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Paidéia (Ribeirão Preto)

Print version ISSN 0103-863XOn-line version ISSN 1982-4327

Paidéia (Ribeirão Preto) vol.12 no.23 Ribeirão Preto  2002

https://doi.org/10.1590/S0103-863X2002000200006 

Inteligência emocional: um construto científico?

 

Emotional intelligence: a scientific construct?

 

 

Richard D. RobertsI; Carmen E. Flores-MendozaII; Elizabeth do NascimentoII

IUniversity of Sidney - Australia
IIFAFICH-Universidade Federal de Minas Gerais

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A inteligência emocional talvez seja o conceito psicológico mais popular do final do século XX. Rodeada mais de expectativa do que comprovação científica, a inteligência emocional não alcança, ainda, uma definição semântica e tampouco de validade psicométrica para que possamos considerá-la um tipo de inteligência. Com base em estudos recentes, o artigo apresenta uma reflexão crítica sobre a inteligência emocional e os instrumentos disponíveis para medi-la e aponta algumas direções para futuras pesquisas.

Palavras-chave: Inteligência emocional; Medição da emoção; Psicologia das emoções.


ABSTRACT

Emotional intelligence is perhaps the most popular psychological concept at the end of the 20th century. Surrounded more by expectative than scientific evidence, emotional intelligence still don't get precise definition and psychometric validity as to be considered a kind of intelligence. The paper presents, based in recent studies, a critical reflection about emotional intelligence and the available instruments to measure it and provides some directions for future researches.

Key-words: Emotional intelligence; emotion's measurement; emotion psychology.


 

 

A psicologia de vez em quando se vê surpreendida com o surgimento de conceitos que caem rapidamente no gosto popular. Não há nada de errado em que isso aconteça, dado que é desejo de toda ciência que seus preceitos sejam compreendidos e aceitos pela população leiga. O problema reside em popularizar o termo antes de comprovar a veracidade do mesmo.

Na década de 90, o termo inteligência emocional (IE) tornou-se conhecido graças à obra 'Emotional Intelligence' de Goleman (1995), um professor da Universidade de Harvard. Em um breve período de tempo, o termo entrou no vocabulário de diversos segmentos da sociedade. Inclusive, diversas instituições de ensino infantil propõem atualmente, como atrativo, a educação da IE para crianças cujos pais se mostram ansiosos por um ensino diferenciado e voltado para o desenvolvimento do cidadão. Também, no mundo do business se realizam numerosas palestras, cursos de treinamento, consultorias, seminários e outros congêneres oferecendo "dicas" sobre como aumentar a IE. No mercado editorial pode-se encontrar diversas obras com o mesmo objetivo.

Por que as pessoas têm se interessado tanto pela chamada 'inteligência emocional'? Ao que parece, a resposta pode estar relacionada com a suposição de que pessoas com melhor gerenciamento das próprias emoções são aquelas que provavelmente são mais bem sucedidas no mercado de trabalho e apresentam melhor qualidade de vida. Numa época altamente tecnológica e competitiva, mas com baixo nível de emprego, o investimento na IE surge como uma alternativa promissora para aumentar o potencial de empregabilidade, se não o próprio pelo menos o dos filhos.

Dado o impacto atual do conceito de 'inteligência emocional', a impressão que se tem é que a psicologia, enquanto ciência, ignorou a relação entre a condução adequada das emoções de um indivíduo e o alcance do bem-estar social e profissional. Assim, a IE constituiria um novo construto na psicologia científica e viria preencher a lacuna deixada pelos tradicionais estudos da psicologia das diferenças individuais. A IE seria, então, um tipo de inteligência e diferente da personalidade.

Como se verá a seguir, é prematuro considerar a IE como um novo construto científico. Embora as perspectivas sejam interessantes, as evidências sobre a natureza e estrutura da IE, veiculadas na literatura especializada, ainda não são suficientemente sólidas, pois existem problemas conceituais e, principalmente, dificuldades de mensuração. Passamos a apresentar o estado da arte sobre a 'inteligência emocional', os instrumentos propostos para medi-la, sua relação com construtos clássicos como inteligência e personalidade e algumas tendências para pesquisas futuras.

 

Inteligência emocional: dificuldade conceitual

Antes da publicação de Goleman (1995), surgia na literatura científica o termo 'inteligência emocional' graças a um artigo de Salovey e Mayer (1990). Segundo esses autores, os seres humanos se distinguiriam num certo tipo de inteligência social que estaria vinculada ao conhecimento das próprias emoções (capacidade para descrever, expressar ou comunicar os próprios sentimentos), ao controle das emoções (reter as emoções, porém sem reprimi-las e canalizá-las conforme a situação e o momento mais oportuno), ao reconhecimento das emoções alheias (sensibilidade aos sinais não verbais das outras pessoas) e ao controle das relações sociais (eficácia interpessoal).

Posteriormente, a definição de inteligência emocional ficou conhecida resumidamente como:

"...habilidade para reconhecer o significado das emoções e suas inter-relações, assim como raciocinar e resolver problemas baseados nelas. A inteligência emocional está envolvida na capacidade de perceber emoções, assimilá-las com base nos sentimentos, avaliá-las e gerenciá-las" (Mayer, Caruso & Salovey, 2000, p. 267).

Tal forma de inteligência não foi incluída nos modelos tradicionais de inteligência como o de Spearman (Inteligência Geral), Thurstone (Habilidades Mentais Primárias) e Guttman (Modelo Radex de Inteligência), o que não significa que houvesse uma desconsideração da competência emocional como uma variável mediadora na relação do sujeito com o meio ambiente (Zeidner, Matthews & Roberts, 2001). Inclusive David Wechsler (criador das escalas Wechsler de inteligência) reconhecia que alguns comportamentos não-intelectivos como curiosidade, persistência ou prudência podiam mediar essa adaptação, sem, no entanto, ter que equipará-los à estrutura da inteligência propriamente dita (Wechsler, 1943, 1950). Apenas no modelo de Guilford (Modelo da Estrutura do Intelecto) se menciona um fator parecido com a IE, chamado de 'cognição do comportamento' (Roberts, Zeidner, & Matthews, 2001). Também, nas últimas pesquisas realizadas na década de 40 no laboratório de Spearman, Wedeck teria descrito um conceito parecido com IE, a que chamou de 'habilidade psicológica', definindo-a como a habilidade de julgar corretamente os sentimentos, humores e motivação do indivíduo (Zeidner, Matthews & Roberts, op.cit.).

Por outro lado, o termo 'inteligência emocional' apresenta estreita similitude com conceitos como "inteligências inter e intrapessoal" de Gardner (1995), que assim os descreve:

"...A inteligência interpessoal está baseada numa capacidade (...) de perceber distinções entre os outros; em especial, (...) estados de ânimo, temperamentos, motivações e intenções (...). Essa capacidade aparece numa forma altamente sofisticada em líderes religiosos ou políticos, professores, terapeutas e pais" [pág. 27]...[A inteligência intrapessoal refere-se a] aspectos internos de uma pessoa: o acesso ao sentimento da própria vida, à gama das próprias emoções, à capacidade de discriminar essas emoções e eventualmente rotulá-las e utilizá-las como uma maneira de entender e orientar o próprio comportamento..." (p.28, grifo nosso).

