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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478On-line version ISSN 1678-4596

Cienc. Rural vol.26 no.2 Santa Maria May/Aug. 1996

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-84781996000200002 

EFEITO DE TRATAMENTOS COM ALTAS CONCENTRAÇÕES DE CO2 SOBRE A QUALIDADE DE MAÇÃS 'GOLDEN DELICIOUS' ARMAZENADAS EM ATMOSFERA CONTROLADA

 

EFFECT OF TREATMENT WITH HIGH CO2 CONCENTRATIONS ON QUALITY OF 'GOLDEN DELICIOUS' APPLES STORED IN CONTROLLED ATMOSPHERE

 

Auri Brackmann1 Emerson Dias Gonçalves2 Adriano Arriel Saquet3

 

 

RESUMO

O experimento teve por objetivo avaliar a influência das altas concentrações iniciais de CO2 sobre os aspectos físico-químicos de maçãs 'Golden Delicious' armazenadas em atmosfera controlada. Os tratamentos foram 10% de CO2 e 5% de O2 e 15% de CO2 e 5% de O2 durante 5, 10 e 15 dias, sendo que durante o restante do período de armazenamento os frutos foram armazenados em 4% de CO2 e 1,5% de O2, na temperatura de +0,5 °C e umidade relativa de 97%. Após 10 meses, não foi verificado diferenças significativas na firmeza de polpa, acidez titulável, sólidos solúveis totais e controle de podridões. Na abertura das câmaras os tratamentos iniciais com CO2 não mostraram influência na degenerescência da polpa e escaldadura, porém, após 14 dias todos os tratamentos com CO2 aumentaram a incidência de degenerescência interna e tratamentos com 15% de CO2 diminuíram ligeiramente a ocorrência da escaldadura.

Palavras-chave: maçã 'Golden Delicious', alto CO2 breakdown, atmosfera controlada.

 

SUMMARY

The aim of this experiment was to evaluate the effect of initial high CO2 concentrations on quality of 'Golden Delicious' apples stored in controlled atmosphere. The treatments were 10% of CO2, and 5% of O2, and 15% of CO2, and 5% of O2, during 5, 10 and 15 days but during the remaining of storage time fruits were kept in 4% of CO2, and 1.5% of O2, at +0,5 °C and 97% RH. After 10 months, no diferences in firmness, total soluble solids contents, acidity and decay were observed. At opening of controlled atmosphere chambers CO2 treatment had no influence in internal breakdown and scald, but after 14 days in shelf-life. all treatments with high CO2 increased internal breakdown and 15% of CO2 decreased scald incidence.

Key words: apple 'Golden Delicious', high CO2, internal breakdown, controlled atmosphere.

 

 

INTRODUÇÃO

A cultivar 'Golden Delicious' representa aproximadamente 20% da produção brasileira de maçãs (FRUPEX, 1994). Os frutos possuem a epiderme verde com polpa crocante e suculenta, apresentando teor em ácidos superiores às demais cultivares nacionais, atendendo aos consumidores que têm preferência por maçãs de epiderme verde amarelada ou por frutos com maior teor de acidez.

Após a colheita a maçã é armazenada em câmaras frias de atmosfera normal (AN) e atmosfera controlada (AC) visando o suprimento do mercado durante o ano. Esta cultivar apresenta boa capacidade de armazenamento em AC, porém, o tratamento com alto CO2, pode contribuir para a manutenção da qualidade dos frutos, principalmente com relação a firmeza da polpa e acidez (COUEY & OLSEN, 1975; MEHERIUK, 1977; MEHERJUK, 1979; EBERT, 1984).

O tratamento da cv. 'Golden Delicious' com 20% de CO2 durante 10 dias, seguido de armazenamento em AC com 2,5% de CO2 e 1% de O2, na temperatura de -l °C, retardou a perda da firmeza da polpa e acidez titulável, após oito meses de conservação (COUEY & OLSEN, 1975). A cultivar Mcintosh quando submetida ao tratamento com 12% de CO2 por duas semanas, mantém a firmeza de polpa mais elevada, porém, com injúrias externas e internas, causadas pelo CO2 (BRAMLAGE et al, 1977). Segundo MEHERJUK (1977), os tratamentos com 10 a 20% de CO2 por 10 a 14 dias em 'Golden Delicious' mantiveram os frutos mais firmes, porém, com pequenas injúrias, comercialmente aceitáveis. Já, MEHERJUK (1979), utilizando 15% de CO2 por 10 dias obteve frutos com maior firmeza de polpa, sem verificar danos.

