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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478On-line version ISSN 1678-4596

Cienc. Rural vol.27 no.4 Santa Maria Oct./Dec. 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-84781997000400017 

RETROSPECTIVA DE CASOS DE CORPOS ESTRANHOS NO TUBO DIGESTIVO DE GATOS

 

RETROSPECTIVE STUDY OF FOREIGN BODIES CASES AT DIGESTIVE TUBE IN CATS

 

Franklin de Almeida Sterman1 Julia Maria Matera2 Angelo João Stopiglia3

 

 

RESUMO

Neste trabalho são apresentados os resultados da revisão da casuística de 13 anos (1977-1989) sobre presença de corpos estranhos localizados no tubo digestivo de gatos atendidos pelo Serviço de Patologia e Clínica Cirúrgicas do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP e triados pelo Hospital Veterinário da mesma entidade. Após exames clínico e radiográfico observou-se, em 12 felinos da raça Siamês e sem raça definida, machos e fêmeas com idade variando entre dois e 168 meses, corpos estranhos, localizados desde a orofaringe até intestino e de diferentes origens - ossos, agulhas, linha, plástico, borracha e bezoar - apresentando como principais sinais anorexia e vômitos. Nove gatos foram submetidos a intervenção cirúrgica para a resolução do processo e do total de animais com diagnóstico de corpo estranho no trato digestivo foi constatado um óbito. Conclui-se, pelo período avaliado, que os corpos estranhos no tubo digestivo de galos não são observados com frequência, apresentando prognóstico favorável de cura, e havendo tendência de aumento no número de casos.

Palavras-chave: corpos estranhos; gato; tubo digestvo.

 

SUMMARY

This study presents a 13 years casuistic review of oesophageal and gastrointestinal foreign bodies. The cases were admitted at the surgical pathology and clinics of the Surgery Department of the Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo. At clinical and radiographic examination, foreign bodies were detected in 12 cats, with age from 2 to 168 months, without prevalence of sex and affecting more cats with indefined breed. The found foreign bodies were located from oropharinx to intestines, among them: bones, needles, string, plastic, rubber and bezoar, presentingg as main clinical signs: anorexia and vomiting. Surgery was performed to solve the problem and among all the animals, onty one death ocurred. This review shows that foreign bodies are not common in cats and usually have good prognosis.

Key words: foreign bodies; cat; gastrointestinal tube.

 

 

INTRODUÇÃO

Gatos raramente ingerem corpos estranhos, principalmente ósseos, como freqüentemente se observa em cães, pela rigorosa escolha dos alimentos e sequente mastigação (STOPIGLIA et al, 1983). Os referidos autores observaram, em cerca de 75.000 casos atendidos, dois casos de corpos estranhos no tubo digestivo de gatos contra 94 verificados apenas no esôfago de cães.

Em relação ao aspecto dos hábitos alimentares nesta espécie animal, diversos autores concordam com a opinião ora exarada porém, afirmam que os gatos ao brincarem com determinados objetos, como ossos, linhas com agulhas, ou outros pequenos objetos, podem ingeri-los causando quadros obstrutivos. (ROOT & LORD 1971; RYAN & GREENE, 1975; O'BRIEN, 1978; FELTS et al., 1984 e JONES et al.,1992). Para SCHUNK (1990) os corpos estranhos ocorrem com maior freqüência em cães jovens com hábitos alimentares indiscriminados e FINGEROTH (1993) afirma que estes animais ingerem mesmo materiais grandes e incomuns, enquanto gatos domiciliados, via de regra, deglutem anzóis ou agulhas, aqueles de rua podem se alimentar de pequenos mamíferos e apresentarem compactação intestinal ou obstrução esofágica provocada pelas vértebras destes animais.

Desta forma RYAN & GREENE (1975) informam que a obstrução esofagiana por corpos estranhos é seis vezes mais comum em cães do que em gatos e CORRÊA (1997) realizou trabalho sobre remoção de corpos estranhos esofagianos em pequenos animais, por endoscopia, observando relação de sete para um quando compara a incidência canina e felina.

JONES et al. (1992) sem citar a espécie animal enfatizam que a presença de corpo estranho no tubo digestivo podem apresentar sinais clínicos variados que vão desde anorexia, disfagia, odinofagia, e regurgitação até dispnéia, vômitos, inquietação, letargia e aquesia.

Quanto aos aspectos radiográfícos, corpos estranhos radiopacos são facilmente detectáveis em radiografias simples, podendo estar alojados em várias porções do tubo digestivo, sendo encontrados fragmentos de ossos, agulhas de costura que podem ou não estar fixados a pedaços de linha a (O'BRIEN, 1978). De outra parte, aqueles radiotransparentes necessitam de exames radiográfícos contrastados para que sejam diagnosticados (O'BRIEN, 1978).