O conhecido psicólogo americano Robert Sternberg e cols. (2000) defendem um novo construto: a 'inteligência prática'. Os autores também alegam que a inteligência prática, uma das três partes que compõem o modelo triárquico de Sternberg, seria diferente daquela solicitada pelos testes psicométricos e seria exercida exclusivamente no quotidiano das pessoas. Graças ao 'conhecimento tácito', um conhecimento adquirido na vida diária, não ensinado e nem transmitido via canais formais, as pessoas podem resolver os problemas do dia-a-dia. Dentre esses conhecimentos inclui-se aspectos como "conhecer o que dizer para quem, conhecer quando dizer e conhecer como dizer com a máxima eficiência" (Sternberg & cols, 2000, p. xi). A medição da inteligência prática permitiria, portanto, a predição de importantes eventos sociais como sucesso profissional. Um objetivo supostamente conseguido também pela inteligência emocional. A proposta de Sternberg e colaboradores de considerar a inteligência prática como melhor preditora do sucesso quotidiano do que a inteligência psicométrica tem sido severamente criticada por Gottfredson (no prelo). Segundo esta autora, a análise cuidadosa do conjunto de estudos efetuados por Sternberg, ao longo das duas últimas décadas, não corrobora a afirmação que a inteligência prática é mais poderosa do que a inteligência psicométrica (ou fator g). Para essa autora, a inteligência prática, como medida pela bateria de Sternberg & cols. (op. cit.), prediz igual ou menos que a inteligência psicométrica.

A estreita relação entre a 'inteligência prática' de Sternberg e cols. (2000), as 'inteligências inter e intrapessoal' de Gardner (1995) e a 'inteligência emocional' de Mayer e Salovey (1997) com aspectos sociais da vida quotidiana assemelham-nas ao antigo conceito de inteligência social. Na década de 20, Thorndike (citado por Roberts & cols., 2001) teria conceituado a inteligência social como "a sabedoria em contextos sociais" (p.04). Os instrumentos criados para medir as diferenças individuais nesse construto falharam em alcançar uma medida satisfatória, haja vista a dificuldade em encontrar julgamentos sociais precisos (ex. é socialmente correto responder agressivamente a uma forte ofensa?), assim como definir critérios externos para realizar estudos de validade (ex. o que é ser "bem sucedido"?). A análise da validade discriminante e convergente da inteligência social é, pois, uma tarefa difícil de ser levada adiante talvez porque, como afirmam Ford e Tisak (1983), as inteligências social e acadêmica podem ser distintas conceitualmente, mas não na prática.

O estudo de Lee, Wong, Day, Maxwell e Thorpe (2000) constitui um exemplo da dificuldade em estudar as diferenças individuais em inteligência social. Os autores supunham que, à semelhança das inteligências fluida e cristalizada, a inteligência social poderia ser estudada em suas dimensões fluida (ex. habilidade em perceber corretamente os estados internos dos outros) e cristalizada (ex. conhecimento de regras sociais, etiqueta). Os autores utilizaram medidas de inteligência acadêmica fluida (IAF) e cristalizada (IAC) e medidas de inteligência social fluida (ISF) e cristalizada (ISC). Os resultados da análise confirmatória apontaram dados supostamente interessantes: a IAF se correlacionou em 0,30 com ISF e em 0,24 com ISC. A IAC se correlacionou em 0,27 com ISF e 0,40 com ISC. Tais resultados indicariam que, de fato, a inteligência social apresentaria uma dimensão fluida e uma outra cristalizada. No entanto, os resultados foram obtidos sob medidas psicometricamente pobres. No caso, as medidas de IAF eram analogias (verbais e figurativas) e auto-relatos (instrumentos raramente utilizados em pesquisas sobre inteligência psicométrica). As analogias verbais e figurativas apresentavam um coeficiente de precisão de 0,55 e 051, respectivamente. Duas medidas de ISF tinham coeficientes de precisão entre 0,10 (Judgement in Social Situations Test) e 0,31 (Cartoon Predictions). No caso da primeira medida os autores chegam a afirmar que, embora apresentasse um pobre índice de precisão, ela tinha 'boa aparência de validade' (p. 543). Fica pois difícil inferir qualquer conclusão sobre a inteligência social quando se utilizam medidas tão aquém do esperado psicometricamente. A mesma situação pode estar ocorrendo com o construto de inteligência emocional.

Também no terreno da personalidade encontram-se conceitos parecidos com as dimensões da IE. Por exemplo, o termo alexitimia é um construto de personalidade que se refere à dificuldade de um indivíduo em identificar e descrever sentimentos e emoções e à capacidade reduzida de imaginação (Campos, Chiva & Moreau, 2000). A alexitimia estaria subjacente a diversos transtornos mentais, principalmente, ao neuroticismo (Taylor, 1984). Sua relação com a inteligência emocional parece óbvia dado que um indivíduo com alto escore em alexitimia provavelmente apresenta, de maneira inversa, um baixo escore em inteligência emocional. Diversos estudos comprovaram a estreita relação entre esses construtos (Bar-On, 2001; Parker, Taylor & Bagby, 2001).

Também, no Modelo dos Cinco Grandes Fatores da Personalidade (Big Five Factor Model), os fatores Socialização e Abertura (Nunes, 2000)1 que se referem, respectivamente, à capacidade de interação social e de exploração e reconhecimento de novas experiências e emoções, parecem estar relacionados à inteligência emocional.

Deve-se mencionar que o estudo das diferenças individuais na expressão e no controle das emoções não é novidade no campo da psicologia ou da ciência da comunicação. Baseados quase sempre no estudo das expressões faciais, os pesquisadores têm verificado que pessoas, principalmente mulheres, comunicativas, dominantes, exibicionistas, geralmente, são mais habilidosas em decodificar e expressar emoções complexas (ex. sedução) do que indivíduos introvertidos e submissos (Friedman & Riggio, 1999). A habilidade ou competência emocional, portanto, pode refletir aspectos básicos da personalidade.

Em resumo, cabe aos proponentes da IE mostrar qual é o diferencial semântico entre esse construto e aqueles bem estabelecidos na literatura, caso contrário pode tratar-se do 'velho vinho com novo rótulo'. Também, é igualmente importante que se demonstre a adequação das propriedades psicométricas dos instrumentos que pretendem medi-la. Nesse sentido, a seguir, serão apresentadas as medidas empregadas nos estudos da IE, destacando-se especialmente duas das mais mencionadas na literatura especializada.

