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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478

Cienc. Rural vol.27 no.2 Santa Maria Apr./June 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-84781997000200009 

ESTUDO ANATÔMICO DO XILEMA SECUNDÁRIO DE Mimosa trachycarpa Benth.

 

ANATOMY OF THE SECONDARY XYLEM OF Mimosa trachycarpa Benth.

 

José Newton Cardoso Marchiori1 Graciela Bolzon de Muñiz2

 

 

RESUMO

São descritos os caracteres microscópicos da madeira de Mimosa trachycarpa Benth., fornecidos dados quantitativos, determinações estereológicas e fotomicrografias de sua estrutura anatômica. Foram encontrados raios muito finos, parênquima paratraqueal, fibras libriformes não septadas, pontoações ornamentadas e poros agrupados em cachos, com arranjo tendente a diagonal. A estrutura da madeira é comparada com referências da literatura para a família Leguminosae e gênero Mimosa, em análise filogenética, taxonômica e ecológica.

Palavras-chave: anatomia da madeira, Leguminosae, Mimosa trachycarpa, Stipellares.

 

SUMMARY

The wood anatomy of Mimosa trachycarpa Benth. is described. Photomicrographs as well as quantitative and stereological data of its minute structure were furnished. Very fine rays, paratracheal parenchyma, libriform and not septated fibres, vestured pits and pores in clusters, tending to a diagonal pattern, were found. The wood anatomy was checked with literature of the Leguminosae family and genus Mimosa, considering its phylogenetical, taxonomical and ecological aspects.

Key words: wood anatomy, Leguminosae, Mimosa trachycarpa, Stipellares.

 

 

INTRODUÇÃO

O gênero Mimosa L. compreende mais de 400 espécies, que se distribuem pelas regiões quentes do continente americano, desde o sul dos Estados Unidos até o Uruguai e centro da Argentina.

A taxonomia das Mimosas baseia-se em BENTHAM (1875), que agrupou em duas secções, Habbasia e Eumimosa, cada uma contendo diversas séries botânicas. A secção Habbasia reúne as espécies com flores diplostêmones, ao passo que nas Eumimosae, as flores apresentam um número de estames igual ao de pétalas.

A espécie descrita no presente trabalho é um arbusto aculeado, densamente revestido de pêlos glanduloso-capitados. As folhas, com 2 a 5cm de comprimento, compõem-se de 3 a 6 jugos e 9 a 12 pares de folíolos imbricados por pina, tendo estipelas cordadas e estípulas foliáceas. As flores são rosadas, octandras e dispostas em capítulos axilares pedunculados. Os frutos são pequenos e de poucas articulações (BURKART, 1979). A espécie encontra-se naturalmente em cerros e margens de cursos d’água, no Uruguai (LOMBARDO, 1964) e Rio Grande do Sul (BURKART, 1979).

Mimosa trachycarpa Benth. inclui-se na secção Habbasia, por suas flores diplostemones, e na série Stipellares, por ser provida de estipelas foliáceas na base das pinas. Para a área de ocorrência natural de Mimosa trachycarpa são citadas outras 5 espécies da mesma série botânica: Mimosa amphigena Burk., Mimosa cruenta Benth., Mimosa hassleriana Chod., Mimosa uruguensis Hook. et Arn. (LOMBARDO, 1964) e Mimosa ostenii (BURKART, 1987). Com relação a estrutura do xilema secundário, são poucas as referências encontradas na literatura sobre o gênero Mimosa e espécies da série Stipellares.

Em estudo de 11 espécies da Argentina, COZZO (1951) observou uma grande variação anatômica. Desta relação constavam Mimosa cruenta, Mimosa hassleriana, Mimosa ostenii e Mimosa uruguensis, pertencentes a série Stipellares. Na ausência de um traço comum a todo o grupo, o anatomista considerou-o como "estruturalmente heterogeneo".

Para Mimosa uruguensis foram referidos a predominância de poros em múltiplos e a presença de raios lenhosos geralmente unisseriados, compostos de células horizontais. A ocorrência de poros em arranjo dendrítico, foi também relatada para as outras 3 espécies da série Stipellares, examinadas pelo anatomista argentino.

Para Mimosa cruenta, MARCHIORI (1985) destacou a presença de uma porosidade dendrítica e sugeriu que o caráter tem valor taxonômico para o reconhecimento da série Stipellares. Foram também referidos a ocorrência de poros muito pequenos e extremamente numerosos, de elementos vasculares muito curtos, com placas de perfuração simples e providos de espessamentos espiralados tênues, de parênquima axial abundante, de raios fracamente heterogêneos, de fibras libriformes e a ausência de estratificação.

