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Paidéia (Ribeirão Preto)

versão impressa ISSN 0103-863X

Paidéia (Ribeirão Preto) v.17 n.36 Ribeirão Preto jan./abr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-863X2007000100009 

PESQUISAS EMPÍRICAS

 

Imprevisibilidade familiar e suas implicações no desenvolvimento individual e familiar

 

Family unpredictability and its implications in the familiar and individual development

 

Imprevisibilidad familiar y sus implicaciones en el desarrollo individual y familiar

 

 

Madalena Alarcão; Maria Filomena Gaspar

Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Definida como uma falta de consistência dos padrões de comportamento familiar e dos sistemas de regulação familiar, a imprevisibilidade familiar surge como um constructo interessante para apreender a forma como a família, e muito particularmente o sub-sistema parental, exerce o seu papel e o seu poder executivo. Pesquisas diversas têm associado maior imprevisibilidade familiar a perturbações do desenvolvimento familiar e do próprio desenvolvimento individual. Este artigo visa apresentar um estudo de validação da Family Unpredictability Scale (FUS), de Lisa Ross e Elizabeth Hill, para Portugal, ao mesmo tempo que discutir o seu valor na discriminação de famílias que técnicos com funções psicossociais diversas identificaram como estando perturbadas no exercício das suas funções familiares. Busca-se também realçar o papel que o nível educacional parece ter na variação do grau de imprevisibilidade familiar; os resultados mostram que são os pais com menor nível educacional que apresentam os mais elevados níveis de imprevisibilidade.

Palavras-chave: Imprevisibilidade familiar. FUS. Avaliação. Risco.


ABSTRACT

The family unpredictability is defined as a lack of consistency in standards of familiar behaviour and the familiar regulation systems. It is interesting for the understanding of how the family, and particularly the parental subsystem exerts its roles and executive power. Higher family unpredictability has been associated with higher disturbances of the familiar and individual development. This paper presents the validation of a Family Unpredictability Scale (FUS) described by Lisa Ross and Elizabeth Hill, for Portugal. It also evaluates the scale abilities to discriminate families with diverse perturbation levels in psychosocial functions. The lower educational level of parents was associated with higher levels of unpredictability.

Keywords: Family unpredictability. FUS. Assessment. Risk.


RESUMEN

La imprevisibilidad familiar es definida como una falta de consistencia en los patrones del comportamiento familiar y de los sistemas de regulación familiar, permitiendo aprender la forma como la familia y el sub-sistema familiar, ejerce su función y su poder ejecutivo. Es asociada una mayor imprevisibilidad familiar con perturbaciones del desarrollo familiar e individual. Presentamos la validación de la Family Unpredietability Seale (FUS), de Lisa Ross e Elizabeth Hill, para Portugal, discutiéndose su valor para discriminar familias, previamente identificadas como estando perturbadas en el ejercicio de sus funciones familiares. También destacamos la relación entre nivel educativo y variación del grado de imprevisibilidad familiar, siendo que padres con menor nivel educativo presentan niveles más elevados de imprevisibilidad.

Palabras clave: Imprevisibilidad familiar. FUS. Evaluación. Riesgo.


 

 

Introdução

Considerada como "qualquer grupo cujas ligações sejam baseadas na confiança, suporte mútuo (...) e destino comum" (OMS, 1994, citado por Alarcão, 2000) ou como o "conjunto de elementos ligados por um de relações, em contínua relação com o exterior [e] que mantém o seu equilíbrio ao longo de um processo de desenvolvimento percorrido através de estádios de evolução diversificada" (Sampaio & Gameiro, 1985, citados por Alarcão, 2000), a família é geralmente considerada como um lugar privilegiado para a elaboração e aprendizagem de dimensões significativas da interação e, como tal, como um enquadramento relacional fundamental para o desenvolvimento do ser humano. Face à diversidade de configurações familiares, que nos dias atuais assumem uma expressão cada vez mais visível, a definição sistêmica de família1 remete para duas funções que a mesma deverá cumprir de forma a permitir o seu desenvolvimento2 e a proporcionar um crescimento saudável dos seus membros - reportando às funções interna e externa, responsáveis, respectivamente, pela proteção e autonomia dos diferentes elementos (mantido, no entanto, o sentimento de pertença ao todo que a representa) e pela boa integração social e cultural.

