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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478On-line version ISSN 1678-4596

Cienc. Rural vol.39 no.4 Santa Maria July 2009  Epub Mar 27, 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-84782009005000043 

ARTIGOS CIENTÍFICOS
CLÍNICA E CIRURGIA

 

Perfil e distribuição da síndrome cólica em eqüinos em três unidades militares do Estado do Rio de Janeiro, Brasil

 

Profile and distribution of equine colic syndrome in three military units in Rio de Janeiro, Brazil

 

 

Paula Vieira Evans Hossell LaranjeiraI, 1; Fernando Queiroz de AlmeidaI; Maria Júlia Salim PereiraI; Marco Aurélio Ferreira LopesII; Carlos Henrique Coelho de CamposIII; Luciana Cunha de Assis Brasil CaiubyIV; Patrícia Nunez Bastos de SouzaV

IInstituto de Veterinária, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Seropédica, RJ, Brasil. Endereço para correspondência: Rua Comandante Rubens Silva, 62/402, 22745-282, Jacarepaguá, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: phossell@gmail.com
IICentro de Ciências Biológicas e da Saúde, Universidade Federal de Viçosa (UFV), Viçosa, MG, Brasil
IIIAcademia Militar das Agulhas Negras (AMAN), Exército Brasileiro, Resende, RJ, Brasil
IVRegimento Escola de Cavalaria (REsC), Exército Brasileiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
VEsquadrão Escola de Cavalaria (EEC), Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

 

 


RESUMO

Este estudo teve como objetivo avaliar o perfil e a distribuição da síndrome cólica em eqüinos de três unidades militares no Estado do Rio de Janeiro, o Regimento Escola de Cavalaria (REsC), a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e o Esquadrão Escola de Cavalaria (EEC). No período entre 2003 e 2004, 770 eqüinos foram acompanhados para a ocorrência de casos clínicos de cólica. Realizou-se análise descritiva dos dados, e foram calculadas a taxa de incidência de cólica e a proporção de eqüinos acometidos. O teste do χ2 foi utilizado para avaliar a associação entre síndrome cólica e variáveis relativas às características dos eqüinos e do manejo. A incidência variou entre as unidades militares, 0,12 na AMAN, 0,21 no EEC e 0,95 casos/eqüino-ano no REsC, sendo acometidos 15% dos eqüinos da AMAN, 30% do EEC e 69% do REsC. A maior incidência foi de episódios de origem gástrica, 76,5%. Casos de reincidência foram elevados, sendo 62,5% no REsC, 36,7% na AMAN e 29,0% no EEC. A síndrome cólica estava significativamente associada às variáveis unidade militar, sistema de criação, quantidade de grãos ingerido e suplemento mineral-vitamínico. As altas incidências, reincidências e proporção de animais acometidos observadas ocorreram de forma diferenciada nas três unidades, indicando que, apesar de possuírem como característica comum pertencerem a unidades militares, os eqüinos formam um grupo heterogêneo no que diz respeito à ocorrência de síndrome cólica, provavelmente devido às diferentes condições de manejo.

Palavras-chave: abdômen agudo, epidemiologia, eqüinos militares.


ABSTRACT

This research aimed to verify the profile and distribution of colic syndrome in horses of three military units in Rio de Janeiro, Brazil, which were Regimento Escola de Cavalaria (REsC), Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), and Esquadrão Escola de Cavalaria (EEC). From 2003 to 2004, 770 horses were followed up for the incidence of colic cases. A descriptive analysis of clinical data, incidence of colic cases and rate of horses affected was established. Chi-squared test was used to evaluate the association among colic syndrome and variables related to horses characteristics and management. Colic syndrome incidence varied among military units as follows: 0.12 cases/horse-year at AMAN, 0.21 at EEC and 0.95 at REsC, affecting 15% of horses in AMAN, 30% in EEC and 69% in REsC. The highest incidence was of gastric episodes (76.5%). Recurrence cases were 62.5% in REsC, 36.7% in AMAN and 29.0% in EEC. Colic syndrome occurred associated with variables: military unit, management, amount of intake grains and supplemented mineral-vitamin. High incidence, recurrence and horses rate with colic were differentiated among the three units. Although the horses of military units had common characteristic , they formed a heterogeneous group in respect to colic syndrome occurrence, probably due to different management conditions.

Key words: acute abdomen, epidemiology, military horses.


