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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478On-line version ISSN 1678-4596

Cienc. Rural vol.35 no.2 Santa Maria Mar./Apr. 2005

https://doi.org/10.1590/S0103-84782005000200040 

NOTA
PATOLOGIA

 

Dermatite alérgica sazonal em ovinos

 

Seazonal allergic dermatitis in sheep

 

 

Tatiana Mello de SouzaI, 1; Rafael Almeida FigheraI; José Vitor PiazerII; Claudio Severo Lombardo de BarrosIII; Luiz Francisco IrigoyenIV

IMédico Veterinário, aluno do Programa de Pós-graduação em Medicina Veterinária, área de concentração em Patologia Veterinária. Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), 97105-900, Santa Maria, RS. E-mail: teitsouza@bol.com.br
IIMédico Veterinário, Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul. Inspetoria Veterinária de Jaguari, 97760-000, Jaguari, RS
IIIMédico Veterinário, PhD, Professor Titular do Departamento de Patologia, UFSM
IVMédico Veterinário, PhD, Professor Adjunto do Departamento de Patologia, UFSM

 

 


RESUMO

Descreve-se um surto de dermatite alérgica sazonal em ovinos nos municípios de São Vicente do Sul e Jaguari, Rio Grande do Sul. Os ovinos afetados não tinham raça definida e pertenciam a diversas categorias. As lesões eram vistas principalmente na cabeça (orelhas e ao redor dos olhos, focinho e lábios), úbere, porção distal dos membros e abdômen ventral. Dois padrões de lesão foram encontrados; num padrão agudo havia acentuado eritema associado à grande quantidade de pápulas, pústulas, colaretes epidérmicos e crostas; no padrão crônico, áreas liquenificadas, ulceradas, exsudativas, crostosas, alopécicas e, por vezes, sangrantes, eram vistas nos mesmos locais. Microscopicamente, os ovinos mais recentemente afetados demonstravam dermatite perivascular superficial eosinofílica, já os animais com lesões mais antigas apresentavam dermatite perivascular superficial linfo-histioplasmocitária.

Palavras-chave: doenças de ovinos, dermatite alérgica sazonal, hipersensibilidade à picada de mosquito, parasitologia, dermatologia, patologia.


ABSTRACT

An outbreak of acute seasonal allergic dermatitis is described in sheep from the municipalities of São Vicente do Sul and Jaguari, Rio Grande do Sul, Brazil. Affected sheep were crossbreeds of different categories. Skin lesions were observed mainly in the head (ears and around the eyes, muzzle, and lips), mammary gland, distal portions of the limbs and ventral abdomen. Two lesion patterns were found; an acute pattern showed marked erythema associated with numerous papules, pustules, epidermal colarettes, and crust; in a chronic pattern the same anatomical sites had lichenified, ulcerated, exudative, crusted, and alopecic areas, which were occasionally hemorrhagic. Microscopically, sheep that were recently affected had perivascular eosinophilic dermatitis; in the skin of more chronically affected sheep there was superficial lymphocytic and histioplasmocytic perivascular dermatitis.

Key words: diseases of sheep, seasonal allergic dermatitis, mosquito bite hypersensitivity, parasitology, dermatology, pathology.


 

 

A dermatite alérgica sazonal é uma dermatopatia associada à picada de mosquitos que acomete ovinos em algumas partes do mundo (FERREIRA, 2001). A condição é semelhante à hipersensibilidade a mosquitos dos eqüídeos (sweet itch em cavalos e burros) (MELLOR, 1974), à hipersensibilidade a Culicoides que ocorre em bovinos (YERUHAM et al., 1993) e à hipersensibilidade felina à picada de mosquitos (MASON & EVANS, 1991). Essa doença foi descrita pela primeira vez como uma entidade distinta em 1988 na Inglaterra (CONNAN & LLOYD, 1988) e posteriormente foram relatados surtos em Israel (YERUHAM et al., 2000).

Clinicamente, a doença caracteriza-se pelo espessamento da pele acompanhado do aparecimento de pápulas, eritema e crostas; as áreas envolvidas tornam-se progressivamente alopécicas. Uma característica marcante é o intenso prurido, que leva a autotraumatismo (CONNAN & LLOYD, 1988). Ovinos cronicamente acometidos desenvolvem intensa liquenificação da pele, muitas vezes com formação de fendas por onde flui exsudato seroso ou purulento (YERUHAM et al., 2000). As regiões do corpo que são mais comumente afetadas incluem o abdômen ventral, o períneo e os membros. Em alguns casos, pode ocorrer grave acometimento da pele da cabeça, principalmente nas orelhas e ao redor dos olhos, focinho e lábios (CONNAN & LLOYD, 1988).

