens durante 3 a 5 dias e relatou que nos insucessos deve-se repetir a remoção de outro segmento elíptico de pele. Para corrigir desvio lateral, SMITH (1986) indicou aplicar sutura contínua nas bases das cartilagens auriculares e sobre a fáscia subcutânea dorsal da cabeça.

Em relação ao uso de material sintético WHITE & SMALLWOOD (1979) descreveram a técnica de transfixação com pontos de sutura de placa de plástico rígida na face medial e outra na lateral sobre a área defeituosa da orelha, durante 3 a 5 dias. SINCIC et al. (1978) praticaram pequenas incisões de pele na face interna do pavilhão auricular e introduziram segmentos de silicone, sendo que o material foi integrado ao tecido circunvizinho. Foi indicado por BEHNEY (1981) a aplicação de polipropileno na face externa da orelha. MATERA et al. (1989) utilizaram malha de polipropileno fixada na face externa da orelha abrangendo a porção defeituosa. As orelhas foram mantidas erguidas com dispositivos de sustentação durante 10 a 15 dias. Após este período as orelhas apresentaram-se eretas e com movimentação adequada.

Na utilização de bioprótese SARNAT & LASKIN (1954) mencionaram que com o implante de cartilagem homóloga não ocorre a necessidade de cirurgia adicional no paciente para obtenção da cartilagem, porém os enxertos estão sujeitos a reabsorção e envolvimento por tecido conjuntivo. IRWIN (1957) e MAROLT & BLAGOVIC (1964) citaram que os enxertos homólogos aplicados entre a pele e a cartilagem na face externa da orelha são envolvidos por tecido conjuntivo fibroso. Para obtenção de melhores resultados IRWIN (1957) relatou a necessidade de manter a orelha na posição desejada através de bandagens durante 10 dias. RAY (1986) implantou na face interna da orelha e sobre o local defeituoso, retalho de cartilagem autóloga previamente conservada a baixas temperaturas. No pós-operatório as orelhas foram mantidas eretas com bandagem durante 3 a 6 semanas. BELLEUNDIR et al. (1970), verificaram que na cartilagem homóloga preservada pelo frio ocorria variável desaparecimento de condrócitos. Foi recomendado por JIMENEZ (1982) e CARVALHO (1990) o emprego de cartilagem autóloga durante a conhectomia, como método preventivo. Através de estudos histológicos CARVALHO (1990) observou que a cartilagem autóloga implantada apresentou-se presa ao pavilhão auricular através de tecido cartilaginoso, abundante rede elástica com ausência de células inflamatórias. Durante o período de observação os animais mantiveram os movimentos de flexão, rotação e extensão das orelhas.

Considerando a variabilidade de técnicas, este experimento tem por objetivo apresentar uma técnica cirúrgica para reparo de desvio lateral do pavilhão auricular de cães, com transplante de cartilagem costal autóloga.

 

MATERIAIS E MÉTODO

Foram utilizados 12 cães, machos e fêmeas com idade entre 7 e 12 meses, sendo três Dobermann, dois Boxer e um Pastor Alemão portadores de desvio lateral do pavilhão auricular e seis sem raça definida, com as orelhas aparentemente normais. Os animais em jejum de 12 horas foram sedados com maleato de acepromazinaa 0,2% (0,1 mg/kg de peso corporal, IV), submetidos a tricotomia e anti-sepsia da orelha e região lateral costoabdominal com solução de álcool iodado a 2%. A anestesia geral foi feita com thiopental sódicob 2,5% (12,5mg/kg de peso corporal, IV). Foi praticada incisão de pele com aproximadamente 3,0cm de comprimento, na região do hipocôndrio para localização e exposição da cartilagem costal da última costela (Figura 1). A cartilagem foi removida com tesoura, seccionada transversalmente em dois segmentos de comprimento aparentemente iguais e mantidas em solução fisiológica a 0,9% até o momento de serem transplantados. A área doadora foi aproximada com sutura contínua de fio categute simplesc 000 e a pele com pontos simples interrompidos com fio de algodão n° 10d. Na face interna e no sentido longitudinal do pavilhão auricular, foram feitas incisões de pele de aproximadamente 0,3mm de comprimento para permitir a formação, com auxílio de pinça de Haistead, de dois túneis paralelos, entre pele e cartilagem auricular. Com auxílio da pinça hemostática foi conduzido em cada túnel um segmento da cartilagem costal. A pele foi aproximada com pontos interrompidos de fio de algodão n° 10. As orelhas foram mantidas erguidas com aplicação de dispositivos de sustentação por período de 15 dias. Os pontos de sutura foram removidos no oitavo dia de pós-operatório.

 

 

Os animais foram submetidos ao acompanhamento clínico durante 30 dias. Após este período os cães sem raça definida foram sacrificados mediante injeção intravenosa de cloreto de potássio a 20%, para avaliação macroscópica e coleta de material para estudo histológico da área de transplantação. Os cortes foram corados pela técnica de hematoxilina-eosina (HE) e examinado através da microscopia óptica.

 

RESULTADOS

Todos os cães apresentaram boa evolução clínica no pós-operatório e no local dos transplantes verificou-se discreto aumento de volume de consistência firme. As orelhas evidenciaram postura ereta, movimentos aparentemente normais e ausência de desvio (Figura 2).

 

 

Macroscopicamente observou-se que a cartilagem costal se apresentava firmemente aderida a pele e cartilagem auricular.

