SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.19 issue43An ecological study about the interaction of families with shelter institutionsA behavioral analysis of verbal reports and parental educative practices: scope and limits author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Paidéia (Ribeirão Preto)

Print version ISSN 0103-863X

Paidéia (Ribeirão Preto) vol.19 no.43 Ribeirão Preto May./Aug. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-863X2009000200011 

ARTIGOS

 

Promovendo saúde e desenvolvimento na educação infantil: uma atuação da Psicologia

 

Promoting health and development in early child education: an intervention of Psychology

 

Promoviendo la salud y el desarrollo en la educación de infantil: actuación de la Psicología

 

 

Samira Mafioletti Macarini; Gabriela Dal Forno Martins ; Mauro Luis Vieira

Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis-SC, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Este artigo apresenta o relato de estágio em Psicologia desenvolvido em uma instituição de educação infantil, que teve como objetivo promover saúde e desenvolvimento de crianças neste contexto. O enfoque teórico utilizado foi a Abordagem Bioecológica do Desenvolvimento Humano. Conhecimentos sobre família, educação infantil e atuação do psicólogo são apresentados. Foram definidas duas demandas de atuação: as famílias e os professores/coordenação. Por meio das intervenções realizadas, a saber, curso de capacitação para professores, visitas às famílias, participação em reuniões, constatou-se que esta contribuiu para a formação de uma parceria entre os contextos da creche e da família.

Palavras-chave: educação infantil, desenvolvimento infantil, intervenção psicológica.


ABSTRACT

This study presents the report of a supervised training in Psychology developed in an early child education institution and which aimed to promote the health and development of children in this context. The used theoretical framework was the Bioecological Perspectives on Human Development. Knowledge about family, early child education and the psychologist's practices are presented. Two demands of interventions were defined: families and teachers/coordinators. It was possible to perceive that the performed interventions, that is, training course to teachers, visits to families, participation in meetings, contributed to create a partnership between the context of the day care service and families.

Keywords: early childhood education, childhood development, psychological intervention.


RESUMEN

Este artículo presenta el informe de la pasantía en Psicología realizada en una institución de educación infantil, la cual tiene por objeto promover la salud y el desarrollo de los niños en este contexto. El enfoque teórico utilizado fue el Desarrollo Humano a partir del Enfoque Bioecológico. Los conocimientos sobre la familia, la educación de los niños en la infancia y el papel del psicólogo son expuestos en el presente artículo. Se identificaron dos demandas de actuación: las familias y los profesores / coordinación. A través de la intervención realizada (curso de formación para profesores, visitas a las familias y participación en las reuniones), se constató que esta contribuyó a la formación de alianzas entre los ambientes de la guardería y la familia.

Palabras clave: educación infantil, desarrollo infantil, intervención psicológica.


 

 

Diversas abordagens científicas atuais têm enfatizado a importância do contexto social na compreensão dos fenômenos (Aspesi, Dessen, & Chagas, 2005). Na Psicologia, o modelo bioecológico de desenvolvimento humano proposto por Bronfenbrenner (1996) apresenta-se como um aporte teórico relevante nesse sentido, já que contribui para uma compreensão complexa e dinâmica de desenvolvimento humano, levando em consideração quatro núcleos inter-relacionados: o processo, a pessoa, o contexto e o tempo.

O núcleo processo engloba as interações recíprocas e ativas entre o organismo e o ambiente, que se tornam progressivamente mais complexas, sendo assim responsáveis pelo desenvolvimento. Já a pessoa, é analisada através de suas características determinadas biopsicologicamente e aquelas construídas na sua interação com o ambiente. Através do tempo, por sua vez, é possível examinar a influência de mudanças e continuidades que ocorrem ao longo do ciclo de vida, sobre o desenvolvimento humano (Morais & Koller, 2004).

O contexto é analisado segundo quatro níveis ambientais: microssistema, mesossistema, exossistema e macrossistema, articulados na forma de estruturas concêntricas inseridas uma na outra, constituindo o meio ambiente ecológico (Narvaz & Koller, 2004). O microssistema refere-se ao contexto em que as atividades, papéis e relações interpessoais são experienciados face-a-face, entre a pessoa e o meio imediato, como por exemplo, a creche, a família, os vizinhos e os amigos. O mesossistema consiste no conjunto dos microssistemas e envolve a interconexão entre os ambientes nos quais a pessoa em desenvolvimento participa diretamente, como por exemplo, a relação creche-família e trabalho-casa. O exossistema compreende os ambientes em que a pessoa não participa diretamente, mas que influenciam de maneira indireta seu desenvolvimento, tais como, o trabalho dos pais e a comunidade no qual está inserido. Por último, o macrossistema se refere ao modelo institucional de cultura, como a economia, as crenças, os conhecimentos e os costumes que permeiam todos os sistemas anteriores (Bronfenbrenner, 1996).

