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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478On-line version ISSN 1678-4596

Cienc. Rural vol.30 no.4 Santa Maria July/Aug. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-84782000000400012 

CLÍNICA E CIRURGIA / CLINIC AND SURGERY

 

Valores bioquímicos séricos em potros da raça puro sangue inglês suplementados com diferentes tipos de gordura

 

Serum biochemical in thoroughbred horses supplemented with fat

 

Rosângela Locatelli Dittrich 1 João Ricardo Dittrich 2 José Sidney Flenung 2 Laertes Pereira 3 Simone Harder 3 Mere Erika Saito 4 Elizabeth Moreira dos Santos Schmidt 5 Simone Ferreira Couto Silva 3

 

 

RESUMO

Determinaram-se as concentrações de glicose, ureia, GGT (gama glutamil transferase), CK (creatino quinase), AST (aspartato aminotransferase) e LDH (lactato desidrogenase) em equinos alimentados com dietas normal e suplementadas com gorduras. As amostras de sangue foram obtidas após os exercícios físicos. O delineamento experimental utilizado foi um ensaio rotativo em quadrado latino 4x4. Os quatro tratamentos foram: Tl - dieta normal; T2 - dieta normal, com 10% de óleo de milho (gordura insaturada); T3 - dieta normal, com 10% de gordura de coco (gordura saturada); T4 - dieta normal, com 5% de óleo de milho e 5% de gordura de coco. Os resultados encontrados para glicose, ureia e GGT não apresentaram diferenças significativas entre as dietas. Os resultados para a AST e LDH foram maiores nos equinos alimentados com dietas sem gordura, e os valores da CK, em UI/L. foram de 118,01 (Tl); 84,24 (T2); 60,37 (T3) e 76,28 (T4), sendo significativamente menores (P<0,05) nos animais suplementados com gordura saturada, sugerindo menor lesão às fibras musculares após os exercícios.

Palavras-chave: bioquímica clínica; eqüino atleta; suplementação de gorduras.

 

SUMMARY

This experiment determined lhe concentrations of blood glucose, urea, GGT (gama glutamyltransferase), creatine kinase (CK), aspartate aminotransferase (AST) and lactate dehydrogenase (LDH) in horses after the exercises, with normal diet and additional dietary fat. It was used the 4x4 Latin square design. The four diets were Tl-normal diet; T2-normal diet with 10% com oil; T3-nonnal diet with 10% coconut oil; T4-nonnal diet with 5% com oil and 5% coconut oil. There were no signifi cam changes in glucose, urea and GGT leveis due to diet. The serum concentrations of AST and LDH were higher in horses fed a diet withoutfat, and the resultsfound to CK (Ul/L) were 118.01 (Tl); 84.24 (T2); 60.37 (T3) and 76.28 (T4). Serum leveis ofCK were significantiy smaller (P<0.05) in horses suppiemented with saturated fat, suggesting a smaller damage to the muscle fibers after the exercises.

Key words: serum biochemical; equine athiete; suppiementation with fat.

 

 

INTRODUÇÃO

As fontes energéticas são muito importantes na nutrição do equino atleta, sendo o amido a principal fonte de energia utilizada nos centros de treinamento. Recentemente, a adição de gorduras na alimentação de equinos atletas, como fonte de energia, despertou o interesse de proprietários e profissionais da área. A suplementação de gorduras na dieta de equinos em até 20% foi citada por HINTZ et al. (1978), HAMBLETON et al. (1980), PAGAN et al. (1987), HARKINS (1991), HARKINS et al. (1992), SNOW (1992), LAWRENCE (1994), PAGAN et al. (1995) e VALBERG (1996) como uma medida ergogênica, ou seja, visando a um aumento da capacidade para o exercício.

HINTZ et al. (1978), KANE et al. (1979), e WOLTER (1978) citaram que os lipídeos são excelentes fontes de energia para os equinos, tendo uma boa aceitação e alta digestibilidade. Os tipos de gorduras utilizadas para equinos são os óleos de soja e de milho (gorduras insaturadas), as gorduras de origem animal e de coco (gorduras saturadas). A adição de gordura animal ou vegetal aumenta a energia da dieta e a capacidade anaeróbica dos equinos, melhorando o desempenho durante as corridas curtas e de alta intensidade ( HARKINS et al., 1992; EATON etal, 1995).

