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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478On-line version ISSN 1678-4596

Cienc. Rural vol.45 no.6 Santa Maria June 2015  Epub Mar 24, 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0103-8478cr20140318 

PRODUÇÃO ANIMAL

Arrancamento de penas psicogênico em maritacas: haloperidol e enriquecimento ambiental

Psycogenic feather picking behavioral in parakeet: haloperidol and environmental enrichment

Luiz Flávio Telles*  1  

Christina Malm 1  

Marília Martins Melo 1  

Daniel Ambrosio da Rocha Vilela 3  

Luiz Alberto Lago 1  

Marco Xavier Silva 2  

Nelson Rodrigo da Silva Martins 2  

1Departamento de Clínica e Cirurgia, Escola de Veterinária, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), 31270-901, Belo Horizonte, MG, Brasil

2Departamento de Medicina Veterinária Preventiva, Escola de Veterinária, UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil

3Instituto Brasileiro do Meio Ambiente dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), Montes Claros, MG, Brasil


RESUMO

Este trabalho avaliou a eficácia dos métodos de enriquecimento ambiental (EA) e da administração do fármaco haloperidol no controle de arrancamento de penas em maritacas mantidas em cativeiro. Foram formados três grupos: G1 tratado com haloperidol, G2 receberam enriquecimento ambiental e G3 aves sem arrancamento de penas. Utilizou-se registro scan, instantâneo dos comportamentos: antes, durante e depois dos tratamentos. Fotografias auxiliaram na avaliação da plumagem através de escore de 0 a 10. No G1, as maritacas reduziram significativamente a atividade física, aumentando o tempo em que ficavam paradas sobre o poleiro e redução também na expressão de outros comportamentos. Nenhuma maritaca do G1 apresentou melhora na qualidade da plumagem, já, no G2, apenas um indivíduo não melhorou a condição da plumagem. Sendo assim, a utilização do enriquecimento ambiental promoveu melhores condições de bem estar animal e proporcionou o crescimento de novas penas nas áreas de arrancamento, ao contrário das observações realizadas em maritacas tratadas com o haloperidol

Palavras-Chave: arrancamento de penas; haloperidol; enriquecimento ambiental; Aratinga leucophthalma, comportamento; bem estar animal

ABSTRACT

This study evaluated the effectiveness of environmental enrichment methods and the haloperidol administration in controlling feather picking in parakeets kept in captivity. Three groups were formed: G1 haloperidol treatment, G2 subjected to environmental enrichment and G3 no feather picked parakeets. In the behavioral study was used scan, instant registration: before, during and after the treatments. The plumage evaluation was done following a score from 0 to 10. G1 parakeets reduced significantly the activity, increasing stopped time on the perch and also reduced their expression of other behaviors. No G1 birds improved the plumage quality, already only one G2 parakeet has not improved feather condition. Thus, the use of environmental enrichment promotes better animal welfare conditions and provided the growth of new feather in the picked areas, in contrast to the observations made ​​in psychogenic feathers picked parakeet treated with haloperidol

Key words: feather picking; haloperidol; enviromental enrichment; Aratinga leucophthalma; behavior, animal welfare

INTRODUÇÃO:

Animais selvagens mantidos no cativeiro são constantemente submetidos a diversos fatores estressantes (MORGAN & TROMBORG, 2007). O organismo animal é capaz de suportar uma determinada intensidade de estresse, sem que haja prejuízo às suas funções fisiológicas (GOYMANN & WINGFIELD, 2004), mas, quando essa capacidade não é suficiente, o animal passa a apresentar baixas condições de bem-estar, com a perda da homeostase, resultando em distúrbios comportamentais, como estereotipias e automutilações (DELLINGER-NESS & HANDLER, 2006; HOSEY & SKYNER, 2007; MORGAN & TROMBORG, 2007). Dentre os distúrbios comportamentais, destaca-se o arrancamento de penas psicogênico, que é um processo patológico multifatorial (Van HIERDEN et al., 2004), com prevalência em torno de 10% e que acomete a família Psittacidae (IGLAUER & RASIM, 1993). É um comportamento compulsivo que, se não tratado, pode culminar com a morte (KJAER et al., 2004; Van HIERDEN et al., 2004). Fármacos psicoativos e implantação de programas de enriquecimento ambiental são estratégias que têm sido utilizadas para controlar e tratar a ocorrência de comportamentos indesejáveis. Dentre os fármacos psicoativos, destaca-se o haloperidol. Este é um inibidor dopaminérgico D2 específico, que promove comportamentos mais quietos, além disso torna o indivíduo indiferente à situação de estresse (SEIBERT, 2007). Porém, indesejados efeitos extrapiramidais são frequentes (SEIBERT, 2007; STARKEY et al., 2008), mas podem ser controlados através de ajustes na posologia do fármaco (GIEGLING et al., 2010). Já o enriquecimento ambiental visa a melhorias na qualidade de vida no cativeiro através de incrementos de estímulos ambientais (MEEHAN & MENCH, 2002; TAROU & BASHAW, 2007). Espera-se, portanto, que os animais submetidos ao enriquecimento ambiental passem a realizar maior número de comportamentos próprios à espécie (KIM et al., 2009; WATTERS, 2009). Sendo assim, objetiva-se com este trabalho, comparar a eficácia dos tratamentos com haloperidol e enriquecimento ambiental em maritacas em cativeiro e com arrancamento de penas psicogênico.

