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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478On-line version ISSN 1678-4596

Cienc. Rural vol.32 no.5 Santa Maria Sept./Oct. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-84782002000500024 

HIPERPLASIA FIBROEPITELIAL MAMÁRIA EM FELINOS: CINCO CASOS

 

FELINE MAMMARY FIBROEPITHELIAL HYPERPLASIA: FIVE CASES

 

Tatiana Mello de Souza1 Rafael Almeida Fighera2 Ingeborg Maria Langohr3 Claudio Severo Lombardo de Barros4

 

 

- RELATO DE CASO -

 

 

RESUMO

São descritos cinco casos de hiperplasia fibroepitelial mamária em gatas com idades variando entre 10 meses e 11 anos. A principal queixa por ocasião do atendimento era relacionada à tumefação das mamas com evolução clínica entre 3 e 24 semanas. Em duas das gatas, a condição desenvolveu-se após o tratamento com contraceptivos. Macroscopicamente, as tumorações na glândula mamária eram cobertas por pele, ocasionalmente ulceradas, e tinham superfície de corte brancacenta com nódulos multifocais mais pálidos de 2mm de diâmetro. Histologicamente, esses nódulos multifocais consistiam de proliferação ductal cercadas por crescimento abundante de tecido conjuntivo fibroso.

Palavras-chave: doenças de gatos, glândula mamária, hiperplasia fibroepitelial, alteração fibroadenomatosa total, hipertrofia da glândula mamária, fibroadenoma.

 

SUMMARY

Five cases of feline mammary fibroepithelial hyperplasia are described. Affected cats were all females with ages varying from 10 months to 11 years. The main complaint on presentation was swollen mammary glands with clinical courses of 3-24 weeks. In two of the cats the condition developed after treatment with contraceptive. Grossly, the mammary masses were covered by skin ocasionally ulcerated and had white cut surfaces with multifocal paler nodules of 2mm in diameter. Histologically, these multifocal nodules consisted of ductal proliferation surrounded by extensive fibrobalstic growth.

Key words: diseases of cats, mammary gland, fibroepithelial hyperplasia, total fibroadenomatous change, mammary gland hypertrophy, fibroadenoma.

 

 

INTRODUÇÃO

A hiperplasia fibroepitelial (fibroadenomatose, hipertrofia mamária felina, adenofibroma ou fibroadenoma) é uma proliferação benigna, não neoplásica dos ductos mamários e do tecido conjuntivo periductal de gatas jovens, geralmente com menos de dois anos de idade (HAYDEN et al., 1981; MOULTON, 1990; JONES et al., 2000). Esse distúrbio é mais comumente descrito em fêmeas no início da gestação ou naquelas que estão ciclando (HAYDEN et al., 1983), mas tem sido observado, mais raramente, em machos, inteiros ou castrados, após administração prolongada de medicamentos à base de progestágenos; em cães a ocorrência é extremamente rara (HINTON & GASKELL, 1977; WEISS & KÄUFER-WEISS, 1999). Embora a causa seja desconhecida, há evidências de que se trate de uma lesão hormônio-dependente, associada à ação de substâncias progestacionais naturais ou sintéticas (HINTON & GASKELL, 1977; JOHNSTON et al., 1984).

A hiperplasia fibroepitelial felina é uma condição raramente relatada na literatura (MOULTON, 1990). O objetivo deste trabalho é descrever cinco casos dessa condição em gatas necropsiadas, entre 1970 e 2001, no Setor de Patologia Veterinária do Departamento de Patologia da Universidade Federal de Santa Maria (SPV/UFSM).

 

RELATO DOS CASOS

Entre 1970 e 2001, foram examinados 638 materiais provenientes de necropsias e biópsias de gatos no SPV/UFSM. Desses, 5 (0,16%) apresentaram hiperplasia fibroepitelial mamária. A principal queixa na apresentação era aumento progressivo de toda a cadeia mamária. Todos os animais eram fêmeas intactas (não-castradas), sem raça definida. Dados adicionais sobre os cinco casos estão na Tabela 1. A gata do caso 1 apresentou aumento progressivo do volume de toda a cadeia mamária. As mamas torácicas craniais direita e esquerda estavam ulceradas e tinham aproximadamente 10cm de diâmetro (Figura 1). O aumento das mamas era tão acentuado que impedia que a gata permanecesse em estação.

 

 

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O diagnóstico nos cinco casos relatados se baseou tanto nos aspectos clínicos como nos achados macro e microscópico. Macroscopicamente, todas as gatas apresentaram massas mamárias firmes com superfícies de corte brancacentas e multinodulares. Essas características têm sido descritas como típicas para a condição (ALLEN, 1973; JONES et al., 2000). No exame cuidadoso da superfície de corte, pode-se observar pontos mais claros que correspondem à proliferação ductal. A pele que recobria as mamas era intacta, com exceção do animal do caso 1, que apresentava ulceração da pele, provavelmente devido ao traumatismo causado pelo atrito em conseqüência do aumento extremo das mamas. Histologicamente, o crescimento era caracterizado por proliferação acentuada dos ductos intralobulares cercada por extensa proliferação do tecido conjuntivo (Figura 2). Essas características histológicas são típicas para a condição (MOULTON, 1990; YAGER & SCOTT, 1993).

