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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478

Cienc. Rural vol.36 no.4 Santa Maria July/Aug. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-84782006000400029 

ARTIGOS CIENTÍFICOS
PARASITOLOGIA

 

Percepção dos produtores de leite do município de Passos, MG, sobre o carrapato Boophilus microplus (Acari: Ixodidae), 2001

 

Perception of dairy farmers from Passos county, MG, Brazil, concerning the tick Boophilus microplus (acari: ixodidae), 2001

 

 

Christiane Maria Barcellos Magalhães da RochaI, 1; Paulo Roberto de OliveiraII; Romário Cerqueira LeiteII; Denis Lúcio CardosoIII; Simone Berger CalicIV; John FurlongV

IDepartamento de Medicina Veterinária, Universidade Federal de Lavras (DMV/UFLA), campus, CP 3037, 37200-000, Lavras, MG, Brasil. E-mail: rochac@ufla.br
IIEscola Veterinária, Universidade Federal de Minas Gerais (EV/UFMG), Belo Horizonte, MG, Brasil
IIIInstituto Mineiro de Agropecuária (IMA), Alagoas, Maceió, Brasil
IVFundação Ezequiel Dias (FUNED), Belo Horizonte, MG, Brasil
VCNPGL, Embrapa, Juiz de Fora, MG, Brasil

 

 


RESUMO

Entrevistas com 25 proprietários de rebanhos com produção diária acima de 500 litros de leite, sorteados da listagem da cooperativa de Passos/MG/Brasil, foram aplicadas para caracterizar suas percepções sobre a biologia do Boophilus microplus e suas atitudes no controle de carrapatos. A maioria desses produtores tem pelo menos o ensino médio completo e está na atividade há mais de dez anos. Os prejuízos biológicos produzidos pelos carrapatos são bem percebidos por eles; porém, não demonstraram conhecimento sobre a biologia do B. microplus e as desvantagens dos banhos carrapaticidas, principalmente com relação aos riscos toxicológicos. Esses produtores realizam controle de carrapatos sem critérios técnicos e com alta freqüência, baseando-se na avaliação subjetiva da infestação nos animais. Isto favorece o estabelecimento da resistência aos acaricidas e demonstra que a transferência de tecnologia sobre controle de carrapatos para o setor pecuário é falha.

Palavras-chave: Boophilus microplus, percepção, atitude, produtores de leite de MG.


ABSTRACT

Twenty five dairy farms were randomly chosen from all farms producing more than 500 liters of milk/ day in Passos, MG, Brazil. The owners were interviewed to characterize their perceptions about the biology of B. microplus and their attitudes towards tick control. Most of the producers have a college degree and more than six year-experience in the activity. The biological damages caused by ticks are perceived by the farmers. Their tick control is performed without technical criteria and they did not show a proper knowledge on the biology of B. microplus nor on the toxicological risks of acaricides application. The results reveal a gap between the technology and farmers, favoring tick resistance to acaricides.

Key words: Boophilus microplus, perception, attitude, Brazilian milk farmers.


 

 

INTRODUÇÃO

No Brasil, existem produtos carrapaticidas que podem ser utilizados em controles estratégicos, visando a retardar o desenvolvimento da resistência nos carrapatos, diminuir a infestação nas pastagens e manter a estabilidade das babesioses (FURLONG, 1993; OLIVEIRA, 1993). Porém, os produtores continuam combatendo os carrapatos sem considerar os conhecimentos técnicos (LEITE & LIMA, 1982; VIANA et.al, 1987; ROCHA, 1995).

Produtores com grau de instrução primário e fazendas com baixa produção e produtividade demonstraram não ter o conhecimento necessário à melhoria do controle dos carrapatos e nem de sua importância, realizando um número excessivo de banhos ao ano (ROCHA, 1995), o que favorece a instalação da resistência aos carrapaticidas (NOLAN, 1990).

Objetivou-se, com este trabalho, avaliar a percepção e o manejo de fazendas em Passos/ MG em relação ao B. microplus. Para produtores com maior grau de tecnologia, que trabalham com rebanho especializado e maior densidade animal, espera-se que a percepção e o manejo do rebanho sejam mais refinados, resultando num controle mais efetivo.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O inquérito foi realizado no município de Passos, o qual está situado na região sul do Estado de MG, uma das maiores bacias leiteiras do Brasil, abrigando um grande número de rebanhos de alta produção. Foram entrevistados 25 produtores escolhidos aleatoriamente do cadastro de produtores de leite da cooperativa de leite de Passos (CASMIL), no ano de 2000, com produção diária acima de 500 litros.