 

Medidas de inteligência emocional e propriedades psicométricas

Existem diversas medidas de IE. A maioria delas já se encontra disponível no mercado editorial, embora algumas ofereçam informação insuficiente sobre suas propriedades psicométricas. O critério psicométrico é fundamental para estabelecer se a IE é um construto empiricamente útil e conceitualmente justificável. Nesse sentido, a IE deverá apresentar, em primeiro lugar, um coeficiente de correlação com a inteligência psicométrica que não seja nem muito pequeno (o que tornaria a IE independente do construto de inteligência) e nem muito alto (o que tornaria a IE similar à inteligência psicométrica) e, em segundo lugar, a IE deverá ser psicometricamente distinta da personalidade. A análise de diversos instrumentos de IE mostra que, dependendo da metodologia empregada na sua construção, os parâmetros psicométricos apresentam-se diferenciados entre as medidas de IE. Um sério empecilho, portanto, para o estabelecimento da IE como construto científico.

Antes de passar à análise dos instrumentos, deve-se ressaltar que, em geral, as medidas de IE se agrupam em dois conjuntos, a saber: medidas baseadas no desempenho e medidas baseadas no auto-relato. As primeiras solicitam ao testando resolver tarefas relacionadas ao reconhecimento das próprias emoções e das outras pessoas e identificar respostas socialmente adequadas. As segundas solicitam que o testando informe sobre as próprias emoções provocadas por diversas situações e, portanto, o próprio testando informa seu nível de inteligência emocional. As medidas de auto-relato são mais numerosas do que as de desempenho, talvez porque sejam mais fáceis de construir e atendam à pressão comercial das editoras de testes de elaborar instrumentos em breve período de tempo e com menor custo. A seguir, uma breve descrição de tais medidas.

 

Medida de desempenho

- Escala de Níveis de Consciência Emocional - LEAS (Levels of Emotional Awareness Scale). A escala consiste de 20 cenas que provocam quatro tipos de emoções: raiva, medo, felicidade e tristeza. Em cada cena se questiona ao examinando "Como você se sentiria?" e "Como a outra pessoa se sentiria?". O sistema de avaliação consiste em pontuar cada resposta numa escala de 0 a 5, o que corresponderia ao nível de consciência emocional do testando (Lane, Quinlan, Schwartz, Walker & Zeitlin, 1990). O LEAS prediz com certa precisão a capacidade do indivíduo em reconhecer as emoções e de responder a estados de humor aversivos. O LEAS não se correlaciona de maneira significativa com traços de personalidade, mas sim com medidas de inteligência cristalizada (Ciarrochi, Chan & Caputi, 2000).

 

Medidas de auto-relato

- Escala Toronto de Alexitimia - TAS-20 (The Toronto Alexithymia Scale). A escala consiste de 20 itens que avaliam três aspectos da competência emocional: capacidade de identificação dos sentimentos, capacidade de descrição dos sentimentos e pensamento orientado externamente. Parker, Taylor e Bagby (2001) examinaram 734 adultos da cidade de Ontário, Canadá, com o TAS-20 e com uma medida de inteligência emocional (Bar-On Emotional Quotient Inventory-EQ-i). Os resultados apontaram uma forte relação (-0,94) entre a variável latente de alexitimia e a inteligência emocional, embora a análise fatorial tenha indicado que um modelo de dois fatores encontrava um melhor ajuste aos dados do que o modelo de um fator. Esses resultados indicam que é possível predizer alexitimia a partir da IE e vice-versa. Em outro estudo, Bar-On (2001) também encontrou uma correlação alta (cerca de -0,72) entre o TAS e o EQ-i. Portanto, é forte a evidência de que os construtos de alexitimia e inteligência emocional, esta última medida pelo EQ-i, compartilham os mesmos componentes.

- Escala de Traço do Meta-Humor - TMMS (The Trait Meta-Mood Scale). A escala avalia três aspectos da competência emocional: atenção à emoção, reparação da emoção e clareza emocional. O instrumento está baseado nos primeiros conceitos de IE de Mayer e colaboradores (Salovey, Mayer, Goldman, Turvey & Palfai, 1995). Os coeficientes de precisão dos três aspectos da IE medidos pelo TMMS são razoáveis (0,82 para atenção e clareza emocional, porém 0,73 para reparação da emoção). Contudo, a escala correlaciona medianamente com alguns fatores do modelo Big Five. Cite-se, por exemplo, o estudo de Davies, Stankov e Roberts (1998). Os autores encontraram que reparação da emoção se correlacionou em 0,48 com o fator de Abertura e -0,47 com o fator Neuroticismo. O fator clareza emocional se correlacionou 0,48 com Abertura e -0,50 com Neuroticismo. A subescala de atenção à emoção é a que menos se correlacionou com os fatores do Big Five (0,27 com Abertura e 0,05 com Neuroticismo).

- Inventário Schutte de Auto-Relato - SSRI (The Schutte Self-Report Inventory). Baseado nos postulados de Mayer e colaboradores (Schutte & cols., 1998), o inventário avalia: percepção das emoções, gerenciamento das emoções auto-relevantes, gerenciamento das emoções dos outros e uso das emoções. A estrutura fatorial da IE, como medida pelo SSRI, ainda é confusa. Petrides e Furnham (2000) não conseguiram obter evidência de um fator geral ou de componentes da IE como formulados pela teoria de Mayer, mas sim de quatro componentes: regulação do humor, valorização das emoções, habilidades sociais e utilização das emoções. No entanto, Saklofske, Austin e Minski (2001) extraíram um fator geral a partir dos quatro fatores identificados por Petrides e Furnham (2000) e encontraram uma correlação de 0,51 entre o SSRI e o fator de extroversão do Big Five.

- Inventário de Competência Emocional - ECI (Emotional Competence Inventory). Seu criador (Goleman, 1998) propôs uma bateria de cinco escalas de avaliação da inteligência emocional: auto-consciência, auto-regulação, motivação, empatia e habilidades sociais. Contudo, sua última revisão (Boyatzis, Goleman & Rhee, 2000) prevê quatro escalas: auto-consciência, auto-gerenciamento, consciência social e gerenciamento do relacionamento. Até o momento do presente artigo, o instrumento está comercialmente comprometido com a Hay/McBer Group e, portanto, não há dados disponíveis na literatura para fazer uma análise extensa e criteriosa. Boyatzis e cols. (2000) informam coeficientes de precisão entre 0,59 e 0,82 e os dados sobre a validade estão baseados em relatos, notas e documentos não publicados.

Pode-se observar que as medidas de auto-relato (TAS-20, TMMS, SSRI) apresentam correlações significativas com dimensões da personalidade, enquanto que o LEAS, uma medida baseada no desempenho, apresenta maior correlação com inteligência. As diferenças entre ambas formas de medição de IE podem ser observadas no quadro 1.

Além das medidas já mencionadas, na literatura especializada outras duas medidas de IE aparecem como as mais investigadas (uma delas estudada em profundidade por um dos autores do presente artigo) e sob as quais pode-se, portanto, fazer uma análise acurada sobre a pertinência conceitual e psicométrica do construto de IE, a saber: o MEIS e o EQ-i. A primeira é baseada no desempenho e a segunda no auto-relato. A seguir, uma descrição dos dois instrumentos.