Os achados histopatológicos consistem de hiperceratose, acantose e infiltrado inflamatório predominantemente eosinofílico, linfocitário e histiocítico ao redor de vasos (dermatite perivascular). Nos casos em que há escoriações na pele, pode-se observar um acentuado número de neutrófilos na derme (YERUHAM et al., 2000).

Como os sinais clínicos, a epidemiologia e as alterações histológicas encontradas nessa condição são típicos de hipersensibilidade tipos I e IV e baseado no fato de que as ovelhas afetadas são efetivamente picadas por mosquitos, assume-se que esses artrópodes sejam responsáveis pela doença, mesmo desconhecendo a patogenia do processo (YERUHAM et al., 2000). Em eqüinos, sabe-se que a hipersensibilidade decorre da exposição a antígenos presentes na saliva dos mosquitos, sendo necessário um certo tempo de contato antes que o animal desenvolva o quadro alérgico e apareçam as lesões (MELLOR, 1974).

O objetivo deste relato é descrever os aspectos macroscópicos e histológicos das lesões da pele de ovinos com dermatite alérgica sazonal. O melhor conhecimento dessas lesões pode facilitar a suspeita clínica e a confirmação histológica do diagnóstico.

Um surto de doença de pele em ovinos ocorreu em duas propriedades localizadas nas margens do rio Jaguari, nos municípios gaúchos de São Vicente do Sul e Jaguari. Os ovinos afetados não tinham raça definida e pertenciam a diversas categorias (ovelhas, borregos e cordeiros). Em cada propriedade havia aproximadamente 150 animais. As lesões eram vistas principalmente na cabeça (orelhas e ao redor dos olhos, focinho e lábios), úbere, extremidade distal dos membros e porção ventral do abdômen.

Nas duas propriedades visitadas pelos autores, os proprietários informaram que os ovinos começaram a apresentar lesões durante a primavera de 2001. Após três meses, 10% e 30% dos animais estavam afetados em cada propriedade. As lesões regrediram durante o outono e inverno, mas nunca desapareceram totalmente. Na primavera de 2002, as lesões recidivaram de forma mais grave, afetando 40% e 50% dos rebanhos, respectivamente.

Dois padrões puderam ser observados nos ovinos afetados; um com eritema acentuado associado a grande quantidade de pápulas, pústulas, colaretes epidérmicos e crostas (Figura 1). Esse tipo de lesão era também caracterizado por moderada descamação e alopecia. No outro padrão, lesões liquenificadas, ulceradas, exsudativas, crostosas, alopécicas e, por vezes, sangrantes, eram vistas nos mesmos locais. Em alguns ovinos, essas lesões culminavam com a formação de abscessos, principalmente nas orelhas. O primeiro padrão era visto nos ovinos que tinham sido afetados pela primeira vez, já o outro podia ser evidenciado nos ovinos que tinham se recuperado parcialmente durante o inverno. Segundo os proprietários, os animais que haviam sido afetados há menos tempo apresentavam prurido mais intenso do que aqueles em que a lesão de pele era considerada crônica. Durante a visita, puderam ser observados vários ovinos que roçavam o abdômen ventral e o úbere contra o chão.

 

 

Biópsia incisional foi realizada na pele da orelha e das regiões periocular e abdominal ventral de dois ovinos afetados por cada padrão de lesão. Microscopicamente, em ambos os padrões de lesão havia acentuada hiperceratose paraceratótica laminada e ortoceratótica compacta associada a intensa acantose irregular e hipergranulose. Ceratose folicular, degeneração reticular, espongiose e grande quantidade de crostas em paliçada podiam também ser vistas. A principal diferença entre os dois padrões de lesão consistia no infiltrado inflamatório. Os ovinos recentemente afetados apresentavam infiltrado perivascular superficial rico em eosinófilos. Muitos desses eosinófilos estavam desgranulados e podiam ser vistos na derme em íntima associação com fibras colágenas hialinizadas e de aspecto flocular. Em algumas áreas, os eosinófilos infiltravam a epiderme formando pústulas. Nas lesões crônicas, o infiltrado de eosinófilos era escasso e havia predomínio de linfócitos, plasmócitos e macrófagos. As lesões mais contaminadas demonstravam dermatite intersticial superficial supurativa.

