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Paidéia (Ribeirão Preto)

Print version ISSN 0103-863XOn-line version ISSN 1982-4327

Paidéia (Ribeirão Preto) vol.16 no.35 Ribeirão Preto Sept./Dec. 2006

https://doi.org/10.1590/S0103-863X2006000300011 

PESQUISAS EMPÍRICAS

 

Continuidade dos estilos parentais através das gerações - transmissão intergeracional de estilos parentais

 

Continuity of the parental styles through the generations

 

 

Lidia Natalia Dobrianskyj Weber1; Gabrielle Ana Selig; Marcela Galvão Bernardi; Ana Paula Viezzer Salvador

Universidade Federal do Paraná

 

 


RESUMO

Práticas educativas parentais têm sido investigadas há várias décadas e são consideradas como importantes preditores para o desenvolvimento infantil e vêm servindo de modelo para os pais interagirem com a sua prole. Esta pesquisa teve como objetivo investigar a transmissão intergeracional dos estilos parentais. Foram entrevistadas 21 mulheres, de sete famílias distintas, respeitando a linearidade trigeracional, utilizando-se a Entrevista de Apego Adulto, desenvolvida por George, Kaplan e Main e as Escalas de Qualidade de Interação Familiar - EQIF de Weber e colaboradores. Para análise dos dados utilizou-se o teste não-paramétrico de Mann-Whitney U. Os resultados mostram que em 91,7% dos casos ficou demonstrada a transmissão intergeracional. Da primeira para a terceira geração os dados revelaram pais sensivelmente mais autoritários do que as mães e estas mais submissas. Esses resultados levam à conclusão de que é necessária a divulgação de práticas educativas parentais adequadas como estratégias de prevenção.

Palavras-chave: Intergeracionalidade, Estilos Parentais, Práticas Educativas.


ABSTRACT

Parental practices have been investigated during decades and they are considered as important predictive factors in the child development and they provide a model of parental interaction with their children. This research had as objective to investigate the intergenerational transmission of the parental styles. Interviews were conducted with 21 women, from seven distinct families, respecting the trigenerational linearity, using the Adult Attachment Interview developed by George, Kaplan e Main and the Scales of Quality of Familiar Interaction Scales - EQIF of Weber and colaborators. It was used for the data analysis the non-parametric test Mann-Whitney U. Intergenerational transmission was found in 91.7% of the cases. From first to third generation the data showed that fathers were sensibly more authoritarian than the mothers and that they were more submissive. These results show that it is necessary to divulgate the adequated parenting practices as one prevention strategie.

Keywords: Intergenerationality, Parenting Styles, Parenting Practices.


 

 

Introdução

O estudo da relação entre pais e filhos tem sido desenvolvido por vários pesquisadores por meio dos estilos parentais. Esta linha de pesquisa teve o seu início marcado com os estudos de Baumrind (1966, 1967,1971; Baumrind & Black, 1967), que formulou três protótipos parentais (permissivo, autoritário e autoritativo), baseados no controle por parte deles. O primeiro - permissivo - corresponderia às relações entre pais e filhos nas quais aqueles cobram poucas responsabilidades da criança, permitindo que ela se auto-regule. Sua característica é o reforçamento positivo. O segundo (autoritário), é composto de pais que visam controlar e avaliar o comportamento dos filhos através de padrões, em geral, absolutos. Há restrições da autonomia da criança e o ponto de vista dela não é considerado. Estes pais utilizam com freqüência punições e reforçamento negativo. O estilo autoritativo é encontrado nos que procuram direcionar as atividades das crianças, avaliando o ponto de vista dela. Há utilização, principalmente, de reforçamento positivo e regras claras e consistentes.