Podendo distinguir diferentes sub-sistemas no todo que representa o sistema família, é ao sub-sistema parental que estão postas funções executivas no sentido da educação e proteção das gerações mais novas. Com efeito, de acordo com Alarcão (2000) "é a partir das interações pais-filhos que as crianças aprendem o sentido da autoridade, a forma de negociar e de lidar com o conflito no contexto da relação vertical. É também no contexto desta interação que se desenvolve o sentido de filiação e de pertença familiar"(p.53). E é no quotidiano de cada família, tecido pelo cruzamento das regras universais de sua organização, com herança e expectativas específicas de cada novo núcleo, que vão se definindo papéis, afinando modelos de relação e reescrevendo identidades pessoais. Este processo de construção é dinâmico, marcado por inúmeros ensaios e negociações, mais ou menos explícitos, exigindo uma coerência e previsibilidade que garantam a estabilidade necessária ao percurso de cada etapa desenvolvimental bem como as mudanças que o crescimento individual e familiar implicam. A flexibilidade dos sistemas surge, pois, como a capacidade que os mesmos têm de, face à necessidade de mudança ou transformação, esta ser realizada sem que a coerência sistêmica seja colocada em questão.

Pelo contrário, a imprevisibilidade, enquanto falta de consistência dos padrões de comportamento e dos sistemas de regulação familiar, dificulta não só a construção das próprias regras de interação como perturba o equilíbrio necessário à transformação. Com efeito, sabe-se que nos sistemas afastados do equilíbrio, como é o caso da família, existe uma interação constante entre retroações positivas e negativas que, em determinados momentos, é perturbada pela amplificação de uma máxima retroação negativa ou de uma positiva que produz o caos a partir do qual novas estruturas se desenvolvem (Alarcão, 2000), permitindo assim o crescimento do próprio sistema. De acordo com Ross e Hill (2000)

a imprevisibilidade ocorre quando os elementos da família não são capazes de, ou não querem, cumprir consistentemente com as suas responsabilidades tais como cuidar (dar afeto e alimento). A imprevisibilidade também ocorre quando falham os sistemas de regulação ou os mecanismos de manutenção das expectativas (a violação das regras não é punida). Os pais, ou seus substitutos, são [pois] considerados como elementos chave do caos ou instabilidade familiares (p.549).

Este caos se reporta à desordem e à inconsistência que dificultam a criação de qualquer nova ordem. É hoje consensual afirmar-se, quando se reporta às estratégias educativas parentais, que o estilo autorizado (Baumrind, 1971, 1996), caracterizado pela definição de regras claras de comportamento e pelo respeito pela autonomia e independência dos filhos, está não só associado a pais exigentes e responsivos como permite o desenvolvimento da própria criança (já que a leva a se comportar de acordo com o que pode ser esperado em termos desenvolvimentais), associando-se, por isso, a maior competência social e a menor número de problemas de comportamento. Pelo contrário, um estilo permissivo, em que o controle é precário e as regras frouxas, ou um estilo indulgente ou não envolvido, em que pode haver muito pouca coercividade e responsividade, parecem se associar a menor responsabilidade/assertividade social e a maior dependência.

A imprevisibilidade familiar ou a inconsistência disciplinar têm sido associadas, por diversos autores, a um maior risco de comportamento anti-social, assim como de problemas de comportamento e de ajustamento social e escolar (Ross & Hill, 2000, 2002). Pelo contrário, Ross e Hill (2000), verificaram que a percepção da consistência parental (ao nível das atitudes e regras), avaliada em adolescentes de 13 anos, se correlacionava com sua saúde psicológica aos 50 anos, o que vem ao encontro à afirmação de Ross e Hill (2002) de que a percepção de controle sobre o meio ambiente tem repercussões claras tanto em termos físicos quanto mentais. Estes autores observaram que níveis mais elevados de imprevisibilidade estavam presentes em famílias com menos rotinas e envolvimento afetivo, maior confusão de papéis, menor capacidade de resolução de problemas, maiores dificuldades de comunicação, respostas afetivas e disciplinares mais inconsistentes e maior desentendimento parental; a imprevisibilidade familiar associou-se, ainda, a um funcionamento individual menos saudável, tanto por parte dos filhos (problemas emocionais, de comportamento e de atenção, referidos pelos progenitores) quanto dos pais (auto-percepção de níveis mais elevados de depressão e ansiedade).

Apesar da importância deste construto, Ross e Hill (2002) verificaram que não existia nenhum instrumento de auto-resposta que desse uma informação detalhada sobre o grau de imprevisibilidade familiar, em diferentes domínios, pelo que se propuseram a criar uma escala que permitisse a sua avaliação e em que as repostas não fossem influenciadas pela desejabilidade social. De acordo com os autores, a imprevisibilidade familiar constitui, então, um construto teórico que se baseia na teoria da vinculação de Bowlby, segundo a qual a criança organiza um padrão seguro ou inseguro de vinculação de acordo com a responsividade, ou falta dela, da figura de vinculação, e, na teoria do abandono aprendido de Overmier e LoLordo, fundada na crença de que forças e pessoas externas determinam o destino. Esta crença desenvolve-se na sequência de marcada imprevisibilidade e falta de controle dos acontecimentos e repercutindo negativamente ao nível da saúde física e emocional do ser humano (Ross & Hill, 2000).A Family Unpredictability Scale (FUS) é considerada pelos seus autores como um instrumento que pode ajudar os pais a avaliarem o nível de previsibilidade familiar bem como a desenvolverem um funcionamento familiar que promova melhor ajustamento entre seus vários elementos.