EBERT (1984) afirma que tratamentos com altas concentrações de CO2 (10 a 30%), por 2 a 15 dias, não prejudicam as maçãs, mas aumentam o potencial de armazenamento. No entanto, LAU & LOONEY (1978) submetendo 'Golden Delicious' a 14 e 18% de CO2 por 10 dias, verificaram altos níveis de injúrias causadas pelo alto CO2 e poucos benefícios sobre a manutenção da firmeza da polpa. Frutos da cv. 'Golden Delicious', submetidos a tratamentos com 17% de CO2 por 10 dias, juntamente com o estabelecimento rápido das condições de AC, não evidenciaram incremento na firmeza da polpa devido ao alto CO2, e sim pelo estabelecimento rápido das condições de AC, que foram de 2% de CO2 e 2,5% de O2 (LAU et al, 1983).

Segundo COUEY (1994), o tratamento da cv. 'Golden Delicious' com 20% de CO2 por 10 dias proporcionou firmeza de polpa mais elevada, quando comparado com AC convencional, porém, quando expostos por 20 dias a 15% de CO2 os frutos apresentaram 54,5% de escurecimento interno.

O objetivo do trabalho foi avaliar a influência das altas concentrações iniciais de CO2 sobre as qualidades físico-químicas e ocorrência de distúrbios fisiológicos de maçãs 'Golden Delicious' 'armazenadas em câmaras frigoríficas de atmosfera controlada.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

O experimento foi conduzido durante o ano de 1994, no Núcleo de Pesquisa em Pós-colheita (NPP) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Foram utilizados frutos procedentes de um pomar comercial da empresa Rasip, localizada em Vacaria, RS. Os frutos foram colhidos no ponto de maturação normalmente utilizado pela empresa para o armazenamento comercial em AC. Na seleção dos frutos, foram eliminados aqueles com lesões ou com peso inferior a 145g, sendo armazenados 24 horas após a colheita em mini-câmaras experimentais de atmosfera controlada (AC) com volume de 240 litros.

O delineamento experimental utilizado foi inteiramente casualizado com três repetições, sendo a unidade experimental composta por 20 frutos.

Os tratamentos avaliados foram concentrações de gás carbônico, durante diferentes períodos de aplicação, conforme Tabela l. Logo após os tratamentos com altas concentrações de CO2, os frutos permaneceram em 4% de CO2 e l ,5% de O2, até o final do período de armazenamento de 10 meses.

 

 

A temperatura de armazenamento, medida na polpa dos frutos, foi de +0,5 °C e a umidade relativa do ar ficou em 97%. A temperatura do ar teve uma oscilação de ±0,5°C em decorrência da instabilidade normal de funcionamento das câmaras frigoríficas.

As condições de AC foram estabelecidas mediante a realização do "pulldown", que consistiu em eliminar o oxigênio das câmaras através da injeção de nitrogênio, até a obtenção das concentrações pré-estabelecidas. As concentrações de CO2 foram estabelecidas através da injeção deste gás em cada câmara. Para a manutenção constante dos níveis destes gases foi realizada diariamente a análise e as correções das concentrações, com auxílio de analisadores eletrônicos de fluxo contínuo da marca Agri-datalog. O oxigênio consumido pela respiração dos frutos foi reposto através da injeção de ar nas câmaras e o CO2 produzido foi absorvido com auxílio de uma solução de hidróxido de sódio, pela qual foi circulado o gás das câmaras.

A análise dos frutos foi realizada na instalação do experimento e após 10 meses de armazenamento. Na abertura das câmaras três amostras de 20 frutos por tratamento foram analisados. Outras três amostras permaneceram por sete dias em condições de atmosfera normal (AN) - (+0,5 °C) e mais seis dias em temperatura ambiente, a fim de simular o período de beneficiamento e comercialização dos frutos. Posteriormente, também, foram analisados os seguintes parâmetros:

a) A firmeza da polpa foi determinada utilizando-se um penetrômetro motorizado com ponteira de 11 mm de diâmetro, em dois lados na região equatorial do fruto, onde previamente foi retirada a epiderme.

b) Sólidos solúveis totais (SST) determinados com auxílio do refratômetro manual, sobre o qual foi colocado o suco dos frutos e realizada a leitura em graus brix. O suco foi extraído com uma centrífuga elétrica de uma fatia transversal retirada da parte central das maçãs, de uma amostra de 20 frutos, de cada repetição.

c) Acidez titulável foi determinada através da titulação de 10ml de suco, diluídos em 100ml de água destilada, e titulado com uma solução de NaOH 0,1N até pH 8, l.

d) Degenerescência interna foi avaliada através da visualização da polpa dos frutos, submetidos a diversos cortes transversais, que permitiram expor totalmente o interior da polpa para avaliação. Foi determinada através da contagem de frutos com qualquer tipo de sintoma de escurecimento na polpa.

e) Escaldadura foi avaliada através da contabilização dos frutos que possuíam sintomas de escurecimento na epiderme, não decorrentes de podridões.

f) A ocorrência de podridões foi realizada através da contagem dos frutos com sintomas característicos de ataque de fungos. Foram considerados como podres, os frutos que apresentaram lesões com diâmetro igual ou superior a 0,5cm .

