SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.13 issue25Adoption in the media: review of national and international literature author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

  • On index processCited by Google
  • Have no similar articlesSimilars in SciELO
  • On index processSimilars in Google

Share


Paidéia (Ribeirão Preto)

On-line version ISSN 1982-4327

Paidéia (Ribeirão Preto) vol.13 no.25 Ribeirão Preto Jan.\June 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-863X2003000200011 

RESENHA

 

Inteligência humana. Abordagens biológicas e cognitivas

 

 

Luísa Faria

FPCE - Universidade do Porto - Portugal

 

 

Falar de inteligência implica debater um dos temas mais importantes e mais controversos da Psicologia e, simultaneamente, um dos atributos psicológicos mais valorizados e mais temidos socialmente: por exemplo, a existência de uma correlação positiva entre o quociente de inteligência (QI) e os resultados escolares é uma das constatações mais antigas e mais regularmente confirmadas pela Psicologia.

A falta de acordo quanto à definição e formas de avaliação deste construto, bem visível nas polêmicas travadas por psicólogos e educadores, em debates, obras e simpósios sobre o tema, sobretudo durante o século XX, não diminui a aceitação generalizada de que estamos perante um dos atributos psicológicos mais relevantes e com maior impacto na realização, no sucesso e no bem-estar global dos indivíduos e das sociedades.

Mas afinal o que é a inteligência? Haverá uma inteligência ou várias? Como se mede e quais as qualidades de uma boa medida da inteligência? De que fatores dependem a sua evolução - hereditariedade ou meio? Haverá diferenças de sexo na capacidade intelectual? Será a inteligência treinável? E as novas inteligências - por exemplo, a social e a emocional - qual a sua importância na sociedade atual?

Estes são alguns dos temas que a obra "Inteligência humana. Abordagens biológicas e cognitivas" debate, de forma direta, sucinta, pragmática e didática, com uma linguagem simultaneamente cuidada e acessível a vários públicos - estudantes, professores, psicólogos e educadores em geral .

Ao longo de 14 capítulos e cerca de 250 pági nas, o Prof. José Aparecido da Silva demonstra-nos de que forma a inteligência atravessa praticamente toda a história da Psicologia, dando-nos, assim, a oportunidade de utilizar a obra como um instrumento de consulta e de atualização rápida no domínio.

Esta obra diz-nos muito sobre o seu autor, principalmente diz-nos da sua curiosidade intelectual e da sua capacidade de atualização sobre um tema, nomeadamente pelo seu desejo de divulgar as mais recentes e desafiadoras conclusões sobre a inteligência, mesmo quando são controversas.

Passemos, então, à apresentação da obra.

O capítulo 1, "Teoria da inteligência através dos tempos", faz-nos uma resenha histórica acerca da definição e da estrutura da inteligência, desde a antiguidade clássica, com Pitágoras (580 a.C.-500 a.C.) e o dualismo mente-corpo, até à era da medida da inteligência, nos séculos XIX e XX, onde são destacadas as contribuições de Galton - que inicia a avaliação objetiva da inteligência -, Cattell, Binet, Stern, Spearman, Terman e Wechsler, entre outros. Como balanço, o autor fala-nos das controvérsias natureza-educação (nature-nurture) e entre o caráter unitário ou polifacetado da inteligência, que continuam a manter acesa a discussão em torno deste construto.

No capítulo 2, "Concepções de inteligência", o autor aborda as teorias implícitas de inteligência, ou seja, as concepções do senso comum, do leigo, do não especialista acerca da inteligência. De fato, todos nós somos capazes de definir e avaliar a nossa inteligência e a dos outros nas mais variadas situações do quotidiano, e tais concepções ou teorias implícitas afetam o nosso comportamento e as nossas interações.

Por sua vez, os especialistas no domínio, os que constroem as teorias explícitas - teorias formais sobre a natureza e desenvolvimento da inteligência, fundadas em avaliações presumivelmente objetivas da mesma, através de testes -, também são influenciados pelas suas próprias teorias implícitas.

Assim, a partir de estudos de Sternberg com leigos, nas teorias implícitas surgem três dimensões caracterizadoras da inteligência, que curiosamente também constituem dimensões valorizadas pelas principais teorias explícitas: referimo-nos à capacidade para resolver problemas (problem solving), à aptidão verbal e à competência social.

Contudo, a constatação de que as concepções dos leigos são influenciadas pela cultura, leva o autor a assinalar o fato das concepções de inteligência variarem entre culturas: na verdade, diferentes sociedades e diferentes culturas valorizam aspectos diversos da capacidade intelectual.

O capítulo 3, "Abordagens fatoriais da inteligência", e o capítulo 4, "Abordagens biológicas e cognitivas da inteligência", apresentam-nos, cronologicamente, as principais teorias sobre a inteligência, começando com a perspectiva psicométrica ou fatorial, que vigorou até aos anos 60 do século XX, centrando-se na identificação dos fatores explicativos da capacidade intelectual (através da técnica de análise fatorial) e preocupando-se em medir e identificar quem tem inteligência e quem é mais e menos inteligente, mas mostrando menos preocupação em saber o que é a inteligência.

Começando com Spearman e o fator g, até Guilford e a visão polifacetada da inteligência (com 150 aptidões diferentes), esta perspectiva é desenvolvida pelo autor, sendo fundamental realçar a sua importância na avaliação, na medida e na seleção dos indivíduos, permanecendo muitos dos seus conceitos ainda atuais em Psicologia, nomeadamente o fator g, a visão polifacetada da inteligência e a importância das qualidades psicométricas das medidas de inteligência.

