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Ciência Rural

Print version ISSN 0103-8478On-line version ISSN 1678-4596

Cienc. Rural vol.46 no.4 Santa Maria Apr. 2016  Epub Dec 22, 2015

http://dx.doi.org/10.1590/0103-8478cr20131673 

Tecnologia de Alimentos

Aproveitamento de resíduos da agroindústria do óleo de dendê para a produção de lipase por Aspergillus Níger

Agro-industrial residues utilization of palm oil for lipase production by Aspergillus niger

Edmar das Mercês Penha1  * 

Ludmila de Araújo Nunes Viana2 

Leda Maria Fortes Gottschalk1 

Selma da Costa Terzi1 

Erika Fraga de Souza1 

Sidinéa Cordeiro de Freitas1 

Juliana de Oliveira Santos1 

Thaís Fabiana Chan Salum3 

1Laboratório de Processos Fermentativos, Embrapa Agroindústria de Alimentos, Av. das Américas, 29501, 23020-470, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

2Centro Universitário Estadual da Zona Oeste (UEZO), Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

3Embrapa Agroenergia, Brasília, DF, Brasil.

RESUMO:

Neste trabalho, foi avaliado o desempenho de duas linhagens de Aspergillus niger (mutante 11T53A14 e selvagem C) previamente selecionadas como promissoras para a produção de lipases, utilizando meios de cultivo formulados a partir da torta de dendê (palmiste) e da borra alcalina do refino do óleo de dendê (borra de dendê), resíduos provenientes da agroindústria do óleo de dendê (palma) por fermentação em estado sólido (FES). Os experimentos de produção da enzima em FES foram conduzidos em colunas aeradas, incubadas em banho-maria a 32ºC com entrada controlada de ar não umedecido de 1,0vvm. Os melhores resultados foram obtidos com a cepa mutante A. niger 11T53A14 em meio contendo torta de dendê umedecida com solução sulfato de amônio (1,2%) e com a adição de 3% da borra de dendê. O valor máximo da atividade da lipase neste meio foi de 72,57U gss-1 em 48 horas. Esse valor foi 47,5% superior ao obtido no meio sem a borra de dendê. A comparação do desempenho da cepa mutante com a cepa selvagem mostrou que o meio composto por torta de dendê adicionado com sulfato de amônio e borra de dendê induziu ambas as linhagens a produzir lipases com bons níveis de atividade, além de reduzir o tempo de processo de fermentação.

Palavras-chave: lipase; resíduo agroindustrial; Aspergillus niger

ABSTRACT:

In this paper it was evaluated the performance of two strains of Aspergillus niger (mutant 11T53A14 and wild type C) previously selected as promising for lipase production, from cultivation media formulated from palm kernel cake (kernel) and alkaline sludge from refining were evaluated palm oil (palm oil sludge), palm oil (palm) waste industrialization by solid state fermentation (SSF). Experiments of enzyme production in SSF were conducted in aerated columns, incubated in a water bath at 32°C with controlled inlet of 1.0vvm. The best results were obtained with the mutant strain A. niger 11T53A14 in medium containing palm kernel cake moistened with a solution of ammonium sulfate (1.2%) and with the addition of 3% of palm oil sludge. The maximum lipase activity in this medium was 72.57U gdw-1 in 48 hours and 47.5% higher than in the medium without sludge palm. A comparison of the performance of the mutant strain with the wild-type strain showed that the medium composed of palm kernel cake added with ammonium sulfate and blurs palm induced both strains to produce lipases with good activity levels and reduced the time of the fermentation process.

Key words:  lipase; agro-industrial residue; Aspergillus niger

INTRODUÇÃO:

Enzimas são proteínas com atividade catalítica que possibilitam inúmeras reações químicas em condições muito suaves, comparativamente aos processos químicos tradicionais. As lipases são empregadas em mais de 20% das biotransformações de síntese orgânica (JAYAPRAKASH & EBENEZER, 2010). Essas enzimas podem ser usadas para catalisar a síntese de ésteres de ácidos carboxílicos, componentes importantes de aromas naturais empregados na indústria alimentícia, que contribuem na formação e acentuação dos aromas em alimentos ou em catalisar a hidrólise de triacilgliceróis aos ácidos graxos correspondentes e glicerol, como na produção de biodiesel por esterificação de óleos vegetais (JAEGER et al., 1993; MACEDO & PASTORE, 1997; FERNANDES, 2007). As lipases podem atuar tanto em meio aquoso quanto em meio orgânico, com teor de água restrito, e são consideradas carboxilesterases que atuam em substratos emulsificados (CASTRO et al., 2004).

