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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478

Cienc. Rural vol.33 no.5 Santa Maria Sept./Oct. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-84782003000500020 

Levantamento das pastagens naturais da região de Santa Maria-RS, Brasil1

 

Survey of natural pastures from Santa Maria region (RS), Brazil

 

 

Fernando Luiz Ferreira de QuadrosI, 2; Gabriela Schenato BicaII; Paulo Rogério Viegas DaméIII; Rubens DorowIV; César KerstingV; Luciana PötterVI

IProfessor, Departamento de Zootecnia, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), 97119-900, Santa Maria-RS. E-mail: fquadros@ccr.ufsm.br
IIAluno do curso de Zootecnia, UFSM, bolsista BIC-FAPERGS. E-mail: gabrielabica@hotmail.com
IIIZootecnista, M.Sc., "In memoriam"
IVEngenheiro Agrônomo, MSc, Prefeitura Municipal de Santa Maria-RS
VEngenheiro Agrônomo, MSc, Cooperativa Agrícola Entre-Rios, Guarapuava-PR
VIZootecnista, MSc, Professor, PUC, Uruguaiana-RS

 

 


RESUMO

Este trabalho foi realizado com o intuito de se obter um levantamento das pastagens naturais da região de Santa Maria, a qual foi subdividida, para este objetivo, em quatro localidades: Dilermando de Aguiar, Pains, Santa Flora e São Martinho. O levantamento utilizou estimativas visuais da freqüência de espécies através do método BOTANAL e permitiu a identificação de 61 espécies, dentre as quais 45 apresentaram contribuição significativa para a biomassa aérea da vegetação. No distrito de Pains, encontrou-se maior freqüência das espécies Axonopus affinis, Eragrostis plana, Desmodium barbatum e Aristida spp.. Em Dilermando de Aguiar, houve maior contribuição de Calamagrostis viridiflavescens, Schizachyrium microstachyum e Paspalum notatum a qual foi, também, uma espécie abundante em Santa Flora, assim como Desmodium incanum. As espécies mais freqüentes em São Martinho foram: Baccharis trimera, Paspalum plicatulum e Erianthus angustifolius. O teste de aleatorização mostrou que, em todas as localidades, ocorreu diferença significativa na sua composição florística (P= 0,0058), evidenciando a inexistência de associação entre os tipos fisionômico-florísticos e os tipos de solo. A partir disto, este levantamento permite que se estabeleçam prioridades quanto à pesquisa e manejo das pastagens naturais dos diferentes grupos fisionômico-florísticos da região.

Palavras-chave: análise de ordenação, espécies nativas, freqüência, grupos fisionômicos, testes de aleatorização, vegetação campestre.


ABSTRACT

This study was carried out to obtain a survey of natural pastures in the Santa Maria region, Rio Grande do Sul, Brazil. The experiment was subdivided in four sites: Dilermando de Aguiar, Pains, Santa Flora and São Martinho. The survey was based on visual assessment of specie's frequency by the BOTANAL method and allowed the identification of 61 species within those 45 showed significant contribution to the vegetation aerial biomass. Pains site presented higher frequency of the species Axonopus affinis, and Eragrostis plana. Dilermando de Aguiar showed higher contribution of Schizachyrium microstachyum and Paspalum notatum, which was, as well, an abundant specie in Santa Flora, as well as Desmodium incanum. The most frequent species in São Martinho were Baccharis trimera and Paspalum plicatulum. The randomization test showed differences in floristic composition of all sites (P=0.0058), showing that physiognomic-floristic types were not associated with soil types. This survey allows the establishment of priorities in management and research on natural pastures of the different regional physiognomic groups.

Key words: frequency, grasslands vegetation, native species, ordination analysis, phisiognomic groups, randomization tests, satellite images.


 

 

INTRODUCÃO

A vegetação natural do RS, nos dias atuais ainda é composta majoritariamente por campos, nos dias atuais (IBGE,1996), mesmo que tenha reduzido sua participação percentual de cerca de 60 para menos de 40% do território gaúcho, nos últimos 20 anos. Os campos representam uma formação vegetal pioneira, que recobria os solos há milhares de anos. Essa formação é também denominada savana, com os subtipos: arbustivo-arbórea, estépica, parque, entre outros (TEIXEIRA et al., 1986; PORTO, 1998).