O xilema secundário de Mimosa trachycarpa é desconhecido, inexistindo referências sobre seus aspectos anatômicos. O presente trabalho visa estudar suas características microscópicas, contribuindo para o conhecimento taxonômico do gênero a que pertence.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

O material estudado é procedente do Estado Rio Grande do Sul e consiste de 6 amostras de madeira, conservadas no Herbário e Xiloteca do Departamento de Ciências Florestais (HDCF), com os seguintes registros: HDCF 679. Pedreira do SOCEPE, Pinhal, Santa Maria. Marchiori, J.N.C., 10/81982; HDCF 685. Pinhal, Santa Maria, RS. Marchiori, J.N.C. 23/8/1982; HDCF 689. São Sepé, RS. Marchiori, J.N.C., 02/9/ 1982; HDCF 700. Boqueirão, Santiago, RS. Marchiori, J.N.C., 17/9/82; HDCF 2800. Vila Etelvina, Santa Maria, RS. Longhi, S.J., n° 962, 20/11/1987; HDCF 2807. Cruz Alta, RS. Marchiori, J.N.C., n° 427, 18/8/1986.

De cada amostra de madeira foram preparados 3 corpos de prova, orientados para a obtenção de cortes anatômicos nos planos transversal, longitudinal radial e longitudinal tangencial. O amolecimento dos mesmos foi realizado por fervura em água. As secções anatômicas foram obtidas em microtomo de deslizamento, regulado para a obtenção de cortes com a espessura nominal de 18mm. Usou-se tripla-coloração, com Acridina-vermelha, Crisoidina e Azul-de-astra (DUJARDIN, 1964) e montagem de lâminas permanentes, com Entellan.

Para o preparo de laminas de macerado, procedeu-se à dissociação do tecido lenhoso pelo método de Jeffrey (FREUND, 1970). Usou-se coloração com safranina e o mesmo meio de montagem anteriormente referido.

A terminologia adotada, as medições e descrição anatômica, seguiram as recomendações da COPANT (1973). Para a determinação da percentagem dos diferentes tipos celulares, usou-se a metodologia recomendada por MARCHIORI (1980). Os dados quantitativos e determinações estereológicas são apresentados na Tabela l. As fotomicrografias foram tomadas em aparelho Carl Zeiss, no Laboratorio de Anatomia da Madeira, da Universidade Federal do Paraná.

 

 

DESCRIÇÃO DA MADEIRA

Vasos: Muito numerosos, ocupando 18,7 % do volume da madeira. Porosidade difusa. (Figura 1.A). Poros de diâmetro pequeno (45 - 73 - 100mm), de forma oval e paredes espessas, agrupados em cachos de numerosas unidades (Figuras 1.A; 2.A, B), com arranjo tendente a diagonal. Elementos vasculares muito curtos (82 - 132 - 173mm), com placas de perfuração simples e delicados espessamentos espiralados na parede celular. Apêndices geralmente ausentes ou então curtos (10 - 23 - 38mm), em apenas uma das extremidades. Pontoações intervasculares alternas, poligonais, pequenas (5 - 6 - 7, 5mm) e ornamentadas, com abertura inclusa, lenticular, tendente a horizontal (Figura 2.D). Pontoações raiovasculares muito pequenas até pequenas (3 - 4,2 - 6mm), arredondadas e aparentemente simples (Figura 2.C). Pontoações parenquimo-vasculares muito pequenas até pequenas (3,5 - 4,4 - 6mm), semelhantes às raio-vasculares (Figura 2.C).

 



 

 


 

Parenquima axial: Pouco abundante, em disposição paratraqueal e ocupando 11,8% do volume da madeira. Em secção transversal, este parênquima constitui um envoltório nos agrupamentos racemiformes de poros (Figura 2.A, B), compondo eventualmente curtos segmentos tangenciais, ao estabelecer uma confluência entre os mesmos. Células de parênquima fusiformes com 132 - 174 - 225mm de comprimento por 10 - 14,5 - 22mm de largura. Séries parenquimáticas axiais, com 150 - 183 - 230mm de comprimento por 9 - 14 - 20mm de largura, compostas invariavelmente por apenas 2 células. Na transição do parênquima axial para o tecido fibroso não são raras as séries de cristais romboédricos, em 15 - 23 câmaras.