A popularização do uso de enzimas, que esbarra no elevado custo das enzimas comerciais, e depende da escolha de micro-organismos mais eficientes, de meios de cultivos mais baratos ou de processos fermentativos mais adequados que, dessa forma, possibilitem aumentar a produtividade e o rendimento, reduzindo custos e ampliando a produção (SANTOS, 2014).

As linhagens de Aspergillus niger tem se mostrado mais promissoras para produzir lipase extracelular, o que facilita a recuperação da enzima (AGUIAR & MENEZES, 2000; MESSIAS et al., 2011).

A produção de enzimas de baixo custo passa, também, pela utilização de resíduos agroindustriais, como suporte e substrato para o agente fermentativo. Diferentes combinações de resíduos agroindustriais têm sido testadas para a produção de lipase, como torta de babaçu com óleo de oliva (CASTILHO et al., 2000) e óleo de mamona com farelo de trigo (DUTRA et al., 2008). O resíduo resultante da extração do óleo da amêndoa do dendê ou palmiste (torta de dendê), usada quase que na sua totalidade na alimentação animal, possui alto conteúdo de fibra, teor de proteína bruta de 14% a 15%, 3% a 5% de óleo residual, cerca de 11% de água, 48% de carboidratos e 4% de cinzas (FURLAN JÚNIOR, 2006).

Ainda vinculada à indústria do óleo de dendê, a borra alcalina, subproduto do refino de óleos comestíveis durante a etapa de neutralização alcalina do óleo, representa um grande problema ambiental. Ela consiste de uma mistura de sabão, óleo arrastado, substâncias insaponificáveis, gomas, fosfatídeos, pigmentos, água e ácidos graxos (MURUCI, 2012).

Neste trabalho, objetivou-se avaliar o desempenho de duas linhagens de Aspergillus niger para a produção de lipases por fermentação em estado sólido (FES). Os meios de cultivo foram formulados a partir da torta de dendê (palmiste) e da borra alcalina do refino do óleo de dendê (borra de dendê), resíduos da agroindústria do óleo de dendê.

MATERIAL E MÉTODOS:

Manutenção e ativação dos micro-organismos

Os agentes da fermentação foram os fungos filamentosos Aspergillus niger 11T53A14 (mutante obtido por técnica convencional de exposição a agente mutagênico) e Aspergillus niger C (selvagem), pertencentes à Coleção de Culturas da Embrapa Agroindústria de Alimentos e bons produtores de lipase (MURUCI et al., 2012; SANTOS et al., 2014). As linhagens foram mantidas e ativadas em meio básico, em gelose inclinada, tendo como fonte de carbono o óleo de oliva e contendo os seguintes elementos (g L-1): nitrato de sódio (3,0), sulfato de magnésio (0,5), cloreto de potássio (0,5), sulfato ferroso (0,01), fosfato dibásico de potássio (1,0), agar-agar (30,0) e azeite de oliva (20,0mL L-1) (COURI & FARIAS, 1995).

Produção dos esporos

Após indução na gelose com óleo de oliva, foram adicionados 20mL de solução aquosa 0,3% de Tween 80 sobre os conídios da gelose inclinada para, assim, obter uma suspensão de esporos. Um mililitro dessa suspensão foi transferido para o meio de sabugo de milho moído (COURI & FARIAS, 1995). Esse meio foi preparado a partir do sabugo de espigas de milho . O sabugo foi seco a 100oC em estufa com aeração por 4 horas e moído em moinho de facas (granulometria de 3-4mm). Para preparação do meio sólido de produção de esporos, são adicionados, por grama de sabugo de milho, 1,3mL de uma solução com nutrientes contendo peptona (56,0g L-1), fosfato de potássio monobásico (0,76g L-1), sulfato de zinco (19,8mg L-1), sulfato de ferro (23,0mg L-1) e sulfato de manganês (0,05mg L-1). Os frascos cônicos de 125mL com 4,6g do meio de sabugo foram autoclavados a 1atm por uma hora e, após resfriamento e inoculação dos esporos, foram incubados por cinco dias a 32ºC. Os frascos contendo os esporos foram mantidos por até um mês a 4°C.