A análise desses quatro componentes, sobretudo da influência do contexto no desenvolvimento infantil, auxiliaram na compreensão de infância e de desenvolvimento humano para o presente trabalho, bem como na escolha das intervenções realizadas durante o estágio, que tiveram como foco a aproximação entre dois contextos do microssistema das crianças: a família e a instituição de educação infantil, considerados por diversos autores, como contextos de desenvolvimento relevantes na infância de crianças que vivem em sociedades contemporâneas e ocidentais (Lordelo, 2002; Morais & Koller, 2004; Oliveira, Mello, Vitoria, & Rosseti-Ferreira, 1994). Assim, o trabalho realizado procurou não somente intervir junto às próprias crianças e suas dificuldades percebidas por pais e professores, mas buscou envolver os diversos elementos que constituem tais subsistemas.

As creches constituem espaço privilegiado de cuidado à criança de zero a seis anos e, no Brasil, têm recebido crescente atenção, visto que cada vez mais mulheres de diferentes camadas sociais assumem trabalho e outras atividades fora de casa, necessitando de auxílio no cuidado e educação dos filhos (Oliveira e cols., 1994). O histórico de origem das creches no Brasil e no mundo mostra uma grande ligação ao assistencialismo, que visava principalmente o bem estar físico de crianças menos favorecidas socioeconomicamente através de práticas de alimentação, higiene e segurança (Delvan, Ramos, & Dias, 2002; Oliveira e cols., 1994). Hoje, no entanto, elas são consideradas instituições sociais de amplo alcance, orientadas por um modelo educacional (Moreira & Lordelo, 2002).

Antes da creche, a família é considerada o primeiro e principal contexto de desenvolvimento da criança. Nesse sentido, é de grande relevância a aproximação das relações família-creche, visando a integração de práticas nesses contextos. A partir da perspectiva ecológica de desenvolvimento de Bronfenbrenner (1996), casa e instituição de educação infantil interconectam-se, sendo que os eventos que ocorrem em cada contexto afetam um ao outro, tendo também impacto no desenvolvimento infantil. A família e a escola, portanto, dividem e compartilham responsabilidades no que diz respeito à educação e socialização das crianças (Bhering & De Nez, 2002). Nesse sentido, o envolvimento de mães e pais na creche constitui um componente bastante importante e necessário para o desenvolvimento saudável das crianças (Polônia & Dessen, 2005).

O bom relacionamento entre creche e família deve ser constantemente conquistado, o que muito contribui no trabalho com as crianças, pois, na medida em que surgem dificuldades, estas podem ser resolvidas mais rapidamente e com maior segurança (Oliveira e cols., 1994). A escola deve reconhecer a importância da colaboração dos pais e auxiliar as famílias a exercerem seu papel na educação, na evolução e no desenvolvimento dos filhos (Polônia & Dessen, 2005). Ainda, de acordo com Bhering e De Nez (2002), para compartilhar as responsabilidades pelo bem-estar, saúde e desenvolvimento das crianças com mães e pais, é preciso criar oportunidades para todos os envolvidos, enfatizando a compreensão e o respeito pelas práticas que contribuam de forma efetiva para a promoção do desenvolvimento saudável na infância.

Diante disso, entende-se que o profissional de Psicologia no contexto de educação infantil tem papel de extrema relevância no processo de mediação creche-família, no que tange, por exemplo, às estratégias de fornecimento e discussão de temas como práticas de cuidado, noção de infância, desenvolvimento infantil, entre outras. Segundo Delvan e cols. (2002), um dos papéis do psicólogo inserido na instituição de educação infantil consiste justamente em mediar a relação com a família, trazendo questões que favoreçam o estabelecimento de uma comunicação constante e frequente. Outra possibilidade de aproximação da família ao contexto educacional é a realização de visitas domiciliares (Vokoy & Pedroza, 2005), a fim de conhecer sua história, bem como da criança que frequenta a creche.