 

A Escala Multifatorial de Inteligência Emocional (The Multifactor Emotional Intelligence Scale - MEIS)

O MEIS é uma medida de desempenho e foi construída por Mayer & cols. (Mayer, Caruso & Salovey, 2000; Mayer, Salovey & Caruso, 2000a, 2000b). Ela consiste de quatro escalas e 12 subescalas, a saber:

1. Identificação/percepção das emoções. A escala pretende avaliar a capacidade do indivíduo em perceber e diferenciar as emoções em uma variedade de estímulos. É composta de quatro subescalas: faces (oito fotos), música (oito músicas), design (oito design gráficos gerados por computador) e estórias (seis narrativas). Cada subescala contém entre 42 a 48 estímulos que representam uma diversidade de emoções: raiva, tristeza, felicidade, medo, repugnância e surpresa. Os participantes são solicitados a determinar os sentimentos que representam os estímulos baseados em uma escala de cinco pontos: (1) definitivamente não presente a (5) definitivamente presente.

2. Assimilação de Emoções. Tem como objetivo avaliar a capacidade do indivíduo em comparar as emoções e identificar aquelas que são contrárias ou influenciam outras sensações e pensamentos, assim como manter emoções que facilitem uma determinada ação ou pensamento. A escala contém duas subescalas: 1) sinestesia (seis cenas, 60 estímulos), em que os participantes são solicitados a imaginar um determinado evento com sua correspondente emoção e, logo em seguida, a descreverem as emoções sentidas em uma escala de diferencial semântico de cinco pontos: frio-morno, amarelo-roxo, perspicaz-torpe (sharp-dull), rápido-lento, escuro-claro, baixo-alto, laranja-azul, agradável-desagradável, bom-ruim, doce-azedo (sweet-sour); 2) sentimentos enviesados (quatro cenas, 28 itens), em que os participantes são solicitados a imaginar os sentimentos de uma personagem descrita no cenário (ex. medo e culpa) e depois julgam a pessoa fictícia em sete traços (triste, confiável, tensa, cínica, agressiva, controladora, precipitada) utilizando uma escala de cinco pontos: (1) definitivamente não descreve a (5) definitivamente descreve.

3. Compreensão de emoções. A escala avalia a capacidade do indivíduo em perceber a pertinência de determinadas emoções ou as razões que as justificam. A escala contém quatro subescalas: 1) combinações complexas (oito cenas, oito itens), em que os participantes são questionados sobre quais as combinações de emoções básicas (ex. prazer e antecipação, aceitação e alegria, surpresa e alegria ou prazer e alegria) que correspondem a emoções mais complexas (no caso, otimismo). 2) progressões (oito cenas, oito estímulos), em que os indivíduos avaliam a progressão e a intensificação das emoções através do tempo (ex. "se você se sente culpado e começa a questionar seus valores, você sente: a) depressão..."). Estas duas subescalas são de múltipla escolha. 3) transições (quatro cenas, 24 itens), em que se avalia a compreensão de como as emoções se seguem umas às outras (ex. "uma pessoa está assustada e depois está calma. Entre essas duas emoções de que maneira a pessoa deve se sentir?"). As alternativas de resposta representam seis tipos de emoções: aceitação, medo, raiva, antecipação, surpresa e desapontamento. A resposta é dada considerando uma escala de cinco pontos: (1) extremamente improvável a (5) extremamente provável. 4) relatividade (quatro cenas e 40 estímulos) em que se representam encontros sociais entre duas pessoas fictícias. Solicita-se ao indivíduo que julgue dez sentimentos provavelmente caracterizados nas cenas, considerando uma escala de cinco pontos: (1) extremamente improvável a (5) extremamente provável.

4. Gerenciamento de emoções. Trata-se de uma escala que pretende avaliar a capacidade da pessoa em retornar a um estado de equilíbrio depois de um evento estressor ou ainda a capacidade de aliviar o estresse ou conflito do outro. A escala contém duas subescalas: 1) gerenciamento dos outros (seis vinhetas, 24 itens) em que se solicita aos indivíduos avaliar planos de ação em resposta a pessoas fictícias que requerem auxílio ou assistência. Em cada vinheta se apresentam quatro ações alternativas. A resposta é dada considerando uma escala de cinco pontos: (1) extremamente ineficiente a (5) extremamente eficiente; a segunda subescala, 2) gerenciamento de si mesmo (seis vinhetas, 24 estímulos), é semelhante à subescala anterior, com a diferença de que nesta o indivíduo focaliza somente em si mesmo e não nos outros.

Um problema inicial do MEIS é seu sistema de pontuação. No caso de testes de inteligência a pontuação depende do indivíduo responder corretamente aos itens. A resposta esperada é aquela previamente determinada pelo construtor do teste, baseado sempre em conhecimentos e julgamentos cientificamente aceitos. No caso de itens envolvendo conteúdo emocional, como avaliar as respostas em 'corretas' ou 'incorretas'? Para responder tal questionamento, Mayer e cols. (2000) propuseram três sistemas de pontuação: a) Pontuação pelo consenso, em que a resposta do examinando é comparada com aquela oferecida pelo consenso de um grupo; b) Pontuação pelos especialistas, em que a resposta do examinando é comparada com o critério de um grupo de especialistas em emoções e; c) Pontuação pelo alvo, em que o testando avalia as emoções enquanto elas estão ocorrendo (ex. uma pessoa recitando um poema, pintando um quadro, etc.). Um acordo significativo entre esses três tipos de pontuações significaria que, com certo grau de precisão, as respostas corretas poderiam ser discriminadas daquelas erradas e, então, seria possível a medição do construto (Mayer, Caruso & Salovey, 2000; Mayer & Salovey, 1997; Salovey & Mayer, 1990).

Mayer e cols. (2000) realizaram dois amplos estudos para mostrar que é possível medir adequadamente a IE por meio do MEIS. No primeiro estudo, os autores avaliaram 503 sujeitos com idades variando entre 17 e 70 anos, a maioria de grau universitário. O MEIS foi aplicado em pequenos grupos e de maneira individual. O grau de precisão alcançado pelo grupo de consenso ficou entre 0,49 e 0,94, dependendo do subteste e, no caso da avaliação dos especialistas, os índices de precisão ficaram entre 0,35 e 0,86. Tais coeficientes indicam que o instrumento não apresenta uma consistência interna de grau aceitável pela psicometria (Anastasi & Urbina, 1997) e demonstram que a precisão do instrumento depende do sistema de pontuação utilizado.

Para verificar se o construto é estável, analisou-se a convergência entre os sistemas de pontuação (especialistas e consenso) em todos os subtestes do MEIS. As correlações variaram entre -0,16 e 0,95, sendo que houve um acordo acima de 0,52 em mais da metade das provas. Tais resultados, no entanto, não são suficientemente convincentes para que se aceite uma convergência entre os sistemas de avaliação e indicam que, em algumas provas, o leigo avalia em sentido contrário ao que avalia o especialista.