 

Contextualização e objetivos do estudo

Se a avaliação clínica do funcionamento familiar constitui uma área na qual os terapêutas familiares sistêmicos então habitualmente à vontade, a sua avaliação por parte de outros profissionais, ou em estudos que envolvam grandes amostras, revela-se difícil face os poucos instrumentos de auto-resposta e de avaliação quantitativa validados para a população portuguesa. Assim, foram realizados estudos de validação de instrumentos3, sendo neste artigo apresentado o referente ao FUS. Os objetivos deste trabalho foram:

a) validar a Family Unpredictability Scale (FUS) para a população portuguesa;

b) compreender como é que variáveis sóciodemográficas e familiares, como o nível de escolaridade da mãe, a fase do ciclo vital da família e o número de filhos, se relacionam com os diferentes componentes da imprevisibilidade familiar;

c) analisar como é que os diferentes componentes da imprevisibilidade familiar se relacionam com diferentes problemáticas sócio-emocionais dos filhos, como foram identificadas pelas mães;

d) analisar a capacidade de a escala discriminar entre famílias identificadas por técnicos, com funções psicossociais e educativas diversas, como estando ou não perturbadas no exercício das funções familiares, em virtude da presença de fontes de stress intra e extra-familiar4;

e) discutir algumas implicações, para a intervenção sócio-educativa e psicológica, da avaliação da imprevisibilidade familiar.

 

Método

Participantes

Participaram deste estudo 514 mães de crianças e jovens com idades compreendidas entre os 2 e os 18 anos, recrutadas por técnicos em contextos clínicos e comunitários. O contato com as mães foi feito diretamente por um dos técnicos5 que efetuaram a coleta de dados.

A idade das mães foi de 18 a 63 anos (média=37.89; desvio-padrão=6.33) e os pais biológicos de 24 e 69 anos (média=40.48; desvio-padrão=6.68). Quanto ao número de filhos, 34.9% das famílias tinham um filho, 46.4% tinham dois, 18.7% três ou mais filhos.

Quanto ao estado civil, 78.5% das mães eram casadas pela primeira vez, 11% estavam divorciadas, 6.1% viviam em união de fato, 2.5% eram viúvas, 1.6% solteiras e duas (0.4%) casadas pela segunda vez.

Relativamente à fase do ciclo vital em que se encontravam as famílias, e tendo como critério a idade do filho mais velho, 39.5% estavam na etapa da família com filhos na escola (o mais velho tinha entre 6 e 12 anos de idade), 32.4% na com filhos adolescentes (o mais velho com 13 e/ou 17 anos de idade), 16% na com filhos adultos (o mais velho com 18 anos ou mais) e 12.1% na etapa da família com filhos pequenos (o mais velho com menos de 6 anos)6. A criança mais nova da amostra tinha 2 anos e a mais velha 18 anos, tal como na amostra de validação americana utilizada pelas autoras da escala.

Quanto à escolaridade 29.3% das mães tinham ensino superior, 29.1% o 2º ou 3º ciclos, 21.9% o 1º ciclo e 19.7% o ensino secundário. No tocante aos pais 30.9% tinham o 2º ou 3º ciclos, 25.3% o primeiro, 23% o ensino superior e 20.8% o ensino secundário.

Material

Escala de Imprevisibilidade Familiar (Family Unpredictability Scale - FUS)

A Family Unpredictability Scale (FUS), que em português chamou-se Escala de Imprevisibilidade Familiar embora mantendo a sigla original, é um questionário de auto-preenchimento dirigido ao pai ou mãe, ou seus substitutos, de crianças e jovens com idades compreendidas entre os 2 e os 18 anos, que tem como objetivo avaliar a imprevisibilidade em quatro áreas de funcionamento7: disciplina (reflete a imprevisibilidade em estabelecer e manter regras); afeto (reflete a inconsistência na resposta às necessidades da criança e à responsividade que lhe deve estar associada); refeições (traduz a inconsistência no horário e pessoas que partilham as refeições); finanças (existência de instabilidade financeira). A FUS avalia, deste modo, a imprevisibilidade "percebida" nesses domínios pela pessoa que a preenche.

O questionário é constituído por 22 itens, respondidos numa escala tipo Likert, e assim distribuídos pelas quatro áreas de imprevisibilidade: disciplina: 7 itens; afeto: 7; refeições: 5; finanças: 3; sendo que cada item tem as seguintes opções de resposta: "de forma alguma; um pouco; moderadamente; bastante; totalmente" cotadas, respectivamente, com um, dois, três, quatro ou cinco pontos. Existe ainda a opção "não se aplica", a qual não é cotada. Quanto maior a imprevisibilidade, mais alta a pontuação no item. Como as sub-escalas são constituídas por um número diferente de itens, calcula-se o somatório obtido em cada sub-escala e divide-se pelo número de itens que a constituem. Deste modo, o valor máximo possível de obter em cada dimensão da imprevisibilidade é cinco e o mínimo é um.

