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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478On-line version ISSN 1678-4596

Cienc. Rural vol.38 no.6 Santa Maria Sept. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-84782008000600042 

NOTA
DEFESA FITOSSANITÁRIA

 

Ocorrência do ácaro vermelho europeu Panonychus ulmi (Koch) (Tetranychidae) associado à cultura da videira no Rio Grande do Sul, Brasil

 

European red spider mite Panonychus ulmi (Koch) (Tetranychidae) occurrence of vineyards in Rio Grande do Sul, Brazil

 

 

Noeli Juarez FerlaI, 1; Marcos BottonII

IMuseu de Ciências Naturais, Centro Universitário UNIVATES, CP 155, 95900-000, Lajeado, RS, Brasil. E-mail: njferla@univates.br
IIEmbrapa Uva e Vinho, CP 130, 95700-000, Bento Gonçalves, RS, Brasil

 

 


RESUMO

Neste artigo é descrita ocorrência e o dano causado pelo ácaro vermelho europeu Panonychus ulmi (Koch) associado à cultura da videira. As coletas foram realizadas na safra 2005-2006 em Vitis vinifera L. da cultivar Merlot, nos municípios de Bento Gonçalves e Candiota, no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. As folhas infestadas apresentaram bronzeamento, com manchas avermelhadas na face adaxial, resultando na queda prematura das mesmas. Esse é o primeiro registro do ácaro vermelho europeu danificando a cultura da videira no Rio Grande do Sul.

Palavras-chave: Acari, uva, uva vinífera, Vitaceae.


ABSTRACT

The occurrence and the damage caused for the European red spider mite Panonychus ulmi (Koch) associated to the culture of the grapevine are described. The collections had been carried through in 2005-2006 seasons in Vitis vinifera L. of cultivating Merlot in Bento Gonçalves and Candiota counties, in the state of Rio Grande do Sul, Brazil. The infested leaves had presented bronzing, with spots redly in the adaxial face resulting in the premature fall. This is the first register of the European red mite damaging the culture of the grapevine in Rio Grande do Sul.

Key words: Acari, grape, grapevine, Vitaceae.


 

 

A videira (Vitis vinifera L.: Vitaceae) é cultivada em praticamente todas as regiões do Brasil. Ela foi introduzida no país por imigrantes europeus que se estabeleceram no Estado do Rio Grande do Sul, sendo que atualmente a região da Serra Gaúcha concentra a maior parte dos vinhedos e vinícolas. Entretanto, um aumento significativo de vinhedo e vinícolas está sendo observado na fronteira oeste do Rio Grande do Sul, principalmente com varietais viníferas. Doenças, insetos e ácaros são problemas comuns enfrentados pelos viticultores nas diferentes regiões produtoras. Entre os ácaros, destacam-se Eriophyidae, Tarsonemidae e Tetranychidae (REIS & MELO, 1984; SCHRUFT, 1985; SORIA et al., 1985; MONTEIRO, 1994; DUSO & DE LILLO, 1996; BOTTON et al., 2003).

Na Europa, os tetraniquídeos passaram a ter maior importância a partir da década de 1950, com a utilização de agrotóxicos e alterações de práticas culturais em uvas viníferas (SCHRUFT, 1985). Várias espécies desse grupo são citadas na cultura da videira (JEPPSON et al., 1975; SCHRUFT, 1985; Bolland et al., 1998). Entre eles, destaca-se Panonychus ulmi (Koch) (ácaro vermelho europeu). Essa espécie tem como hospedeiros principais frutíferas e arbustos da família Rosaceae (BAKER & TUTTLE, 1994; Bolland et al., 1998). Eles são encontrados na face abaxial das folhas e seu ataque é particularmente prejudicial no início da primavera e no final do verão europeu. Na primavera, seu ataque pode provocar queda de folhas, prejudicando o desenvolvimento das flores e dos brotos. O nível de dano econômico nesta estação inicia quando 60-70% das folhas estão infestadas pelo ácaro. No final do verão, altas populações podem causar bronzeamento das folhas e afetar a qualidade dos frutos (SCHRUFT, 1985), sendo que a percentagem de folhas com um ou mais ácaros não pode exceder 30-45%, para evitar um ataque nocivo desta espécie no final do verão ou no outono (BAILLOD et al., 1979). Para o controle de P. ulmi, são utilizados acaricidas específicos, tais como ethion, parathion, thrithion e thiodan. Entretanto, ácaros predadores Phytoseiidae exercem um papel importante no controle biológico daquela praga na região citada (SCHRUFT, 1985).