A coleta de informações foi feita por entrevistas semi-estruturadas, por meio de formulários previamente testados, com o objetivo de colher informações sobre a caracterização dos produtores e da produção de leite, assim como a respeito da percepção e da atitude em relação ao combate ao carrapato dos bovinos.

A metodologia do presente estudo foi feita de acordo com ROCHA (1995), da seguinte forma:1.procedeu-se à categorização das respostas abertas por meio de análise de conteúdo (MINAYO, 1993), ou seja, agrupando respostas de acordo com seus significados; 2. cada pergunta tornou-se uma variável, em sua maioria qualitativas nominais e 3. executou-se a análise estatística descritiva dos dados para traçar um perfil por meio de destaque das maiores freqüências (SELLTIZ et al.; 1967; TRIVINOS, 1987; GIL, 1991). Os resultados estão apresentados na forma de tópicos e por bloco de assuntos. Para a análise dos dados, foram utilizados os programas EPIINFO 6.04 e SPSS 11.0.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Características das propriedades e dos produtores

As propriedades estudadas produziam, em média, 1.224±661,8 litros de leite por dia, com produtividade média por vaca de 15±5,1 litros e predominância de gado cruzado acima de ¾ de sangue holandês. Esses rebanhos tinham, em média, 122,4±63,8 vacas. Utilizavam exclusivamente mão-de-obra assalariada (80%); além disso, seus proprietários tinham escolaridade acima de ensino médio (78%). Eram produtores com experiência de mais de 10 anos na atividade leiteira (76%) e na propriedade (72%); a maioria tinha planos de aumentar a produção de leite (64%), a média de leite produzida por vaca (44%) e o rebanho (40%). Em 92% das propriedades, havia cavalos, no mínimo 2 e no máximo 4 (Mediana = 4). Oito produtores (32%) declararam possuir resfriador de leite e 21 (84%) tanque de expansão.

O manejo alimentar era principalmente o semiconfinado, com utilização de silagem (100%), sendo em 60% o ano todo. Predominava (88%) a silagem de milho que, em 32% das propriedades, associa-se ao sorgo. A Brachiaria decumbens estava presente em 16 (64%) das propriedades e o pastejo de capim-elefante (Pennisetum purpureum, Schum) foi citado em dois (8%). Portanto, esses produtores puderam ser considerados de elite em MG.

Conhecimento dos produtores sobre a biologia do carrapato dos bovinos (Tabela 1)

As avaliações das respostas sobre a biologia foram feitas baseadas principalmente em GONZÁLES (1975); FURLONG (1993); ROCHA (1999). Os produtores preocupavam-se com as infestações, pois 50% comentaram que a propriedade estava muito infestada e 92% afirmaram que ocorria durante todo o ano. Quanto ao nível de infestação diária suportável por animal, 20% não sabiam, 16% responderam ser acima de 100 carrapatos ingurgitados, enquanto 64% disseram ser menos de 50.

Aquilo que pode ser observado por inspeção direta é bem percebido. Um bom exemplo são os locais mais infestados dos bovinos, tendo sido citados principalmente o úbere, o períneo, o pescoço, a cauda e a barriga, as axilas e virilhas ou partes baixas. E também as explicações para essa preferência, como: local mais protegido do sol, da chuva e lugar onde o animal tem dificuldade de coçar (40%); pele mais fina, solta e lisa (28%); mais próximo do chão (16%); pêlo mais fino e assentado (12%); mais quente ou fresco (8%) e mais sangue (4%). A pele mais fina e o pêlo mais longo demonstraram correlação positiva com a infestação por carrapatos (Veríssimo et al. 2002). A proximidade do solo favorece a fixação das larvas infestantes. Outros exemplos são o conhecimento sobre predadores (100%) e a maior sensibilidade das raças européias (92%).