No estudo das características psicométricas da escala na sua versão original as autoras não encontraram qualquer relação com a desejabilidade social, que constitui um dos fatores mais importantes a controlar devido à hipótese de contaminação dos resultados pelo desejo dos pais apresentarem a sua família como tendo um funcionamento saudável.

Procedimento

Cada uma das mães preencheu, com ou sem ajuda do técnico, dependendo do seu nível de escolaridade8, os instrumentos utilizados neste estudo: - a tradução portuguesa9, de Gaspar e Alarcão (2003) da Family Unpredictability Scale (FUS), de Ross e Hill (2000); um questionário de caracterização do agregado familiar e de identificação de problemas sócio-emocionais e de aprendizagem "percebidos" pela mãe ou pai num dos elementos da fratria. Para avaliar as percepções da mãe sobre a existência de problemas em algum dos filhos utilizou-se o seguinte conjunto de questões:

1. Algum dos seus/suas filhos/as têm problemas:
1.1. de comportamento em casa ou na escola?
      Sim (1) Não (0)
1.2. em estar concentrado e com atenção?
      Sim (1) Não (0)
1.3. emocionais (ansiedade, depressão)?
      Sim (1) Não (0)
1.4. no relacionamento com os outros?
      Sim (1) Não (0)
1.5. de aprendizagem
      Sim (1) Não (0)
1.6. outros (indique quais) ________________________

 

Resultados e Discussão

Propriedades psicométricas e normas

Análise fatorial, validade e da consistência interna, fidelidade. No que se refere à fatorialidade dos dados, em termos quantitativos, o número de participantes da amostra (n=514) revela-se adequado, quer considerando os 300 casos sugeridos por Tabachnick & Fidell (1996) quer atendendo ao número de 10 por item proposto por Nunnaly (1978). A obtenção de um índice de Kaiser-Meyer-Olkin de .83 e um teste de esfericidade de Bartlett com significância estatística (p<.001) confirmam a fatorialidade da matriz de correlações. Foram, feitas análises fatoriais em Componentes Principais, com recurso a rotação varimax10.

A solução rodada, com restrição a 4 componentes, explica um total de 44.81% da variância, com contributo de 13.64% do componente I, de 12.25% do II, de 10.54 do III e de 8.39 da 4. Todos os quatro fatores apresentam valores próprios, superiores a 1 (respectivamente 3.00, 2.79, 2.31, 1.85).

A análise das saturações fatoriais dos itens em cada um dos 4 componentes mostra que dos sete itens iniciais, da sub-escala Disciplina, cinco (5, 8, 12, 15, 18) saturaram fortemente no mesmo componente (I), um (item 10) teve saturações superiores a .30 nos três outros e no item 22 satura de forma acentuada no componente III. Quanto aos itens da sub-escala Afeto seis (itens 3, 7, 11, 14, 16 e 19) saturaram significativamente no componente II, enquanto um, item 1, o fêz de forma mais acentuada no IV (.50) comparativamente ao II (.30). Relativamente aos itens da sub-escala Refeições verificaram-se saturações acentuadas de três itens (2, 6, 13) no componente IV, enquanto os outros dois (17 e 20) o fizeram no III. Quanto aos itens da sub-escala Finanças todos os três saturaram no componente III, juntando-se assim aos itens 22 (Disciplina), 17 e 20 (Refeições). Uma análise do conteúdo destes três itens, que saturam num fator diferente do previsto, indica que todos têm em comum algo que se denominaria de inconsistência generalizada/global, quer ao nível das finanças, da disciplina, das refeições. Poder-se-ia também aqui incluir o item 10, pois apesar de saturar em três componentes é no III que satura mais (.37), ultrapassando o limiar fixado na literatura (.2011). Se se optar por esta última solução, ter-se-á uma solução de 4 fatores, tal como na escala original, mas com uma distribuição de itens diferente e com nova designação para a dimensão Finanças que passaria a ser Inconsistência generalizada/global.

Tabela 01

Com o objetivo de se analisar a solução mais satisfatória, procedeu-se à análise da consistência interna, através do cálculo do coeficiente de Cronbach (alphas), por escala e sub-escalas. Para Kline (1993), o coeficiente de Cronbach é o índice mais importante de fiabilidade de um teste. Foram aceitos valores iguais ou superiores a .20 para a correlação item-total corrigido (ritc) (Streiner & Norman, 1989) e o ponto crítico fixado para o alpha foi de .70 (Hair, Anderson, Tatham & Black, 1998), embora outros autores considerem o valor .60 para esse ponto. Obteve-se um coeficiente alpha de Cronbach para a escala total de .81 com os ritc situados entre um mínimo de .24 e um máximo de .52.