No Brasil, os únicos tetraniquídeos sobre videiras citados são Oligonychus mangiferous Rahman & Pundjab, Tetranychus desertorum Banks e Allonychus braziliensis (Mcgregor) (SORIA et al., 1985; BOTTON et al., 2003). Oligonychus mangiferous foi observado causando queima prematura de folhas de videira (REIS & MELO, 1984; SORIA et al., 1985). Até o momento, P. ulmi não foi citado em relação a videiras na Serra Gaúcha ou no Brasil. Entretanto, P. ulmi apresenta importância econômica na cultura da maçã (MONTEIRO, 2002). Nessa cultura, ele causa bronzeamento das folhas e, em ataque severo, reduz o crescimento dos ramos, o tamanho e a coloração dos frutos e o teor de açúcar, além de provocar a queda prematura das folhas, interferindo na floração e na frutificação do ano seguinte (McMURTRY et al., 1970; CROFT, 1975; LORENZATO, 1987).

Neste trabalho, é relatada a presença de P. ulmi e o dano provocado em videiras da varietal Merlot nos municípios de Bento Gonçalves e Candiota, Rio Grande do Sul. As folhas foram coletadas na safra 2005-2006 e levadas ao laboratório para a retirada e a montagem dos ácaros. Os ácaros foram montados em meio de Hoyer (JEPPSON et al., 1975) e mantidos em estufa para a secagem do meio e fixação, distensão e clarificação dos espécimes.

Foram encontrados espécimes de P. ulmi em Merlot. Na fêmea, as setas dorsais do corpo são robustas, espiculadas e sobre tubérculos, com o comprimento da maioria estendendo-se além das bases das setas das filas seguintes (exceto ve, c3 e f1-2). Seta f2 mais longa que f1 (Figura 1a-g). Há setas dúplices no tarso I distais e próximas, empódio unciforme com três pares de pêlos ventrais e dois pares de setas paranais. O macho é semelhante à fêmea, porém apresenta o opistossoma afilado. O edeago é sigmóide dorsalmente.

Os ovos estriados apresentam pedúnculo na parte superior, sendo observados na face abaxial das folhas, próximo das nervuras. Maior número de ovos foi observado nas folhas novas das plantas. Os adultos estavam presentes tanto na face abaxial quanto na face adaxial das folhas.

As folhas apresentavam bronzeamento, com manchas avermelhadas na face adaxial (Figura 2A). O vinhedo apresentou bronzeamento precoce com queda prematura de folhas (Figura 2B). Embora o dano não tenha sido quantificado, as lesões produzidas por P. ulmi provocam menor atividade fotossintética no pós-colheita, reduzindo o acúmulo de reservas na entressafra. Panonychus ulmi está presente nos pomares de maçã durante todo o período vegetativo, com predominância nos meses de janeiro e fevereiro, período com temperaturas mais elevadas e baixa umidade relativa (LORENZATO, 1987). Nessa cultura, o aumento populacional do ácaro P. ulmi tem sido associado à utilização intensiva e indiscriminada de produtos químicos não específicos como inseticidadas e fungicidas (LORENZATO & MELZER, 1984).

 


 

A dispersão de P. ulmi pode ser resultante da proximidade da cultura da maçã com os vinhedos na região da Serra Gaúcha. Em Candiota, possivelmente, a disseminação tenha ocorrido por trânsito de material vegetativo infestado tanto do Brasil como do Exterior. Não se descarta a hipótese de que o uso de produtos químicos nos vinhedos, com destaque para fungicidas não-seletivos, tenha reduzido a população de inimigos naturais, permitindo a proliferação do ácaro vermelho no cultivo. A constatação de P. ulmi na cultura da videira e os danos observados indicam que o ácaro vermelho deve ser inserido no programa de manejo integrado de pragas da cultura da videira no Estado do Rio Grande do Sul. Além disso, é importante que os técnicos reconheçam a presença dessa espécie nos vinhedos, diferenciando-o de Tetranychus urticae Koch (ácaro rajado) para fins de definição das estratégias de controle.

 

REFERÊNCIAS

BAKER, E.W.; TUTTLE, D.M. A guide to the spider mites (Tetranychidae) of the United States. House West Bloomfield: Indira Publishing, 1994. 347p.         [ Links ]

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Recebido para publicação 20.06.07
Aprovado em 16.01.08

 

 

1 Autor para correspondência.

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