MATERIAL E MÉTODOS:

Animais

Foram selecionadas 12 maritacas (Aratinga leucophthalma) jovens, de sexo indefinido, que apresentavam algum tipo de alteração nas penas. Exame clínico completo foi realizado atentando-se para possíveis enfermidades do sistema tegumentar, que não fossem de caráter psicogênico. Foram realizados swabs cloacais (PCR) para exclusão de circovírus e poliomavírus aviário. As aves foram distribuídas aleatoriamente em dois grupos (G1 e G2), sendo submetidas à luminosidade natural, recebendo, além disso, ração comercial peletizada e água ad libitum.

Estudo comportamental

Inicialmente, foi elaborado um etograma com os comportamentos expressos por cada maritaca, observados através de coletas ad libitum. Os principais comportamentos observados foram: andando no poleiro (ANP), parado no poleiro (PNP), andando na tela do recinto (ANT), parado na tela do recinto (PNT), arrancando as penas (ARR), vocalizando (VOC), dormindo (DOR), forrageando (FOR), interação social positiva (ISP), interação social negativa (ISN), interação com o enriquecimento ambiental (IEA) e outros comportamentos (OUT). Todo o estudo comportamental foi realizado por um único observador.

Para a coleta de dados, foi utilizada a técnica focal de amostragem, com registro instantâneo (Young, 2003), a cada 60 segundos, com observações diárias durante duas horas. As observações comportamentais dos Grupos 1 (haloperidol) e 2 (EA) aconteceram em três etapas distintas, conforme delineamento ABA, no qual a letra "A" representa observações na ausência do tratamento (haloperidol ou EA) e "B" observações na presença dos tratamentos (YOUNG, 2003).

As etapas sem tratamento foram utilizadas como controle para os tratamentos realizados, sendo assim, o indivíduo passa a ser controle dele mesmo. Em cada etapa do estudo, foram realizadas 30 horas de observações, durante três semanas, totalizando 90 horas por grupo experimental. Os resultados expressos em valores percentuais foram calculados sobre o total de 1800 minutos de observações em cada etapa, já que todas apresentavam a mesma quantidade de tempo registrado.

G1 - Protocolo farmacológico

O G1 foi formado por maritacas com arrancamento de penas psicogênico, que receberam o fármaco psicoativo haloperidol, sendo que o protocolo utilizado foi uma adaptação do tratamento proposto por IGLAUER & RASIM (1993). Inicialmente, foi utilizada dose baixa de 0,3mg kg-1, havendo aumento progressivo de 0,2mg kg-1 a cada semana de tratamento, até a dosagem terapêutica de 0,9mg kg-1, recomendada por IGLAUER & RASIM (1993). A dosagem terapêutica foi administrada durante o período de três semanas consecutivas e, em seguida, houve a redução gradual da dosagem, de 0,2mg kg-1 a cada semana, até a completa retirada do fármaco.

A solução de água com haloperidol foi trocada diariamente. Para a diluição do medicamento na água, foi considerado consumo diário das maritacas, em média, de 30ml por indivíduo, baseado em observações preliminares ao tratamento. Consideraram-se 200 gramas como o peso corporal de cada ave, com base na média aritmética das mensurações dos pesos na triagem dos animais.

Durante o período de tratamento, em que houve o aumento e a diminuição da dose do haloperidol, não foram realizados registros dos comportamentos. Antes de iniciar as 30 horas de observações, após o término do tratamento com o haloperidol (terceira etapa), foi feita uma pausa de 7 dias nas observações, para que o fármaco fosse completamente metabolizado pelo organismo das aves, evitando qualquer tipo de interferência nos resultados da terceira etapa.