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Nas avaliações realizadas não foram verificadas diferenças significativas na firmeza de polpa dos frutos em decorrência do tratamento inicial com CO2, (Tabela l e 2). Estes resultados estão de acordo com LAU & LOONEY (1978) e LAU et al (1983), que verificaram pouca ou nenhuma influência do alto CO2 inicial sobre a retenção da firmeza de polpa. Os resultados deste experimento contrariam as observações de (COUEY & OLSEN, 1975; MEHERJUK, 1977; EBERT, 1984; COUEY, 1994), que constataram benefícios do alto CO2 inicial sobre a manutenção da firmeza de polpa.

Na avaliação do teor de sólidos solúveis totais (SST), não foi verificado nenhuma influência dos tratamentos em ambas as datas de avaliação, como também foi verificado por BRAMLAGE (1977) na cv. McIntosh e LAU & LOONEY (1978) em 'Golden Delicious'.

A acidez titulável apresentou valores semelhantes em todos os tratamentos, em ambas as datas de avaliação, inclusive ocorrendo valores mais baixos na abertura das câmaras em alguns tratamentos com alto CO2 inicial, confirmando os resultados de BRAMLAGE et al (1977) que não verificaram influência do CO2 na acidez dos frutos da cultivar McIntosh e LAU & LOONEY (1978) na cv. Golden Delicious, discordando no entanto de COUEY & OLSEN (1975), que obtiveram frutos com acidez mais elevada utilizando pré-tratamento com CO2.

A ocorrência de degenerescência interna avaliada na abertura das câmaras e após 14 dias de simulação de beneficiamento e comercialização dos frutos (Tabela 3), aumentou com o incremento dos níveis de CO2 e o tempo de exposição ao alto CO2. Na testemunha, não foi observado nenhuma incidência de degenerescência interna após 14 dias de simulação de benefíciamento e comercialização. Na abertura das câmaras, os sintomas não foram tão intensos como após 14 dias, quando foram verificados percentuais de até 25% de frutos afetados. Estes resultados confirmam os dados obtidos por MEHERIUK (1977), LAU & LOONEY (1978) e COUEY (1994) que verificaram danos internos causados pelo alto CO2 em 'Golden Delicious' e BRAMLAGE (1977) na cv. McIntosh.

Frutos com escaldadura só foram verificados na segunda avaliação (Tabela 3). A testemunha e os tratamentos com aplicação de 10% de CO2 apresentaram sintomas sendo, no entanto, controlada quase que totalmente com os tratamentos com 15% de CO2. Não foi encontrado na literatura nenhuma referência sobre controle de escaldadura com alto CO2, pelo contrário, BRAMLAGE et al. (1977) verificaram danos externos na cv. McIntosh com a aplicação de 12% de CO2 por duas semanas.

A ocorrência de podridões (Tabela 2) foi de certa forma controlada nos tratamentos com alto CO2 (15%) na avaliação realizada na abertura das câmaras. Na segunda avaliação (Tabela 3), no entanto, ficou evidente em alguns tratamentos que o alto CO2 estimulou a ocorrência de podridões, provavelmente provocando danos aos tecidos da epiderme, que se tomaram sensíveis a penetração de fungos.

 

CONCLUSÕES

A aplicação de altas concentrações de CO2 no período inicial de armazenamento de 'Golden Delicious', diminui a escaldadura, distúrbio pouco comum nesta cultivar, porém, aumenta a degenerescência interna e pouco influencia a firmeza de polpa, SST e podridões. Por esta razão, não é recomendável o uso desta técnica para a cv. Golden Delicious em escala comercial.

 

AGRADECIMENTOS

À Fundação de Amparo a Pesquisa do Rio Grande do Sul (FAPERGS) e a Empresa Rasip, pelo financiamento deste trabalho.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRAMLAGE, W.J., BAREFORD, P.H., BLANPIED, G.D. et al. Carbon dioxide treatments for 'McIntosh' apples before CA storage. J Amer Soc Hort Sci, Alexandria, v. 102, n. 5, p. 658-662, 1977.         [ Links ]

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1 Engenheiro Agrônomo, Doutor, Professor do Departamento de Fitotecnia, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), 97119-900 - Santa Maria, RS. Autor para correspondência.

2 Acadêmico do Curso de Agronomia, UFSM.

3 Engenheiro Agrônomo, Aluno do Curso de Pós-graduação em Agronomia, UFSM.

 

Recebido para publicação em 26.06.95. Aprovado em 03.04.96.

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