Maccoby e Martin (1983) reorganizaram esta classificação através das dimensões de exigência e responsividade, desmembrando o estilo permissivo em dois: indulgente e negligente. Pode-se entender por exigência a atitude dos pais de impor limites e regras, enquanto a responsividade são as atitudes de compreensão deles para com os filhos. Segundo esta diretiva, os pais autoritários possuem alta exigência e baixa responsividade; os permissivos teriam baixa exigência e alta responsividade; os autoritativos, alta exigência e responsividade e os negligentes, baixa exigência e responsividade. Estes autores defendem que o estilo parental influencia o comportamento das crianças e que os do tipo negligente e indulgente estão geralmente associados a problemas no desenvolvimento dos filhos; enquanto que pais autoritativos - com alto padrão de exigência e alta responsividade - geram crianças mais competentes emocional e socialmente.

Darling e Steinberg (1993) propuseram o entendimento de estilo parental como o contexto em que os pais influenciam seus filhos através de suas práticas de acordo com suas crenças e valores, indo além da combinação entre exigência e responsividade. Estes autores ressaltaram a importância de se manter clara a diferença entre "estilo" parental e "práticas" parentais, que correspondem a comportamentos definidos por conteúdos específicos e são estratégias usadas para suprimir comportamentos considerados inadequados ou incentivar a ocorrência de comportamentos adequados (Alvarenga, 2001). Já os estilos constituem o conjunto de atitudes dos pais, são "manifestações deles em direção a seus filhos que caracterizam a natureza da interação entre esses" (Reppold, Pacheco, Bardagi & Hutz, 2002, p. 23). O presente estudo utilizou as práticas parentais para acessar a relação pais-filhos.

Uma das explicações relevantes sobre estilos e práticas parentais é a de que as pessoas tendem a repetir, ao serem pais, o modelo aprendido em sua própria família. Estudos teóricos e clínicos sublinham que o relacionamento da mãe com a avó materna tem um profundo impacto na maneira como esta cuidará de seu próprio filho (Fischer, 1981). Outros estudos também mostram que é possível prever como uma mãe irá se comportar perante seu filho: as que reportam terem sido aceitas e encorajadas em sua independência durante a infância tendem a ser mais responsivas e menos intrusivas com seus próprios filhos (Ricks, 1985).

Um grande número de pesquisadores discutiu o processo de transmissão do comportamento das mães em relação a seus filhos. Lundberg, Perris, Schlette e Adolfsson (2000),  ao estudarem a transmissão intergeracional, concluíram que há correlação entre os valores experienciados e os que são repassados a futuras gerações. Ijzendoorn (1992), através de pesquisas teórica e prática comprovou uma transmissão significativa de valores entre as gerações. Bowlby (1990) propôs que as pessoas internalizam as experiências com seus significantes na forma de modelos de relacionamento e que estes, uma vez formados, são resistentes a mudanças. Enquanto as pessoas exploram os relacionamentos fora da família, elas provavelmente escolhem parceiros que validam suas estratégias internas e, quando estas pessoas se tornam pais, geralmente estabelecem com seus filhos um padrão de relacionamento similar (já conhecido). Provavelmente, pois, uma vez estabelecida esta dinâmica de relacionamento, estes padrões tornam-se resistentes a mudanças.

Segundo estudo realizado por Kretchmar e Jacobvitz (2002), as mães que lembram terem sido aceitas por suas próprias mães quando crianças e que tiveram relacionamentos equilibrados (com alta exigência e responsividade) são mais sensíveis e menos intrusivas com seus filhos. Entretanto, há que se fazer uma análise cuidadosa dos relatos baseados em memórias da própria infância, pois podem estar baseados no estado de humor do momento ou em percepções distorcidas. Ademais, pode ocorrer que o relacionamento atual da mãe com seu filho influencie e modifique as memórias dela sobre sua infância.

Há evidências empíricas de que a dinâmica de relacionamento experienciada com os cuidadores em uma geração é geralmente recriada na próxima (Kretchmar & Jacobvitz, 2002). Mães que costumeiramente tiveram relacionamento, com suas mães, caracterizado por proximidade e suporte para sua independência, parecem recriar este tipo de relação com seus próprios filhos. Belsky e cols. (2003), ao realizar uma pesquisa sobre relações de intergeracionalidade, concluiu que ambientes familiares mais encorajadores prevêem relações entre pais e filhos, futuramente, mais positivas e menos negativas.