G2 - Enriquecimento ambiental

As maritacas do G2 foram submetidas a programa de enriquecimento ambiental durante três semanas, duas horas por dia, totalizando 30 horas de observações. Não houve pausas nos registros comportamentais entre as etapas de observações. Os itens utilizados na ambientalização do recinto foram: bananas dependuradas, que estimularam as aves a remover a casca e acessar o fruto; tiras de couro tingidas e aromatizadas com corantes de diversas cores e essência de frutas; galhos de árvores com folhas pequenas permitiram que as aves removessem as folhas com o bico e serviram também como poleiros alternativos e esconderijo; um disco de madeira (32cm de diâmetro) com orifícios de 1,5cm em sua periferia foi dependurado no recinto e teve suas cavidades preenchidas com frutas; castanhas com casca e partidas ao meio e espigas de milho inteiras também foram disponibilizadas como forma alternativa de alimentação. Foram pendurados no teto do viveiro recipientes coloridos de iogurte e caixas de papelão preenchidas com palha, na tentativa de estimular a utilização do bico, reduzindo assim o arrancamento de penas. Além disso, foi colocada uma tela sobre o comedouro, com o intuito de dificultar o acesso à ração e trabalhar habilidades cognitivas das maritacas.

Avaliação da plumagem

A avaliação da plumagem das maritacas do G1 e G2 foi realizada com objetivo de acompanhar a evolução dos dois tratamentos (haloperidol e EA). Registros fotográficos, após contenção física das aves, possibilitaram a comparação das plumagens nas três diferentes etapas de cada grupo: primeiro, na seleção dos animais; depois, após a segunda etapa de observações, e, por último, ao término do estudo. As avaliações foram realizadas de maneira subjetiva, seguindo o sistema de escore de 10 pontos proposto por MEEHAN et al. (2003a). O sistema é baseado na avaliação das penas e lesões de pele, observadas em cinco diferentes partes do corpo: peito/ flanco, costas, pernas, asas e cauda. A somatória destes subescores formam o escore final, que pode variar de zero dez (0 a 10) (Tabela 1).

Tabela 1 : Escores de avaliação de plumagem e respectivos significados. 

Adaptado de MEEHAN et al. (2003a).

Análise estatística

O presente estudo foi submetido ao delineamento em blocos ao acaso. Os testes Kolmogorov-Smirnov, Friedman, Kruskal-Wallis e Mann-Whitney foram utilizados para avaliação das variáveis estudadas. Estudos de dispersão de frequência foram avaliados por tabelas de contingência e a análise feita pelo Teste Exato de Fisher. As análises estatísticas consideraram distinção estatística para valores de P≤0,05.

RESULTADOS E DISCUSSÃO:

Considerando as avaliações comportamentais, observou-se que todas as maritacas que receberam o tratamento com haloperidol (G1) aumentaram significativamente o tempo em que permaneciam paradas sobre os poleiros (PNP), durante a segunda etapa (Tabela 2). Além disso, houve o aumento da expressão do comportamento dormindo (DOR) (Tabela 2) em 5 aves deste mesmo grupo, durante a mesma etapa, e metade das aves diminuíram a frequência que permaneciam paradas na tela do recinto (PNT). A observação de vocalização (VOC) também foi estatisticamente menos frequente quando o haloperidol foi administrado. KJAER et al. (2004) encontraram comportamentos semelhantes em galinhas tratadas com o haloperidol pela via subcutânea. Este efeito sedativo provocado pelo haloperidol, provavelmente, está relacionado ao bloqueio de receptores dopaminérgicos, que levam à diminuição da ação da dopamina no sistema nervoso central (SEIBERT, 2007). Além do efeito sedativo, observou-se também, neste estudo, que algumas destas aves apresentaram incoordenação, tremores musculares e dificuldade de iniciar certos movimentos. Estes sinais extrapiramidais também foram relatados por STARKEY et al. (2008) como efeitos indesejados, devido ao uso crônico do haloperidol. A ocorrência dessas manifestações clínicas observadas nas maritacas pode estar relacionada à administração de doses elevadas do fármaco. KJAER et al. (2004) administrou doses progressivas do haloperidol e observou efeitos sedativos a partir da dose de 0,5mg kg-1 até 1,0mg kg-1. A sua diluição na água de consumo impossibilitou saber com precisão quanto do fármaco foi ingerido por cada ave, porém a administração diretamente no bico interferiria significativamente nos resultados do estudo. Além disso, a dose utilizada foi adaptada de tratamentos realizados em outras espécies, podendo assim haver diferenças metabólicas que possam ter exacerbado os efeitos sedativos do medicamento. SEIBERT (2007) relata tratamento em cacatua (Cacatua moluccensis) utilizando o haloperidol pela via oral, na dose de 0,2mg kg-1, a cada 12 horas, durante 1mês, com o decréscimo da dose de 0,02mg kg-1 a cada 48 horas, até atingir a dose de 0,15mg kg-1. Foram observados bons resultados em relação à mutilação de tecidos moles, porém decréscimo do apetite, agitação e excitabilidade também foram observados. Já STARKEY et al. (2008) trataram uma arara Canindé (Ara ararauna) com sinais extrapiramidais, utilizando dose única de 1,7mg kg-1 de haloperidol pela via intramuscular. Porém, foram associados outros fármacos ao tratamento. Além da notória redução da atividade das maritacas do G1, observou-se que, dos seis indivíduos observados, três reduziram estatisticamente a interação positiva com os companheiros de recinto durante a segunda etapa de observação (Tabela 2). Entretanto, os comportamentos de interação negativa não apresentaram diferença estatística entres as etapas. As maritacas são animais gregários que formam grupos de aproximadamente 10 indivíduos (PIZO, 2002) e a interação intraespecífica é bastante importante na formação do bando e determinação hierárquica (SEIBERT, 2006). Além disso, na natureza, a formação de grupos é uma estratégia importante na obtenção de alimento e na fuga de predadores. Sendo assim, a apatia proporcionada pela administração do haloperidol reduziu significativamente o repertório comportamental das maritacas estudadas. Com a redução da interação social, pode ter havido perda da orientação como grupo e consequentemente o aumento da insegurança destes indivíduos.

Tabela 2 : Valores percentuais dos comportamentos, em função do tempo total de observações, registrados para cada maritaca e cada etapa. 

Teste de Friedman.

abc - Valores seguidos por letras diferentes, na mesma linha, diferem estatisticamente (P≤0,05).

Em relação ao comportamento 'Arrancando as penas' (ARR), observou-se que metade das maritacas apresentou redução significativa do arrancamento de penas durante a administração do haloperidol (Tabela 2). Entretanto, após a retirada do medicamento, três delas voltaram a apresentar comportamento semelhante ao início do estudo (antes do tratamento) e as outras 3 intensificaram ainda mais o arrancamento das penas. KJAER et al. (2004) observaram que galinhas tratadas com haloperidol reduziram significativamente o comportamento de arrumação das penas. Porém, os resultados mostram diferentes respostas ao tratamento, levando a crer em possíveis variações individuais dentro do grupo. HILTON et al. (1999) afirmam que as variações individuais e a capacidade de adaptação ao ambiente são componentes que interferem diretamente no comportamento das aves. Portanto, além das individualidades, a impossibilidade de determinar a quantidade que cada ave ingeriu do fármaco, talvez possa justificar os resultados observados. Frequentemente, penas arrancadas eram encontradas no piso do recinto e, da mesma forma que MEEHAN et al. (2003a), observou-se que o grau de lesão da plumagem e da pele não refletia a grande quantidade de penas observadas soltas no recinto. Houve pouca ou nenhuma observação de aves arrancando penas, mas diariamente era encontrada grande quantidade de penas no chão do recinto, levando-se então à hipótese de que o arrancamento de penas possa ocorrer com maior frequência no período noturno. Além disso, MEEHAN et al. (2003b) relatam que a intervenção acentuada nas penas possa contribuir com o aumento da sua fragilidade e queda.

No G2, das seis maritacas submetidas ao enriquecimento ambiental, quatro delas reduziram significativamente a expressão do comportamento parado sobre o poleiro (PNP) e uma delas aumentou a frequência de vocalização (VOC) durante a segunda etapa de observações. Em relação ao acesso destas aves aos itens de enriquecimento ambiental (IEA), observou-se que a frequência observada variou de 5,54% a 20,06% do tempo registrado (Tabela 2).

