SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.16 número33EditorialThe educational speech under Pierre Bourdieu sociological perspective índice de autoresíndice de materiabúsqueda de artículos
Home Pagelista alfabética de revistas  

Paidéia (Ribeirão Preto)

versión impresa ISSN 0103-863X

Paidéia (Ribeirão Preto) v.16 n.33 Ribeirão Preto enero/abr. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-863X2006000100002 

SEÇÃO ESPECIAL

 

Carta a um mestre

 

 

Recompor imagens, rever um passado que já tem quase quatro décadas e tentar montar uma seqüência que faça sentido a quem dela ainda ouviu falar pouco... tarefa difícil... mas que envolve ao escrever, mais do que fazer um documento, colocar as impressões de quem viveu próximo e acompanhou - de estudante da primeira turma da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto a docente com 30 anos já de casa - Um Jovem Professor Belga, cidadão Brasileiro.

Quisera que estas palavras soassem como as de uma carta, dirigida a este Mestre, o Professor André Jacquemin. Sei que é necessário que a história não se perca; conversamos vezes sem conta sobre isto, na sua sala do CPA. Mas, como diz a canção

"navegar é preciso, viver não é preciso"

Mas temos sim que recordar

"Voltar no tempo...

Soltar as amarras que nos prendem ao presente

E vagar onde aporte o pensamento,

Trazendo as lembranças de um tempo que marcou

A construção de uma Faculdade, e, nela,

Um curso que, iniciado, implantou princípios e saberes

Pela dedicação e competência de jovens

Que se dispuseram a dar o melhor de si

Expandindo o conhecimento advindo de um outro país".

Urge deixar marcado o que trouxe, plantou e colheu, o que significa dar voz à necessidade premente, neste momento, de ao recriar as situações passadas, lembrar as idéias, os princípios e a sua vontade de construir, vinda da terra distante onde nasceu. Em outros termos, é preciso fazer surgir e eternizar a sua presença nesta casa. Portanto, não se iluda Mestre, porque não existe a permissão de partir e de poder ser esquecido!

Era 1966 - A juventude com seu idealismo o fez deixar seu país para se dedicar a um trabalho em terra distante, atraído pelo convite/promessa de um grande visionário, o criador de uma Faculdade mais virtual do que real- Professor Lucien Lison, conterrâneo seu, que dizia aqui existir um campo fértil para 'plantar e colher', para fazer Ciência e também Psicologia (desde que científica).

Esse jovem Mestre aportou com uma bagagem de sonhos/desejos, com uma vontade imensa que transparecia na alegria das aulas, na ausência de recusa de qualquer trabalho/missão por mais incompreensíveis que fossem as situações com que se deparava. (que não eram poucas,professor). E nós, alunos, tínhamos defasagens muito grandes e a cada momento era preciso que criassem novas disciplinas... gerando outras tantas tarefas... Mas, prevalecia sempre o ideal de prover uma formação de excelência.

Seguindo passo a passo, vê-se que sempre houve o borbulhar de idéias novas, e, a distância no tempo permite traçar a linha da sua aceitação gradativa de uma cultura, de um povo, ao lado da entrega constante de sua força de trabalho para construir este Departamento de Psicologia e Educação e esta Faculdade de Filosofia!

Decorridas duas décadas e meia, faltava ainda fazer alguma coisa? Sim, apenas e tão somente firmar no papel aquilo que há muito era a realidade da sua atuação: tornar-se brasileiro!!! E você o fez!!!

E os seus Princípios, Professor André? Sempre seguidos a risca e dentro de uma Ética de altíssimo nível: Desde a Camaradagem com seus pares; no decorrer dos anos, sua Honestidade como uma constante; a Seriedade no Trabalho; aliada à Retidão de caráter; sobressaindo a Lhaneza no trato; e por fim o Acolhimento, porque o estudante batia na sua porta e era sempre recebido.

Talvez os sonhos/desejos não tenham se realizado da maneira como pretendia; contudo, quem olha o seu trabalho, de um lado vê a semente plantada e regada a Cursos, Exames Orais, Monografias, Defesas; de outro, um Doutorado, uma Livre Docência e um Titular, acompanhados da chefia do Departamento, depois, da Direção de uma Unidade da USP, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, e, por fim, a coordenação do recém criado Programa de Pós-Graduação em Psicologia.

E, há um desfilar imenso de alunos e orientandos que tiveram o privilégio de beber da fonte de sua energia, vivenciaram a relação Mestre x Aprendiz e estão por este mundo afora, agora com a tarefa de multiplicar o que receberam do Professor André Jacquemin.

Ainda, a Pós-Graduação permitiu, uma vez mais, a oportunidade de juntar esforços; sua crença indicava que era preciso construir um Programa, na área da Psicologia que chegasse à marca da 'Excelência'; e é para onde ele caminha, porque o compromisso que instalou permanece, levando a que se 'lute o bom combate', razão porque o Programa de Pós para o qual lançou a pedra fundamental já começa a 'estar pelo mundo'. De início, eram pouquíssimos os recursos e ainda assim, como coordenador, arquitetou e deixou pronta uma primeira infra-estrutura, que permite trabalhar até hoje.São as salas de Seminário, a base administrativa, a necessidade de avaliação dos trabalhos de pesquisa que estavam em andamento- tudo isto é mérito seu, Mestre. Dir-se-ia que plantou tão bem, que os céus não permitiram que as sementes se perdessem e elas foram se mantendo e frutificando...

Professor, o senhor honrou todos os seus princípios e é preciso dizer, Professor André: obrigado porque veio, porque permaneceu enfrentando o bom e o ruim desta terra e fez nascerem linhas importantes de pesquisa e extensão que se disseminam por este Brasil afora. Nosso eterno reconhecimento a este Cidadão Brasileiro por opção.

 

Zélia Maria Mendes Biasoli Alves