Segundo moradores locais, durante a primavera e o verão de 2001 e 2002, houve acentuado aumento na quantidade de mosquitos na região circunjacente ao rio Jaguari, nos municípios de São Vicente do Sul e Jaguari. Esse fenômeno foi atribuído à intensa precipitação pluviométrica ocorrida nessa época. Nas propriedades visitadas, que se encontravam próximas ao rio, os moradores reclamavam que os animais estavam sendo intensamente atacados por mosquitos. Além dos ovinos, três cavalos demonstravam lesões de pele similares. Condições climáticas semelhantes ocorreram no primeiro surto descrito em 1988, na Inglaterra. Naquela oportunidade, os ovinos afetados eram mantidos em campos alagados, próximos a uma floresta (CONNAN & LLOYD, 1988). Nos surtos descritos em Israel, as condições climáticas da costa do mar Mediterrâneo também eram favoráveis à proliferação dos mosquitos (YERUHAM et al., 2000).

A dermatite alérgica sazonal dos ovinos é uma doença sazonal, que inicia na primavera e progride no verão, regredindo total ou parcialmente no inverno (FERREIRA, 2001). Nos casos descritos em Israel, a maior parte dos animais foi afetada entre março e setembro e, embora a doença aparentemente tenha um caráter sazonal, as lesões nunca desapareceram completamente, mesmo nos meses mais frios (YERUHAM et al., 2000), uma situação idêntica à vista no surto aqui descrito.

A dermatite alérgica sazonal, embora seja uma condição pouco documentada, não parece ser incomum, pois lesões de pele semelhantes às aqui descritas já foram encontradas em outros ovinos submetidos para diagnóstico no nosso laboratório. Em um surto de dermatite alérgica sazonal ocorrido no município de São Lourenço do Sul, Rio Grande do Sul, foram capturados diversos mosquitos posteriormente identificados como Culicoides sp. e Mansonia sp. (SCHILD et al., 1993). Em outro surto, ocorrido na região sul do Rio Grande do Sul, quatro espécies de mosquitos foram capturadas (Aedes scapulari, A. serratus, Culex sp. e Psorophora ferox) (FERREIRA, 2001). Em Israel, Culicoides obsoletus foi incriminado em todos os casos (YERUHAM et al., 2000). No surto aqui descrito, não foi possível realizar a captura dos insetos, pois essa atividade foi desaconselhada visto que, na época, ocorreu um surto de febre amarela em bugios (Alouatta fusca) da região (SALLIS et al., 2003).

As lesões macroscópicas encontradas em ovinos com dermatite alérgica sazonal são, até certo ponto, muito semelhantes às da fotossensibilização e da sarna sarcóptica, e essas duas condições devem ser consideradas como os principais diagnósticos diferenciais da doença clínica.

A epidemiologia, o quadro clínico e os achados histopatológicos observados nos ovinos deste surto são idênticos aos descritos por outros autores para a dermatite alérgica sazonal e constituem evidências circunstanciais que permitem o diagnóstico. O conhecimento dessa condição pelos clínicos é importante, principalmente no que diz respeito ao diagnóstico diferencial de outras enfermidades que afetam a pele dos ovinos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CONNAN, R.M.; LLOYD, S. Seasonal allergic dermatitis in sheep. Vet Rec, v.123, p.335-337, 1988.         [ Links ]

FERREIRA, J.L.M. Dermatite alérgica sazonal. In: RIET-CORREA, F. et al. Doenças de ruminantes e eqüinos. São Paulo : Varela, 2001. p.505-507.         [ Links ]

MASON, K.V.; EVANS, A.G. Mosquito bite caused eosinophilic dermatitis in cats. J Am Vet Med Assoc, v.198, p.2086, 1991.         [ Links ]

MELLOR, P.S. The probable cause of “sweet itch” in England. Vet Rec, v.95, p.411-415, 1974.         [ Links ]

SALLIS, E.S.V. et al. A case of yellow fever in a brown howler (Alouatta fusca) in Southern Brazil. J Vet Diagn Invest, v.15, p.574-576, 2003.         [ Links ]

SCHILD, A.L. et al. Dermatite alérgica em ovinos. Pelotas: Laboratório Regional de Diagnóstico, 1993. p.9-24. (Boletim Técnico, 13).         [ Links ]

YERUHAM, I. et al. Field observations in Israel on hypersensitivity in cattle, sheep and donkeys caused by Culicoides. Aust Vet J, v.70, p.348-352, 1993.         [ Links ]

YERUHAM, I. et al. Study of apparent hypersensitivity to Culicoides species in sheep in Israel. Vet Rec, v.147, p.360-363, 2000.        [ Links ]

 

 

Recebido para publicação 28.07.04
Aprovado em 22.09.04

 

 

1 Autor para correspondência.

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