Ao contrário do que foi observado no Grupo 1, as maritacas do Grupo 2 apresentaram maior atividade e diversidade comportamental durante a realização do enriquecimento ambiental. A interação social positiva (ISP) foi maior no grupo tratado com enriquecimento ambiental em relação aos demais grupos. Esta maior frequência de interatividade provavelmente está relacionada à presença dos itens de enriquecimento no recinto, que proporcionaram o aumento da frequência de encontros entre estes indivíduos no ambiente. Os resultados obtidos no presente estudo foram semelhantes aos relatados por FIELD & THOMAS (2000), que observaram maior diversidade comportamental, após implantação do programa de enriquecimento ambiental para psitacídeos em zoológico. MEEHAN et al. (2003b), da mesma forma, notaram que papagaios criados com coespecíficos aumentaram a atividade e a interação com os itens de enriquecimento, além de reduzir a frequência de vocalização, quando comparados a indivíduos criados isoladamente.

A frequência em que as maritacas acessaram os itens de enriquecimento (IEA) neste estudo foi bastante diversificada, variando de 5,54% a 20,06% do tempo registrado. MEEHAN et al. (2003a) observaram percentuais menos discrepantes (19% a 26%) para o acesso aos itens como cordas penduradas, gaiola com frutas e sacos pendurados. O fato de algum indivíduo acessar os itens de enriquecimento com maior ou menor frequência pode estar relacionado à presença de hierarquia dentro do bando ou simplesmente o seu grau de interesse pelos itens utilizados. No presente estudo, foi observado que as maritacas que mais interagiram com o enriquecimento foram também aquelas hierarquicamente superiores dentro do bando. O arrancamento de penas psicogênico em psitacídeos, muitas vezes, está atribuído à falta de estímulos proporcionados pelo cativeiro e pode ser controlado através da utilização de técnicas de enriquecimento ambiental. Animais criados em ambientes enriquecidos geralmente são menos ansiosos e possuem maior capacidade de aprendizado (MARASHI et al., 2003).

A metodologia de avaliação da plumagem, através de escores, proposta por MEEHAN et al. (2003a), foi eficaz e permitiu diferenciar sutis modificações na plumagem das aves. Durante o presente estudo, não foi possível recuperar por completo a plumagem de nenhum animal, seja no tratamento com o haloperidol, seja no enriquecimento ambiental. Provavelmente, o tempo em que as maritacas foram submetidas ao tratamento foi curto, porém suficiente para demonstrar resultados satisfatórios. Além disso, a quantidade reduzida de indivíduos observados em G1 e G2 pode ter sido um fator limitante do estudo na detecção de maiores diferenças entre as médias observadas.

No entanto, o presente trabalho demonstrou que o tratamento com enriquecimento ambiental foi mais eficiente no combate ao arrancamento de penas psicogênico em maritacas, do que o tratamento com haloperidol diluído na água de consumo diário. Todas as maritacas do Grupo 1, ao final deste estudo, apresentaram escore de penas igual ou menor aos registrado no início (Tabela 3). Em contrapartida, apenas uma das seis aves do Grupo 2 não melhorou a condição da plumagem ao final das observações (Tabela 3). Sendo assim, foi confirmada a hipótese alternativa, através do teste Exato de Fisher, que indicou que as maritacas submetidas ao enriquecimento ambiental tiveram melhores resultados no combate ao arrancamento de penas psicogênico, quando comparadas às aves tratadas com haloperidol (Tabela 3).

Tabela 3 : Avaliação da plumagem das maritacas em cada grupo experimental e a comparação entre elas. 

Teste Exato de Fisher (P≤0,05).

a,b - Valores seguidos por letras iguais, na mesma coluna, não diferem estatisticamente entre os tratamentos.

CONCLUSÃO:

Nas condições deste estudo, o emprego do tratamento com enriquecimento ambiental em maritacas com arrancamento de penas psicogênico apresentou melhores resultados nos aspectos comportamentais e na melhoria da plumagem, comparado ao tratamento com haloperidol. As aves tratadas com haloperidol mostraram-se mais inativas, com menor capacidade de expressar comportamentos peculiares à própria espécie e o fármaco não promoveu melhoria da plumagem das maritacas.

REFERENCES

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1 COMITÊ DE ÉTICA Este projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Experimentação Animal da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sob Protocolo no 16/09, e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Obteve-se autorização do SISBIO (Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade), no 20978-1, para atividades com finalidade científica (coleta de materiais biológicos provenientes de animais da fauna brasileira).

Received: February 28, 2014; Accepted: October 07, 2014

Luiz Flávio Telles, email: luizflaviot@yahoo.com.br.

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