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Ciência Rural

versão impressa ISSN 0103-8478versão On-line ISSN 1678-4596

Cienc. Rural v.38 n.2 Santa Maria mar./abr. 2008

https://doi.org/10.1590/S0103-84782008000200043 

NOTA
PARASITOLOGIA

 

Parasitismo por Giardia sp. e Cryptosporidium sp. em Coendou villosus

 

Parasitism by Giardia sp. and Cryptosporidium sp. in Coendou villosus

 

 

João Fabio SoaresI; Aleksandro Schafer da SilvaI; Camila Belmonte OliveiraI; Marcos Kipper da SilvaI; Gleide MariscanoII; Edson Luis SalomãoII; Silvia Gonzalez MonteiroIII, 1

ICurso de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil
IIMédico veterinário autônomo
IIIDepartamento de Microbiologia e Parasitologia da UFSM. Autor para correspondência: sgmonteiro@uol.com.br, Campus Universitário, Camobi, km 9, Prédio 20, Sala 4232, 97105-900, Santa Maria, RS, Brasil

 

 


RESUMO

O objetivo deste trabalho foi verificar o possível parasitismo por Giardia sp. e Cryptosporidium sp. em amostras de fezes de ouriço-cacheiro (Coendou villosus). As amostras foram analisadas pelo método de centrífugo-flutuação com sulfato de zinco e apresentaram elevada infecção por cistos de Giardia sp. e por oocistos de Cryptosporidium sp., embora os animais não apresentassem sinal clínico decorrente disso.

Palavras–chave: Coendou villosus, Giardia, Cryptosporidium, protozoário, parasitismo.


ABSTRACT

This research was aimed at verifing the possible parasitism by Giardia sp. and Cryptosporidium sp. in porcupine (Coendou villosus) faeces samples. Samples were analyzed by the centrifugal-flotation method with zinc sulphate and showed high infection by cysts of Giardia sp. and by oocysts of Cryptosporidium sp., although the animals did not show any associated clinical sign.

Key words: Coendou villosus, Giardia, Cryptosporidium, protozoaires, parasitism.


 

 

O Coendou villosus, vulgarmente chamado de ouriço-cachoeiro, é encontrado em florestas tropicais na Venezuela, nas Guianas, no Brasil e na Bolívia. É uma espécie de roedor arborícola, de hábitos noturnos, que possui comportamento lento e discreto, sendo de difícil observação (VOSS & EMMOS, 1996). Segundo a literatura, os ouriços (Coendou spp.) podem ser hospedeiros de ectoparasitas (Amblyomma longirostre e Eutricophilus sp.), hemoparasitas (Hepatozoon sp., Babesia sp., Trypanosoma sp. e filárias) e endoparasitas (Prosthenorchis luhei, Hymenolepis diminuta e Trichuris opaca) (CATTO, 2000; THOISY et al., 2000; BRUM et al., 2003; LABRUNA et al., 2004; KUNIY & BRASILEIRO, 2006).

A contaminação por protozoários gastrintestinais em vertebrados pode ocorrer através da ingestão de cistos ou oocistos esporulados, os quais podem estar presentes nas fezes, pastagens ou ainda na água e nos alimentos (LUWWIG et al., 1999; FAYER et al., 2000). O potencial zoonótico de protozoários a partir de hospedeiro silvestre é ainda pouco estudado no Brasil.

A giardíase é uma infecção comum em animais vertebrados, sendo causada por um protozoário flagelado do gênero Giardia, da família Hexamitidae, pertencente à ordem Diplomonadida (OLSON, 2000). Os animais eliminam os cistos de parasitas nas fezes após um período de pré-patência de uma a duas semanas e, neste período, os hospedeiros podem apresentar ou não sinais clínicos da enfermidade (VIGNARD-ROSEZ et al., 2006). Espécies de Giardia infectam mais comumente animais jovens e que convivem em grupos. Mesmo assim, a giardíase tem importância epidemiológica por possuir um elevado potencial zoonótico (THOMPSON et al., 2000).

Cryptosporidium é um parasito obrigatório, intracelular, da família Cryptosporodidae (FAYER et al., 2000). Ele se desenvolve por endodiogenia, que culmina com a produção de oocistos eliminados pelas fezes dos seus hospedeiros, podendo desenvolver um quadro de diarréia, principalmente no caso de indivíduos imunossuprimidos. O objetivo deste trabalho foi verificar o possível parasitismo de Giardia sp. e Cryptosporidium sp. em ouriço-cacheiro (Coendou villosus).

Neste trabalho, foram analisadas fezes de dois ouriços-cacheiros (Coendou villosus), sendo um filhote e o outro adulto, oriundos do município de Cachoeira do Sul e Porto Alegre, respectivamente. Os animais encontravam-se em vida livre, antes de serem conduzidos ao centro de tratamento médico devido a atropelamento e escoriações (cortes profundos feitos por lâminas). Na oportunidade, coletaram-se fezes para exame coproparasitológico, que foram mantidas refrigeradas até serem processadas no Laboratório de Parasitologia Veterinária da Universidade Federal de Santa Maria pelo método de centrífugo-flutuação com sulfato de zinco (HOFFMANN, 1987). A avaliação da carga parasitária foi baseada na classificação de PINTO et al. (1994) e a identificação dos protozoários segundo HOFFMANN (1987).

Observou-se, na amostra fecal do roedor adulto, elevada infecção por cistos de Giardia sp., enquanto o filhote apresentava elevada infecção por oocistos de Cryptosporidium sp., com os dois animais apresentando mais de 301 cistos/oocistos por lâmina. Este é o primeiro registro de parasitismo por esses protozoários em C. villosus. Possivelmente, essas duas parasitoses não haviam sido relatadas anteriormente nesta espécie devido a dificuldades de acesso aos animais silvestres em vida livre.

FRANJOLA et al. (1995) avaliaram a infecção por protozoários em roedores sinantrópicos das espécies Mus musculus, Rattus rattus e Oryzomys longicaudattus, sendo verificado que 36% dos animais apresentavam nas fezes cistos de Giardia muris. Como o C. villosus é um roedor da mesma ordem, então é possível que esta espécie de Giardia possa ser a causadora da giardíase neste estudo.

Autores avaliaram amostras de fezes de cães, de diferentes idades, oriundos de pet shops, abrigos, clínicas veterinárias e canis de criação, na Austrália, verificando que mais de 30% desses animais estavam positivos para Giardia sp (BUGG et al., 1999). Os protozoários em questão podem causar infecção em seres humanos, cães, gatos, bovinos, suínos, ovinos, cavalos (LALLO et al., 2003) e também em animais silvestres, como pode ser visto neste trabalho.

A literatura relata a ocorrência da infecção por Cryptosporidium em pequenos mamíferos silvestres e roedores das espécies Akodon serrensis, Oryzomys ratticeps, Mus domesticus, Apodemus sylvaticus e Clethrionomys glareolus (DALL'OLIO & FRANCO, 2004; CHALMERS et al., 1997), mostrando que este gênero de parasito apresenta grande número de hospedeiros domésticos e silvestres. Com base nos resultados apresentados, conclui-se que os gêneros Giardia e Cryptosporidium parasitam o trato gastrintestinal de roedores da espécie C. villosus.

 

REFERÊNCIAS

BRUM, J.G.W. et al. Malófagos parasitos de alguns animais silvestres no estado do Rio Grande do Sul. Arquivos do Instituto de Biologia. v.70, n.2, p.177-178, 2003.        [ Links ]

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Recebido para publicação 29.12.06
Aprovado em 27.06.07

 

 

1 Autor para correspondência.

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