Além de intervenções com a família, o psicólogo também tem outras possibilidades de intervenção na educação infantil, abrangendo os demais aspectos que compõem este contexto, como a equipe de profissionais, as próprias crianças, bem como a proposta pedagógica da creche. Nesse sentido, o psicólogo pode contribuir para a formação daqueles que atuam na instituição, auxiliando-os em sua tarefa cotidiana (Delvan e cols., 2002), por meio de palestras em reuniões pedagógicas, grupos de professores, na contribuição para construção da proposta pedagógica e até mesmo em conversas informais no dia a dia.

Assim, verifica-se que o psicólogo não necessita atuar somente diante das dificuldades que surgem, mas também na prevenção de possíveis riscos e problemas relacionados ao desenvolvimento infantil, bem como na potencialização de fatores que se constituem como proteção para o desenvolvimento das crianças. Nesse sentido, um primeiro passo para os psicólogos interessados em trabalhar com promoção de saúde e desenvolvimento na educação infantil seria investigar e compreender o desenvolvimento das crianças a partir de diversas variáveis, tanto aquelas relacionadas à criança, como sua história desde o nascimento, seu temperamento e seu nível de desenvolvimento; quanto àquelas relacionadas ao ambiente que a circunda, tais como: a dinâmica e a estrutura da família, os recursos disponíveis no ambiente doméstico, na creche e na comunidade, a qualidade da interação com mães, pais e outros cuidadores (Morais & Koller, 2004).

Diante dos pressupostos levantados a respeito da concepção de educação infantil e o papel do profissional psicólogo nesse contexto, o presente artigo apresenta o relato de um trabalho de intervenção realizado por duas estagiárias do último ano do curso de Psicologia, que teve como objetivo principal promover a saúde e o desenvolvimento de crianças no contexto da educação infantil, por meio de intervenções que englobassem as relações creche-família, criança-criança e professor-criança.

 

Método

Participantes e contexto de atuação

O foco de atuação do estágio foram crianças de seis meses a seis anos de idade, que frequentam uma creche filantrópica localizada em uma capital sul brasileira. Trata-se de uma instituição mantida por diversas entidades e conveniada com a Prefeitura, que cede anualmente o quadro de professores. A creche existe há 25 anos e foi fundada por um conjunto de casais ligados à igreja católica, é composta por seis turmas, cujas crianças são divididas por idade e acompanhadas por duas professoras, uma no período da manhã e outra no período da tarde, além de uma auxiliar de sala. Todas as turmas têm, em média, de 20 a 25 crianças, inclusive aquelas com crianças menores (quatro a doze meses). A instituição localiza-se em um bairro no qual vivem famílias de baixa renda e escolaridade, em sua maioria imigrantes de outras regiões do estado e do país. Por questões éticas, os nomes da instituição, dos professores, crianças e familiares foram omitidos do relato.

Instrumentos

Durante as visitas às famílias, foram utilizados os seguintes instrumentos:

(1) Entrevista de Riscos Biopsicossociais (Santa Maria & Linhares, 2003), por meio da qual foi possível identificar aspectos socioeconômicos das famílias (recursos financeiros, condições de saneamento básico e moradia), características dos pais (idade, escolaridade, profissão, situação conjugal, número de filhos) e das crianças (condições da gravidez e nascimento, perfil de desenvolvimento inicial, idade em que ingressou na creche, recursos e espaços disponíveis).

(2) Inventário Home para Observação e Medida do Ambiente (Caldwell & Bradley, 1984), trata-se de um instrumento de observação, composto de 45 itens, divididos em seis subescalas: (a) Responsividade emocional e verbal da mãe; (b) Aceitação da criança; (c) Organização do ambiente físico geral; (d) Provisão de materiais que possibilitem a aprendizagem e o desenvolvimento da criança; (e) Envolvimento materno; (e) Variedade de estimulações que a criança possui. Esse inventário forneceu um perfil da família que poderia ser de alto nível de risco, médio nível de risco e baixo nível de risco.

Procedimentos

Visitas e observação da rotina da creche

Foram realizadas visitas à creche durante os primeiros meses do estágio, incluindo observações das turmas, interações com professores e crianças, conversas com a coordenação, participação em reuniões pedagógicas, o que permitiu a criação de um vínculo forte com a instituição como um todo. Tal vínculo foi de extrema importância, uma vez que por meio dele o papel das estagiárias ficou mais claro e abriu-se um canal de comunicação constante, que permitiu às professoras e coordenação sentirem-se à vontade para expor alguma dificuldade e solicitar ajuda, o que também aconteceu por parte das estagiárias.