O tratamento para remoção de corpos estranhos pode se dar per os (STOPIGLIA et al., 1983), quando localizados em regiões proximais como orofaringe e porção inicial do esôfàgo ou pelo meio cirúrgico clássico-esofagotomias, gastrotomias ou enterotomias - (ZIMMER, 1984; SCHUNK, 1990; JONES et al., 1992), na dependência de sua localização ou, então, valendo-se da endoscopia (CORRÊA, 1997), quando assestados para o esôfàgo ou estômago.

Quanto aos fàtores sexo, idade e raça não se encontram dados para a espécie felina sobre estes aspectos na literatura compulsada.

Em vista do constatado na literatura nacional e internacional, objetiva-se com a presente revisão de casuística, apresentar os resultados obtidos, com o levantamento de casos de corpos estranhos no tubo digestivo de gatos, no período de 13 anos.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Para a elaboração deste trabalho foi realizado levantamento dos prontuários dos gatos atendidos no Hospital Veterinário da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo entre os anos de 1977 e 1989 (de um universo de aproximadamente 120.000 fichas de pequenos animais catalogadas), e que foram encaminhados aos Serviços de Patologia e Clínica Cirúrgicas e Radiologia do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, com suspeita clínica de ingestão de corpos estranhos, desde a orofaringe até porção final de intestino grosso, para exame, confirmação diagnóstica e tratamento.

 

RESULTADOS

Os resultados obtidos quanto a raça, sexo, idade, tipo do corpo estranho e localização, após aanálise dos prontuários dos felinos que ingeriram corpos estranhos, estão discriminados na Tabela 1.

 

 

No atinente ao aspecto raça, sexo e idade pode-se observar, nos resultados obtidos, animais sem raça definida (SRD) e da raça Siamês em percentagens, respectivamente, de 66,6% e 33,3%.

Quanto ao sexo houve distribuição idêntica de 1:1 entre machos e fêmeas. Já no quesito idade constatou-se variação de dois a 168 meses com médiade 40,4 meses.

Os corpos estranhos observados com maior frequência foram os de natureza óssea, em três animais (25,00 %), seguidos de lineares, borracha e agulha com igual número de animais - dois - acometidos para cada tipo de corpo estranho (16,66 %). Finalmente, um de natureza plástica, um bezoar e outro não identificado em apenas um animal cada (8,40 %).

Quanto aos sinais clínicos pôde-se verificar anorexia parcial ou total em sete gatos (58,33 %), principalmente relacionados aos corpos estranhos ósseos localizados em esôfago cervical e torácico ou oro-faringe (agulha). Da mesma forma depressão e sinais de dor foram constatados em quatro animais (33,33%) com corpos estranhos relacionados à porção alta do tubo digestivo (oro-faringe e esôfago cervical), na maior parte das vezes.

De outra parte, vômitos em seis gatos (50,00%), desidratação em dois (16,66%), pirexia em um (8,33%) e achados anormais à palpação abdominal em três animais (25,00%) estiveram relacionados a corpos estranhos gástricos e intestinais sendo mais severos naqueles com corpos estranhos lineares.

Quando observado o item localização pode-se constatar em cinco animais (41,66%) a presença de corpos estranhos no intestino (borracha, linha e agulha); em seguida verificou-se em três oportunidades (25,00%) corpos estranhos em oro-faringe (osso, agulha e não identificado) e o mesmo número de vezes, três (25,00%), em esôfago, sendo dois (16,66%) em porção cervical (osso) e um (8,33%) em torácica (plástico). No estômago observou-se uma vez (8,33%) a presença de bezoar.

Os exames radiográficos, tanto simples quanto contrastados, apresentaram eficiência no diagnóstico de corpos estranhos e na sua localização, em todos os casos estudados. Nos gatos que ingeriram corpos estranhos lineares, o exame radiográfico apresentou aspecto característico de pregueamento dos segmentos intestinais envolvidos.

Os procedimentos aplicados para a remoção dos corpos estranhos foram os seguintes: remoção por via oral foi realizada em três felinos (25,00%), esofagotomia cervical foi necessária em dois dos animais (16,66%), a esofagotomia torácica foi realizada em um animal (8,33%), gastrotomia foi a técnica preconizada para um felino (8,33%) e a técnica da enterotomia foi a de eleição para cinco dos felinos com história de ingestão de corpos estranhos (41,66%). Um animal, que portara o bezoar, apresentou óbito pós-operatório, tendo os demais 11 gatos evoluído para a cura.