A mastectomia foi usada como tratamento para as gatas dos casos 4 e 5. Esse parece não ser um procedimento indicado isoladamente pois a hiperplasia fibroepitelial nas gatas dos casos 3, 4 e 5 parece ter sido endógena, uma vez que não há histórico de uso de progestágenos. De modo geral, o tratamento para gatas afetadas por hiperplasia fibroepitelial mamária consiste na retirada do estímulo hormonal, seja endógeno ou exógeno, através de ovário-histerectomia ou suspensão do medicamento à base de progesterona, respectivamente (ALLEN, 1973). Quando a hiperplasia é acentuada e as mamas estão muito aumentadas, pode haver necessidade de extirpação cirúrgica. Raramente ocorre involução espontânea (YAGER & SCOTT, 1993). Mais recentemente, uma droga à base de aglépristone tem sido usada experimentalmente; seu mecanismo de ação consiste na inibição da estimulação progestacional (WEHREND et al., 2001)

A maioria das gatas desse relato (4/5) tinha mais de dois anos, ao contrário do que é descrito na literatura, que cita que a doença é rara acima de dois anos (MOULTON, 1990). As 5 gatas afetadas não eram castradas, de modo que possivelmente a sua produção hormonal endógena ou o uso de contraceptivos (em dois casos, pelo menos) estimularam a proliferação do tecido mamário.

A hiperplasia fibroepitelial mamária pode afetar uma ou mais glândulas mamárias, mas normalmente toda a cadeia mamária está envolvida, como ocorreu na maioria dos casos desse relato. Essa alteração hiperplásica tem como característica principal o crescimento muito rápido, em torno de 3 a 4 semanas (MOULTON, 1990). Nos casos deste relato, a evolução foi de 3 semanas a 6 meses, embora seja provável que os proprietários tenham tardado em trazer o animal para ser avaliado. Nos casos onde o crescimento mamário é acentuado, nota-se dificuldade de deambulação ou, em situações mais graves, o animal pode não conseguir mais permanecer em estação (MOULTON, 1990). Isso foi observado na gata do caso 1.

Os diagnósticos diferenciais devem incluir neoplasias mamárias malignas de crescimento rápido, principalmente adenocarcinomas e situações mais raras, como displasia mamária cística (mastose) e mastites (HINTON & GASKELL, 1977; MIALOT, 1988). A hiperplasia fibroepitelial mamária pode ser diagnosticada clinicamente por meio da anamnese e do exame físico. Biópsias podem confirmar o diagnóstico presuntivo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALLEN, H.L. Feline mammary hypertrophy. Vet Pathol, v.10, p.501-508, 1973.        [ Links ]

HAYDEN, D.W., JOHNSTON, S.D., KIANG, D.T., et al. Feline mammary hypertrophy fibroadenoma complex: clinical and hormonal aspects. Am J Vet Res, v.42, p.1699-1703, 1981.

HAYDEN, D.W., JOHNSTON, S.D., KIANG, D.T., et al. Feline mammary hypertrophy. Vet Pathol, v.20, p.253-256, 1983.

HINTON, M., GASKELL, C.J. Non-neoplastic mammary hypertrophy in the cat associated with pregnancy or with oral progestagen therapy. Vet Rec, v.100, p.277-280, 1977.        [ Links ]

JOHNSTON, S.D., HAYDEN, D.W., KIANG, D.T., et al. Progesterone receptors in feline mammary adenocarcinomas. Am J Vet Res, v.45, p.379-382, 1984.

JONES, T.C., HUNT, R.D., KING, N.W. Sistema genital. In: JONES, T.C., HUNT, R.D., KING, N.W. Patologia veterinária. São Paulo : Manole, 2000. 1415p. Cap.25. p.1169-1244.        [ Links ]

MIALOT, J.P. Patologia da mama. In: MIALOT, J.P. Patologia da reprodução dos carnívoros domésticos. Porto Alegre : A Hora Veterinária, 1988. 160p. Cap.11. p.128-141.        [ Links ]

MOULTON, J.E. Tumors of the mammary gland. In: MOULTON, J.E. Tumors in domestic animals. 3.ed. London : University of California, 1990. 672p. Cap.12. p.518-552.        [ Links ]

YAGER, J.A., SCOTT, D.W. The skin and appendages. In: JUBB, K.V.F., KENNEDY, P.C., PALMER, N. Pathology of domestic animals. 4.ed. San Diego : Academic, 1993. V.1. 747p. Cap. 5. p.447-538.         [ Links ]

WEHREND, W., HOSPES, R., GRUBER, A.D. Treatment of feline mammary fibroadenomatous hyperplasia with a progesterone-antagonist. Vet Rec, v.17, p.346-347, 2001.        [ Links ]

WEISS, E., KÄUFER-WEISS, I. Geschlechtsorgane. In: DAHME, E., WEISS, E. Grundriss der speziellen pathologischen Anatomie der Haustiere. 5.ed. Stuttgart: Enke, 1999. 620p. Cap.9. p.278-319.        [ Links ]

 

Ciência Rural, v. 32, n. 5, 2002.

 

 

1Médico Veterinário Autônomo, Santa Maria – RS.

2Médico Veterinário, bolsista de apoio técnico do CNPq. Seção de Patologia Veterinária. Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), 97105-900, Santa Maria - RS. E-mail: anemiaveterinaria@bol.com.br. Autor para correspondência.

3Médico Veterinário, Aluno de Mestrado do Programa de Pós-graduação em Medicina Veterinária, Área de Concentração em Patologia Veterinária. UFSM, 97105-900, Santa Maria - RS.

4Médico Veterinário, PhD., Professor Titular do Departamento de Patologia, UFSM.

Recebido para publicação em 07.08.01. Aprovado em 14.11.01

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