Preparo do inóculo para a produção de lípase

Para o preparo do inóculo, foram adicionados 20mL de uma solução aquosa, 0,3% de Tween 80 por frasco de meio de sabugo de milho contendo os esporos. Após filtração com gaze, a concentração de esporos foi determinada por contagem em Câmara de Neubauer. O inóculo foi padronizado em 106 esporos por grama de meio de fermentação.

Matérias-primas

A torta e a borra de dendê, foram fornecidas pela Indústria de Extração da Amazônia, localizada em Belém (PA). Ambos os resíduos foram transportados congelados e armazenados em freezer. Para verificar a necessidade de se adicionar substâncias complementares na formulação dos meios. foram determinadas a composição centesimal e o teor de umidade, de acordo com AOAC (2011).

Pré-tratamento da torta de dendê

A torta de dendê foi seca em estufa a 60ºC por 8 horas, para melhor conservação durante a armazenagem. Após secagem, a torta foi triturada em moinho de facas para padronização das partículas sólidas na granulometria de 6mm.

Preparo dos meios para fermentação em estado sólido

O meio para fermentação foi composto por 100g de torta de dendê (massa seca), umidificada com 80mL de solução salina (NaCl 0,85%), pH 7,0, ou 80mL de solução de sulfato de amônio (1,2% p/v), pH 7,0, e adicionado ou não de indutores (borra alcalina) na concentração de 3% (p/p), de acordo com resultados obtidos por MURUCI et al. (2012). A seguir, 40g do meio foram colocados em frasco Erlenmeyer para esterilização a 121°C, a 1atm por 15min.

Determinação da umidade do meio de fermentação

A umidade das amostras foi realizada antes da fermentação e com o meio inoculado. A análise foi determinada por gravimetria, por secagem em estufa a 100ºC até peso constante.

Produção de lipase por fermentação em estado sólido

Os experimentos de produção da enzima foram conduzidos em colunas aeradas, incubadas em banho-maria a 32ºC e alimentada com 1,0vvm (volume de ar por volume de meio por minuto) de ar, baseado nos experimentos de MACEDO et al. (2009), que também estudaram a produção de lipase por A. niger em borra de milho e farelo de trigo por FES. Cada coluna recebeu 40g de meio de fermentação. Na primeira etapa, Aspergillus niger 11T53A14 foi inoculado no meio de cultivo contendo como substrato a torta de dendê em três diferentes condições: umidificada com solução salina; umidificada com solução de sulfato de amônio; e umidificada com solução de sulfato de amônio e 3% de indutor (borra alcalina de dendê). Na segunda etapa, Aspergillus niger 11T53A14 ou Aspergillus niger C foram inoculados no meio otimizado com torta de dendê umidificada, com 80mL de solução de sulfato de amônio e com adição de 3% de borra de dendê como indutor. Os processos foram conduzidos por 96 horas e os valores expressos representam a média de dois experimentos em duplicatas.

As análises estatísticas foram realizadas utilizando-se o programa STATISTICA 12 da StatSoft, Inc. Na comparação das médias dos tratamentos, usou-se o teste de Fisher LSD, ao nível de probabilidade de 5%.

As variáveis de processo estudadas para a produção de lipase foram: necessidade de adição de sulfato de amônio (80mL por 100 gramas de meio); necessidade de adição de 3% de indutor (3g de borra de óleo de dendê por 100g de meio).

A enzima foi extraída com a adição de 2,5mL de tampão fosfato de sódio (pH 7,0) por grama de meio fermentado, permanecendo por 1 hora sob agitação de 90 oscilações por minuto em shaker, com banho a 32ºC (Thermo Scientific Precision Reciprocal Shaking Water Bath 50). O extrato enzimático bruto foi filtrado em papel de filtro e depois em membrana de microfiltração (0,45μm), para posterior determinação do teor de proteína total (LOWRY et al., 1951) e da atividade lipásica.

Determinação de atividade lipásica

A determinação da atividade lipásica no extrato bruto foi realizada por método titulométrico, segundo o procedimento descrito por PEREIRA et al. (2001), com pequenas modificações: adicionou-se 1mL do extrato enzimático a 4mL de tampão citrato de sódio 50mM pH 4,0 e 5mL de emulsão de goma arábica (48mL de água destilada, 48mL de óleo de oliva e 7g de goma arábica). Após 15min a 35°C, a reação foi interrompida com a adição de 10mL de uma solução 1:1:1 de acetona/etanol/água e a titulação realizada com NaOH (0,05N), até pH final 11,0, e o resultado foi expresso em U por grama de substrato seco (U gss-1). O branco da reação foi realizado adicionando-se a enzima no momento da titulação. Uma unidade de atividade lipásica foi definida como a quantidade de enzima que produz 1μmol de ácidos graxos (oleico) por minuto, sob as condições de ensaio padrão. Toda a análise foi feita em duplicata para os brancos e em triplicata para as amostras.