Raios: Numerosos (6 - 8,6 - 11/mm), compondo cerca de 10% do volume da madeira. Tecido radial homogêneo (Figura 1.B), composto apenas por células horizontais. Raios agregados, ausentes. Raios de relecionamento normal (Figura 1.C), freqüentemente fusionados em suas extremidades. Raios unisseriados abundantes (cerca de 14,5%), muito baixos (15 - 88 - 190 mm), extremamente finos (6 - 10 - 14mm) e com 1 - 7 - 14 células de altura. Raios em sua maioria bisseriados (43,6%), trisseriados (36,2%) e, menos comumente, com 4 celulas de largura (5,7 %). Raios multisseriados baixos (102 - 251 - 683mm), compostos por 8 - 19 - 54 células de altura e muito finos (15 - 24 - 34mm). Em plano tangencial, as células radiais tendem a ser isodiamétricas (Figura 1.C). Células envolventes, eretas, esclerosadas, latericuliformes, oleiferas, mucilaginosas e quadradas, ausentes na estrutura radial. Cristais romboédricos grandes e semelhantes aos do parênquima axial, pouco freqüentes e confinados às adjacências desta estrutura. Cristais romboédricos pequenos, abundantes em todas as células radiais.

Fibras: Ocupando 59,5% do volume da madeira. Fibras libriformes, não septadas, freqüentemente gelatinosas, providas de diminutas pontuações simples, mais abundantes na face radial da parede. Fibras muito curtas (520 - 602 - 780mm), estreitas (10 - 15 - 20mm) e de paredes delgadas a espessas (2,5 - 4,3 - 5,6mm).

Outros caracteres: Anéis de crescimento distintos (Figura 2.A, B). Canais secretores, tubos laticíferos e taniníferos, líber incluso e estratificação, ausentes.

 

ANÁLISE DA ESTRUTURA ANATÔMICA

Os principais caracteres anatômicos do xilema secundário de Mimosa trachycarpa são muito comuns em Leguminosas e atestam um alto grau de evolução. Dentre estes, incluem-se elementos vasculares muito curtos, placas de perfuração simples, pontuações intervasculares ornamentadas, parênquima axial paratraqueal, raios homogêneos e fibras libriformes.

O agrupamento de poros em cachos, bem como a tendência dos mesmos ao arranjo diagonal, foram anteriormente registrados para Mimosa cruenta, Mimosa hassleriana, Mimosa ostenii e Mimosa uruguensis (COZZO, 1951), pertencentes à mesma serie Stipellares e secção Habbasia. O autor argentino, todavia, não observou uma ligação taxonômica entre este grupo de espécies e o referido carater anatômico. Esta correlação, observada inicialmente em Mimosa cruenta (MARCHIORI, 1985), é confirmada no presente trabalho, com o estudo da madeira de Mimosa trachycarpa Benth.

Cabe também destacar que a espécie em estudo também apresenta raios muito finos e espessamentos espiralados tênues em vasos, à semelhança de Mimosa cruenta. Para a confirmação de um eventual significado taxonômico dos mesmos para a série Stipellares Benth., torna-se todavia necessária uma investigação mais ampla no grupo, abrangendo um maior número de espécies.

A presença de poros de diâmetro muito pequeno e agrupados em cachos de numerosas unidades, sugere um valor adaptativo a ambientes secos, como os ocupados preferentemente pela espécie em estudo. Para a identificação de Mimosa trachycarpa destacam-se, ainda, a ausência de septos em fibras e a presença de cristais nos parênquimas axial e radial.

 

CONCLUSÕES

A estrutura anatômica da madeira de Mimosa trachycarpa permite a formulação das seguintes conclusões:

- A madeira apresenta uma estrutura anatômica evoluída, à semelhanca das demais leguminosas.

- A presença de poros agrupados em cachos e com arranjo tendente à diagonal, são característicos das Mimosas da série Stipellares (secção Habbasia).

- A ocorrência de raios muito finos e espessamentos espiralados em vasos, são sugestivos do mesmo grupo taxonômico, mas requer uma posterior confirmação, mediante estudo mais abrangente na referida série botânica.

A presença de poros muito pequenos e agrupados, tem valor adaptativo à xeromorfia.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Engenheiro Florestal, Professor Titular, Dr., Departamento de Ciências Florestais, Centro de Ciências Rurais (CCR), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), 97119-900 - Santa Maria, RS. Autor para correspondência.

2 Engenheiro Florestal, Professor Titular, Dr., Departamento de Engenharia e Tecnologias Rurais, Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR.

 

Recebido para publicação 15.05.96 Aprovado em 18.12.96