Ao exame em microscopia óptica os implantes encontravam-se envolvidos por fma camada de tecido conjuntivo fibroso com moderada reação inflamatória. O tecido cartilaginoso implantado apresentava-se em bom estado de conservação, sem divisão celular (Figura 3).

 

 

 

DISCUSSÃO

Na literatura consultada não existe unanimidade quanto a via de acesso utilizada para corrigir defeitos do pavilhão auricular de cães. ARANEX (1959), VINE (1974) e RAY (1986) estabeleceram como prioridade a face interna das orelhas como via de acesso; no entanto, IRWIN (1957), MAROLT & BLAGOVIC (1964), BEHNEY (1981) e MATERA et al. (1989) realizaram intervenções cirúrgicas na face externa. Neste experimento o transplante de cartilagem costal foi realizado na face interna das orelhas, sendo verificado que o enxerto se apresentava firmemente aderido com discreto aumento de volume (Figura 2). O aumento de volume se deve ao processo de cicatrização com deposição de tecido conjuntivo em tomo do enxerto. Nos animais portadores de desvio lateral do pavilhão auricular submetidos ao transplante de cartilagem costal, foi verificado que as orelhas se apresentavam eretas e com movimentação aparentemente adequada, observação também relatada por MATERA et al. (1989) com implante de malha de polipropileno e por CARVALHO (1990) com enxerto de cartilagem auricular autóloga. O método de correção dos desvios com enxerto de cartilagem costal, proposto neste experimento, foi favorecido pela aplicação no pós-operatório de dispositivo de sustentacão do pavilhão auricular (IRWIN, 1957, HONE, 1979, WHITE & SMALLWOOD, 1979, RAY, 1986, MATERA et al., 1989), que evitou a formação de dobras nas cartilagens transplantadas e auricular durante o processo de reparação cicatricial.

Material não biológico empregado no reparo de defeitos do pavilhão auricular de cães, como o silicone utilizado por SINCIC et al. (1978) e polipropileno por MATERA et al. (1989), foram integrados aos tecidos circunvizinhos. Estes materiais sintéticos, entretanto, podem estimular intensa formação de inflamação granulomatosa, fato que não foi verificado neste experimento com enxerto autólogo de cartilagem costal.

O transplante de cartilagem homóloga utilizado por SARNAT et al. (1954), IRWIN (1957), MAROLT & BLAGOVIC (1964), BELLEUNDIR et al. (1970) pode estar sujeito a reabsorção com intenso envolvimento de tecido conjuntivo fibroso (SANAT & LASKIN, 1954) e desaparecimento dos condrócitos (BELLEUNDIR et al., 1970). As alterações observadas com transplante homólogo podem estar relacionadas à rejeição do enxerto. Neste experimento, no entanto, verificou-se que decorridos 30 dias de pós-operatório, o enxerto autólogo permaneceu em bom estado de conservação, sem divisão celular. O estudo histológico mostrou ainda boa integração tecidual em virtude da presença de fina camada de tecido conjuntivo fibroso entre a cartilagem auricular e cartilagem costal e discreta reação inflamatória (Figura 3). Os resultados obtidos neste experimento não são semelhantes aos observados por CARVALHO (1990), que verificou presença de duas placas cartilaginosas ligadas por tecido cartilaginoso. Contudo, foram análogos quanto a moderada presença de células inflamatórias no local do transplante. A ausência de complicações pós-operatórias constituiu uma das vantagens do método cirúrgico empregado neste experimento, pois o enxerto, mesmo desprovido de vascularização e suprimento sanguíneo próprio, integrou-se tanto à pele como à cartilagem auricular. Com transplante de dois segmentos paralelos de cartilagem costal autólogo as orelhas evidenciaram, durante o período de observação, postura ereta aparentemente normais, não sendo necessário praticar outra intervenção cirúrgica para completar a correção do desvio, como indicado no método proposto por HORNE(1979).

 

CONCLUSÕES

No local dos transplantes de cartilagem costal autóloga ocorre formação de discreto aumento de volume de consistência firme, sem aparentemente prejudicar a estética das orelhas.

A aplicação de dispositivo de sustentação nas orelhas submetidas ao transplante de cartilagem, por período de 15 dias, é indispensável para evitar formação de dobras da cartilagem costal durante a reparação cicatricial.

O transplante de dois segmentos paralelos de cartilagem costal autóloga na face interna do pavilhão auricular pode ser praticado para corrigir desvio lateral das orelhas de cães.

 

FONTES DE AQUISIÇÃO

a - ACEPRAN 0,2%: Laboratório Andrómaco, São Paulo, SP.

b - THIONEMBUTAL; Abbott Laboratório do Brasil, São Paulo, SP.

c - CATEGUTE: Laboratório Bruneau, S. Bernardo do Campo, SP.

d - FIO DE ALGODÃO URSO: J. & P. Costa. Cia Brasileira de Linhas de Cozer, São Paulo, SP.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1Trabalho apresentado no 4° Congresso Mineiro de Medicina Veterinária.

2Médico Veterinário, Professor Titular, Doutor, Departamento de Medicina Animal, Universidade Federal de Uberlândia. Avenida Pará, 1720, Campus Umuarama, 38400-902, Uberlândia, MG.

 

Recebido para publicação em 29.05.95. Aprovado em 13.09.95.