Ainda neste momento inicial, algumas características da instituição e do trabalho das professoras foram verificadas, as quais permitiram definir posteriormente as demandas do estágio. Uma dessas características refere-se ao caráter predominantemente assistencialista da creche, que teve origem já em seu surgimento, influenciado pelos ideais religiosos daqueles que a fundaram e da realidade do bairro em que estava inserida. A própria coordenação reconhecia a necessidade de mudança desse caráter, alegando que cada vez mais era necessário que os pais e a comunidade compreendessem que a creche tinha uma função principalmente pedagógica, que ia além do suprimento de necessidades básicas das crianças.

A partir dessas observações, verificou-se também que professores e coordenação ocupavam, na relação com os pais, um lugar de "detentores do conhecimento", pois além de colocarem-se como conhecedores das formas de cuidado e educação de crianças, eram também responsáveis por suprir grande parte das necessidades orgânicas essenciais para a sobrevivência delas, por meio de práticas de alimentação, higiene e segurança, por exemplo. Por outro lado, as famílias, em sua maioria de baixa renda e escolaridade, frente à postura das professoras, atribuíam a elas a função e o saber de cuidado e educação de seus próprios filhos e, muitas vezes, exigiam que outras funções fossem supridas. Diante de tal postura por parte das famílias, as estagiárias levantaram a hipótese de que essas poderiam não estar se percebendo como agentes promotores de educação e desenvolvimento das crianças.

Frente a essa situação, escutavam-se, por meio das professoras e dos próprios pais, discursos a respeito do quanto algumas famílias não priorizavam a educação de seus filhos. Ao mesmo tempo, percebia-se que as professoras exigiam mais participação dos pais e levantavam algumas queixas relacionadas a determinado comportamento de alguma criança, suspeitando de negligência ou falta de limites. Tais queixas são consideradas recorrentes em instituições educacionais, no entanto, verificava-se, frequentemente, que o discurso das professoras era baseado em um preconceito sobre as famílias, em função da realidade precária de muitas destas, bem como na concepção de um modelo de família nuclear ideal, diferente da realidade por elas vivenciada.

Com relação às crianças, tornaram-se claros, com o passar dos dias, os pedidos de carinho explícitos. Logo no primeiro momento em que as estagiárias visitaram a creche, muitas demonstraram uma necessidade forte de afeto: algumas sentavam no colo, pediam que as escutassem; outras chamavam a atenção através de comportamentos agressivos, dizendo que iriam embora, pedindo, dessa forma, uma atenção exclusiva. Assim, verificou-se que, para muitas crianças, a atenção da professora, mesmo em situação de punição, como uma bronca, por exemplo, era um momento em que elas poderiam desfrutar de um tratamento mais individualizado e íntimo, comparando-se com os demais períodos do dia em que tinham que dividir a atenção dos adultos com outras crianças da creche.

Concluiu-se, a partir disso, que as relações creche-família há muito tempo permaneciam em uma homeostase, em um equilíbrio confortável para ambas as partes, mas ao mesmo tempo trazia prejuízo para a creche, que já estava sentindo a necessidade de deixar de lado a postura assistencialista; para as famílias, que demonstravam culpa por não estarem tão presentes na vida das crianças e muitas dificuldades em transmitir valores, limites, afeto para elas; e também para as crianças, que apesar de estarem bem alimentadas, limpas, aprendendo a conviver com colegas, brincando, pareciam pedir afeto, carinho e limites.

Conhecendo a comunidade

Além das visitas iniciais à creche, conversou-se com a presidente da associação dos moradores da comunidade, que também é agente de saúde do bairro, visando conhecer um pouco mais da realidade das crianças e suas respectivas famílias. O principal objetivo dessa conversa não foi conhecer as famílias em si, mas sim aspectos mais amplos, ligados aos valores da comunidade, que poderiam afetar o desenvolvimento das crianças. A agente passou sua visão acerca das famílias, além de características mais gerais sobre as pessoas que residem no bairro, como situação financeira, principais atividades empregatícias, escolaridade, local de origem, entre outras. Segundo ela, grande parte dos moradores eram ex-pequenos e médios agricultores do interior do estado, que por dificuldades financeiras, se mudaram para a capital em busca de trabalho. Dessa forma, os pais trabalhavam muito, o dia todo, inclusive nos finais de semana, visando acumular algum dinheiro. O trabalho era um valor muito forte para estas famílias, sendo considerado algo que poderia garantir um futuro diferente para os filhos, em função disso, os pais acabavam atribuindo à creche a responsabilidade pela educação daqueles. Após esse contato com a representante da comunidade, as estagiárias realizaram também uma visita ao bairro, a fim de conhecer o ambiente físico e social em que as famílias viviam.