Na primeira solução, respeitada a distribuição dos itens pelas 4 dimensões originais, obtiveram-se os seguintes valores de alpha: Disciplina =.77; Afeto = .71; Refeições = .55; Finanças = .70. De acordo com estes valores pode-se afirmar que todas as escalas apresentam uma consistência estatisticamente válida, com exceção da sub-escala refeições, em que existe também o único item (20) que apresenta uma ritc inferior a .20 com a respectiva sub-escala. Procedeu-se a uma outra análise, distribuindo os itens em função da segunda solução sugerida pela fatorial.

Com esta segunda solução de quatro fatores obtiveram-se duas sub-escalas, com um índice de consitência interna inferior a .70, apesar de aparecer um aumento na primeira da Disciplina. Por este motivo, a que se adiciona a necessidade de mudança nas dimensões e itens constituintes da escala original, afirma-se que a primeira solução é mais satisfatória, apesar das fragilidades já referidas.

Tabela 2

Médias, desvio-padrão e intercorrelações

Quando se comparam as médias em cada uma das sub-escalas correspondentes às dimensões da FUS, conforme dados da Tabela 3, constata-se que a área de funcionamento familiar que apresenta menos imprevisibilidade é a das Refeições. Os resultados do paired t-test (df=513) indicam diferenças estatisticamente significativas entre: refeições-disciplina (t=8.86, p<.001); refeições-afeto (t=10.32, p<.001); refeições-finanças (t=6.87, p<.001).

 

 

As correlações mais acentuadas estão entre Disciplina e Finanças (.42), Afeto e Refeições (.39), de acordo com os dados da Tabela 4, diferindo dos resultados da amostra americana em que a correlação mais acentuada ocorria entre Afeto e Disciplina (.47), não havendo isto entre Refeições-Disciplina, Refeições-Finanças. As sub-escalas, tal como na amostra americana, são moderadamente interdependentes.

 

 

Grupo etário e gênero

De acordo com os dados da Tabela 5, uma análise de variância, tendo em conta o fator idade, e como variáveis dependentes o resultado total na FUS e as médias obtidas em cada uma das suas quatro dimensões, traz di­feren­ças significativas para o efeito fator idade [F (2, 501)], especificamente para o valor total da FUS (F=9.27, p=.000) e as dimensões Disciplina (F=5.26, p=.005), Afeto (F=79.16, p=.000), mas não para Refeições (F=2.77, p=.06) e Finanças (F=2.26, p=.11).

 

 

Uma análise dos resultados médios em função da variável idade indica que, para o valor total da FUS, há um aumento de imprevisibilidade com a idade, que é significativamente maior a partir do início da adolescência, pois as mães de adolescentes e jovens relatam mais imprevisibilidade geral do que as com filhos em idade escolar ou pré-escolar, como mostram os resultados do teste de Tukey, não se diferenciando as que têm filhos entre 6 e 12 anos das com os de menos de 6 anos. Quanto à dimensão Disciplina, encontrou-se um padrão diferente: mães com filhos adolescentes e jovens só relatam mais imprevisibilidade do que as com os de idade pré-escolar, não se diferenciando significativamente das com filhos em idade escolar. Quanto ao Afeto, quer as mães com filhos em idade pré-escolar, quer em idade escolar, relatam significativamente menos imprevisibilidade do que as com filhos adolescentes e jovens.Contrariamente ao que se passa com a idade, não se observou um efeito significativo da variável gênero para o valor total da FUS e nem para as dimensões consideradas.

Número de filhos

Conforme dados da Tabela 6, os resultados da análise de variância tendo em conta o efeito da variável número de filhos indica que só existe um estatisticamente significativo para o resultado total da FUS (F=7.62, p=.001) e a dimensão Finanças (F (2.510)=17.501, p<.001). As médias e os resultados do teste de Tukey indicam o mesmo padrão em ambas as situações: mães com 3 ou mais filhos relatam significativamente mais imprevisibilidade familiar total e financeira do que as com 1 ou 2 filhos, não havendo diferença entre estas duas últimas.

 

 

Nível de escolaridade da mãe

De acordo com os resultados, postos na Tabela 7, de uma análise de variância para analisar o efeito da variável nível de escolaridade da mãe [F(3,504)], verificou-se que existe um efeito significativo para o valor total da FUS (F=47.665, p=.000) e para as dimensões Disciplina (F=33,067, p=.000), Afeto (F=6,41, p=.000), Refeições (F=8.399, p=.000) e Finanças (F=59.485, p=.000).