 

 

INTRODUÇÃO

A síndrome cólica, caracterizada por manifestação de dor abdominal, é uma das principais enfermidades que requerem atendimento veterinário entre os eqüinos (TRAUB-DARGATZ et al., 2001). Apresenta alta incidência (KANEENE et al., 1997; TINKER et al., 1997a,b; HILLYER et al., 2001, TRAUB-DARGATZ et al., 2001; MEHDI & MOHAMMAD, 2006) e alta letalidade, que varia de 6,7 a 50,0%, de acordo com o plantel eqüino estudado e o tipo de cólica (HUNT et al., 1986; TINKER et al., 1997a). Não é uma entidade nosológica específica e sim, um conjunto de múltiplas condições conseqüentes a determinadas disfunções de vísceras intra-abdominais, sendo responsável por grandes perdas econômicas devido a gastos com tratamento (TRAUB-DARGATZ et al., 2001), tempo de afastamento do eqüino de suas atividades normais, perdas decorrentes de infecções e abortos em éguas (SANTSCHI et al., 1991; BOENING & LEENDERTSE, 1993) e morte.

A letalidade passa de 13% nos casos não submetidos à cirurgia a 31% para aqueles casos cirúrgicos (KANEENE et al., 1997). Os episódios que resultam em cirurgia variam entre 1,4 e 6,3%, segundo os plantéis analisados e o tipo de cólica prevalecente (TINKER et al., 1997a; COHEN et al., 1999; TRAUB-DARGATZ et al., 2001).

Eqüinos com episódios anteriores de cólica possuem maior risco de apresentarem outro episódio, provavelmente por existir uma lesão no trato gastrointestinal causada pelo quadro anterior ou devido a uma seqüela de cirurgia no trato gastrintestinal. Alto grau de associação entre cólica e histórico de cólica e cirurgias abdominais foi observado (COHEN et al., 1995), inclusive independente do manejo (REEVES et al., 1996). Eqüinos com histórico de cólica apresentam risco 3,6 vezes maior de reincidência (TINKER et al., 1997b). TRAUB-DARGATZ et al. (2001) detectaram 11% de reincidência em animais acompanhados por um ano e VAN DEN BOOM & VAN DER VELDEN (2001) observaram reincidência em 16% dos eqüinos submetidos a cirurgias abdominais. O histórico de episódio anterior de cólica não ajuda a identificar o mecanismo patofisiológico da cólica e também não é um fator de risco que possa ser alterado. Porém, a associação de um episódio de cólica com um episódio subseqüente é uma informação importante para aqueles que manejam os eqüinos (COHEN, 1997).

Estudos de incidência de síndrome cólica e sua distribuição em relação às variáveis relativas ao eqüino e ao manejo constituem-se em ferramenta de fundamental importância para o planejamento da saúde eqüina, uma vez que podem promover a adoção de intervenções mais adequadas à abordagem e prevenção de casos. No entanto, no Brasil, pouco se sabe sobre a síndrome cólica em nível populacional. Assim, o objetivo deste estudo foi conhecer o perfil e a distribuição de síndrome cólica em eqüinos de três unidades militares no Estado do Rio de Janeiro.

 

MATERIAL E MÉTODOS

No período entre janeiro de 2003 e dezembro de 2004, todos os eqüinos do Regimento Escola de Cavalaria (REsC), situado na Vila Militar, em Deodoro, Rio de Janeiro, da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), situada na cidade de Resende, ambos quartéis do Exército Brasileiro, e do Esquadrão Escola de Cavalaria da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (EEC), localizado em Sulacap, Rio de Janeiro, foram acompanhados quanto à ocorrência da síndrome cólica, totalizando 770 eqüinos de diversas raças e diversas modalidades, sendo 435 pertencentes ao REsC, 261 à AMAN e 74 ao EEC.

Definiu-se como caso de cólica todo episódio em que o eqüino apresentou sinais de dores abdominais e que tenha sido atendido pelo serviço veterinário das unidades militares. Uma ficha de atendimento de Síndrome Cólica Eqüina foi elaborada e disponibilizada aos veterinários de cada unidade militar a fim de padronizar a coleta de dados e o acompanhamento nas três unidades. Dessa ficha foram obtidos os dados sobre raça, sexo, idade, atividade física, esquadrão ou pavilhão militar, transporte, dia, mês e ano de ocorrência do quadro clínico, horário e duração, manejo, características da baia, presença de vícios nos eqüinos, dietas (freqüência de alimentação, ordem de fornecimento do volumoso, uso de suplementos, quantidades de concentrado e feno), tipo de cólica e óbito. Quando a ficha não havia sido preenchida, as informações foram obtidas nos livros de ocorrência dos Oficiais Veterinários.