Segundo GIRARDI-DEIRO (1985), apesar da importância econômica e ecológica que têm para o Estado, estas extensas áreas de campo natural não estão ainda suficientemente estudadas.

A falta de conhecimento sobre as pastagens naturais advém do fato de elas representarem comunidades vegetais variáveis, dinâmicas e complexas, influenciadas por fatores climáticos, edáficos e bióticos (STODDART & SMITH, 1955).

PEREIRA et al. (1990) afirmam que levantamentos florísticos são importantes na medida que contribuem para evidenciar a riqueza biológica da área levantada e oferecem informações acerca da distribuição geográfica das espécies. Além disto, fornecem informações sobre potencialidades de uso, facilitando tomadas de decisões.

Neste sentido, dentre os poucos trabalhos sobre este tema, está o de GONÇALVES et al. (1988), que objetivou caracterizar as formações campestres e estabelecer uma possível associação com os diferentes tipos de solo e obter informações aplicáveis ao manejo das mesmas.

Apesar do restrito número de publicações acerca deste tema, muitos recursos estão disponíveis para a realização de trabalhos, como por exemplo, imagens de satélite e fotografias aéreas. As imagens aéreas, dependendo da escala utilizada, podem dar uma boa visão do conjunto de uma região, permitindo uma distinção preliminar dos limites das diferentes comunidades. A partir destas, um reconhecimento no campo permite um confronto entre as imagens e a realidade, proporcionando a elaboração de mapas de zoneamento da vegetação (BRAUN-BLANQUET, 1979; WHALLEY & HARDY, 2000).

Utilizando-se de imagens orbitais TM em dois canais, LORENSI (1987) provou ser um recurso de boa aplicabilidade. CARMEL & KADMON (1998) afirmam que fotografias aéreas são uma boa opção para estudos que levam ao entendimento de processos ecológicos, desde que tenham alta resolução espacial.

Devido à necessidade de caracterizar a riqueza florística da comunidade campestre, subsidiando informações para tomadas de decisões relativas ao manejo, foi realizado um levantamento com o objetivo de identificar as pastagens naturais da região de Santa Maria.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O presente trabalho teve como área de abrangência a região de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, a qual foi subdividida em quatro localidades: Dilermando de Aguiar e São Martinho (municípios emancipados de Santa Maria), Pains e Santa Flora (distritos rurais deste município). As avaliações foram realizadas durante o mês de novembro de 1991. O clima desta região é classificado como Cfa e as principais unidades de mapeamento de solo são: São Pedro (argissolo vermelho), Santa Maria (alissolo crômico), Cruz Alta (latossolo vermelho), Júlio de Castilhos (argissolo vermelho-amarelo), Vacacaí (planossolo hidromórfico), Venda Grande (chernossolo argilúvico) e Guassupi (neossolo litólico) (BRASIL, 1973; EMBRAPA, 1999).

Foram usadas imagens de satélite na escala de 1/100.000 e fotografias aéreas na escala de 1/25.000, sobre as quais se realizou fotointerpretação para a seleção de manchas de vegetação campestre. Nestas manchas, foram escolhidos 19 pontos para amostragem a campo, nos quais foram avaliadas, em média, 18 unidades amostrais constituídas de quadros de 0,25 m2.

A amostragem da vegetação seguiu os procedimentos de campo do método BOTANAL (TOTHILL et al., 1978), em que há uma combinação de estimativas da composição relativa de espécies e do rendimento de pastagens, onde cada quadro é estimado visualmente e fornece informações sobre os atributos de maior interesse. Tomou-se a freqüência de espécies através do critério de presença/ausência nos quadros avaliados, como variável para a análise estatística, a qual utilizou análise de agrupamentos, tendo como critério de formação de grupos a variância mínima; ordenação por coordenadas principais, considerando a freqüência média por localidade e testes de aleatorização, considerando as 344 unidades amostrais, como unidades amostrais independentes, através do programa MULTIV (PILLAR, 1997).