No segundo estudo, Mayer e cols. (2000) estudaram 229 adolescentes entre 12 e 16 anos de idade. Os dados dos adultos que participaram no primeiro estudo serviram para efeito de comparação com os dos adolescentes. Os resultados apontaram diferenças significativas entre o desempenho dos adolescentes e o dos adultos, o que autorizou a Mayer e seus colegas afirmarem que, semelhante ao desenvolvimento cognitivo, o critério de desenvolvimento da habilidade de IE conforme a idade cronológica foi razoavelmente comprovado. No entanto, tais resultados indicam apenas que houve diferenças entre grupos de idade e não diferenças no desenvolvimento, posto que se tratou de um estudo transversal e não longitudinal.

Para provar a validade do instrumento, Mayer e cols. (op. cit.) correlacionaram as pontuações do MEIS com um antigo teste de inteligência, o Army Alpha. Os autores utilizaram, especificamente, os 30 itens mais difíceis da escala de vocabulário, considerada como fortemente relacionada à inteligência verbal. Os autores esperavam uma correlação entre o MEIS e o teste de inteligência verbal que fosse suficientemente alta para afirmar que a IE é um tipo de inteligência e suficientemente baixa para considerá-la como uma nova habilidade. Encontraram correlações entre 0,16 (Percepção) e 0,40 (Compreensão) no caso dos fatores específicos e 0,36 no caso do fator geral (inteligência emocional geral). Tais resultados reforçariam a hipótese de Mayer e equipe de que a IE faria parte da inteligência geral, não fossem outras correlações encontradas. Eles depararam com correlações também semelhantes entre a IE e alguns atributos do construto de empatia como: sofrimento (0,35), compartilhar (0,26), chorar (0,14), fugir (-0,14) e sentir os outros (0,16). A IE se correlacionou, também, com critérios de funcionamento adaptativo como afeto familiar (0,23) e auto-ajuda (-0,16). No parecer de Mayer e seu colegas, tais resultados podem convergir para a suposição de que o fator Compreensão estaria mais fortemente relacionado à inteligência verbal e o fator Gerenciamento das emoções mais relacionado à empatia. Tal asserção também pode ser interpretada como indicativo de que a IE abrange habilidades tanto cognitivas quanto sociais.

Um trabalho replicando o estudo de Mayer e cols. (op. cit.) foi realizado por Ciarrochi, Chan e Caputi (2000). Estes autores estudaram uma amostra de 134 universitários australianos aplicando o TSDI - Trait-Self Description Inventory (uma versão abreviada do NEO-Personality), o teste Matrizes Progressivas de Raven - Escala Geral e o MEIS. Os pesquisadores encontraram coeficientes de precisão um pouco inferiores aos obtidos no estudo de Mayer e cols. (2000), sendo que alguns deles estavam muito aquém do desejável (ex. 0,35 na prova de combinações e 0,46 na prova de progressões no fator Compreensão das emoções). A única exceção foi a dimensão Identificação da emoção, que apresentou altos índices de precisão nas suas provas (0,76 a 0,88) e, portanto, foi semelhante às obtidas por Mayer e colegas (0,85 a 0,90). No que se refere à análise da estrutura fatorial do MEIS encontrou-se, diferentemente do estudo americano que teria identificado três fatores, apenas dois fatores subjacentes ao MEIS e chamados pelos autores de: percepção da emoção (o primeiro fator) e um misto de compreensão e gerenciamento das emoções (o segundo fator). Por outro lado, de maneira parecida ao estudo de Mayer e cols. (2000), na análise de componentes principais encontrou-se que todas as tarefas se correlacionaram positivamente com um fator geral de inteligência emocional, sendo que as maiores cargas fatoriais foram encontradas nas tarefas de percepção da emoção.

Com relação à validade divergente, o fator geral de inteligência emocional apresentou correlação próxima a zero com o QI (r = 0,05), porém correlações significativas com empatia (0,43), extroversão (0,26), abertura de sentimentos (0,24), auto-estima (0,31), satisfação de vida (0,28) e qualidade de relacionamentos (0,19).

Um outro estudo foi realizado por Roberts, Zeidner e Matthews (2001). Os pesquisadores estudaram uma amostra de 704 sujeitos estagiários da força aérea americana utilizando o MEIS, o TSDI (Trait-Self Description Inventory) e uma forma abreviada de inteligência do ASVAB (Armed Services Vocational Aptitude Battery), o AFQT (Air Force Qualifying Test). Na investigação, aplicou-se, de modo análogo ao estudo de Mayer e cols. (2000), os dois sistemas de pontuação: por consenso e por especialistas. Encontraram-se magnitudes diferenciadas de correlação entre a pontuação do consenso e a pontuação dos especialistas, dependendo da tarefa: 0,78 (Compreensão das emoções); 0,66 (Assimilação emocional); 0,43 (Gerenciamento das emoções) e 0,02 (Identificação das emoções).

A análise da consistência interna apresentou adequados índices de precisão para Identificação/percepção das emoções, Compreensão e Gerenciamento das emoções e inteligência emocional geral. Contudo, alguns subtestes das escalas Compreensão das emoções e Gerenciamento das emoções tiveram índices de precisão baixos (ex. o subteste Progressões teve 0,37). No que se refere à análise fatorial confirmatória, considerando a pontuação de especialistas e do consenso, encontrou-se que um modelo de quatro fatores é mais plausível do que de três fatores, como tinham sugerido os estudos de Mayer e cols. (2000) e Ciarrochi e cols. (2000). No caso da análise da relação entre o MEIS e o AFQT-ASVAB, de acordo com a pontuação do consenso e a pontuação dos especialistas, encontrou-se: 0,09 e 0,23 para Percepção; 0,22 e 0,26 para Assimilação; 0,40 e 0,30 para Compreensão e 0,16 e 0,22 para a escala de Gerenciamento. As correlações obtidas com a medida de personalidade foram mais baixas (0,01 a 0,20) do que as obtidas com a medida de inteligência. Também, considerando a pontuação geral, seja por consenso ou por especialistas, a IE , como medida pelo MEIS e à semelhança do LEAS, apresenta maior correlação com o AFQT (Tabela 1).

 

 

Contudo, o MEIS enfrenta quatro problemas sérios que impedem considerar a IE como um tipo de inteligência. O primeiro deles é a baixa precisão dos subtestes que avaliam fatores considerados de nível superior e, portanto, os mais importantes para predizer comportamentos sociais no mundo real (Progressão, Gerenciamento das emoções dos outros). O segundo problema se refere às intercorrelações entre os subtestes do MEIS. Elas são mais baixas (r de 0,00 a 0,74) do que as que se costuma encontrar em testes de inteligência (geralmente em torno de 0,80 e 0,90). A terceira dificuldade se refere aos resultados da análise fatorial. A estrutura dos fatores mostrou-se instável de estudo a estudo (três fatores no estudo de Mayer & cols., [2000], dois fatores no estudo de Ciarrochi & cols. [2000] e quatro fatores no estudo de Roberts e colaboradores [2001]) e por último, a falta de convergência entre as pontuações dadas pelos especialistas e pelo consenso.