Segundo PAGAN et al. (1987), o aumento da utilização de gorduras pode diminuir a utilização de carbohidratos (glicogênio) intramuscular. A utilização desse glicogênio é um dos principais fatores que contribuem para a fadiga. O fornecimento de gorduras para equinos que realizam provas de resistência apresentaram resultados favoráveis, segundo SLADE et al. (1975), HINTZ et al. (1978) e HAMBLETON et al. (1980), disponibilizando calorias em quantidade e qualidade.

O objetivo da adição de gorduras à dieta é fornecer uma fonte de energia prontamente disponível para o músculo, atrasando a fadiga muscular decorrente da diminuição do glicogênio nas células musculares. O organismo mobiliza os ácidos graxos do tecido adiposo ou do fígado através da liberação de adrenalina no exercício físico (VALBERG, 1996), e a suplementação contribui diretamente para o fornecimento deste substrato.

Os parâmetros hematológicos e bioquímicos são afetados por uma grande variedade de fatores, como as doenças, a idade, o sexo, os exercícios físicos, a dieta, a performance, o manejo, o clima e os métodos laboratoriais utilizados nas análises (EKMAN, 1976; SNOW et al., 1983; BAYLY, 1987 e LOPES et al., 1993).

LOPES et al. (1993) observaram diferenças nas enzimas AST, LDH, GGT e fosfatase alcalina de equinos sadios, em relação aos valores de referência de autores estrangeiros. Os autores enfatizaram a necessidade de cada laboratório clínico veterinário determinar seus valores de referência.

As alterações nas concentrações das enzimas de origem muscular, em resposta ao treinamento e exercícios, são de grande importância e interesse aos clínicos e treinadores de equinos. As principais enzimas avaliadas são a creatino quinase (CK), aspartato aminotransferase (AST) e lactato desidrogenase (LDH), e seus níveis circulantes aumentam quando ocorre lesão celular (KANEKO, 1989).

Devido aos comprovados benefícios da utilização de gorduras na prevenção das miopatias, este estudo objetivou comparar as concentrações séricas da glicose, da ureia, das enzimas CK, AST, LDH e da GGT (gama glutamil transferase), após os exercícios, de potros PSI alimentados com dietas isoprotéicas e isoenergéticas com diferentes tipos de gorduras.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Utilizaram-se quatro animais da raça Puro Sangue Inglês (PSI) em treinamento, com peso médio de 460kg alimentados com uma dieta isoprotéica e isoenergética que continham diferentes tipos de gorduras. Os tratamentos utilizados estão apresentados na tabela l. O teste estatístico utilizado foi um quadrado latino em ensaio rotativo. Os potros permaneceram uma semana em cada tratamento, com intervalos de uma semana de adaptação quando receberam outra dieta do tratamento seguinte, obtendo-se, dessa maneira, quatro repetições para cada tratamento.

 

 

As amostras de sangue foram obtidas diariamente, durante os diferentes tratamentos, totalizando 28 amostras em cada tratamento, logo após os exercícios físicos, que consistiram em galopes diários de 2.000 metros. Realizou-se a punção da veia jugular para a colheita de sangue nos tubos sem anticoagulante. O sangue foi centrifugado dentro de l hora após a venopunção, a 5000 rpm por 5 minutos, para separar o soro e evitar a hemólise. As amostras de soro foram enviadas ao Laboratório Clínico do Departamento de Medicina Veterinária da UFPR para as análises. As enzimas CK, AST, LDH e GGT, a glicose e a ureia foram determinadas através dos kits bioquímicos Bioclina e espectrofotômetro Metrolabb. Durante as determinações dos parâmetros séricos, utilizou-se o soro de referência Qualitrol® HS N da Merckc, assegurando o controle e exatidão das técnicas, dos equipamentos e dos resultados.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os valores médios dos parâmetros bioquímicos avaliados nos diferentes tratamentos estão apresentados na tabela 2. Após a análise da variância e aplicação do teste de Tuckey, foi constatado que as concentrações de glicose não apresentaram diferenças significativas, em nível de 5% de probabilidade, entre os tratamentos. Os valores da glicose variam de acordo com as condições de obtenção da amostra, destacando-se os valores de 165,6 ± 25,2 mg/dl, para PSI, obtidos dentro de 10 minutos após uma corrida de 1400 metros (BAYLY, 1987). Neste estudo, as dietas não influenciaram os resultados, e neste tipo de treinamento as concentrações permaneceram dentro dos valores normais.