Foram realizadas visitas às famílias cujas crianças frequentavam a creche. Nessa ocasião, foram aplicados os instrumentos anteriormente mencionados: Entrevista de Riscos Biopsicossociais e Inventário Home para Observação e Medida do Ambiente, a fim de investigar o maior número possível de variáveis de influência no desenvolvimento, incluindo aspectos da pessoa (características biopsicológicas da criança), processo (interações da criança com seus familiares e com o ambiente que a circunda), contexto (características do ambiente familiar investigadas principalmente por meio do Inventário Home) e do tempo (periodicidade dos processos proximais). Os dados obtidos por meio das visitas puderam orientar o trabalho das estagiárias na creche, pois, na medida em que era necessário, podia-se dar um feedback para as professoras a respeito de uma determinada criança e sua família. Além disso, as visitas tiveram um efeito benéfico nas próprias famílias, que se sentiam valorizadas e importantes. As estagiárias, como representantes da creche, faziam o papel de acolhê-las e dar sinais aos pais de que eles eram os principais informantes a respeito do desenvolvimento das crianças, e que também detinham conhecimentos sobre elas.

Definição das demandas de trabalho

Diante das observações realizadas na instituição e dos diálogos entre as estagiárias e professores, crianças, famílias e representantes da comunidade, foram definidas duas grandes demandas a serem trabalhadas no segundo semestre do estágio: (a) Necessidade de trabalhar junto às famílias, visando valorizar o papel dos pais enquanto principais cuidadores, aproximando-os do contexto da creche, de modo que tanto eles, quanto os professores reconhecessem na família um contexto promotor do desenvolvimento das crianças; (b) trabalho junto às professoras e coordenação visando fazê-las perceber o quanto suas ações no cotidiano da creche poderiam reforçar o modelo assistencialista, menosprezando muitas vezes o potencial das famílias e crianças e afastando os pais de seu papel enquanto responsáveis pelo cuidado e educação de seus filhos.

 

Resultados e Discussão

Atividades realizadas junto às famílias

Para responder a demanda de atuação junto às famílias das crianças que frequentavam a creche, foram estabelecidas as seguintes estratégias: participação nas reuniões de pais, realização de visitas domiciliares e mediação constante entre professor-família (abertura de um espaço para comunicação e parceria).

A participação nas reuniões de pais foi o primeiro contato formal das famílias das crianças com as estagiárias, as quais foram apresentadas como parte da equipe pedagógica da creche. Essas reuniões ocorriam bimestralmente, eram divididas por turma e tinham duração aproximada de 50 minutos. Em função de serem bastante breves, não era possível realizar intervenções diretas com as famílias, porém as estagiárias participavam das discussões e realizavam mediações entre professores e pais. Algumas reuniões também eram planejadas com a participação das estagiárias, visando verificar pontos positivos sobre as turmas que poderiam ser abordados, bem como formas de conversar sobre temas delicados com os pais, como era o caso de assuntos de higiene (banho, piolhos) e alimentação. O objetivo era fazer com que estas reuniões se tornassem momentos de troca entre as professoras e as famílias, possibilitando uma maior comunicação sobre o desenvolvimento das crianças e atividades realizadas na creche, e menos cobranças por ambas as partes.

A realização de visitas domiciliares foi uma segunda estratégia de acesso e intervenção com as famílias. Para isso, contou-se com a participação de voluntários do curso de Psicologia, que juntamente com as estagiárias, formaram seis duplas de intervenção e aplicaram os instrumentos previamente mencionados.

Atividades realizadas junto às professoras e coordenação

Para atingir a demanda de atuação junto às professoras e coordenação da creche, foram estabelecidas as seguintes estratégias: participação em reuniões pedagógicas, realização de curso para os profissionais que lá trabalhavam, além da mediação professor-família, trazendo informações das visitas realizadas e incentivando os professores a incluírem ativamente a família em seus projetos.