 

DISCUSSÃO

Ao analisar-se levantamento de 13 anos, de casos de corpos estranhos em gatos, atendidos no HOVET da FMVZ/USP pôde-se constatar, a semelhança do relatado na literatura por STOPIGLIA et al.(1983) que a frequência destes achados é baixa, inferior a um caso por ano. Contudo, observa-se, como já relataram outros autores, que animais da aludida espécie podem vir a ingerir corpos estranhos, principalmente os de pequenas dimensões (ROOT & LORD, 1971; RYAN & GREENE, 1975; O'BRIEN, 1978; JONES et al., 1992).

Quanto à raça, chamou a atenção que excetuando-se os gatos sem raça definida, apenas o Siamês concorreu com casos nesta casuística. A ida demostrou ser fato que não se relaciona diretamente com a ingestão de corpos estranhos em gatos, como afirma SCHUNK (1990) para os cães, visto observar-se animal com 168 meses que ingeriu fragmento ósseo ou outros com idades de 36 meses ou 30 meses, que deglutiram plástico ou corpos estranhos lineares.

Neste trabalho machos e fêmeas foram igualmente acometidos pela afecção. No tocante ao tipo de corpo estranho ingerido constata-se, como apregoado na literatura (RYAN & GREENE, 1975; O'BRIEN, 1978; FELTS et al., 1984), que ossos, linhas com agulhas ou outros pequenos objetos, foram igualmente observados, além de ser presenciado corpos estranhos de borracha, plástico, linha e bezoar, além de um não identificado na ficha operatória.

No atinente ao local de parada de corpos estranhos em felinos, embora haja pouca informação à luz da literatura, observou-se em três oportunidades estes já obstruindo a oro-faringe o que não é comum em cães (O'BRIEN, 1978). No mais, a localização destes no tubo digestivo de gatos seguiu a descrição clássica de parada de corpos estranhos no cão (KE-ALY, 1987; SPIELMAN et al., 1992)

No concernente aos sinais clínicos constatou-se de modo geral aqueles relatados na literatura (JONES et al., 1992; FINGEROTH, 1993); contudo, não houve relação direta entre um determinado sintoma com um determinado corpo estranho e sua localização. De modo geral, corpos estranhos parados na porção cranial do tubo digestivo mostraram sinais de anorexia, dor e depressão por parte do animal enquanto que vômitos, desidratação, pirexia e achados anormais à palpação abdominal referiram aqueles localizados em estômago e intestino. No entretanto, o que chamou a atenção foi o fato de gatos não apresentarem engasgos, como os cães, quando de corpos estranhos assestados para a porção alta do tubo digestivo (SPIELMAN et al., 1992).

Quanto aos exames radiográficos realizados, estes se mostraram eficazes no diagnóstico e na localização dos corpos estranhos, conforme apregoam ROOT & LORD (1971) e O'BRIEN (1978), tendo sido realizado trânsito gastro-intestinal quando as radiografias simples indicassem o seu uso, embora em alguns casos, como naqueles corpos estranhos de plástico ou de borracha não puderam ter identificada sua natureza, à semelhança do que afirma CORRÊA (1997). Os corpos estranhos lineares, apresentaram aspecto característico das alças intestinais conforme relato na literatura (O'BRIEN, 1978).

No tocante ao tratamento em nenhuma ocasião foi aguardada a expulsão natural do corpo estranho, havendo nas 12 oportunidades a intervenção quer cruenta - nove vezes (esofagotomias; gastrotomias ou enterotomias) - quer incruenta - três vezes (remoção per oral) conforme preconiza a literatura de modo geral (STOPIGLIA et al., 1983; ZIMMER, 1984; SCHUNK, 1990; JONES et al., 1992). Observou-se um óbito pós-operatório, devido as condições físicas do animal.

Em nenhum caso foi constatada a remoção por método endoscópico conforme preconiza CORRÊA (1997). Observou-se, finalmente, ligeira tendência de aumento dos casos, quando comparada as duas metades do período estudado (1977 a 1983 e 1983 a 1989).

 

CONCLUSÕES

Diante do levantamento realizado é lícito afirmar que:

l. corpos estranhos de natureza diversa podem ser ingeridos por gatos e localizam-se desde a oro-faringe até o intestino;

2 .Os sinais clínicos da presença de corpos estranhos tanto radiopacos, como radio transparentes e lineares no trato digestivo de gatos, podem variar de anorexia parcial a vômitos, desidratação, dor e depressão e a remoção tem prognóstico favorável;

3. apesar da baixa incidência de corpos estranhos no tubo digestivo de gatos, há uma tendência de crescimento no número de casos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Professor Doutor,Universidade de São Paulo(USP), Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia(FMVZ). Departamento de Cirurgia.VCI 513. Avenida Interlagos 492/bloco 10/apt. 64, 04660-000, São Paulo. SP. Autor para correspondência.

2 Professora Associada, FMVZ-USP.

3 Professor Associado. FMVZ-USP.

 

Recebido para publicação em 13.12.96. Aprovado em 14.05.97

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