Porém, com relação ao que necessita de informação, houve baixo conhecimento. Sobre o tempo de vida parasitária, 28% responderam não saber e outros 24% erraram. Daqueles que responderam mais corretamente: 36%, responderam ser entre 15 a 21 dias e 12% entre 21 e 35 dias. Já quanto ao tempo de vida, 40% disseram não saber e 28% pensaram ser menos de 25 dias. Ainda, 28% citaram entre 30 e 45 dias e 4%, acima de quatro meses. Quando questionados em relação à sobrevivência dos carrapatos na pastagem, 52% responderam não saber e 8% não responderam. Ainda, 28% disseram ser até 60 dias e 16% entre 120 e 180 dias.

Até mesmo sobre a estação de maior infestação de carrapatos, houve grande controvérsia: 36% responderam ser na seca e 48% nas águas, o que estaria correto em MG (FURLONG, 1993). Ainda, 8% disseram não saber e 4% ser todo o ano ou citaram alguns meses. Isso pode ser explicado pela falta de diferenciação entre espécies de carrapatos, pois 56% não sabiam da existência de diferentes espécies de carrapatos em diferentes hospedeiros, enquanto 12% citaram haver apenas uma espécie ou três; 8% duas e 4% citaram quatro, sete ou oito espécies. Essa diferenciação de espécies demonstrou maior confusão quando se buscou diferenciar espécies ou estádios de vida: - 48% percebiam ser fases de vida, enquanto 48% pensavam ser espécies diferentes e 4% não sabiam dizer.

Dos entrevistados, 52% não sabiam que os carrapatos são ovíparos, 28% citaram que o volume de postura está acima de 3.000 ovos, 20% citaram entre 500 a 3.000 e 8% pensavam ser menos de 100 ovos.

Ao confrontar os achados deste estudo com ROCHA (1995), que aplicou a mesma entrevista em propriedades de Divinópolis/MG, com baixas produções, produtividade média e baixo grau de escolaridade, observou-se que as questões sobre o ciclo do carrapato demonstraram ser um senso comum, pois as respostas foram dadas na mesma ordem de freqüência. Isso mostrou que a prática diária e o contato entre os produtores constroem uma cultura própria acerca dos problemas que têm em comum, como no caso dos carrapatos. Aquilo que pode ser observado por inspeção direta é bem percebido, como a diferença de resistência entre raças e locais de infestação, mas falta o conhecimento adquirido, como os dados de dinâmica populacional do B. microplus.

Sobre pastagens que favorecem os carrapatos, 72% dos produtores de Passos não sabiam, 20% citaram “pasto de égua” e as outras respostas foram praticamente individuais, como pasto sujo (8%), pasto baixo ou adubado, brachiaria (Brachiaria decubens) e/ou jaraguá (Hyparrenia rufa -Nees Staf) (4% cada um). Quanto às que desfavorecem os carrapatos, 84% não sabiam, 8% incriminaram pasto reservado e 4% “jaraguá ou setaria” (Setaria sphacelata - Schumach).

Os produtores de Divinópolis (ROCHA, 1995) demonstraram melhor percepção quanto às pastagens favoráveis ou desfavoráveis aos carrapatos que os de Passos agora estudados. Isso deve ter ocorrido porque, em propriedades familiares, os proprietários têm maior contato com as pastagens que aqueles que têm funcionários.

Percepção do produtor sobre a importância do carrapato no processo produtivo de leite (Tabela 1)

A totalidade dos produtores percebia a capacidade dos carrapatos de causar perda de leite e peso e doenças no gado e 80% a de aumentar a mortalidade do rebanho, observando principalmente a perda de sangue por hematofagia (72%), a espoliação (36%) e a transmissão de agentes de doenças (12%) como causa. Os produtores de Passos demonstraram uma boa percepção dos prejuízos biológicos causados pelo B. microplus, se comparados aos citados na literatura (GONZALES, 1975; FURLONG, 1993; ROCHA, 2000).

As doenças cujos agentes são transmitidos por carrapatos são bem conhecidas dos produtores: 68% citaram a piroplasmose, 16% a anaplasmose e 12% a “tristeza” e/ou a babesiose, além de outras respostas. A transmissão de patógenos e a perda de sangue foram citadas igualmente por 40% dos produtores como a causa das doenças. A maioria considerou como causa do aumento da mortalidade a transmissão de agentes de doenças ou algo relacionado. Em 88% das propriedades, foi citada a ocorrência de “tristeza”: 36% citaram que a categoria mais atingida é a de bezerros até os seis meses e 48% a de bezerros até os três meses de idade. Porém, 4% citaram a categoria de novilhas.