 

 

Os valores de GGT não apresentaram variações significativas entre as diferentes dietas, e encontram-se dentro dos valores normais para animais em treinamento, de 10 - 40 UI/L, citados por RICKETTS (1987). As concentrações da ureia não apresentaram diferenças significativas entre os tratamentos. Segundo BAYLY (1987), valores séricos acima de 30 mg/dl não são comuns após o exercício prolongado, e podem significar problemas clínicos. As concentrações séricas da enzima CK foram significativamente menores, em nível de 5%, no tratamento com gordura de coco (T3) em relação ao testemunha (Tl). Nos outros tratamentos (T2 e T4), os valores da CK também foram inferiores. As miopatias podem ser prevenidas através de uma dieta alta em gordura (VALBERG, 1997), e, neste estudo, verificou-se que o tratamento 3 foi superior ao T2 e T4. As concentrações de AST e LDH foram menores nos tratamentos com gordura (T2, T3 e T4) em relação ao testemunha, mas sem diferença significativa.

A permeabilidade do sarcolema aumenta durante o exercício, e a CK e AST podem escoar para o plasma. O tempo para a elevação dessas enzimas no plasma, e o grau estão relacionados ao seu tamanho e localização intracelular (VALBERG, 1996). Segundo este autor, aumentos pequenos, mas significativos, da enzima CK podem ser observados 2 a 6 horas após o exercício em cavalos sadios. A AST não é músculo específico, sendo uma enzima ligada às mitocôndrias, e ocorre apenas um leve aumento após o exercício, em animais sadios.

As concentrações de CK, AST e LDH séricas são os testes mais utilizados para avaliar e diagnosticar a miopatia por exercícios. VALBERG (1996) e VALBERG et al. (1997) citaram que uma dieta rica em gordura pode prevenir a rabdomiólise devido ao exercício. A determinação da CK, após o exercício, também pode ser utilizada na avaliação das condições de treinamento dos eqüinos, relacionando-se com fadiga, desempenho e aptidão. As menores concentrações de CK séricas observadas nos animais suplementados com gordura e, principalmente, com 10% de gordura de coco, sugerem uma menor lesão às fibras musculares e, conseqüentemente, uma prevenção das miopatias decorrentes dos exercícios.

 

FONTES DE AQUISIÇÃO

a -Bioclin Química Básica Ltda. Rua Teles de Menezes, 92. CEP 31565-130. Belo Horizonte, MG.

b - Metrolab 330 - Biosystems Ltda. Rua Coronel A. Marcondes, 336. Curitiba, PR.

c - Merck KgaA, 64271. Darmstadt, Germany.

 

AGRADECIMENTOS

À FUNPAR-UFPR.

À Bioclin® pelo apoio recebido através dos kits bioquímicos.

Às técnicas do Laboratório Clínico do Hospital Veterinário da UFPR, D. Maria de Lourdes Pereira e Nara Schimanski.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1Médico Veterinário, Mestre, Professor Assistente, Departamento de Medicina Veterinária, Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná (UFPR), Rua: dos Funcionários, 1540, 80035-050, Curitiba - PR. E-mail: roslocdi@agrarias.ufpr.br. Autor para correspondência.

2Médicos Veterinários, Professores do Departamento de Zootecnia, UFPR.

3Médicos Veterinários Autônomos.

4Acadêmico do Curso de Medicina Veterinária, UFPR e Bolsista da UFPR/Tesouro Nacional.

5Aluno do Curso de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias, UFPR.

Recebido para publicação em 20.11.98. Aprovado em 13.10.99

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