Ao serem observados os resultados médios obtidos para a escala total verificou-se que à medida que aumenta o nível de escolaridade da mãe diminui a imprevisibilidade familiar por ela relatada. Os resultados dos testes de Tukey indicam que todos os pares formados pelos quatro grupos de escolaridade se diferenciam significativamente uns dos outros (p<.01). Ou seja, as mães com o 1º ciclo relatam significativamente mais imprevisibilidade do que as que têm o 2º e 3º ciclos, do que as que têm o ensino secundário e superior. Por sua vez, estas relatam significativamente menos imprevisibilidade do que as dos outros três grupos. As do ensino secundário referem significativamente menos imprevisibilidade do que as do 1º, 2º e 3º ciclos e estas significativamente menos do que as do 1º ciclo. Este padrão repete-se para a dimensão Finanças.

Quanto às outras dimensões, verifica-se que com o aumento da escolaridade diminui a imprevisibilidade disciplinar relatada pelas mães. Porém, nem todas as diferenças são estatisticamente significativas. Assim, na dimensão Disciplina, entre o grupo com o 1º ciclo, o 2º e 3º ciclos e também entre o com o ensino secundário e o superior, as diferenças não são significativas. Ou seja, as mães com o ensino secundário ou superior relatam menos imprevisibilidade disciplinar do que todas as outras, mas não se diferenciam significativamente entre si. E as com o 1º, 2º ou 3º ciclos relatam mais imprevisibilidade do que as outras, mas também não se diferenciam entre si. As dimensões Afeto e Refeições assumem o mesmo padrão de diferenças significativas: as mães com o ensino secundário ou superior relatam significativamente menos imprevisibilidade nestas dimensões do que as de 1º ciclo, que não se distinguem das que têm o 2º e 3º. As de ensino secundário não se distinguem significativamente das de 2º e 3º ciclos, mas sim das de ensino superior. Estas últimas diferenciam-se, então, significativamente de todas as outras, com exceção das que têm ensino secundário, nas duas dimensões em análise.

Estes resultados concordam em parte com os da amostra americana, em que pais com mais escolaridade relatam significamente menos imprevisibilidade, na Disciplina e Finanças mas não no Afeto e Refeições.

 

Imprevisibilidade familiar e problemas dos filhos

De acordo com os objetivos inicialmente apresentados, avaliou-se ainda a associação entre imprevisibilidade e problemas sócio-emocionais e/ou de aprendizagem dos filhos, considerando a opinião das mães sobre a existência ou não de diferentes tipos de problemas num dos filhos: dificuldades de atenção/concentração, de aprendizagem, emocionais e no relacionamento com os outros, queixas comportamentais na escola ou em casa. Estes resultados foram obtidos comparando os obtidos na FUS pelo grupo de mães que referem que pelo menos um dos seus filhos tem dificuldades em um dos domínios considerados com os do grupo que não refere qualquer tipo de problema quando se reportam aos seus filhos. Este procedimento foi também usado por Ross e Hill (2002) (nas dificuldades de atenção/concentração, comportamento escola/casa e emocionais) para estabelecer a validade de construto, tendo como hipótese subjacente a idéia de que à maior imprevisibilidade está associado um funcionamento menos saudável dos filhos, tal como isto é percebido pela mãe.

Os resultados expressos nas Tabelas 8, 9, 10, 11 e 12 permitem afirmar que as mães que percebem pelo menos um dos seus filhos como tendo dificuldades de comportamento, atenção/concentração, emocionais, relação ou aprendizagem são também as que relatam significativamente mais imprevisibilidade familiar total e em cada uma das quatro dimensões da escala, com apenas uma exceção (dimensão Afeto para os problemas de relação, em que a diferença entre os dois grupos não é estatisticamente significativa). Todas as outras são estatisticamente significativas e superiores a .01 com duas excepções (Refeições x problemas de aprendizagem: p=.01 e Refeições x problemas emocionais: p=.03).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Existe, assim, uma associação entre o funcionamento familiar, avaliado pela imprevisibilidade percebida, total e nas diferentes dimensões, e o da criança percebido pela mãe: quanto maior a imprevisibilidade mais problemas vistos na criança pela mãe.

 

Imprevisibilidade familiar e perturbação do funcionamento familiar

Ainda que esta constitua apenas uma primeira tentativa, muito sumária, de avaliar a capacidade discriminativa da FUS referente ao funcionamento familiar, procurou-se, como ficou expresso nos objetivos do trabalho, perceber se havia ou não relação na diferenciação que os diversos profissionais faziam das famílias quanto à existência ou não de perturbação das funções familiares, em virtude da presença de diferentes fontes de stress (intra e extra-familiar), e os resultados de imprevisibilidade obtidos, na escala total e nas diferentes dimensões. É importante realçar que estes técnicos psicossociais (maioritariamente psicólogos e assistentes sociais), com formação básica ou avançada em análise e intervenção sistêmica familiar, tinham um contato direto e prolongado com as famílias do elemento a quem foi aplicada a FUS, estando muitas vezes a acompanhá-las no sentido de ajudá-las a ultrapassarem as dificuldades apresentadas e potenciar o seu desenvolvimento. Não foi, pois, utilizada uma medida estandartizada de avaliação do funcionamento familiar12 de forma a não sobrecarregar o protocolo utilizado, tendo sido apenas pedida a categorização das famílias em termos de perturbação das funções familiares (interna e externa) a partir do conhecimento dos técnicos.