RESULTADOS E DISCUSSÃO:

Caracterização da torta e da borra de dendê

A análise centesimal da torta de dendê (Tabela 1) mostrou haver uma boa quantidade de proteínas (4,08g 100g-1), embora esse valor seja muito inferior àquele encontrado no farelo de trigo (13,8g 100g-1) por SILVEIRA & BADIALE-FURLONG (2007), um resíduo bastante recomendado como substrato para o desenvolvimento de fungos, visando à produção de lipases (KUMAR et al., 2011; REHMAN et al., 2011; TOSCANO et al., 2013; DAYANANDAN et al., 2013). O teor de lipídeos na torta de dendê (7,81g 100g-1) pode ser considerado satisfatório para promover a indução e a síntese de lipases, pois se mostrou superior ao valor encontrado no farelo de trigo por SCHUBER et al. (2012). Estudos anteriores utilizando a cepa Aspergillus niger C mostraram que o farelo de trigo já possuía um teor de lipídeos suficiente para produção de lipases e que a adição de diferentes borras, como de girassol, de milho e de canola, não aumentou a produção da enzima (MURICI et al., 2012). A borra de dendê testada como indutor apresentou em sua composição 97,86% de lipídeos, valor semelhante ao reportado por SANTOS et al., 2014.

Tabela 1 Composição centesimal da torta e da borra de dendê e do farelo de trigo. 

*1Valores obtidos de SILVEIRA & BADIALE-FURLONG (2007).*2ND - abaixo do limite de detecção.

Avaliação do uso da torta de dendê como suporte e substrato para a produção de lipase por Aspergillus niger 11T53A14

Os resultados apresentados na figura 1 mostram que o meio contendo exclusivamente torta de dendê umedecida com solução salina e 60% de umidade, conduziu a uma baixa produção de lipase por A. niger 11T53A14 em 72h (10,64U gss-1), seguida de uma redução para 2,45U gss-1, em 96 horas. Na mesma figura, observa-se que a complementação da torta de dendê com sulfato de amônio (1,2%) aumentou a máxima atividade enzimática produzida em 4,6 vezes, elevando-a para 49,19U gss-1, além de reduzir o tempo de processo de 72 para 48 horas, também seguido de uma redução para 33,61U gss-1 em 72 horas. Esse declínio pode ser devido ao término do indutor presente ou dos lipídeos presente na torta de dendê. A presença de proteases no extrato enzimático produzido por fungos também pode influenciar na perda de atividade enzimática (AZEREDO et al., 2001) e CASTRO (2006).

Figura 1 Cinética da produção de lipase por Aspergillus niger 11T53A14, utilizando como substrato a torta de dendê em três diferentes condições: umidificada com 80mL de solução salina (NaCl 0,85%); umidificada com 80mL de solução de sulfato de amônio (1,2%); umidificada com 80mL de solução de sulfato de amônio e com 3% de indutor (borra alcalina de dendê). 

O aumento da produção da lipase mostrou a importância da suplementação de uma fonte de nitrogênio à torta de dendê. Esses resultados estão de acordo com os obtidos por PALMA et al. (2000), em que a maior atividade lipásica (27,8U gss-1) produzida por Penicillium restrictum, em FES, foi obtida quando a torta de babaçu foi enriquecida com peptona. MURUCI (2012) obteve valores expressivos em meio com farelo de trigo (201,81U gss-1 em 72 horas), substrato que contém considerável teor de proteínas, quando comparado a outras fontes. A escolha de uma fonte de nitrogênio adequada é um fator importante ao processo de fermentação industrial, pois tem um grande impacto sobre os custos e também pode afetar seletivamente o crescimento celular e a formação de produto, em resposta às medidas bioquímicas básicas relacionadas com a sua utilização por parte da célula (GOTTSCHALK et al., 2013). A complementação da torta de dendê com sulfato de amônio utilizada nesse trabalho, aumentou a máxima atividade enzimática e reduziu o tempo de processo, melhorando a produtividade.