A população eqüina das unidades militares foi considerada fixa (MEDRONHO et al., 2005), assim, para o cálculo das proporções de eqüinos acometidos, foram considerados o número de eqüinos com casos de cólica (numerador) e o número de eqüinos acompanhados (denominador) (ROTHMAN, 2002).

Para o cálculo das taxas de incidência, foram considerados o número de episódios de cólica no período de observação (numerador) e o número de eqüinos sob observação, considerando as perdas ocorridas por óbitos devido à cólica (denominador) (MEDRONHO et al.; 2005). A letalidade foi calculada dividindo-se o número de mortes por cólica pelo número de casos de cólica.

As variáveis explicativas de interesse foram categorizadas como: unidade militar: REsC, AMAN e EEC; faixa etária: menor de quatro anos, entre cinco e 15 anos e maior de 16 anos; sexo: masculino e feminino; raça: de raça e mestiço; sistema de criação: estabulado e semi-estabulado; fornecimento de volumoso (quantidade por dia): quantidade restrita com feno e/ou verde na baia e à vontade, com acesso ao pasto e feno oferecido na baia; grãos (incluindo ração concentrada, aveia e linhaça): 4kg ou 6kg ou mais; suplemento mineral-vitamínico: recebia e não recebia; tamanho das baias: 7,2m2 e >7,2m2; vício: com vício e sem vício; atividade física: esportiva (equitação, adestramento, Concurso Completo de Equitação (CCE), pólo, iniciação desportiva e instrução de saltadores), militar (instrução militar e policiamento montado) e leve (equoterapia, escolinha de equitação e lazer) e a variável desfecho, caso de cólica (sim/não). Todas essas variáveis foram submetidas ao teste qui-quadrado.

Um banco de dados elaborado no programa Microsoft Office Excel 10.0 recebeu dados referentes aos eqüinos dos plantéis das três unidades militares. Análises univariada e bivariada foram realizadas com auxílio do programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) para Windows, versão 13.0.

Foram verificados os graus de associação entre as variáveis explicativas (variáveis independentes) e a ocorrência de síndrome cólica (variável desfecho, variável dependente) e as respectivas razões de chance (odds ratio) brutas e intervalos de confiança (P0,05).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

No período analisado, ocorreram 899 casos de cólica, sendo 808 no REsC, 60 na AMAN e 31 no EEC, correspondendo à taxa de incidência de 0,59 casos, em média, por eqüino-ano nas três unidades. No REsC, a taxa de incidência foi de 0,95 casos por eqüino-ano (808 casos/850 eqüino-ano). Taxas inferiores foram observadas no EEC e na AMAM, 0,21 casos (31casos/74 eqüino-ano) e 0,12 casos (60casos/520 eqüino-ano), respectivamente. A proporção de eqüinos acometidos foi de 15% na AMAN, 30% no EEC e 69% no Resc. No REsC, mais de 50% dos eqüinos tiveram cólica mais de uma vez (Tabela 1). No entanto, um único quadro clínico por animal foi o mais comum nas outras unidades. A reincidência foi elevada, tendo sido maior no REsC (62,5%), quando comparado à AMAN (36,7%) e ao EEC (29,0%). É comum a reincidência (COHEN et al., 1995; COHEN & PELOSO, 1996; REEVES et al., 1996; TINKER et al., 1997a,b; TRAUB-DARGATZ et al., 2001; VAN DEN BOOM & VAN DER VELDEN, 2001). Os resultados do presente estudo sinalizam que medidas para redução da incidência de cólica ou não estão sendo tomadas ou, se adotadas, são ineficazes, principalmente no RESC, pois episódio anterior de cólica é relatado como fator de risco para reincidência (COHEN et al., 1995; REEVES et al., 1996; TINKER et al., 1997a,b; TRAUB-DARGATZ et al., 2001; VAN DEN BOOM & VAN DER VELDEN, 2001).

O intervalo entre episódios de cólica em um mesmo eqüino apresentou grande variação. No REsC, ocorreu uma média de 79,4±88,0 dias, no EEC, esse intervalo foi de 130,6±107,3 dias e na AMAN houve uma média de 162,3±140,4 dias de intervalo. Neste estudo, os casos de cólica se desenvolveram com taxas e proporções de acometidos diferenciadas, indicando que as condições de manejo dos eqüinos são fatores preponderantes para o desenvolvimento de síndrome cólica, inerentes a cada população.