A percepção sobre a importância do carrapato no processo produtivo de leite parece ser a grande diferença entre esses produtores de Passos/MG e os pequenos produtores de Divinópolis/MG estudados por ROCHA (1995). A percepção do carrapato como um parasita que afeta a saúde dos bovinos, inclusive como vetor de agentes de doenças específicas, é bem maior nesses produtores responsáveis por fazendas de mais alta produção, o que talvez seja explicado pela diferença de escolaridade e/ou pelo maior prejuízo causado em gado com maior grau de sangue europeu.

Conhecimento dos produtores acerca de modos de combate aos carrapatos e esquemas de aplicações de carrapaticidas utilizados nas propriedades (Tabela 2).

A maior parte dos entrevistados acreditava que a infestação de carrapatos vinha diminuindo com o tempo (48%), portanto, percebiam um controle eficaz. Por outro lado, 28% observaram que as infestações aumentaram e explicavam como causa do problema a falta de cuidado no uso de carrapaticidas ou a resistência.

O intervalo de troca de produto comercial foi bastante variado, porém a maior parte citou entre 2 e 6 meses. Isso sem levar em conta suas bases químicas e que há o uso simultâneo de vários produtos em algumas propriedades.

O que determinava o momento do tratamento carrapaticida em 64% das propriedades era a infestação de carrapatos. Os intervalos de aplicação não variavam muito entre as estações do ano em 56% das propriedades. Esses intervalos estavam entre 15 e 45 dias, com mediana igual a 30 dias (1o quartil = 18 e 3o quartil = 43 dias) e, portanto, o número de banhos anuais podia estar entre 8 e 24, em média 12, o que pode ser considerado excessivo.

Na maioria das propriedades, o intervalo aumenta no inverno, pois em 50% das propriedades, no verão, o intervalo está entre 25 a 65 dias (1o e 3o quartis, respectivamente), enquanto no inverno, entre 30 e 90 dias, estando os restantes 25% abaixo e 25% acima desses valores. Era o esperado, já que no Estado de MG a incidência do B. microplus aumenta no verão, quando seu ciclo é mais curto (FURLONG, 1993).

A forma de controle de carrapatos nas propriedades não levava em consideração critérios técnicos e estabeleciam as condições necessárias à resistência desses parasitas. Segundo LEITE & ROCHA (1999), a aplicação de acaricidas pelo grau de infestação é muito subjetiva, pois a quantidade limitante de carrapatos depende de cada proprietário. Isso favorece a alta freqüência de banhos carrapaticidas, os quais selecionam e propagam o alelo de resistência por pressão de seleção (FURLONG & MARTINS, 2000), pois a resistência é o resultado dessa pressão de seleção devido ao uso freqüente de carrapaticidas (KUNZ & KEMP, 1994).

Além dos intervalos entre aplicações de acaricidas, BIANCHI et al. (2003) demonstraram que o uso inadequado de produtos para pulverização também pode favorecer a instalação de resistência nas populações de B. microplus. Talvez isso aconteça, pois, para um banho efetivo, é necessário que o animal seja todo coberto pelo carrapaticida, por esse agir por contato. Porém, em Passos, apenas cerca de 32% dos produtores disseram utilizar mais de 3,0 litros por animal, 24% menos de 1,0 litro por animal e ainda 16% disseram não saber.

Além disso, a qualidade do banho também é afetada pelos equipamentos utilizados, os quais, em 80%, ainda eram com a bomba costal. Esse equipamento contribui para banhar os animais com baixo volume de calda, principalmente pelo grande esforço despendido nessa tarefa. STRONG (1992) encontrou alta porcentagem de resistência em rebanhos que utilizam esse método.

Produtos “pour-on”, que possibilitam uma aplicação melhor, eram utilizados em 36% das propriedades, mas, muitas vezes, em conjunto com equipamentos de pulverização. Havia bombas pressurizadas em 12% das propriedades e utilização de bretes carrapaticidas ou produtos injetáveis em 8%.

Ainda, deve-se melhorar a contenção (feita em 84% das propriedades) e o cuidado de tratar os animais no mesmo dia (80%), mas o que pareceu estar longe do ideal foi a pouca utilização dos equipamentos de proteção individual (EPI), o que expõe os trabalhadores rurais aos produtos tóxicos. As máscaras foram o equipamento com maior freqüência de uso (68%), seguidas das luvas (28%), e mangas compridas ou cuidados, como bater a favor do vento, não fumar e outros (8%). Em 28% dos casos, não se utilizava qualquer EPI.