Os experimentos realizados com o objetivo de avaliar a influência da adição de uma fonte lipídica (borra de dendê) como indutor da produção de lipases por A. niger 11T53A14, quando cultivado em meio contendo torta de dendê umedecida com solução sulfato de amônio (1,2%) na proporção 1:0,8, permitiram observar que a adição de 3% de borra de dendê aumentou consideravelmente a atividade enzimática (Figura 1). O valor máximo atingido de 72,57 U.gss-1 em 48 horas foi 47,5% maior do que aquele obtido no meio sem indutor (49,19U gss-1 em 48h). Nesse caso, não foi observada uma redução da atividade, que se manteve num platô, devido à presença do indutor e de uma maior concentração de lipídeos nesse meio. Esses resultados corroboram os resultados obtidos em trabalhos anteriores, em que a produção de lipase por A. niger 11T53A14 em FES, com farelo de trigo como substrato, na presença de 3,0% de borra de girassol (201,8U gss-1), foi maior do que na ausência de indutor (182,35U gss-1) (SANTOS et al., 2014). MALA et al. (2007) também estudaram diferentes combinações de indutores para a produção de lipases de A. niger em FES. Segundo os autores, o farelo de trigo adicionado da torta do óleo de gergelim na proporção 3:1, possibilitou a obtenção de atividade lipásica de 384U gss-1.

Apesar dos resultados inferiores aos encontrados com o farelo de trigo, a torta de dendê demonstra ser um substrato promissor, considerando-se haver, ainda, a possibilidade da melhoria do processo de produção. Como a borra é um resíduo do refino de óleos, pode haver a presença de inibidores/contaminantes neste material, que, em concentrações elevadas, podem inibir a síntese da enzima. Além disso, grandes quantidades de borra podem dificultar a transferência de massa no meio, um dos principais problemas encontrados para a FES. A análise estatística dos resultados desse bloco de ensaios mostrou haver diferenças significativas (P˂0,05) entre os valores comparados.

A comparação da produção da lipase por uma cepa mutante Aspergillus niger 11T53A14 e por uma selvagem Aspergillus niger C foi também avaliada nas condições otimizadas (meio torta de dendê umidificado com 80% solução de sulfato de amônio e adicionado de 3% de borra de dendê). Os resultados estão na figura 2.

Figura 2 Comparação da produção de lipase por Aspergillus niger 11T53A14 e Aspergillus niger C em meio de torta de dendê umidificada com 80mL de solução de sulfato de amônio e com adição de 3% de borra de dendê como indutor. 

Os resultados mostraram que A. niger 11T53A14 atingiu valor máximo (72,57U gss-1 em 48h) muito próximo ao de A. niger C (67,49U gss-1). Os valores máximos da concentração de proteína extracelular obtidos foram semelhantes para os dois fungos avaliados, 6,3g L-1 e 6,5g L-1 para o A. niger 11T53A14 e o A. niger C , respectivamente. Embora não haja diferença significativa entre os valores da atividade enzimática (P˂0,05), o tempo de fermentação para alcançá-lo foi consideravelmente maior (72-96h). Portanto, a linhagem A. niger 11T53A14 mostrou-se mais produtiva por ter produzido, em 48 horas, a atividade máxima que a linhagem A. niger C atingiu somente após 72 de processo.

CONCLUSÃO:

A torta de dendê pura mostrou ser um substrato incompleto para a produção de lipase por A. niger 11T53A14, necessitando ser suplementado com fonte de nitrogênio pela adição de solução de sulfato de amônio.

A adição de 3% de borra de dendê ao meio de fermentação a base de torta de dendê com sulfato de amônio mostrou influenciar positivamente a produção de lipase por A. niger 11T53A14, uma vez que foi capaz de aumentar a máxima atividade em 47,5%.

A comparação do desempenho de A. niger 11T53A14 (mutante) com uma cepa selvagem (A. niger C) mostrou que o meio composto por torta de dendê adicionado de sulfato de amônio e borra de dendê induziu ambas as linhagens a produzir lipases com bons níveis de atividade, além de reduzir o tempo de processo de fermentação de 72 para 48 horas, quando foi utilizada a cepa mutante.

Portanto, os resultados mostraram ser possível aproveitar os resíduos do processo de fabricação do óleo de dendê (torta e borra) para a produção de lipase por Aspergillus niger 11T53A14 e, consequentemente, contribuir para reduzir seu custo de obtenção.

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1CR-2013-1673.R4

Received: December 18, 2013; Accepted: August 04, 2015; Revised: December 03, 2015

*Autor para correspondência: Edmar das Mercês Penha, email: edmar.penha@embrapa.br.

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