 Na Tabela 13 estão as médias obtidas na FUS e os resultados da análise de variância. De acordo com esses valores pode-se afirmar que os dois grupos de famílias se diferenciam significativamente quer quando se considera o resultado total na FUS, quer nas diferentes sub-escalas, nas quatro dimensões originais.

 

 

Pode-se assim afirmar que as mães pertencentes a famílias classificadas como estando perturbadas no exercício de suas funções percebem maior imprevisibilidade familiar do que as outras, e isto nas diferentes dimensões do funcionamento familiar avaliadas pela FUS: disciplina; afeto; refeições; finanças.

 

Considerações Finais

De acordo com o estudo apresentado, considera-se possível a avaliação da imprevisibilidade familiar através da FUS ainda que a escala tenha revelado algumas fragilidades na sua validação para a população portuguesa, nomeadamente um valor alpha de Cronbach de .55 (dimensão Refeições), ainda que de .81 (escala total) e .77, .71 e .70 para as restantes dimensões (respectivamente Disciplina, Afeto e Finanças), e um arranjo factorial que não confirma totalmente a solução original. É necessário realçar que a seleção dos participantes que constituem a amostra não foi aleatória, o que pode trazer um viés importante que só um novo estudo confirmaria ou não e que o alargamento quantitativo, a diversificação e aleatorização da amostra constituem aspectos a se ter em conta numa nova exploração do potencial avaliativo da FUS. Nessa outra investigação, revela-se ainda fundamental avaliar a possível contaminação das respostas do respondente pela tendência que as pessoas habitualmente de se ajustarem ao que pensam ser socialmente adequado e esperado: com efeito, embora na versão original não se tenha encontrado qualquer relação com a desejabilidade social, este aspecto não foi avaliado no estudo realizado.

Quanto à exploração das diferentes soluções fatoriais experimentadas e do tipo de item que mais saturam nos diferentes fatores, por comparação com a solução original, considera-se a possibilidade de que aspectos de natureza cultural possam ser responsáveis pelas variações encontradas, razão pela qual, em futuros estudos, seria desejável introduzir novos itens que, para cada uma das dimensões avaliadas, sejam mais consonantes com a realidade portuguesa, procedendo depois ao seu estudo e validação.

O trabalho de validação da FUS para a população portuguesa apresenta-se, então, numa fase ainda inicial, exigindo novas investigações que, de forma mais consistente, avaliem sua fidelidade e validade.

O interesse, para técnicos e famílias, de conhecimento do nível de imprevisibilidade familiar, e das suas áreas de incidência, parece indiscutível, não apenas numa dimensão mais diagnóstica mas também em programas de intervenção em que profissionais e famílias possam identificar os pontos fortes e as fragilidades do sistema de modo a equacionar e discutir soluções de mudança.

Havendo já diversa investigação que afirma a associação entre imprevisibilidade familiar e dificuldades desenvolvimentais, quer ao nível dos elementos do sub-sistema filial quer do parental, interessaria, em investigações concretamente direcionadas para esta associação, avaliar mais profundamente o funcionamento familiar (e as áreas em que o mesmo pode estar mais perturbado) assim como o desempenho dos papéis parentais e a individualidade e o ajustamento social dos membros da família, dado que estes são aspectos fundamentais do cumprimento das funções familiares e que estas se constituem em pilares do próprio percurso desenvolvimental. Neste contexto desenvolveu-se já uma investigação em que se estudou a associação entre a imprevisibilidade e diferentes facetas da parentalidade (envolvimento, responsividade, castigo/punição, supervisão e consistência), assim como entre a responsividade e controlo percebidos pelos adolescentes.

Afirmou-se, logo de início, que, face à diversidade de configurações familiares e à velocidade das transformações sociais que lhes estão associadas, o sentido da família enquanto espaço e tempo de filiação e de desenvolvimento é potenciado pelo cumprimento de duas funções fundamentais - a interna e a externa - sendo com base nessa avaliação que os profissionais podem equacionar a viabilidade ou não de determinado sistema familiar poder continuar a ser responsável pela educação dos seus membros. Esta é, sem dúvida, uma questão complexa e completamente inscrita na ordem do dia dado que aumenta o conhecimento que se tem de famílias mutiproblemáticas e multiassistidas bem como a necessidade de decisão sobre a regulação do poder parental. Sendo apenas um elemento de um processo mais global, a imprevisibilidade familiar surge como indicador importante da vulnerabilização familiar e individual, razão pela qual é útil a continuação deste tipo de investigação.