Dado que em outro trabalho Roberts e cols. (2000) demonstraram que o ASVAB é um bom preditor de inteligência cristalizada (relacionada ao conhecimento adquirido) suspeita-se que o MEIS, especialmente as provas de compreensão, meça um tipo de inteligência relacionada à inteligência social de maneira semelhante às provas de Compreensão e Informação das Escalas Wechsler de Inteligência. Contudo, sem antes resolver os problemas de precisão e divergência entre os sistemas de pontuação, pouco se pode avançar no terreno da validade do construto.

Os problemas de precisão do MEIS deram lugar a um refinamento do mesmo: o MSCEIT (Mayer-Salovey-Caruso Emotional Intelligence Test). Até o momento do presente artigo, o MSCEIT encontra-se em sua segunda revisão (MSCEIT/Versão 1.1 e MSCEIT/Versão 2.0) e a análise que se fará, em seguida, está baseada nas informações contidas no manual ainda não publicado pela Multi Health Systems Incorporated (Mayer, Salovey & Caruso, em preparação; Mayer, Salovey, Caruso & Sitarenios, enviado).

Na versão 1.1 do MSCEIT foram excluídos alguns subtestes do MEIS (Música, Estórias, Sentimentos Enviesados, Relatividade e Gerenciamento das Emoções de si e dos outros). Embora sejam precisamente esses subtestes os que deviam ter sido retidos dado a contribuição deles na carga fatorial dos fatores, não há qualquer explicação na literatura disponível sobre o(s) motivo(s) da exclusão. Contrariamente, os subtestes que ficaram na nova versão, principalmente aqueles de Compreensão das Emoções, já tinham apresentado problemas de precisão (Ciarrochi & cols., 2000; Mayer & cols., 2000; Roberts & cols., 2001).

O MSCEIT/Versão 2.0 apresenta menos itens em cada subteste e menos subtestes em cada escala do que o MEIS e o MSCEIT/Versão 1.1. Também aproveita os itens do MSCEIT/Versão 1.1 para combiná-los e compor novos itens. A seleção de itens com maior índice de precisão do MSCEIT/Versão 1.1 permitiu que os coeficientes de precisão dos subtestes do MSCEIT/Versão 2.0 fossem ligeiramente superiores aos dos subtestes da versão anterior. Contudo, o índice médio de precisão dos subtestes, considerando a pontuação por consenso, é menor nas novas versões (MEIS/Versão 1.1 = 0,68; MSCEIT/Versão 2.0 = 0,71) do que na versão original (MEIS = 0,77). Considerando a pontuação dos especialistas, o índice médio de precisão teve um pequeno incremento (MEIS = 0,62; MSCEIT/Versão 2.0 = 0,68). Mesmo assim, tais índices estão longe de serem psicometricamente adequados. Com exceção de casos especiais em que se aceitam índices menores, o renomado psicometrista Cronbach (1998, p.238), afirma "A precisão das pontuações dos testes de capacidade utilizados para decisões importantes é superior a 0,90". Nesse sentido, pode-se questionar, no caso da utilização do instrumento para fins práticos, a validade das inferências elaboradas a partir das pontuações obtidas pelos indivíduos.

Em defesa do avanço psicométrico do MEIS, Mayer e cols. (submetido) afirmam que a última versão, o MSCEIT/2.0, apresenta correlações entre 0,94 e 0,99, dependendo da escala, entre o sistema de pontuação de especialistas e o do consenso. Segundo Mayer e equipe, tais resultados ganham maior relevância caso se considere que, ao invés de utilizar os autores do teste como especialistas, como foi o caso do MEIS, na versão 2.0, participaram 21 membros da Sociedade Internacional de Pesquisas sobre Emoções (International Society of Research on Emotions-ISRE). De fato, os índices de concordância são muito altos e pode haver um avanço em direção à validade do construto. No entanto, é necessário realizar uma replicação do estudo, de preferência por um laboratório independente da empresa editora do MSCEIT. Por outro lado, deve-se considerar a escassa informação contida no manual do MSCEIT/Versão 2.0 sobre as características dos especialistas que participaram do estudo (10 homens e 11 mulheres, idade média de 40 anos), no que se refere à procedência étnica, nacionalidade e especialização. Isso é importante, pois há de se questionar as implicações de uma concordância bastante alta entre especialistas e consenso. A concordância foi sobre um domínio ou sobre um senso comum? Ao que parece, as altas correlações refletem um consenso cultural que independe do conhecimento especializado. À primeira vista, tal constatação constituiria uma vantagem do instrumento, pois desonera o construtor de contratar especialistas; porém dado que se trata de um consenso cultural que difere nas sociedades (um oriental reage emocional e socialmente de maneira parecida a um ocidental?), será bastante difícil construir um corpo de conhecimentos sobre a IE quando o instrumento que pretende medi-la, no caso MEIS/MSCEIT, trabalha sob uma referência instável (opinião de pessoas leigas).

Também se observou que no sistema de pontuação do consenso excluiu-se a identificação de itens mais difíceis (aqueles itens que somente 10% dos indivíduos mais capazes podem responder corretamente) e que foram respondidos incorretamente pelo consenso. Isto representa um sério problema posto que o MSCEIT poderá ser efetivo somente na identificação de níveis inferiores de competência emocional e não na discriminação de níveis superiores. Por último, como Zeidner e cols. (2001) apontaram, Mayer e equipe descuidaram de um dos principais procedimentos na construção de testes, qual seja, a correlação entre versões de um mesmo instrumento. Não há informação sobre qualquer comparação entre o MEIS e o MSCEIT (1.1 ou 2.0) e nem entre as duas versões do MSCEIT. Pode-se inferir que devido às constantes modificações ocorridas durante o desenvolvimento das versões do MEIS, diferentes conceitos foram avaliados. Contudo, deve-se aguardar novas análises de seus autores.

 

O EQ-i (Inventário de Quociente Emocional)

O psicólogo Bar-On (1997) apresentou comercialmente o inventário EQ-i. Trata-se de uma escala com 133 itens, em que se solicita ao sujeito que indique se o conjunto de afirmações (feitas na primeira pessoa do singular) descreve seu comportamento habitual. Nesse sentido, o inventário pode ser considerado uma medida de auto-relato.