Na comparação intergeracional fica evidenciado um papel de maior destaque da figura materna na contribuição da educação dos filhos, sugerindo que a função da mãe seja mais sólida e próxima do que a do pai (Vitali, 2004). Ademais, este autor verificou que os casos de estilos parentais que se transmitem são amplamente superiores aos de não-transmissão, confirmando que o estilo das mães é o que é passado com maior freqüência.

Pais trazem para sua forma de cuidar as estratégias desenvolvidas pela sua experiência de serem filhos, tendendo, pois, a repetir o modelo parental aprendido. Entretanto, isto nem sempre ocorre. Existem pessoas que quebram os padrões. Algumas mães que lembram terem se sentido rejeitadas ao invés de aceitas durante a sua infância podem se tornar mais responsivas com seus próprios filhos, demonstrando que uma diferenciação pode otimizar as estratégias maternas. Alterações culturais fundamentais ocorreram ao longo do último século. Dentre tais alterações, caracteriza-se "a transição do modelo tradicional - controlador, assimétrico e autoritário - para um dito 'moderno', mais centrado na criança, que valoriza a comunicação e a independência dos filhos" (Biasoli-Alves, Caldana & Silva, 1997, p.51). Estas autoras demonstraram em sua pesquisa que mães das décadas de 30-40 e 50-60 tinham suas atitudes e crenças sobre a educação dos filhos calcadas no sistema em que foram educadas e em conselhos de suas mães e sogras; enquanto que as das décadas de 70-80 apresentaram um padrão diferenciado, calcado na procura cientificista de orientação, com base em livros, artigos de revistas ou conselhos de pediatras e psicólogos.

Pesquisadores identificaram que o suporte do companheiro é um dos fatores que ajudam as mães a quebrarem os padrões disfuncionais aprendidos com sua própria família (Egeland, Jacobvitz & Sroufe, 1988). Portanto, entender o relacionamento com os próprios pais pode ajudar a identificar e quebrar padrões disfuncionais (como negligência, indulgência, agressividade, abuso). Capaldi e Clarck (1998), concluíram que há transmissão intergeracional de agressividade. Ehrensaft e Cohen (2003), ao seguirem durante vinte anos uma geração de crianças, concluíram que quem está exposto à violência entre os pais durante a própria infância têm mais chance de se tornar um adulto agressivo. Isso reitera a importância de se entender a transmissão intergeracional de estilos e práticas parentais, para que se possa acabar com padrões inadequados de comportamento.

Poucos pesquisadores utilizaram como estratégia de pesquisa o exame dos relacionamentos das mães com suas próprias mães e destas com seus filhos para entender a transmissão dos estilos e práticas parentais. Portanto, a proposta da presente pesquisa foi a de investigar a transmissão de práticas parentais em famílias típicas. A hipótese teórica investigada é a de que as mães aprendem as estratégias de relacionamento experienciadas com seus cuidadores  e recriam esses padrões com seus próprios filhos.

 

Método

Participantes

A pesquisa foi realizada com 21 mulheres, de sete famílias distintas de classe média, respeitando-se a linearidade trigeracional (avó/filha/neta). O critério para a composição do grupo foi a amostra não probabilística (Cozby, 2003). As primeiras famílias foram indicadas por pessoas das relações das pesquisadoras.

Instrumentos

Para coleta dos dados foram utilizados três instrumentos:

Entrevista de Apego Adulto, de George, Kaplan e Main (1985), para coleta de dados alitativos e ilustrativos.

Escalas de Qualidade na Interação Familiar (EQIF) de Weber, Viezzer e Brandenburg (2003), para avaliar práticas parentais e outros aspectos de interação familiar, na versão do instrumento que continha 72 questões divididas em 12 pequenas escalas (relacionamento afetivo, envolvimento, regras, reforçamento, comunicação positiva dos pais, comunicação positiva dos filhos, comunicação negativa, punição inadequada, modelo, sentimento dos filhos, clima conjugal positivo e clima conjugal negativo).

Critério Brasil (IBOPE) para identificar o nível socioeconômico dos participantes.