Apenas três eqüinos (0,33%) foram submetidos à cirurgia em decorrência de cólica, sendo estes pertencentes à AMAN, representando 6,5% dos eqüinos que apresentaram cólica nessa unidade e 0,7% do total de eqüinos acometidos nas três unidades. Dois episódios foram decorrentes de compactação de cólon menor e um devido à torção de flexura pélvica. A proporção de casos que necessitam de cirurgia varia consideravelmente de acordo com o tipo de cólica e é dependente do plantel analisado, sendo a de origem intestinal a que mais freqüentemente requer cirurgia. Percentuais de casos cirúrgicos de 1,4%, 3,8 % e 6,3% foram relatados (TINKER et al.,1997a; COHEN et al., 1999; TRAUB-DARGATZ et al., 2001).

A maior incidência de cólicas gástricas no REsC e na AMAN, de 78,1 e 86,6%, respectivamente, é coerente com o baixo percentual de casos cirúrgicos. Os casos de sobrecarga foram de maior incidência, sendo produzidos por excesso de grãos ou por gases produzidos pelos alimentos fermentáveis (CARTER, 1987), os quais tiveram resolução com tratamento medicamentoso e inserção da sonda nasogástrica para esvaziamento do estômago. Esse fato aponta para uma relação dos episódios de cólica com o manejo alimentar. Em aproximadamente 19% dos casos clínicos no REsC, não houve um diagnóstico definitivo. Estes foram classificados como de origem não determinada, grupo em que foram incluídos casos de cólicas leves ou quando não foi possível identificar a origem da dor (WHITE, 1987). No EEC, 45,2% dos episódios não tiveram a origem determinada e, dentre aqueles com diagnóstico definido, foi observada maior incidência de cólicas de origem entérica (38,7%), embora não tenha resultado em desfecho cirúrgico como se esperaria.

A letalidade da síndrome cólica no REsC e na AMAN em 2003 foi de 3%, 13 mortes no REsC e uma na AMAN. Em 2004, o percentual de mortes por cólica no REsC foi de 2% (7 mortes) e na AMAN foi de 4% (uma morte). Não ocorreu óbito de eqüino em decorrência de cólica no EEC durante o período.

Esses valores estão abaixo dos relatados por TINKER et al. (1997a) nos EUA, que observaram 6,7% de letalidade em eqüinos com cólica em fazendas de criação e nos casos de cólica atendidos em hospitais de Escolas de Veterinária. Altos percentuais de letalidade podem ser resultantes do fato de que os casos clínicos levados a um hospital escola normalmente já estão bem avançados, e as possíveis lesões no trato gastrintestinal já estão mais graves. Neste estudo, a baixa letalidade pode, em parte, ser explicada pelo fato de os eqüinos das unidades militares normalmente serem atendidos pelos veterinários logo após apresentarem os primeiros sinais clínicos de desconforto abdominal, o que minimiza a possibilidade de lesões mais graves no trato digestório, reduzindo também as complicações que podem levar ao óbito. Por outro lado, o conhecimento da fisiopatologia e do tratamento da síndrome cólica teve um grande avanço nos últimos anos, que possibilitou melhorias no diagnóstico e tratamento, reduzindo o risco de morte.

A idade média dos eqüinos nos episódios está de acordo com a faixa etária de maior utilização nas unidades militares, entre cinco e 15 anos de idade, 9,8±4,7 no REsC, 8,4±3,8 na AMAN e 11,5±5,4 anos no EEC. Na tabela 2 são apresentados os resultados da análise bivariada. Apesar da ausência de significância estatística, os eqüinos na faixa de cinco a 15 anos foram mais acometidos, seguidos daqueles com mais de 16 anos. Eqüinos com idade de dois a 10 anos são mais susceptíveis à cólica (MEHDI & MOHAMMAD, 2006; TINKER et al., 1997a,b) e estão inseridos na faixa etária em que os eqüinos são utilizados em atividades físicas e, por conseguinte, o consumo de ração concentrada é maior. Não obstante, eqüinos mais velhos possuem maior propensão à cólica, provavelmente, devido a problemas de dentição ou alterações na arcada dentária que podem prejudicar a adequada apreensão, mastigação e ingestão dos alimentos ou por outras alterações em seu trato gastrintestinal que podem predispor a novo episódio de cólica.