As reuniões pedagógicas realizadas pela creche, que ocorriam uma vez por mês, eram momentos em que as professoras, auxiliares, coordenação e estagiários reuniam-se para discussões teóricas e práticas, envolvendo diversos temas sugeridos pelas professoras ou coordenação. As estagiárias participaram desses momentos de discussão tanto como palestrantes quanto como ouvintes. Na primeira reunião pedagógica coordenada pelas estudantes, logo no início do ano, a proposta e o cronograma de estágio foram apresentados, sendo este um momento bastante importante para que dúvidas referentes ao trabalho da Psicologia fossem sanadas, bem como para reforçar o vínculo que estava ainda sendo estabelecido com a instituição.

Ainda nas reuniões em que as estagiárias participaram como palestrantes foram apresentadas concepções teóricas sobre desenvolvimento humano, que embasavam o trabalho da Psicologia na creche, como a Teoria Bioecológica de Bronfrenbrener. Além disso, foram discutidas algumas temáticas levantadas pelas estagiárias como demandas a serem trabalhadas, em função das observações iniciais realizadas na instituição. Algumas delas envolviam o microssistema familiar (conceito de família, diferentes configurações familiares, fases do ciclo de vida familiar) e o microssistema escolar (características que compõem o contexto escolar, importância da brinquedoteca e do brincar no desenvolvimento das crianças). Procurava-se, no entanto, sempre discutir tais aspectos teóricos interligados com as práticas diárias das professoras e coordenação, a fim de aproximar a teoria da realidade vivenciada pela creche.

Na última reunião pedagógica do ano, as estagiárias fizeram o "fechamento" do estágio, realizando uma avaliação da inserção da Psicologia na creche, bem como uma devolução sistematizada dos dados obtidos com as visitas às famílias. Apesar das estudantes darem feedbacks contínuos para as professoras a respeito das famílias visitadas, nesse momento, o objetivo foi apresentar uma visão geral das características das famílias como um todo, e não especificamente de cada uma delas. Quando estes dados foram apresentados, os professores se surpreenderam com algumas características, tais como renda não tão baixa, alto número de pais casados, entre outras. Para eles, as crianças viviam em condições de extrema pobreza, sendo uma das principais crenças a ideia de que as famílias eram extensas e desestruturadas, o que não foi totalmente verificado nas visitas. Assim, acredita-se que a apresentação desses resultados tenha contribuído para uma ressignificação das famílias por parte das professoras, possibilitando-as repensar sua postura diante das mesmas, a qual muitas vezes era de cobranças e culpabilização pelos comportamentos das crianças.

A apresentação dos dados também permitiu que a coordenação identificasse a demanda de novas atividades que poderiam ser implementadas pela creche. Uma delas foi a aproximação com as famílias desde a inserção da criança na creche, por meio da realização de uma entrevista sobre a história da criança e da família no primeiro contato com essa. Outra necessidade levantada foi uma possível formação de parceria com membros da comunidade para incentivar a construção de uma creche municipal no bairro, já que apenas esta não conseguia suprir toda a demanda.

A segunda estratégia de intervenção das estagiárias com os professores e coordenação foi a realização de um curso de capacitação, que objetivou fornecer a professores de educação infantil conhecimentos da Psicologia no que diz respeito às relações creche-família, criança-criança e adulto-criança; bem como possibilidades de atuação dos professores em parceria com as famílias, frente a fenômenos diversos, como agressividade entre as crianças, sexualidade, inibição, brincadeira, dentre outros. O curso foi ministrado pelas estagiárias, bem como por outros profissionais da área da Educação e da Psicologia. Foram realizados quatro encontros que abordaram os seguintes temas:

(1) Aproximando as relações família-creche: importância da participação dos pais no processo educacional dos filhos, impacto da atuação conjunta família-creche no desenvolvimento da criança e como o professor pode contribuir para uma participação efetiva dos pais;

(2) Sexualidade na educação infantil: conceito de sexualidade, a sexualidade e o desenvolvimento infantil, relação entre a sexualidade do professor e sua atuação junto às crianças e possíveis formas de trabalhá-la na educação infantil.

(3) Processo de socialização na inclusão (ou não) da criança no grupo de pares: a criança socialmente competente, a criança agressiva, fenômeno bullying, a criança inibida.

(4) Relações adulto-criança e suas repercussões para a educação e desenvolvimento infantil: conceito de brincadeira, funções do brincar para o desenvolvimento, funções lúdica e educativa do brincar e papel do professor no brincar das crianças.