No capítulo 4 surgem as abordagens biológicas e cognitivas, mais recentes e alvo de investigação contemporânea. Salientamos, nas abordagens biológicas, a perspectiva de Hebb e as três inteligências - A (potencial), B (aprendida ou realizada) e C (inteligência avaliada pelos testes) -, bem como a conclusão do autor pela falta de indicadores biológicos, claros e categóricos, acerca da inteligência.

Por sua vez, nas abordagens cognitivistas, são focadas as importantes contribuições quer de Gardner, com a teoria das inteligências múltiplas (verbal-linguística, musical, lógico-matemática, espacial, corporal-cinestésica, pessoal, naturalista, espiritual e existencial) e as suas implicações educacionais, quer de Sternberg, com a teoria triárquica (três sub-teorias ou três tipos de inteligência - componencial ou convencional, experiencial ou criativa e contextual ou prática) e as respectivas implicações para o ensino.

O autor conclui salientando não só a falta de visão conceptual e metodológica comum às várias teorias, mas também a multiplicidade de estudos e de técnicas e os sinais de vitalidade no domínio.

Os capítulos 5, "Inteligência geral", e 6, "Inteligências múltiplas", discutem a questão do número de inteligências, ou seja, a controvérsia fator g vs. múltiplas aptidões, que atravessou a Psicologia desde a polêmica entre Spearman e Thurstone.

O capítulo 7, com o sugestivo título "Quem é mais inteligente: o Homem ou a Mulher?", aborda outro tema clássico no domínio, o das diferenças de sexo, concluindo pela superioridade feminina nos domínios verbal, das habilidades motoras finas, da velocidade perceptiva e da descodificação não-verbal, e pela superioridade masculina nos domínios visuo-espacial, da matemática e das ciências, das analogias verbais e do raciocínio mecânico. A controvérsia acerca das diferenças de sexo continua, havendo, contudo, evidências empíricas de um progressivo esbatimento das referidas diferenças a que não será alheio, entre outras causas, uma maior aproximação nas práticas de socialização.

Os capítulos 8, "Quociente intelectual e hereditariedade", e 9, "Interação gene-ambiente: mitos e verdades", abordam outro tema clássico no estudo da inteligência - a polêmica natureza-educação, hereditariedade-meio ou nature-nurture.

Aqui é apresentada a tendência para fazer equivaler a hereditariedade à irreversibilidade ou imutabilidade e a educação ou ambiente à possibilidade de transformação, que o autor discute, a partir de resultados de estudos com gêmeos monozigóticos e dizigóticos, crianças adotadas e indivíduos aparentados.

Assim, o autor discute uma série de mitos acerca da hereditariedade e do meio, apresentando exemplos, como o das crianças com fenilcetonúria, e pondo em relevo a importância da intervenção precoce.

Conclui que o meio faz a diferença, sobretudo nos primeiros anos de vida, pois pode potenciar os efeitos da hereditariedade: nas suas palavras, "os genes determinam a probabilidade de ocorrência dos comportamentos, mas não os comportamentos per se" (p. 112).

O capítulo 10, "Inteligência emocional", define esta nova e controversa inteligência, popularizada pelo best seller de Daniel Goleman, em 1995, falan-do-nos do Quociente Emocional (QE), em vez do popular QI, e da forma como vai afetar as nossas vidas e o nosso sucesso profissional.

Diz-nos o autor que a inteligência emocional, enquanto capacidade para "monitorizar as suas próprias emoções e as dos outros, para discriminar entre os diferentes tipos de emoções e, também, a capacidade para usar as informações sobre as diferentes emoções com o objetivo de controlar e orientar o seu próprio pensamento e as suas ações" (pp. 114-115), se tem revelado de enorme interesse e valor preditivo no domínio profissional (liderança, desempenho individual e em grupo) e nas organizações em geral, justificando o investimento atual - teórico, empírico e da medida - neste domínio.

O capítulo 11, "Inteligência: ensino e tecnologia", fala-nos do treino da inteligência e das inúmeras possibilidades de "ensinar a inteligência", com a apresentação breve de alguns programas de treino e aceleração cognitiva, concluindo pela importância da contribuição das novas tecnologias para o ensino da inteligência, mas também para o fato incontornável do papel do professor na sala de aula ser insubstituível.

O capítulo 12, "Inteligência: mitos e verdades", apresenta e discute 12 mitos acerca da inteligência, nomeadamente se a inteligência é unitária ou múltipla, se a inteligência pode ser medida, se está correlacionada com o tamanho da cabeça, se é determinada pela data de nascimento, se tem evoluído geracionalmente, se difere entre sexos, funcionando como um capítulo-síntese de alguns temas discutidos ao longo da obra.

Finalmente, os capítulos 13, "Mensuração da inteligência", e 14, "Propriedades metrológicas dos testes de inteligência", falam-nos dos primórdios da medida da inteligência em Psicologia, com Galton, Cattell e Binet, do movimento dos testes e das escalas mais usadas, como a Stanford-Binet e a WISC e WAIS de Wechsler, e das qualidades psicométricas dos testes.

Em síntese, resta-nos concluir, dizendo que estamos perante uma obra que vale a pena descobrir, pela sua atualidade e exaustividade, a bem da Inteligência e da Psicologia.

 

 

Texto que serviu de suporte à apresentação oral da obra, no âmbito do Seminário - "Inteligência(s) e comportamento(s)", que decorreu na Universidade Fernando Pessoa (UFP), no Porto, em 27 de Janeiro de 2003.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License