Quando questionados sobre produtos carrapaticidas que utilizam atualmente ou já utilizaram no gado para o controle de carrapatos, o Amitraz (Triatox) e a Cipermetrina (Cipermil e outros) foram as bases farmacológicas dos produtos mais citados como sendo utilizados no presente e no passado, o que também foi encontrado por FURLONG & MARTINS (2000) para o estado de MG. As Avermectinas (Ivomec e outros) foram os terceiros produtos mais citados. A Deltametrina (Butox) e a Flumetrina (Bayticol) foram citadas mais como produtos utilizados no passado e Organofosforados (Ectofós) e fórmulas caseiras como as utilizadas no tempo presente.

O motivo de troca dos produtos mais citado pelos produtores (64%) foi a queda de eficiência. Outros 24% citaram pensar que “deve sempre ser trocado de vez em quando”. Essa seria uma boa recomendação para que não se estabelecessem resistências múltiplas. Porém, muitos desses proprietários utilizam mais de uma base simultaneamente e isso torna essa questão pouco eficiente contra a resistência.

A troca de produtos de maneira indiscriminada e sem critérios favorece a seleção de populações resistentes de carrapatos a todos os carrapaticidas simultaneamente (FURLONG & MARTINS, 2000).

Há motivações para troca que não são técnicas, e sim comerciais, como: produto mais barato (28%) ou novo. Quanto aos critérios de aplicação de carrapaticidas e freqüência de banhos, não foram observadas diferenças objetivas entre os tipos de produtores, quando se comparou com os estudos de ROCHA (1995). Há diferença entre as bases químicas utilizadas pelos produtores de Passos e de Divinópolis, o que se deve principalmente ao lapso de tempo entre as pesquisas, por haver diferentes produtos comerciais e talvez pela localidade contribuir com diferentes sensibilidades de cepas e “marketing” dos produtos. A ordem de freqüência das respostas às questões ligadas às causas de troca de produtos foi semelhante, porém, em Passos, houve uma porcentagem bem maior dos que citaram a resistência.

Foi assustadora a constatação de que apenas 24% dos entrevistados tenham respondido que seguem a bula das concentrações carrapaticidas. Isso demonstrou a pouca preocupação com as recomendações farmacológicas e com os resíduos no leite, principalmente se se unir a isso o excesso de banhos e a utilização de produtos sem recomendação para uso veterinário. Além disso, pôde-se também demonstrar a percepção dos produtores sobre a falta de eficiência dos produtos. Porém, um aumento da concentração (64% das propriedades), que é realmente uma das formas de combate preconizadas para o combate à resistência (NOLAN,1990; SUTHERST & COMINS, 1978; FURLONG & MARTINS, 2000), sem o devido cuidado, não trará os benefícios e apenas os riscos toxicológicos. Já utilizar os produtos mais diluídos (12%) justifica-se apenas por economia e pode custar caro, pois o produto não irá controlar os carrapatos.

Quanto aos problemas ocorridos com carrapaticidas, além de intoxicação de animais (24%) e de pessoas (8%), o mais citado foi a resistência, a qual 68% acreditavam estar instalada em suas propriedades, principalmente ao Amitraz e às Cipermetrinas, que eram os produtos mais utilizados.

Dos entrevistados, 76% entendiam que o mecanismo pelo qual ocorre a perda de eficiência dos produtos carrapaticidas é por criar resistência, porém a maioria não sabia como isso acontece. Apenas 24% explicaram como causa da ineficiência o “remédio mal aplicado, descuido, má utilização ou subdosagem” e 16% disseram que o “carrapato se acostuma”, mas não sabiam dizer o porquê ou como.

BIANCHI et al. (2003), estudando os fatores relacionados ao nível de infestação de B. microplus nos rebanhos de New Caledonia, verificaram que a variação dos fatores dentro das propriedades eram mais importantes que entre propriedades. Foram demonstrados os seguintes fatores de risco, que podiam variar nos rebanhos: raça, condição corporal, idade, prenhês e lactação. Quanto à comparação entre fazendas, aquelas que tinham um manejo de acaricidas irracional, com alta pressão de controle, foram as mais infestadas de carrapatos. Portanto, o uso excessivo e sem critérios dos acaricidas, além de favorecer a resistência dos carrapatos, pode ter como conseqüência a alta incidência de carrapatos pela falta de controle obtido.