Procedimento

O contato inicial com alguns participantes foi feito pessoalmente e com outros através de telefone. Foi marcada uma entrevista individual com cada membro da família. A ordem na tríade geracional foi diversificada, com o intuito de variar a localidade de escuta das pesquisadoras, evitando interferências de uma sucessão rígida de entrevistas. Uma das famílias optou por não responder a Entrevista de Apego Adulto de George, Kaplan e Main (1985).

Análise dos dados

Para análise dos dados, as gerações foram comparadas duas a duas, ou seja, a 1ª e a 2ª, a 2ª e a 3ª e a 1ª e a 3ª, utilizando-se o teste Mann-Whitney. Valores de significância baixos (valor p<0,05) indicam que as duas variáveis diferem na distribuição. Quando o valor de significância do teste for maior que 0,05, aceita-se a hipótese de que não há diferença significativa entre os dois grupos, confirmando a transmissão intergeracional dos aspectos avaliados.

 

Resultados

A presente pesquisa analisou doze escalas: relacionamento afetivo, envolvimento, regras, reforçamento, comunicação positiva dos pais, dos filhos, comunicação negativa, punição inadequada, modelo, sentimento dos filhos, clima conjugal positivo e negativo. Em todas estas escalas, conforme demonstrado na Tabela 1, os valores de significância ficaram acima de 0,05, demonstrando que não há diferença entre as gerações, à exceção de três variáveis, sempre na comparação entre a primeira e a terceira geração: relacionamento afetivo em relação à mãe (p=0,015), envolvimento em relação à mãe (p=0,045), comunicação positiva dos filhos em relação à mãe (p=0,017).

No que tange à variável relacionamento afetivo com relação à mãe, ficou demonstrada a intergeracionalidade somente na comparação entre a primeira e a segunda gerações, a segunda e a terceira. Ao se testar a hipótese entre a primeira e a terceira gerações, o resultado foi negativo. Isto pode estar relacionado ao fato de que a terceira - com faixa etária entre 12 e 25 anos - foi criada em um ambiente cultural que reforça mais o afeto, a qualidade de tempo da mãe com a criança, a busca de informações sobre o modo de educar os filhos, atendendo a suas necessidades.

As variáveis envolvimento em relação à mãe e comunicação positiva dos filhos para com ela também não demonstraram intergeracionalidade na comparação entre a primeira e a terceira geração. Estes resultados se devem provavelmente, como o citado anteriormente, às próprias mudanças socioculturais por que passa a sociedade ao longo dos anos. De acordo com o que registram Biasoli-Alves, Caldana e Silva (1997), as mães das décadas de 30-40 comunicavam-se pouco com os filhos e tinham pouca demonstração de afeto a eles. Havia menos liberdade de comunicação e menos espaço para discussão e participação dos filhos nas decisões das famílias. Diferentemente, as mais jovens procuram valorizar a comunicação com os filhos e a demonstração de envolvimento afetivo. Estas alterações caracterizam as próprias mudanças da sociedade, na dinâmica familiar em relação aos filhos, sugerindo que houve uma alteração para uma sociedade menos fundamentada nos valores tradicionais e hierárquicos do autoritarismo e mais voltada para a compreensão dos desejos e necessidades dos filhos (Vitali, 2004; Weber, 2005).

Alguns dados coletados demonstram esta distância que existia dos filhos com as pessoas adultas (pais) e a pouca demonstração de afeto dos mesmos. Pode-se perceber, também, que na maioria das famílias o envolvimento é maior com as mães se comparado com os pais. Vitali (2004) verificou que o estilo parental das mães é o que se transmite com freqüência, sugerindo que a função da mãe seja mais sólida e próxima do que a do pai na educação dos filhos, o que se pode ver na análise das falas obtidas pela presente pesquisa:

1ª Geração:

"Eu me sentia mais próxima da minha mãe" Paula, 69 anos (Família 5).
"Meu pai era autoritário, exigente, ..." Paula, 69 anos (Família 5).