 

Referências

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Endereço para correspondência:
Madalena Alarcão
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade de Coimbra
Rua do Colégio Novo
3001-802, Coimbra, Portugal
E-mail: malarcao@fpce.uc.pt

Recebido em 31/01/2007.
Aceito para publicação em 28/04/2007.

 

 

Este artigo reproduz uma comunicação apresentada pelas autoras no VI Simpósio Nacional de Investigação em Psicologia, que decorreu em Évora, em Portugal, nos dias 28, 29 e 30 de Novembro de 2006.
Madalena Alarcão é Professora Associada da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, Terapeuta Familiar e Membro Supervisor da SPTF
Maria Filomena Gaspar é Professora Auxiliar da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.
1 O modelo sistêmico constitui o enquadramento teórico subjacente ao pensamento das autoras.
2 Reportamo-nos ao ciclo vital da família (Alarcão, 2000).
3 Os outros dois instrumentos são o Índice de Parentalidade Autorizada de Jackson, Henriksen e Foshee (1998) e o Comportamento de Educação Parental de Dekovic (2003).
4 O técnico, ao fazer esta classificação, identificava também o fator ou conjunto de fatores stressantes: a) intrafamiliares e relativos a pelo menos uma das figuras parentais (depressão, alcoolismo), ou a um dos filhos (comportamento anti-social delinquência) ou ao próprio sistema (violência doméstica); b) extrafamiliares (pobreza).
5 A coleta de dados foi efetuada por diferentes técnicos com funções psicossocais e educativas que nos anos letivos de 2002/2003 e 2003/2004 realizaram o referido curso de Pós-graduação em Análise e Intervenção.
6 Face à diversidade de propostas para a caracterização do ciclo vital da família, as autoras seguiram a classificação apresentada por Relvas (1996). Mesmo não sendo consensual, optaram por considerar a adolescência a partir dos 12 anos e por definir que a partir dos 18 anos do filho mais velho a família se encontrava já numa nova etapa dado o possível afastamento desse elemento em virtude da frequência de estudos superiores ou da entrada no mercado de trabalho.
7 As instruções para o preenchimento da FUS são as seguintes: "As afirmações que encontra a seguir descrevem comportamentos familiares e a forma como as famílias lidam com os problemas. Ao responder a estas questões tenha em conta a sua atual família (o/a senhor(a), o seu cônjuge e o/s seu/s filho/s) e não a família com a qual foi criado/a. Cada vez que ler a palavra "filhos" pense em todas as crianças que vivem em sua casa com idades compreendidas entre os 2 e os 18 anos. Se a questão não se aplica a uma criança, mas sim a outra, considere a criança à qual a pergunta se aplica. Se existir só uma criança entre os 2 e os 18 anos de idade a viver na sua casa, responda às perguntas baseando as suas respostas nela. Pense na forma como as coisas têm corrido na sua família durante os últimos seis meses. Leia cada afirmação. Se uma afirmação não se aplica ao seu caso, assinale o quadrado à direita. Se a afirmação se aplica a si e à sua família, faça um círculo à volta de um número de 1 (de forma alguma) a 5 (totalmente) para indicar até que ponto o/a descreve a si e à sua família".
8 De acordo com as autoras da escala é necessário um nível de escolaridade correspondente ao 6º ano para ser capaz de se ler e compreender os itens (Ross & Hill, 2000).
9 No processo de tradução, seguiram-se os procedimentos recomendados, realizando uma tradução e retroversão subsequente.
10 Numa solução inicial rodada, sem restrição de fatores, foram obtidos 6 componentes com valores próprios superiores a 1, e que explicavam 54.74% da variância. A solução de 5 fatores explicava 50.14% da variância. Comparando esta com a inicial de 4 fatores, correspondentes às 4 dimensões originais da escala, pode-se afirmar que ela explica a maior percentagem de variância (50.14 versus 44.81%). A nova dimensão, a que se chamaria Inconsistência generalizada/global, agrupa dois itens da Disciplina e dois das Refeições e teoricamente justificar-se-ía como uma dimensão que não se aplica a uma área apenas, como as outras, mas como um padrão de funcionamento transversal. Talvez esta característica transversal seja a responsável pelo baixo valor que obteve no coeficiente alpha (.48), inferior a qualquer uma das outras quatro sub-escalas, incluindo a sub "Refeições" que apresenta um valor de consistência interna inferior ao desejado. Face a estes resultados optou-se por manter a estrutura dos da escala original, pois embora a solução de 5 explicasse a maior quantidade de variância, a nova dimensão não oferecia segurança sobre sua consistência interna. Testou-se também uma solução com restrição a 3 fatores, que explicava só 39% da variância.
11 McCrae & Costa (1994) consideram, no entanto, saturações significativas acima de .30 e não de .20.
12 Como, p.e., a FACES de Olson e cols. (1982).