Um ponto forte dos cursos consistiu na participação das professoras, enriquecendo as discussões teóricas através do relato de suas práticas diárias. Segundo suas falas, elas passaram a refletir sobre práticas antes inquestionáveis, tornando sua atuação mais crítica. Esses resultados puderam ser vislumbrados em sua prática cotidiana, sendo verificada uma preocupação maior em inserir os pais no contexto da creche e valorizá-los como atores importantes na educação de seus filhos. Elas também passaram a incluir a família no seu olhar sobre a criança, colocando-se no lugar dos pais e evitando fazer pré-julgamentos. Quando tinham alguma dificuldade com determinada criança, procuravam as estagiárias para tentar entender a história familiar e buscar alternativas de parceria com os pais. Assim, a partir do conteúdo apresentado nos cursos, as professoras passaram a repensar sua atuação enquanto promotoras do desenvolvimento das crianças, juntamente com os pais e outros familiares.

Vale ressaltar ainda algumas dificuldades encontradas durante a etapa de viabilização e realização do curso. Uma vez que as professoras e outros profissionais da creche que participariam desta atividade trabalhavam o dia todo, inicialmente foi difícil encontrar um horário durante a semana que permitisse a participação de todos. Além disso, percebia-se que, em função da excessiva carga de trabalho, algumas professoras, apesar de considerarem importante, não se motivaram a participar do curso. Nesse caso, as estagiárias optaram pela redução da carga horária do curso e pela busca de um horário satisfatório para a maioria.

 

Considerações finais

O trabalho dos psicólogos nos diferentes contextos educacionais não é recente e suas práticas já são tradicionais na história da Psicologia. Apesar disso, alguns autores têm evidenciado a importância da revisão contínua dessas práticas e a inserção de novas, incluindo principalmente aquelas voltadas para a prevenção e promoção do desenvolvimento (Bhering & De Nez, 2002; Delvan e cols., 2002; Morais & Koller, 2004; Vokoy & Pedroza, 2005). Também devem ser enfatizadas intervenções focadas não somente na criança, como também em outros agentes que compõem o contexto escolar, como os professores, funcionários em geral e as famílias. Dessa forma, a inserção do profissional de Psicologia numa instituição requer muito mais do que o conhecimento técnico e sua aplicação.

Neste estágio, anteriormente às intervenções propriamente ditas, foram incluídas etapas de inserção na instituição, vinculação com profissionais e famílias, conhecimento da realidade e levantamento de demandas condizentes com essa. Assim, ao final do período de trabalho, concluiu-se que uma das principais contribuições da atuação das estagiárias foi justamente uma inserção de qualidade no contexto, que primou pela boa relação das estagiárias com os profissionais e famílias, de modo a não criar um ambiente ameaçador e paralisante diante das dificuldades encontradas.

Diferentes desafios surgiram ao longo do trabalho, como por exemplo: dificuldades de acesso a algumas famílias, em função do horário de emprego de mães e pais, ou do próprio receio desses frente ao trabalho das estagiárias; resistência da coordenação da creche para mudar rotinas e regras já estabelecidas (por exemplo, alto número de crianças na sala, não permissão de acesso dos pais às salas no final do dia); e falta de motivação de alguns professores para aderir aos cursos de capacitação. Esses desafios, ao invés de impedir o andamento do trabalho, ajudaram a instrumentalizar as estagiárias para lidar com dificuldades rotineiras em grande parte das instituições de educação infantil. Em diversas ocasiões foi buscada ajuda dos próprios profissionais da creche, já que estes eram os maiores conhecedores das características desse contexto.

Avalia-se que o conjunto das atividades realizadas contribuiu também para que fosse atingido o objetivo estabelecido de trabalhar as relações creche-família. Desde que este objetivo foi traçado, tinha-se claro que seus resultados não seriam visíveis e passíveis de avaliação, principalmente em curto prazo. No entanto, esperava-se que pais e profissionais fossem mobilizados para a necessidade de maior troca e comunicação. Essa mobilização pôde ser verificada, como por exemplo, por meio do surgimento de ideias por parte da creche para aprimorar o contato entre mães, pais e professores (inserção de entrevista inicial assim que uma criança nova ingressasse na creche, aprimoramento das reuniões periódicas com os pais), além das manifestações de mães e pais sobre sua satisfação para com a creche.