2ª Geração:

"Eu era mais próxima da minha mãe, que era dona de casa durante quase toda a minha infância" Sandra, 48 anos (Família 5).
"Meu pai era dedicado, trabalhador, distante, ..." Sandra 48 anos (Família 5).
"Minha mãe era cuidadosa, meticulosa, detalhista, interessada, bem intencionada, presente" Sandra, 48 anos (Família 5).
"Na minha infância, não podíamos ficar com pessoas adultas, trocando idéias com os mais velhos, tudo era mais rígidos os costumes" Vera, 52 anos (Família 3).
"(...) Não entendia por que com minha família não existia espontaneidade para manifestar principalmente afetos, sentimentos, carinhos. Tudo que aparecesse era ridicularizado". Helena, 53 anos (Família 6).

3ª Geração:

"Sempre tivemos uma relação muito boa, inclusive após o divórcio dos meus pais, entretanto minha mãe sempre foi mais presente que meu pai" Irene, 19 anos (Família 5).
"Meu pai sempre foi um pouco distante, às vezes era um pouco impaciente comigo e meus irmãos" Irene, 19 anos (Família 5).
"Me sinto mais próxima da minha mãe. Ela sempre esteve mais presente em minha vida, nos momentos mais felizes e nos que precisei de ajuda. Não que meu pai não se interessasse por isso... Mas a minha mãe sempre curtiu mais a família do que ele". Irene, 19 anos (Família 5)

Em relação à punição inadequada, houve intergeracionalidade frente à mãe. Nos discursos coletados, houve poucas menções à punição inadequada, mas é importante mencionar estas falas em virtude da dor que trazem agregada.

1ª Geração:

"Meus pais me falavam que se eu não me comportasse de certa maneira iriam embora" Isabel, 56 anos (Família 7).

2ª Geração:

"Quando eu fazia algo errado minha vó falava que se eu não fizesse certo da próxima vez iria contar para o meu pai, que dele eu tinha medo" Olívia, 34 anos(Família 7).

3ª Geração:

"Quando eu era mais nova, minha mãe me ameaçava de ir me mandar morar com meu pai quando eu fazia alguma coisa errada" Priscila, 21 anos (Família 2).

Ao serem indagados sobre o que aprenderam nas experiências da infância e o que desejam que seus filhos aprendam na relação com os pais, em geral, as famílias apresentaram, entre as diferentes gerações, respostas semelhantes. Isto pode indicar que existem certos aspectos positivos - valores - que passam de pais para filhos e que norteiam o modo como estes criam seus próprios filhos, ou seja, modelos familiares a serem seguidos. Isto é ilustrado pelo discurso da Família 1 (em que foram ressaltados amor e caridade) e da 2 (em que se ressaltou a retidão de conduta, honestidade), relatados nesta ordem:

1ª Geração:

"...eu sempre esperei que meus filhos aprendessem a ser amorosos nas relações". Emília, 82 anos.

2ªGeração:

"A dedicação à religião é marcante e influente (referindo-se ao que aprendeu com os pais). Também no que se refere à caridade, vivência com diferentes pessoas e a maneira de ajudá-las..." Patrícia, 51 anos.

3ª Geração:

"Uma coisa especial (se referindo à relação com os pais) foi a relação tão carinhosa, amorosa e de cuidados que meus pais me ensinaram desde pequena a ter com as pessoas que amo. Acredito que quando eu tiver meus filhos, os tratarei com o mesmo carinho, amor, cuidados, alegria e proteção com os quais eu fui tratada. Espero que meus filhos aprendam a cultivar relações com essas qualidades". Agnes, 19 anos.

1ª Geração:

"Espero que meus filhos sejam pessoas boas e honestas". Maria, 67 anos.

2ª Geração:

"Conduta, relacionamento, exemplo..." - ao se referir ao que espera que os filhos aprendam. Ana, 43 anos.

3ª Geração:

"Honestidade, tento ao máximo agir desta maneira. Espero que eu possa passar para os meus filhos tudo o que eu aprendi com a minha família. Menos as coisas ruins, é claro!". Priscila, 21 anos.