Embora não haja evidências de que a incidencia de cólica varie independentemente do sexo, a maioria dos eqüinos acometidos foi do sexo masculino. A AMAN foi o único plantel onde a incidência foi maior em fêmeas, corroborando os resultados de TRAUB-DARGATZ et al. (2001) e MEHDI & MOHAMMAD (2006), os quais não observaram diferenças significativas na ocorrência de cólica entre os sexos dos eqüinos.

É difícil afirmar que alguma raça tenha predisposição à cólica, pois geralmente os estudos são realizados com eqüinos de raças específicas e afirmar a real influência destas na incidência da cólica poderia ser tendencioso. No presente estudo, os mestiços foram os mais acometidos, embora sem evidências de que a incidência de cólica varie com a raça. No entanto, há controvérsias na literatura sobre o papel da raça na distribuição da cólica. Em alguns estudos (COHEN & PELOSO, 1996; THOEFNER et al., 2001) a raça apresentou diferenças significativas na ocorrência de cólica, mas em outros não (MEHDI & MOHAMMAD, 2006) e isso pode ocorrer em decorrência do número de animais observados de cada raça, do tipo de manejo e dos cuidados dispensados a cada raça no estabelecimento avaliado.

Apesar da ausência de significância estatística entre as proporções de acometidos por cólica e os tamanhos das baias, baias de 12m2 seriam ideais, segundo a Sociedade Britânica do Cavalo (RAABYMAGLE & LADEWIG, 2006). Baias com tamanhos reduzidos limitam a mobilidade dos eqüinos, elevando o nível de estresse dos animais, o que pode resultar em alterações na fisiologia digestiva.

Embora atividade física não esteja associada significativamente aos casos de cólica, corroborando os resultados de TRAUB-DARGATZ et al. (2001), os episódios acompanharam a distribuição das atividades, com maior incidência em eqüinos em atividade de equitação no REsC e na AMAN e em instruções militares no EEC. Os efeitos do exercício sobre as funções gastrintestinais dos eqüinos e suas alterações ainda não são completamente conhecidos. A atividade física aumenta o fluxo da digesta no trato digestório e reduz a digestibilidade da matéria seca e a absorção do potássio (PAGAN et al., 1998). Concomitantemente, a atividade física reduz o fluxo sangüíneo no trato digestório dos eqüinos como observado por DUREN et al. (1992) em animais em exercício de resistência a 75% da freqüência cardíaca máxima. No entanto, deve-se considerar que, tanto o excesso, quanto a ausência de atividade física e a excitação ou fadiga pelo exercício, podem induzir cólica (FOREMAN, 2000).

A distribuição percentual de episódios de cólica, segundo a presença de vício, foi baixa e a aerofagia foi a mais comumente percebida. O transporte é uma situação de estresse que também pode influenciar alterações na fisiologia digestiva dos eqüinos, seja por alterações no fornecimento das refeições, seja na disponibilidade e no consumo de água (HILLYER et al., 2001). Entretanto, somente uma pequena proporção de eqüinos havia sido submetida ao transporte até sete dias antes da ocorrência do episódio de cólica, 0,9 e 1,7%, no REsC e na AMAN, respectivamente.

As variáveis referentes ao sistema de criação e volumoso representaram as mesmas unidades de observação, pois todos os eqüinos mantidos em sistema semi-estabulado possuíam acesso livre ao volumoso no período em que permaneciam livres no pasto e alguns ainda recebiam um complemento de volumoso por meio de feno oferecido na baia. Os eqüinos estabulados apenas recebiam volumoso na baia, por meio de feno e/ou verde, em quantidade limitada por dia.

A unidade militar, o sistema de criação e o uso de grãos e suplemento apresentaram associações significativas com a proporção de eqüinos acometidos por síndrome cólica. Os eqüinos do REsC foram mais acometidos. Os casos de cólica nas diferentes unidades sofrem influência de diversos fatores, como o fornecimento do alimento, que envolve a quantidade e os horários, os diferentes esquadrões e pavilhões, pois apresentam manejo diferenciado, e graus diferentes de estresse e a presença ou não de outras patologias, principalmente as músculo-esqueléticas, que afastam os animais de suas atividades diárias, ficando estes, muitas vezes, confinados nas baias sem adequada movimentação.

Os eqüinos em sistema de estabulação e os que recebiam quantidade elevada de grãos por dia (=6kg), por meio do fornecimento de ração, aveia e linhaça, foram significativamente mais acometidos. No REsC, os eqüinos recebiam seis quilogramas de grãos por dia ou mais, o que pode ter determinado maior incidência de cólica nessa unidade militar, pois o risco é maior quando há alta ingestão de concentrado (TINKER et al., 1997b; HUDSON et al., 2001).