O EQ-i apresenta 15 subtestes que pretendem avaliar cinco dimensões de ordem superior, a saber:

1. Habilidade Intrapessoal: autoconsciência emocional, assertividade, autoconsideração, auto-realização e independência.

2. Habilidade Interpessoal: empatia, relacionamento interpessoal e responsabilidade social.

3. Adaptação: resolução de problemas, teste de realidade e flexibilidade.

4. Gerenciamento de estresse: tolerância ao estresse e controle do impulso.

5. Humor geral: felicidade e otimismo.

Existem diversas evidências de que, semelhante ao que ocorre com outras medidas de auto-relato, o EQ-i está mais relacionado com aspectos da personalidade ou da sociabilidade do que com a inteligência psicométrica (Ciarrochi, Chan, Caputi & Roberts, 2001). O EQ-i, por exemplo, embora útil para predizer sucesso acadêmico e capacidade para lidar com estresse, também prediz aspectos da personalidade como ansiedade, depressão e instabilidade emocional. Reforçando tal asserção, encontra-se o estudo de Dawda e Hart (2000) que apresenta correlações de -0,49 (homens) e -0,55 (mulheres) entre a pontuação geral da IE, avaliada pelo EQ-i, e o TAS (Escala Toronto de Alexitimia). Também houve significativas correlações negativas entre o escore total do EQ-i e a pontuação nas escalas de Neuroticismo, Abertura, Sociabilidade e Responsabilidade do NEO-Personality Inventory (-0,62, -0,12, -0,43 e -0,51, respectivamente). No entanto, recentemente, Bar-On (2001) tem apresentado dados na direção contrária. Resultados parciais de uma amostra de 523 sujeitos americanos, comparando o EQ-i e o 16PF (medida de personalidade), mostraram que apenas 5% do que é solicitado pelo EQ-i pode ser considerado de personalidade. Em outra amostra, Bar-On (op. cit.) encontrou baixa superposição entre o EQ-i e medidas cognitivas (1% no caso do WAIS, 8% no caso do WISC e 0,01% no caso do Raven). A superposição ficou maior quando se correlacionou o EQ-i com outras medidas de IE como o TAS-20 (0,52%), TMMS (0,34%) ou o MSCEIT (0,21%). A alta superposição entre o EQ-i e o TAS-20 (Escala Toronto de Alexitimia) indica que o modelo de Bar-On parece estar fortemente relacionado com aspectos da competência social e emocional. Todavia, um resultado de interesse foi o que mostrou que o EQ-i se associa menos à inteligência psicométrica do que o MEIS.

Em um recente estudo, Derksen, Kramer e Katzko (2002) investigaram a validade divergente entre o EQ-i e o GAMA (uma medida não-verbal de inteligência geral, que avalia mais particularmente a inteligência fluida). Esses autores aplicaram ambos testes em uma amostra de 873 sujeitos com idades entre 19 e 84 anos, representantes da população holandesa. Os resultados encontrados indicaram que as correlações entre o EQ-i e o GAMA foram muito baixas, tanto para a amostra total quanto para os sexos separadamente. Tais resultados corroboram os encontrados por Bar-On (1997, 2001), reforçando que o EQ-i se relaciona muito pouco com medidas de inteligência.

Um outro estudo, do canadense Parker (2001), efetuado com adultos mostrou que a IE (medida pelo EQ-i) correlacionou significativamente com algumas dimensões de personalidade (Neuroticismo e Socialização), porém grande parte da variabilidade no EQ-i não foi explicada pelas escalas do NEO-Personality Inventory. Num segundo estudo, realizado com jovens recém admitidos à universidade, o pesquisador avaliou a IE comparando os resultados obtidos no EQ-i com as notas escolares. Os resultados mostraram que o grupo de alunos que tinha obtido notas escolares altas também obteve pontuações altas no EQ-i. O grupo que tinha obtido notas baixas revelou menor pontuação no EQ-i. Contudo, Newsome, Day e Catano (2000) encontraram que a habilidade cognitiva conseguiu predizer o alcance acadêmico de uma amostra de estudantes canadenses melhor do que o EQ-i. Inclusive a correlação entre o EQ-i e sucesso acadêmico foi de 0,01.

Petrides e Furnham (2001) estudaram uma amostra de 166 escolares e encontraram que o EQ-i se correlacionou em -0,73 com Neuroticismo e 0,54 com Extroversão. A análise fatorial sugeriu que algumas escalas do EQ-i (ex. tolerância ao estresse e empatia) estão carregadas de alguns fatores do Big Five Model (como baixo neuroticismo e alta socialização). Os autores sugerem que a IE pode ser um traço de ordem inferior do modelo do Big Five Factors. Nessa direção, o estudo de Saklofske, Austin e Minski (2001) efetuado com 354 estudantes canadenses mostrou que a IE, medida por uma breve escala de auto-relato, se correlacionou negativamente com Neuroticismo e positivamente com Extroversão, Abertura, Socialização e Responsabilidade (fatores do Big Five). Não encontraram correlação significativa com habilidade cognitiva.

Assim, enquanto medidas de desempenho se correlacionam mais com inteligência psicométrica, as de auto-relato se associam mais com aspectos da competência sócio-emocional e com certos traços de personalidade. No entanto, as medidas de desempenho, principalmente o MEIS/MSCEIT, ainda apresentam propriedades psicométricas insuficientes e as medidas de auto-relato, embora úteis para predizer aspectos importantes da vida quotidiana (sucesso acadêmico e ocupacional), não fornecem sustentação à tese de que a IE é um tipo de inteligência.

A inteligência, como medida pelos testes psicológicos, é provavelmente o construto mais estudado na psicologia científica (Flores-Mendoza & Nascimento, no prelo). Embora sua definição ainda seja motivo de debate, cada vez mais se aproxima, no cenário acadêmico, do modelo hierárquico como sendo a explanação mais plausível da estrutura da inteligência. Tal modelo prevê a participação de numerosas habilidades, desde as mais simples até as mais complexas, sendo que a posição delas na estrutura da inteligência dependerá do nível de complexidade que apresentam. As habilidades mais simples estariam na base da estrutura e habilidades mais complexas estariam no topo. Um exemplo deste modelo, e o mais comentado e respeitado atualmente pelos pesquisadores de inteligência, é o de Carroll (1993). Seu modelo, chamado de "Teoria dos Três Estratos", foi obtido graças à análise dos estudos fatoriais mais importantes realizados no século XX. Tal análise tem propiciado numerosos estudos em que se ressalta, desta vez sem sombra de dúvidas, a possibilidade de predizer cientificamente aspectos importantes da vida social e quotidiana do ser humano, a partir da inteligência psicométrica (Gottfredson, 1997). Resta apenas chegar a um acordo sobre a natureza e a posição das inteligências fluida e cristalizada na estrutura geral da inteligência.

No que se refere à IE, não se vislumbra, até o presente momento, evidências suficientemente sólidas que dêem respaldo à sua validade enquanto componente da estrutura da inteligência humana. Como dito anteriormente, as medidas de auto-relato como o EQ-i, embora apresentem adequada precisão, a análise fatorial revela alta superposição com dimensões de personalidade e de sociabilidade, e pouco com medidas de inteligência. Por outro lado, as medidas de desempenho mostram problemas de confiabilidade, embora apresente maior correlação com medidas de inteligência.