 

Discussão

A presente pesquisa demonstrou a existência de intergeracionalidade em 91,7% das variáveis analisadas. Apenas 8,3% dos casos não apresentaram transmissão entre as três gerações. O objetivo geral do estudo - verificar a presença de intergeracionalidade - foi confirmado pelos dados obtidos. Esta idéia, já evidenciada empiricamente (Kretchmar & col. 2002), também foi confirmada pelos dados ilustrativos coletados na pesquisa. Isto pode ser visto no  seguinte discurso: "Meus pais me criaram desta maneira porque eles foram criados desta maneira" (Isabel, 56 anos).

A ausência de intergeracionalidade seria explicada pelas mudanças socioculturais por que a sociedade passa ao longo dos tempos, já que não se confirmou a transmissão intergeracional em três dimensões da escala, quando comparadas a primeira e a terceira gerações (relacionamento afetivo com a mãe, envolvimento afetivo com ela e comunicação positiva dos filhos em relação à mãe). É interessante notar que as três dimensões em que não foi confirmada transmissão intergeracional estão justamente ligadas ao afeto, carinho, envolvimento, fatores amplamente evidenciados como fundamentais nas pesquisas sobre interações familiares (Chen, Chen, Liu & Wang, 2002; Simons, Lin & Gordon, 1998; Stormshak, Bierman, McMahon & Lengua, 2000; Weber, Salvador & Brandenburg, 2006). A participante da Família 3 (Vera, 52 anos), representando a segunda geração na pesquisa, quando questionada a respeito do motivo que levou seus pais a agirem da maneira como fizeram durante sua infância, respondeu que era a cultura que tinham na época. Isso exemplifica a questão da transformação ambiental influindo no comportamento familiar.

Outra hipótese que pode justificar a não-intergeracionalidade é a idéia de quebra de padrões familiares e maior divulgação de informações científicas a respeito de educação de filhos (Weber, 2005). Em alguns casos a intenção de modificação de comportamento é responsável pela inexistência de transmissão de valores entre as gerações. Como exemplo pode-se citar a Família 6, cuja participante da 2ª geração sentiu, segundo seus relatos, rejeição por parte dos pais durante a infância. Para modificar essa distância presente no relacionamento pais e filhos em sua família passou outros valores para a filha, como se observa a seguir:

Clarissa, 25 anos, 3ª Geração - Família 6:

"(...) esse caráter dela (mãe) ser muito boa poderia ser diferente. Acho que ela devia ter feito mais as vontades dela e nem tanto as minhas".

Um dos fatores que ajuda as mães a romperem com padrões tradicionais da família é o suporte de seu companheiro, de acordo com pesquisas realizadas (Egeland, Jacobvitz & Sroufe, 1988) e a procura por conhecimentos científicos e orientações de profissionais como pediatras e psicólogos (Biasoli-Alves, Caldana & Silva, 1997).

Apesar de terem existido limitações metodológicas no estudo, haja vista que as respostas às questões foram feitas de forma retrospectiva, pois, de acordo com Conger (2003), relatos que têm lembranças como base estão sujeitos a erros de memória e distorções baseadas na vida cotidiana ou disposições pessoais, isso não torna inválida a pesquisa: existem investigações que utilizaram o método prospectivo longitudinal, realizando tanto a observação atual do comportamento dos pais com os filhos, quanto relatos, e encontraram o mesmo resultado que comprova a intergeracionalidade.

Dois aspectos fundamentais advêm desta pesquisa: ficou evidenciada a transmissão intergeracional dos aspectos negativos, como punição inadequada, modelos inconsistentes, entre outras variáveis; no entanto, as mudanças ocorridas nos casos de não transmissão, foram para melhor - mais envolvimento, mais afeto e maior comunicação entre mães e filhos. Assim, a famosa música de Belchior - "Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais" - é verdadeira apenas em parte. Parece que se está melhorando em alguns aspectos.

 

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Recebido em 19/10/2006.
Aceito para publicação em 20/12/2006.

 

 

1 Endereço para correspondência: Lidia Natália D. Weber, Rua Castro Alves, 785 ap 21, CEP: 80240-270, Curitiba - PR, BRASIL. E-mail: lidiaw@uol.com.br

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