Os produtores parecem não ver alternativas para mudança de atitude, pois 36% não sabiam outras formas de controle dos carrapatos. As outras respostas mais freqüentes foram: tipos de aplicação como “pour-on” (20%), banheira (12%), brete (8%), produto injetável (4%) e bomba capeta (4%), produtos carrapaticidas como o Fluazuron (Acatak) (8%) e alho no sal (8%). Apenas três (12%) citaram as vacinas e a rotação de pastagens, sendo o mais próximo de formas de controle diferenciadas preconizadas. O controle biológico ou sem carrapaticida, como no leite orgânico, foi citado por uma pessoa.

Dos entrevistados, 41% acreditavam que o controle utilizado era o mais barato e 40% o de menor mão-de-obra. Sobre o que gostariam que melhorasse no combate, 56% desejavam o aumento do intervalo entre banhos e outras respostas foram dadas com baixa freqüência. Porém, as razões da escolha do aumento do intervalo entre banhos assentavam-se na diminuição do custo (36%) ou da mão-de-obra (32%). Apenas um preocupou-se com a diminuição do contato dos produtos com os animais e dois com a melhoria da eficiência. Isso deixa clara a falta de conhecimento sobre controle estratégico (OLIVEIRA, 1993) e também sobre a importância da pressão dos acaricidas para seleção de cepas de carrapatos resistentes (STONE, 1972; KUNZ & KEMP, 1994), independentemente da qualidade do banho.

O custo e a mão-de-obra não eram vistos como desvantagens por muitos. Aliás, 48% dos produtores disseram não ver desvantagens nos banhos. Dos outros 52%, 12% citaram a ineficiência e o mesmo número a falta de critérios para o trabalho. Apenas 8% citaram o custo, a mão-de-obra e/ou a exposição ao produto. Ainda, um dos produtores citou o estresse no gado. Porém, quando questionados diretamente sobre se o custo e a mão-de-obra poderiam ser considerados desvantagens do banho carrapaticida, 48% disseram que sim. Mais uma vez, transparece a falta de preocupação com a manipulação de produtos tóxicos, o que vem pondo em risco a saúde dos trabalhadores rurais.

À respeito de quais eram as fontes de informação sobre carrapatos, 64% citaram ser os veterinários, 28% as revistas, 20% vizinhos e amigos, 12% jornais e palestras, 4% o vendedor e apenas 8%, disseram não buscar nenhuma informação.

Ao se compararem os achados deste estudo com os de ROCHA (1995), ambos parecem ser muito semelhantes, principalmente quanto à falta de alternativas, diferindo apenas no maior grau de escolaridade e melhor conhecimento dos produtores com rebanhos de alta produção sobre o papel de vetor do B. microplus.

Observa-se que há um desconhecimento sobre a biologia dos carrapatos e sobre controle estratégico, o que seriam etapas necessárias à mudança de atitude dos produtores no combate ao B. microplus. Porém, é necessário avançar ainda mais nesses estudos dos determinantes da atitude de produtores, pois JONSSON & MATSCHOSS (1998) observam que, em Queensland/Austrália, os produtores, apesar de terem bom conhecimento sobre controle estratégico, devido ao esforço estatal, poucos julgavam que devessem utilizá-lo e pensavam que o carrapato é mais um problema para a indústria do leite que para os rebanhos.

 

CONCLUSÃO

As informações necessárias à adoção de práticas efetivas de controle de carrapatos são insuficientes nessas propriedades, que combatem o carrapato sem critérios técnicos. Evidencia-se também que a qualidade do banho carrapaticida aplicado nessas propriedades é afetada pela inadequação dos equipamentos e pelo desconhecimento do modo de ação dos produtos, assim como pelo descaso com os riscos de utilização de produtos tóxicos no gado de leite.

 

AGRADECIMENTOS

Aos produtores e Cooperativas que participaram e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), pelo apoio financeiro e pela bolsa de IC, que possibilitaram esse trabalho.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido para publicação 13.06.05
Aprovado em 08.02.06

 

 

1 Autor para correspondência.