Eqüinos em atividade física intensa necessitam de dieta rica em energia para suprir a demanda energética durante os exercícios. Essa energia normalmente é obtida dos grãos ingeridos durante as refeições. No entanto, o consumo de grande quantidade de grãos propicia a fermentação, podendo levar a episódios de cólica (RICHARDS et al., 2006). Alguns eqüinos que realizam atividade física mais intensa recebem suplementação mineral-vitamínica, utilizada como complemento para animais com grande carga de trabalho, buscando suprir as falhas nutricionais e os déficits de aminoácidos e outros nutrientes nas dietas. Os eqüinos que recebiam suplemento mineral-vitamínico foram significativamente mais acometidos em relação aos que não recebiam.

A variação dos resultados entre REsC e AMAN, ambos do Exército Brasileiro, pode ser atribuída ao manejo e a ambiente diferentes. Os eqüinos da AMAN são criados em sistema semi-estabulado e os do REsC são estabulados e semi-estabulados. A quantidade de ração oferecida para os eqüinos do REsC é maior que na AMAN e sendo semi-estabulados os eqüinos da AMAN possuem acesso livre ao volumoso.

Os eqüinos que recebiam quantidade restrita de volumoso, por meio de verde e feno apenas na baia e em horários determinados, correspondendo aos estabulados, apresentaram significativamente mais cólica, o que também foi observado por HUDSON et al (2001). Eqüinos alimentados apenas com pastagem são menos acometidos por cólica (TINKER et al., 1997b; COHEN et al., 1999). Portanto, buscando uma redução na incidência de cólica, maior atenção deve ser dada à qualidade e quantidade do volumoso oferecido, pois há redução na incidência de cólica quando o eqüino tem acesso livre ao volumoso (REEVES et al., 1996), que é o caso da AMAM, onde todos os eqüinos são semi-estabulados.

As possíveis mudanças para adequação da dieta devem ser graduais para que ocorra uma adaptação do organismo do eqüino à nova alimentação. Mudanças súbitas na dieta podem causar indigestão e cólica (COHEN et al., 1995, 1999; REEVES et al., 1996), pois o cavalo é um animal de hábitos, e disciplina e constância no seu manejo se tornam fatores auxiliares para a prevenção de alterações na fisiologia digestiva. Deve-se sempre atentar para a qualidade e quantidade de concentrado oferecido ao eqüino, pois o aumento da quantidade fornecida de grãos pode elevar o risco de ocorrência de cólica (CLARKE et al., 1990; REEVES et al., 1996; TINKER et al., 1997b; JULLIAND et al., 2001).

O fornecimento de uma alimentação controlada e adaptada ao eqüino e a possibilidade de o animal exercitar-se diariamente de maneira adequada podem ser formas seguras para proteger ou minimizar o risco de ocorrência da síndrome cólica. A rotina para os eqüinos é importante, pois são muito sensíveis às alterações de manejo (HILLYER et al., 2001). Algumas ações podem ser benéficas para reduzir o risco de incidência de cólica, como manter os eqüinos no pasto o maior tempo possível, pois uma maior ingestão de forragem reduz a incidência de cólica (TINKER et al., 1997b; COHEN et al., 1999). Além disso, se a alimentação do eqüino exigir muito concentrado, os cuidados e a vigilância devem ser redobrados, fornecendo menores quantidades de ração concentrada por refeição; mesmo que para isso seja necessário aumentar o número de refeições diárias, estando sempre atento à qualidade do alimento fornecido.

 

CONCLUSÃO

Há evidências estatísticas de que o sistema de criação, a quantidade de grãos ingeridos por dia e o fornecimento de suplemento mineral-vitamínico estão relacionados às altas incidências e reincidências de síndrome cólica nas unidades militares, com alta proporção de animais acometidos. No entanto, a distribuição diferenciada nas três unidades militares indica que, apesar de possuírem como característica comum pertencerem a unidades militares, os eqüinos formam um grupo heterogêneo no que diz respeito à ocorrência de síndrome cólica, provavelmente devido às diferentes condições de manejo a que são submetidos.

 

APRESENTAÇÕES

Este estudo é parte da tese do primeiro autor, realizada no Curso de Pós-graduação em Ciências Veterinárias da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico/ Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (CNPq/FAPERJ).

 

REFERÊNCIAS

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Recebido para publicação 04.08.08
Aprovado em 05.12.08

 

 

1 Autor para correspondência.

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