 

Direções para futuras pesquisas

A inteligência emocional e o instrumento que melhor pretende medi-la, o MEIS/MSCEIT, encontram-se em uma fase inicial de estudos. Para alcançar o grau científico em que se encontra a inteligência psicométrica, os estudos de IE devem cumprir alguns requisitos, entre eles:

 

Definição conceitual

A IE aparenta teoricamente possuir uma definição clara, porém as dimensões que a caracterizam também podem ser encontradas em outros construtos amplamente conhecidos na psicologia clínica. A definição dada por Mayer e cols. (2000) abrange tanto aspectos cognitivos (percepção e compreensão de emoções) como aspectos sociais (gerenciamento de emoções). Bar-On (1997) prefere rotular a IE como 'competência emocional' e sua medida, o EQ-i, avalia, entre outras coisas, responsabilidade social, tolerância ao estresse, controle dos impulsos (aspectos mais relacionados com a personalidade). É provável que a abrangência do conceito seja a fonte das dificuldades psicométricas dos instrumentos criados para avaliar a IE e dos resultados contraditórios quanto à validade do construto.

Uma proposta para melhorar tal estado de confusão conceitual foi oferecida pelos ingleses Petrides e Furnham (2001), da University College London. Segundo esses pesquisadores, a IE pode ser conceituada de duas maneiras, conforme o tipo de medição: medições por meio de auto-relato avaliariam habilidades de autopercepção e tendências comportamentais (ou traço de IE) e medidas baseadas em desempenho avaliariam habilidades de processar informações carregadas de emoção (ou processamento de informação emocional). Em apoio a essa proposta, os autores apresentaram diversos estudos realizados com adolescentes, jovens universitários e trabalhadores. Os resultados apontariam a IE como um fator isolado de ordem inferior em estruturas fatoriais de modelos de personalidade bem estabelecidos como o modelo PEN (Psicoticismo, Extroversão e Neuroticismo) de H. Eysenck e o modelo dos Cinco Grandes Fatores (Big Five). Em todo caso, tal divisão poderia ser um ponto de partida para o estudo científico da natureza da IE.

Melhorar o sistema de pontuação

A medida mais refinada no estudo da IE constitui o MEIS/MSCEIT, uma vez que solicita habilidades do sujeito e não apenas a opinião deste, como é o caso das medidas de auto-relato. Contudo, seu critério de pontuação é duvidoso. Para decidir se uma resposta está correta ou não, os estudos do MEIS/MSCEIT consideram a opinião de um grupo (seja de leigos ou de especialistas). Segundo Roberts e cols. (2001) o emprego de leigos e especialistas se justificaria para níveis superiores de IE (gerenciamento de emoções), mas não para níveis inferiores (percepção e valoração das emoções). Decidir se determinado comportamento, físico-facial, por exemplo, denota sentimento de raiva ou de tristeza ou de qualquer outro estado, pode ser avaliado com razoável precisão apenas por especialistas. Avaliar habilidades mais complexas como manipulação e/ou gerenciamento de emoções requer referências do grupo social e cultural ao qual o sujeito pertence, assim como das particularidades de personalidade que rodeiam o controle das emoções. Neste caso, a opinião dos especialistas não parece ser suficiente (primeiro porque estes se baseariam em resultados estatísticos de pesquisas psicológicas e segundo porque estes freqüentemente refletem diversas posturas teóricas - a opinião de um psicanalista seria diferente daquela dada por um comportamentalista); porém, a opinião de leigos não é isenta de problemas. Ela poderá apresentar instabilidade, dada a concorrência de diversas variáveis, entre elas o caráter transitório dos modos, costumes e normas sociais. Essa dificuldade de pontuação quase não se observa em testes de inteligência, posto que, seus itens exigem apenas uma resposta correta, resposta esta baseada na lógica, na semântica, no conhecimento empírico e factual. Esta condição permite a comparação de estudos transculturais e longitudinais (Guttman, 1965). O sistema de pontuação do MEIS, portanto, dificulta a realização de tal empreendimento, considerando que as avaliações poderão variar de comunidade para comunidade e de época para época.

Realizar estudos de validade

É necessário realizar estudos que mostrem a correlação entre as respostas dadas pelos sujeitos em medidas de auto-relato e respostas de pessoas com as quais o sujeito convive. Tal informação serviria para avaliar a influência de respostas que refletem mais uma competência social desejada do que a habilidade propriamente dita. E, ao que parece, medidas de auto-relato parecem cobrir melhor dimensões de personalidade (otimismo, controle dos impulsos, assertividade) do que inteligência propriamente dita (Davies & cols., 1998). No que se refere a medidas de desempenho, faltam estudos que utilizem medidas de inteligência mais diretamente relacionadas com a inteligência fluida. Até o momento, têm-se utilizado medidas fora de uso como Army Alpha (Mayer & cols., 2000) ou medidas de inteligência cristalizada como o AFQT/ASVAB (Roberts & cols., 2001). É curioso observar que quando se utilizam medidas de inteligência fluida, como o Raven, a correlação com a IE é perto de zero (Ciarrochi & cols., 2000).

 

Considerações finais

A inteligência emocional é um dos conceitos psicológicos mais populares e recentes desta última década. Acredita-se que ela esteja associada à capacidade das pessoas de perceber e gerenciar suas próprias emoções assim como perceber e, porque não, conduzir as dos outros. Sua rápida absorção pela sociedade deve-se à crença de que a IE está relacionada tanto ao bem-estar do indivíduo quanto ao seu sucesso profissional. Em função de tal associação, diversas medidas foram criadas para avaliar o construto. No entanto, como se viu ao longo do artigo, as investigações e as discussões ainda encontram-se em um estágio inicial. Diversos problemas metodológicos e, principalmente conceituais, rodeiam a IE. Não há certeza se a IE é um tipo de inteligência (por exemplo, inteligência cristalizada) ou se ela pertence ao campo da personalidade (por exemplo, como componente de ordem inferior). Parece haver sérias evidências que a IE não é inteligência psicométrica, do tipo fluido (ou fator g) reconhecida em um século de investigações e para a qual existem diversas medidas psicometricamente bem construídas. Assim sendo, pode-se afirmar que a IE é um conceito ainda em fase de construção e suas medidas precisam ser refinadas. Portanto, o alarde da mídia e de certos setores acadêmicos desprevenidos não se justifica no momento atual da ciência psicológica.

 

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Endereço para correspondência
Carmen E. Flores-Mendonza
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de Psicologia, Sala 4042
Universidade Federal de Minas Gerais
Belo Horizonte, MG, Av. Antônio Carlos, 6627, Cep 31270-901
E-mail carmencita@fafich.ufmg.br

Artigo recebido para publicação em janeiro de 2002 ; aceito em abril de 2002

 

 

1 Tradução do original em inglês "Agreeableness" e "Openness".

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