Além da amostragem da vegetação, foram coletadas amostras de solo, as quais foram analisadas pelo Laboratório de Análises de Solo da Universidade Federal de Santa Maria.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O levantamento identificou 61 espécies (Tabela 1), dentre as quais 45 com contribuição significativa para a biomassa aérea da vegetação campestre. Entre estas, estão incluídas principalmente espécies das famílias Gramineae, Leguminosae, Compositae e Rubiaceae, tendo a primeira família contribuído com 24 espécies.

 

 

O dendrograma da análise de agrupamentos (Figura 1) permitiu identificar a existência de três ou quatro grupos fisionômicos, dependendo do ponto de corte estabelecido. A definição do número de grupos foi estabelecida pela análise de ordenação e pelos testes de aleatorização.

A análise de ordenação revelou uma separação nítida entre localidades, sendo que o eixo I sintetizou 52,7% da variação na composição florística, enquanto que o eixo II resumiu 39,1% da mesma variação(Figura 2).

Um conjunto de 11 espécies caracterizou a fisionomia dos diferentes locais, apresentando uma correlação superior a 0,85 com os eixos de ordenação (Figura 3). Estas espécies não representam, necessariamente, aquelas de maior disponibilidade de biomassa, mas são elementos fisionômico-florísticos característicos de um determinado tipo de vegetação. Podemos citar o exemplo de Andropogon lateralis como uma espécie com grande contribuição na matéria seca de, pelo menos, três locais, mas que, devido a isto, apresentou uma menor correlação (0,6) com os eixos de ordenação.

No distrito de Pains, houve maior freqüência das espécies Axonopus affinis, Eragrostis plana, Desmodium barbatum e Aristida spp.. Em Dilermando de Aguiar, encontrou-se maior contribuição de Calamagrostis viridiflavescens, Schizachyrium microstachyum e Paspalum notatum a qual foi, também, uma espécie abundante em Santa Flora, assim como Desmodium incanum. As espécies com maior freqüência em São Martinho foram: Baccharis trimera, Paspalum plicatulum e Erianthus angustifolius.

O teste de aleatorização considerou as unidades amostrais independentemente de sua localização recombinando a amostra 10.000 vezes e mostrou que todas as localidades apresentaram diferença significativa na sua composição florística (P=0,0058).

O fato de, em cada localidade, existirem diversas unidades de mapeamento de solo mostrou que o tipo de solo não condicionou a composição da vegetação, uma vez que quatro unidades fisionômico-florísticas foram evidenciadas, sem a existência de uma associação com as unidades de mapeamento, ao contrário da afirmação de GONÇALVES et al. (1988). Tal afirmação pode ser atribuída ao fato de os autores não haverem realizado nenhum tratamento estatístico multivariado que pudesse fundamentar suas considerações fisionômicas, que são subjetivas. As análises das amostras de solo, de acordo com as médias de cada localidade, podem ser observadas na tabela 2, que mostra que as características químicas dos solos são muito semelhantes.

 

 

Este levantamento permite estabelecer prioridades de pesquisa e decisões com relação ao manejo das pastagens naturais dos diferentes grupos fisionômico-florísticos existentes na região. Observa-se que, no distrito de Pains, é urgente desenvolver e utilizar estratégias de controle da espécie invasora Eragrostis plana, cujo potencial infestante pode prejudicar sensivelmente a produtividade da pastagem natural. A dominância de espécies de baixo valor forrageiro como Baccharis trimera e Erianthus angustifolius permite estabelecer o ajuste de carga animal e/ou o uso de práticas de limpeza, como fogo, roçada e herbicidas, como uma das prioridades do manejo a ser empregado na região de São Martinho. Neste sentido, trabalhos como o de GIRARDI-DEIRO (1985), evidenciando o efeito de diferentes cargas animais na composição botânica da pastagem permitem antecipar a relevância do tema para esta região.

 

CONCLUSÕES

Foi evidenciada a inexistência de associação entre os quatro tipos fisionômico-florísticos e os tipos de solos. Os diferentes tipos de vegetação permitem estabelecer as prioridades de pesquisa e manejo para as pastagens naturais.

 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação 08.01.02
Aprovado em 11.09.02

 

 

1 Trabalho financiado pelo CNPq
2 Autor para correspodência