Conclui-se que este tipo de atuação no contexto educacional constitui um desafio para os psicólogos, sobretudo porque os resultados são dificilmente visualizados, em curto prazo, pelas pessoas envolvidas. Assim, considera-se importante que o psicólogo proporcione devolutivas constantes, apontando pequenos progressos diários. Neste estágio, especificamente, o que também contribuiu para a visualização dos resultados foi o prosseguimento das atividades da Psicologia na creche. A boa caracterização da instituição e das famílias atendidas contribuiu para que, posteriormente, novas estagiárias realizassem intervenções que dessem prosseguimento ao trabalho iniciado. A aproximação das relações creche-família, por sua vez, auxiliou na aderência às propostas que envolviam essas duas instâncias.

 

Referências

Aspesi, C. C., Dessen, M. A., & Chagas, J. F. (2005). A ciência do desenvolvimento humano: Uma perspectiva interdisciplinar. In M. A. Dessen & A. L. Costa Júnior (Orgs.), A ciência do desenvolvimento humano: Tendências atuais e perspectivas futuras (pp. 19-36). Porto Alegre: Artmed.         [ Links ]

Bhering, E., & De Nez, T. B. (2002). Envolvimento de pais em creche: Possibilidades e dificuldades de parceria. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 18, 63-73.         [ Links ]

Bronfenbrenner, U. (1996). A ecologia do desenvolvimento humano: Experimentos naturais e planejados. Porto Alegre: Artes Médicas. (Original publicado em 1979)         [ Links ]

Caldwell, B. M., & Bradley, R. H. (1984). Home observation for measurement of the environment. Little Rock, AR: University of Arkansas.         [ Links ]

Delvan, J. S., Ramos, M. C., & Dias, M. B. (2002). A Psicologia escolar/educacional na educação infantil: O relato de uma experiência com pais e educadoras. Psicologia Teoria e Prática, 4(1), 49-60.         [ Links ]

Lordelo, E. R. (2002). Agora vá com a tia que a mamãe vem mais tarde: Creche como contexto brasileiro de desenvolvimento. In E. R. Lordelo, A. M. A. Carvalho, & S. H. Koller (Orgs.), Infância brasileira e contextos de desenvolvimento (pp. 77-97). São Paulo: Casa do Psicólogo.         [ Links ]

Morais, A., & Koller, S. H. (2004). Abordagem ecológica do desenvolvimento humano, psicologia positiva e resiliência: Ênfase na saúde. In S. H. Koller (Org.), Ecologia do desenvolvimento humano: Pesquisa e intervenção no Brasil (pp. 91-108). São Paulo: Casa do Psicólogo.         [ Links ]

Moreira, L. V. C., & Lordelo, E. R. (2002). Creche em ambiente urbano pobre: Ressonâncias no ecossistema desenvolvimental. Interação em Psicologia, 6, 19-30.         [ Links ]

Narvaz, M. G., & Koller, S. H. (2004). O modelo bioecológico do desenvolvimento humano. In S. H. Koller (Org.), Ecologia do desenvolvimento humano: Pesquisa e intervenção no Brasil (pp. 51-65). São Paulo: Casa do Psicólogo.         [ Links ]

Oliveira, Z. M., Mello, A. M., Vitória, T., & Rossetti-Ferreira, M. C. (1994). Creches: Crianças, faz de conta e cia (3a ed.). Rio de Janeiro: Vozes.         [ Links ]

Polônia, A. C., & Dessen, M. A. (2005). Em busca de uma compreensão das relações entre família escola. Psicologia Escolar e Educacional, 9, 303-312.         [ Links ]

Santa Maria, M. R., & Linhares, M. B. M. (2003). Entrevista para identificação de riscos biopsicossociais na história de vida da criança. Manuscrito não-publicado. Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP.         [ Links ]

Vokoy, T., & Pedroza, R. L. S. (2005). Psicologia escolar em educação infantil: Reflexões de uma atuação. Psicologia Escolar e Educacional, 9, 95-104.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Prof. Dr. Mauro Luís Vieira
Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Departamento de Psicologia, campus Universitário-Trindade
CEP 88.040-970. Florianópolis, SC-Brasil
E-mail: maurolvieira@gmail.com

Recebido: 30/04/2008
1ª revisão: 30/01/2009
2ª revisão: 11/03/2009
Aceite final: 15/04/2009

 

 

Samira Mafioletti Macarini é pós-graduanda do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina.
Gabriela Dal Forno Martins é Mestre pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina.
Mauro Luís Vieira é Professor Associado do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina.