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Paidéia (Ribeirão Preto)

Print version ISSN 0103-863X

Paidéia (Ribeirão Preto) vol.21 no.49 Ribeirão Preto May/Aug. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-863X2011000200005 

ARTIGO

 

O significado da morte para adolescentes, adultos e idosos1

 

The meaning of death for adolescents, middle aged and elderly geriatrics

 

El sentido de la muerte para adolescentes, mediana edad y ancianos

 

 

Caroline Garpelli Barbosa; Lígia Ebner Melchiori; Carmen Maria Bueno Neme

Universidade Estadual Paulista, Bauru-SP, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Apesar do aumento na quantidade de trabalhos que visam a abordar a morte como tema de investigação, observa-se que ainda prevalece a interdição do assunto morte, dificultando que ela seja abordada e discutida. Este estudo buscou ampliar a compreensão de como pessoas, em diferentes etapas desenvolvimentais, lidam com perdas e com a própria finitude. Para isso, 7 adolescentes, 14 adultos de meia-idade e 10 idosos foram entrevistados, e os dados foram compreendidos mediante análise de conteúdo. Entre os participantes, os adultos foram os que mostraram mais aflição e inquietação, ao falarem sobre a própria finitude e sobre a possibilidade da morte de pessoas queridas. Os adolescentes abordaram-na como um acontecimento distante e impessoal, enquanto os idosos se referiram a ela com maior proximidade e aceitação. Sugere-se a realização de estudos que aprofundem tais compreensões, relacionando-as às diferentes religiões, classes sociais e experiências com perdas.

Palavras-chave: morte, psicologia do desenvolvimento, adolescentes, meia-idade, idosos.


ABSTRACT

Despite the increase in the quantity of works that aim to study death as a research topic is observed that it still prevails the prohibition of the subject death, what can make difficult how the issue is discussed. This study aimed to increase the understanding of how people in different ages deal with losses and with their end. Seven adolescents, 14 middle aged and 10 elderly people were interviewed and the dates were analyzed using content analysis. Among these participants, the middle aged were who showed most distress and anxiety when talking about death and about the possibility of losing people they love. The adolescents showed a relation to death as a distant and impersonal issue, while the elderly accepted it and kept a closely relationship with it. It is suggested the conduction of studies to deepen these understandings, relating them to different religions, social classes and loss experiences.

Keywords: death, developmental psychology, adolescents, middle aged, geriatrics.


RESUMEN

A pesar del aumento en la cantidad de trabajos que pretenden estudiar la muerte como un tema de investigación, se observa que predomina la prohibición sobre la question de la muerte, lo que impide que ella sea discutida. Este estudio trató de ampliar la comprensión de cómo las personas en diferentes edades trabajan con las pérdidas y con su propia finitud. Siete adolescentes, 14 adultos y 10 ancianos fueron entrevistados y los datos fueron analizados mediante el análisis del contenido. Entre los participantes, los adultos mostraron la mayor angustia y ansiedad cuando se hablaba de la muerte y sobre la posibilidad de pérdidas. Los adolescentes reportaron la muerte como un asunto distante e impersonal, mientras que los ancianos mantienem una relación estrecha con la muerte. Se sugiere llevar a cabo estudios para profundizar en estos conocimientos, relacionándolos con las diferentes religiones, clases sociales y las experiencias con la pérdida.

Palabras clave: muerte, psicologia del desarrollo, adolescente, mediana edad, geriatria.


 

 

O tema da morte tem sido relegado ao ostracismo, tornando-se um assunto tabu ao longo da história das sociedades ocidentais no século XX (Ariès, 1975/2003). Alves (1991), ao ponderar sobre a ambiguidade de sentimentos existentes ao redor da morte, diz que, na verdade, ela aterroriza por nos falar sobre a vida e sobre aquilo que estamos fazendo ou deixando de fazer com ela.

Para Kovács (2002), a tentativa de manter a morte distante, como algo a ser tratado apenas no final da vida, é um dispêndio inútil de energia, uma vez que ela pode ocorrer em qualquer etapa desenvolvimental. O entrelaçamento entre vida e morte, ao longo do desenvolvimento humano, leva ao questionamento de como as pessoas, em diferentes etapas do curso vital, significam as questões que envolvem a morte e o morrer em suas existências.

 

A morte ao longo do desenvolvimento

A criança, o adolescente e a morte

Embora a criança pequena não compreenda as três dimensões do conceito de morte: irreversibilidade, não funcionalidade e universalidade, pesquisas apontam que ela sofre quando não há o suporte necessário para o enfrentamento de situações de perda. Ao não ter com quem conversar e obter esclarecimentos a respeito, ela pode sentir-se confusa e desamparada em sua dor (Nunes, Carraro, Jou, & Sperb, 1998; Vendruscolo, 2005).

Na adolescência, a capacidade cognitiva é semelhante à do adulto, possibilitando a compreensão dos aspectos de irreversibilidade, não funcionalidade e universalidade da morte, tornando-a um evento mais real. O adolescente, comumente, encontra-se em uma de suas melhores condições físicas e cognitivas, ocupando-se em seu universo de descobertas sobre si mesmo e sobre o mundo, rumo à construção de uma identidade pessoal (Kovács, 2002).

Por se caracterizar como a porta para a liberdade, a adolescência acaba por ser uma fase em que ocorre grande número de mortes inesperadas devido a acidentes e a comportamentos de alto risco. Tal sensação de liberdade, frequentemente, leva o adolescente a sentir-se onipotente, motivando-o a envolver-se em situações ameaçadoras, sem que perceba o quanto pode prejudicar sua saúde ou mesmo morrer precocemente. Assim, embora exista o domínio cognitivo sobre o fenômeno da morte em seus elementos constitutivos, a consciência sobre sua universalidade parece não ter ainda se estabelecido nessa etapa do desenvolvimento (Kovács, 2003a; Rodriguez & Kovács, 2005).

O adulto e a morte

Na primeira fase da vida adulta, os jovens procuram assumir seu lugar na sociedade mediante a aquisição, aprendizado e desempenho de três papéis fundamentais: profissional, conjugal e parental (Bee, 1997). Aumentam as responsabilidades com relação à vida social; há o desejo de construção de uma família e a necessidade de deixar a casa dos pais. Muitos querem desenvolver-se mais no campo profissional e formar uma família. Assim, há grande dispêndio de energia com as novas tarefas, e a morte não é grande preocupação (Kovács, 2002).

Por volta dos 40 a 50 anos, muitas funções físicas podem apresentar mudanças e certos declínios apresentam-se com maior vivacidade. Os sinais de envelhecimento manifestam-se de modo mais evidente, e as mortes de pessoas próximas, muitas vezes dos próprios genitores, passam a ser recorrentes (Carter & McGoldrick, 1989/2001).

Um trabalho de revisão bibliográfica de Sartori e Zilberman (2008) apontou que a vida adulta é uma fase de maior estabilidade, em que a vida profissional se encontra no auge, e a satisfação conjugal volta a elevar-se com a saída dos filhos de casa. Por outro lado, em algumas situações, a ausência dos filhos pode levar os casais a uma diminuição na qualidade de vida, especialmente se eram dependentes financeira ou emocionalmente dos mesmos.

O adulto, também, pode passar por crises, como a chamada "crise da meia-idade", caracterizada por um período em que vai se conscientizando da inevitabilidade da própria finitude, à medida que reconhece novas limitações físicas e riscos à sua saúde e vivencia perdas e importantes mudanças nos principais papéis até então desempenhados. Os adultos começam a fazer um balanço de suas vidas até aquele momento, e a morte deixa de ser tão distante (Kovács, 2002).

É escassa a literatura nacional e internacional abordando a concepção de morte na fase adulta, e os estudos com essa população, geralmente, focalizam apenas as experiências de perdas e seus impactos (Burton, Haley, & Small, 2006; Gudmundsdottir, 2009; Gudmundsdottir & Chesla, 2006; Oliveira & Lopes, 2008).

O idoso e a morte

A etapa desenvolvimental da velhice, ou terceira idade, inicia-se por volta dos 65 anos e estende-se até a morte. Nessa etapa, há maior aceleração no declínio de algumas funções, e o acometimento por doenças apresenta-se de maneira tão próxima, que preocupações com o adoecimento e consequentes limitações tornam-se bastante frequentes para muitos idosos, mesmo que ainda tenham boa saúde (Walsh, 1989/2001).

Ainda, durante a velhice ocorrem perdas sociais decorrentes das mudanças de papéis que geralmente se dão nesse período. Há o abandono da função profissional devido à aposentadoria; o papel de filho deixa de existir com a morte do último genitor; a viuvez traz a perda do papel de cônjuge; o adoecimento pode inverter os papéis entre genitores e filhos, além das perdas de outros papéis socialmente desempenhados (Rabelo & Néri, 2005).

É frequente a concepção de que o medo da morte é mais presente entre os idosos. Todavia, o que parece mais assustá-los são as incertezas relacionadas ao período que antecede a morte, como as dúvidas quanto ao local em que irão residir no futuro, ou mesmo quem vai cuidar deles, se adoecerem (Bee, 1997).

Um estudo realizado com três grupos de idosos - asilados, hospitalizados e envolvidos em atividades de lazer - visou a compreender o significado da velhice, bem como as perspectivas de futuro para essa população. Os resultados indicaram que os asilados convivem quase que diariamente com a ideia de morte, tomando-a como a única alternativa para a saída da condição de desprovimento familiar e da falta de objetivos em que se encontram. Quanto aos idosos hospitalizados, a ideia de morte também se fez presente, contudo, de maneira mais contida e velada. Para estes, há a perspectiva de retorno às atividades rotineiras junto à família, e o medo da morte vinculou-se apenas aos que estavam em estágio terminal. Os idosos que desempenhavam atividades sociais e de lazer não tinham presente a ideia de morte, aparecendo depoimentos que faziam um balanço da vida e estabeleciam planos apenas em curto prazo. Portanto, os idosos com vida ativa e compromissada permaneciam abertos às possibilidades da vida, e a morte não foi objeto de preocupação (Boemer, Zanetti, & Valle, 1991).

Se a morte de si mesmo não é objeto principal da preocupação de boa parte dos idosos, as perdas de pessoas significativas podem levá-los, em alguns casos, ao desenvolvimento de quadros depressivos e até mesmo ao suicídio, especialmente quando se trata da morte do cônjuge (Brown, 1989/2001; Hansson & Stroebe, 2007). Estudo de Burton e cols. (2006) apontou que, nos casos em que a morte do cônjuge é repentina, os índices de depressão são mais elevados, quando comparados aos casos em que a morte se deu após longo período de doença incapacitante. Outro estudo, realizado com idosos asilados que perderam amigos que viviam no mesmo local, mostrou que as mortes dos únicos companheiros que ainda lhes restavam significaram, para alguns, a perda de parte de si (Silva, Carvalho, Santos, & Menezes, 2007).

No entanto, a maneira como a velhice será vivenciada relaciona-se ao processo de desenvolvimento, à consciência de cada pessoa em particular e à sua história de vida (Kovács, 2002; Rosenberg, 2002). Para Borges e cols. (2006), o medo de morrer é uma experiência que apenas o próprio indivíduo pode saber como é. Se vista como algo que proporciona crescimento e aprendizado, a ideia de morte não causará tanto sofrimento.

Cada etapa do desenvolvimento parece apresentar peculiaridades quanto à percepção e ao modo de lidar com a morte, bem como alguns elementos comuns que devem ser identificados e compreendidos. Com esse propósito, o presente trabalho buscou identificar as concepções de morte de pessoas na adolescência, na idade adulta e na velhice, de modo a ampliar a compreensão de como elas lidam com as perdas e com a própria finitude.

 

Método

Participantes

Participaram 31 pessoas, sendo sete adolescentes, 14 adultos e dez idosos. Os adolescentes tinham idades entre 14 e 17 anos (média = 15,6 anos), sendo três do sexo masculino e quatro do feminino, todos são solteiros e sem filhos. Dois cursavam o ensino fundamental, e os demais, o ensino médio. Quatro eram católicos; um era espírita; um, evangélico, e um não tinha religião.

Entre os adultos, as idades variaram de 40 a 52 anos (média = 45 anos), sendo sete homens e sete mulheres, todos casados e com filhos. Cinco tinham nível universitário, um estava com a graduação em andamento, e um era pós-graduado; um tinha o ensino fundamental, quatro possuíam o ensino médio completo e dois, incompleto. Nove praticavam a religião católica, dois, a espírita, e três eram evangélicos.

Quanto aos idosos, as idades variaram de 66 a 86 anos (média = 73,9 anos), sendo cinco homens e cinco mulheres. Nove eram casados e um era viúvo. Seis não terminaram o ensino fundamental e um não concluiu o ensino médio. Um idoso estudou até o ensino médio, um tinha nível universitário e outro fez pós-graduação. Cinco eram católicos, três, evangélicos, um era espírita e um disse não ter religião, embora acredite na existência de Deus.

Procedimento

Coleta dos dados

Dado o tabu envolvendo a temática a ser abordada, estabeleceu-se uma aproximação com os participantes mediante conveniência. A pesquisadora realizou um levantamento de pessoas conhecidas que poderiam indicar possíveis colaboradores com o estudo, de acordo com os critérios: adolescentes com idade igual ou superior a 14 anos; adultos com mais de 40 anos e idosos com mais de 65 anos, independentemente de gênero, escolaridade ou religião. Foi solicitado que fizessem uma consulta prévia com potenciais participantes, cientificando-os da temática do estudo e do posterior contato a ser estabelecido pela pesquisadora, caso quisessem colaborar. Os que aceitaram eram todos desconhecidos da pesquisadora e foram contatados por telefone, recebendo explicações detalhadas quanto ao estudo. Foram adotadas, como critério de exclusão, pessoas que tivessem perdido, por morte, alguém significativo nos últimos seis meses, visto que esta experiência recente poderia alterar a concepção ou o significado da morte para elas. Entre as pessoas consultadas, dois adolescentes, dois adultos e um idoso se recusaram a participar, sem justificar. Com os que aceitaram participar, foram agendadas entrevistas individuais em seus domicílios ou no local de trabalho, de acordo com sua disponibilidade.

No caso dos adolescentes, eles e seus responsáveis assinaram o Termo de Consentimento. Cada entrevista foi realizada em um único encontro, a partir de um roteiro semiestruturado que se iniciava com um preâmbulo da pesquisadora introduzindo a temática, e, a seguir, iniciava-se a entrevista, gravada em áudio, a partir das seguintes questões: (a) Gostaria de saber como é a morte para você? Como você vê esta questão? (b) Diante dessa sua visão da morte, como você vê a vida? (c) O que você acha que foi determinante ou importante para que você desenvolvesse esta maneira de ver a morte e a vida?

Foram, também, coletados dados demográficos dos participantes: idade, sexo, escolaridade e religião, além da informação sobre perdas de entes queridos (quem e quando morreu).

Análise dos dados

Foi utilizada a análise de conteúdo proposta por Bardin (1977) e Minayo (1996), seguindo as seguintes etapas: (a) Transcrição literal e na íntegra das entrevistas; (b) Diversas leituras dos relatos, numa tentativa preliminar de apreender os conteúdos presentes nas falas de cada participante; (c) Separação de trechos dos relatos e classificação de acordo com seu conteúdo, obtendo-se núcleos de sentidos que, posteriormente, foram agrupados em categorias temáticas criadas a partir dos temas que emergiram das falas dos participantes. Este procedimento foi escolhido, por permitir uma abordagem mais ampla e aberta do tema do estudo, buscando corresponder, com mais exatidão, aos relatos dos participantes.

Após a leitura e a compreensão dos discursos, foi possível construir quatro grandes categorias temáticas e subcategorias que estão apresentadas em tabelas, facilitando as comparações entre adolescentes, adultos e idosos. Todos os relatos apresentados seguem as seguintes legendas: pequena pausa (…); cortes nos relatos […]; som de negação (tsc); riso (rs).

Considerações éticas

Antes da realização da entrevista, os objetivos do estudo foram retomados, e os Termos de Consentimento Livre e Esclarecido foram lidos e assinados, ressaltando-se o caráter voluntário de cada participação e as questões de sigilo, anonimato, liberdade para desistir da participação a qualquer tempo e a utilização científica dos resultados, conforme projeto de pesquisa aprovado pelo Comitê de Ética da Faculdade de Ciências da UNESP de Bauru (Processo nº 1059/46/01/08).

 

Resultados e Discussão

A Tabela 1 apresenta os Significados da morte, com suas respectivas subcategorias.

Nas três faixas etárias estudadas, a subcategoria que mais se destaca é a visão da morte como algo natural no desenvolvimento humano, ou seja, como fato universal e inevitável, do qual não há como fugir: "Faz parte da vida de todo mundo, né, então, eu não tenho receio nenhum em falar da morte" (Adolescente 4); "É o natural da sua vida, você nasceu, viveu, automaticamente você vai morrer também, entendeu" (Adulto 4).

Entre os relatos, observou-se que os idosos foram os que mais recorreram ao discurso de resignação e familiaridade com o morrer (61%): "É por causa que todo mundo um dia vai morrer mesmo. Então, eu acho que tem aceitar isso numa boa. Ou cedo, ou mais tarde, eu acho que é normal. Enquanto a gente está vivo, eu acho que é o lógico, né, um dia a gente vai morrer mesmo" (Idoso 8).

No entanto, mesmo atribuindo um caráter natural à morte, 32% do total de participantes acredita que a vida continua após a morte, para a evolução espiritual.

Ainda, na categoria Significados da morte, nota-se que, em dois relatos (20%), os adolescentes falam da morte como aniquiladora dos projetos de vida:

Eu nunca pensei nesse assunto. Não sei se eu morrer (rs). Eu ainda não fiz tudo o que eu queria. Eu tenho muita coisa para fazer ainda e não quero morrer sem fazer isso. Tenho tantos sonhos, sei lá. Agora que eu saí do ensino médio, agora que eu sei que eu consigo, que eu posso fazer o que eu quero. Acho que não seria uma boa eu morrer agora (rs). Eu ia deixar muita coisa pelo meio do caminho (Adolescente 6).

Na adolescência, a morte é vista como impeditiva da realização de sonhos e objetivos, em uma época da vida em que há todo um universo a ser construído (Kovács, 2002; Rodriguez & Kovács, 2005). Três adultos também se inseriram nesta subcategoria. Entretanto, para eles, a aniquilação da vida seria o impedimento de apreciarem os frutos plantados ao longo da vida, enquanto, para os adolescentes, seria o fim da possibilidade de lançar as sementes construtoras de sua história pessoal.

A Tabela 2 apresenta a categoria A morte própria e suas respectivas subcategorias.

O conteúdo mais presente nas falas dos adultos denotou Preocupação com os familiares (46%), com apreensões sobre o futuro dos filhos e do cônjuge, uma vez que todos esses participantes eram casados e tinham filhos ainda dependentes:

A gente sabe que um dia todo mundo vai morrer, mas eu nunca parei para pensar e hoje eu paro porque eu tenho dois filhos [...] o meu maior medo é que eu venha a faltar, quem vai fazer por ele o que eu faço? Eu tenho pavor de que me aconteça alguma coisa e que eu deixe meus filhos [...] Dependem muito de mim. Eu tenho pavor só de pensar (Adulto 3).

A preocupação com o outro foi mais frequente nas falas dos homens (63%) do que entre as mulheres (37%), confirmando o estereótipo de que os pais são os principais provedores financeiros no núcleo familiar, principalmente quando o casal tem filhos (Bornholdt, Wagner, & Staudt, 2007; Fleck, Falcke, & Hackner, 2005): "Com a minha [morte] eu não me preocupo muito, mas eu me preocupo com quem vai ficar, como que eles vão estar, como eles vão se manter, é difícil, viu" (Adulto 10).

Ainda, para os adultos, outro conteúdo presente em 25% das respostas foi a Preferência em não pensar a respeito da própria morte:

Tenho medo que me aconteça alguma coisa, mas não fico pensando não. Se um dia tiver que chegar, que chegue e vá logo, porque não adianta a gente sofrer por antecipação, né [...] Para mim é difícil [...] Por mais que a gente saiba que faz parte da vida da gente, é uma coisa que ninguém quer encarar (Adulto 3).

De acordo com a literatura, a vida adulta intermediária é a fase em que as pessoas começam a fazer um balanço de suas vidas, pois geralmente já se encontram profissionalmente estáveis e com a família estruturada (Kovács, 2002). Segundo Bee (1997), trata-se do período em que o temor da morte encontra-se em seu pico mais elevado, pois é o momento em que parece existir um contato mais próximo com a ideia de sua inevitabilidade, em decorrência dos declínios advindos com a idade. Alguns participantes relataram não querer pensar sobre o assunto, uma vez que tais reflexões poderiam remetê-los a sentimentos com os quais não saberiam como lidar.

Já os conteúdos das falas dos adolescentes (43%) e dos idosos (32%) apresentaram maior frequência da Naturalização do próprio morrer: "Basta estar vivo para morrer, então, eu não preciso ficar me preocupando tanto nisso [...] É, vai acontecer eu querendo ou não. Pode ser hoje ou pode ser daqui dez anos, mas vai acontecer" (Adolescente 3); "Ah, eu acho que a vida tem que ser assim e a hora que chega o dia a gente tem que ir, né. Não penso, não fico nervosa não. Até para o médico eu falo, já vivi setenta anos, o que mais. Tem gente que não chega nem nos trinta, né" (Idoso 6).

Apesar de alguns adolescentes e idosos compartilharem da mesma linha de pensamento, é possível notar diferenças entre os relatos. Para os primeiros, a proximidade da morte não é tão presente como na fala dos segundos. A naturalização adquire, principalmente, a conotação de "afastamento" da ideia de morte, e não de "aproximação", por vê-la com naturalidade. Esse resultado corrobora o encontrado na literatura, indicando que durante a adolescência, o morrer é tratado onipotentemente como algo muito distante (Kovács, 2002).

Diferentemente, para os idosos, a consciência da própria idade e a expectativa de um futuro mais curto parecem levá-los a uma maior aproximação com a ideia de morte, aceitando-a como etapa inevitável:

A minha própria morte é o seguinte, eu estou preparado, quando Deus achar que eu preciso ir embora. Eu já tenho que preparar para isso aí, é ou não é? Que a idade já não vai ter mais futuro. Vocês não. Mas a gente que está nessa idade não tem mais futuro. Então, vamos esperar o fim, né [...] Já vivi bastante. Nós espera qualquer hora, né, pode ser agora, pode ser daqui dois anos, daqui três. Pode até ser dez, né [...] Não pode esperar outra coisa. (Idoso 10)

Mas, ainda que os idosos reconheçam a proximidade do próprio morrer, esse processo não se dá sem receios, principalmente no que diz respeito ao Medo do sofrimento e da necessidade de ser cuidado. Em 27% dos relatos, aparece o medo de sofrer no momento da morte, o que os leva a idealizarem a boa morte como repentina e silenciosa.

O receio da dependência de outras pessoas reflete o medo que os idosos sentem do sofrimento e de se tornarem inúteis. De acordo com Khoury e Günter (2008), a liberdade de ação e a privacidade constituem-se importantes necessidades de pessoas idosas. Walsh (1989/2001) assinala que o avanço da idade poder vir acompanhado de degenerações físicas e do temor da invalidez, sendo esta uma preocupação mais comum do que o temor da morte entre os idosos mais velhos.

Na Tabela 3, encontra-se a categoria A morte do outro e suas respectivas subcategorias.

Ao falarem sobre a morte de pessoas queridas, a subcategoria mais frequente e que melhor descreveu o que representa vivenciar a morte de alguém afetivamente próximo, para as três faixas etárias, independentemente da religião dos participantes, foi o sentimento de Tristeza, dor e saudade (31% de relatos dos adolescentes, 43% dos adultos e 38% dos idosos), denotando que, em qualquer fase da vida, a morte significa perda geradora de sofrimento. Considerando as respostas alocadas nesta categoria, somadas às respostas na categoria Recordações, observa-se que, para os adultos (60%) e idosos (43%), mais do que para os adolescentes (37%), a morte do outro significa a convivência com a falta, a saudade e as recordações. Nas falas dos participantes, percebe-se que esta diferença pode estar ligada a uma história mais longa de perdas na vida de adultos e idosos, do que na de adolescentes: "Angústia de pensar assim, ah, eu não vou ver aquela pessoa mais, não vou mais poder conversar. É [...] você fica, tipo, sentido, bastante" (Adolescente 2).

Que nem o meu sogro, meu sogro era de eu e meu marido sentar ali e a gente ficar conversando, falando de coisas que tinham acontecido. Foram vários meses. Ia lá, ele não estava mais lá. Então tudo isso porque era muito próximo, entendeu. Aí o sentimento, eu acho que é o mesmo, de pena, de [...], mas a dor eu acho que é maior, entendeu. Eu acho que é maior (Adulto 3).

Eu perdi tudo. Perdi meu pai com 16 anos, mas não sofri tanto como quando perdi minha mãe. A minha mãe eu senti muito mais, porque a gente conviveu mais com ela [...] ela morreu com 69 anos de idade. Eu já era casado, já tinha os filhos que tenho até hoje, todos vivos. É, é difícil, é difícil. (Idoso 3)

A morte de pessoas queridas traz um profundo sentimento de tristeza por significar o rompimento dos laços e da proximidade com a pessoa amada. A dor vivenciada é intensa, e, para alguns participantes, pensar na possibilidade dessa separação gera mais apreensão do que pensar em suas próprias mortes: "Eu acho que eu tenho mais medo de perder um filho, né, uma pessoa próxima, do que eu mesmo partir, entende. Sentimos ainda medo dela por a gente gostar muito, curtir muito uma pessoa, ela estar muito próxima, então a gente não quer essa distância, né" (Adulto 8).

De acordo com Brown (1989/2001), o ajustamento à morte de um membro do sistema familiar parece ser mais difícil do que o ajustamento a outras transições da vida, pois rompe o equilíbrio existente neste sistema, podendo levar a um distanciamento entre seus integrantes. Por outro lado, para os participantes do presente estudo, há algumas ocasiões em que a morte é aceita com mais facilidade, como, por exemplo, quando há Sofrimento e/ou o morto já se encontrava em Idade avançada. Os relatos dos adolescentes foram os que apresentaram essas considerações com mais frequência (25%), seguidos dos idosos (19%): "Para mim foi fácil porque ela já estava meio doente; ela estava no hospital e daí quando ela morreu, para a gente já estava assim, já esperava isso"(Adolescente 6);

Se morrer um pai, uma mãe da gente e estão de idade, a gente se conforma. Agora, Deus o livre se morre um da gente mais novo, a gente fica ali, vê que a pessoa estava boa, foi assim de repente, a gente fica naquele, né, naquele nervo, e acho que a gente demora para conformar (Idoso 6).

Esses resultados confirmam dados apresentados por Brown, mostrando que, quando a figura que morre estava doente ou era idosa, o luto terá consequências menos drásticas no sistema familiar, uma vez que a pessoa é vista como alguém que estava sofrendo ou que já cumpriu a maior parte de suas responsabilidades no curso vital. Geralmente, quem mais sofre com a situação será o cônjuge que ficou viúvo, pois, para os filhos que constituíram suas próprias famílias, a morte de um dos genitores, quando estes se encontram na velhice, parece ser mais bem aceita. Segundo Parkes (1972/1998), o casamento e a existência de filhos parecem protegê-los dos efeitos traumáticos que essa perda poderia gerar em suas vidas.

Já, os adultos, apesar de relatarem tristeza e dor diante da perda de pessoas queridas, parecem encarar tal fato como algo inevitável, com o qual devem conviver:

Daí, com o amadurecimento, quando eu perdi a minha mãe, aquela coisa toda, você já está maduro, então você sabe que realmente aquilo é matéria, chegou a hora de ir embora (...) e tem que ir embora. Então é isso. É aceitar (Adulto 6).

Com relação aos idosos, falar sobre as perdas de pessoas significativas levou-os a vívidas Recordações, o que não ocorreu da mesma maneira com os adultos e adolescentes entrevistados:

Ela morreu em 29 de agosto de 2006 (...) ela estava respirando forte, né (...) e tinha mania de roncar. Então, estava roncando, né, e roncando forte e roncou, roncou e parou. Quando parou, eu achei esquisito, fui ver e já estava falecida. (Idoso 1, referindo-se à esposa)

Falar sobre a morte deixou os idosos face a face com suas recordações. Uma das participantes idosas lembrou-se de seus irmãos, pai e mãe, enquanto outro idoso se recordou do falecimento de seu cunhado cuja morte ocorreu no dia de sua festa de bodas de ouro. Um deles havia perdido a esposa, dois anos antes da realização da entrevista, e recordou-se detalhadamente do ocorrido.

Os idosos já experienciaram maior quantidade de situações de perdas do que seus filhos e netos. Tais perdas, associadas às limitações da idade e à diminuição dos contatos sociais, podem impeli-los rumo a um mundo solitário e vazio, o qual, muitas vezes, eles não se sentem capacitados a enfrentar.

A Tabela 4 apresenta a categoria O viver frente à inevitabilidade do morrer e suas subcategorias.

Ao falarem sobre como significar suas vidas diante da inevitabilidade do morrer, 78% dos relatos dos adolescentes apontaram para a necessidade de Aproveitar a vida, vivenciando o momento presente, sem preocupações com a possibilidade da morte: "Tem que aproveitar enquanto pode, ir lá, assim, sem pensar no amanhã. Faz hoje, por que você não sabe se amanhã você vai estar vivo ou vai estar morto"(Adolescente 2).

Esse resultado confirma e ilustra o modo de ser dos adolescentes que, em geral, olham para o presente e desejam o futuro com um sentimento de aparente invulnerabilidade (Rodriguez & Kovács, 2005).

Com relação aos adultos, metade de suas falas (50%) ressalta a necessidade de aproveitar a vida. Contudo, entendem que o desfrute deve ser acompanhado da preservação de valores fundamentais, como o respeito pelo outro, o cultivo da espiritualidade e a vivência junto à família. Além disso, resgatam as conquistas obtidas e a superação de adversidades, reconhecendo-se transformados por suas experiências existenciais:

Para mim a vida é isso daí, viver intensamente [...] Nós temos que saber viver em todos os momentos, e saber compreender que se você está passando por alguma coisa, algum momento difícil, é passageiro. É só você continuar vivendo, respeitando, que passa por aquilo, por esse momento ruim e virão outras coisas boas (Adulto 8).

Diferentemente, entre os idosos, nenhuma resposta inseriu-se na categoria Aproveitar a vida. Mais da metade de seus relatos (58%) referiu-se à necessidade de Viver de acordo os ensinamentos morais e religiosos:

Nós temos dois caminhos, o da perdição e o da salvação. Cada um escolhe aquele que acha que é certo. Eu vou levando a minha vida aí até o fim [...] Eu, graças a Deus com a esposa nós sempre vivemos bem; quase nunca tivemos desgosto na vida, no casamento, né, e nunca também dei desgosto para o meu sogro, minha sogra (Idoso 10).

O fato de serem idosos parece não lhes permitir projetarem suas vidas para um futuro distante. Então, olham para suas vidas e recordam-se das conquistas e dos obstáculos que superaram, enfatizando a boa convivência com o outro, o respeito e a preservação de valores que, para eles, contribuíram para que colhessem bons frutos ao longo da vida. Quase metade (42%) de suas falas também relacionou essas conquistas à Superação das dificuldades enfrentadas ao longo da vida:

A vida para mim é um caminho [...] Acredito que para que a gente evolua há muita necessidade de muitos obstáculos para que a gente consiga enfrentar a força de vencer, né. Você vai indo, está no caminho, está trabalhando com a própria evolução, vencendo obstáculos. (Idoso 4)

A análise das entrevistas e as observações referentes à forma como tais conteúdos foram abordados pelos entrevistados permitem algumas considerações. No que diz respeito aos adolescentes, observou-se que eles encaram a morte como algo real, universal, inevitável e irreversível, contudo parece que não se preocupam muito com ela, uma vez que o presente e o futuro exigem maior atenção. Para eles, a própria morte é algo distante, e, talvez por essa razão, suas falas apresentem certa dose de despreocupação com esta possibilidade. De acordo com Rodriguez e Kovács (2005), uma das principais características da adolescência é o desejo de "aproveitar a vida" que, frequentemente, leva-os a "desafiar a morte". No entanto, no que diz respeito às perdas de pessoas próximas, esta possibilidade é vista com tristeza e dor, fazendo parte das preocupações dos adolescentes entrevistados.

Quanto aos adultos, de maneira geral, compreendem a morte como um acontecimento universal, do qual não têm como escapar. Contudo, ao falarem sobre como lidam com a própria finitude, vários preferiram evitar pensar sobre o assunto. Foram poucos os momentos em que conseguiram falar abertamente sobre seus temores e angústias. Na maior parte dos relatos, a preocupação com a morte foi associada aos familiares e em como estes se sustentariam sem eles. Tal apreensão foi uma característica marcante entre os adultos, principalmente entre os homens. Quanto às perdas, esta possibilidade é vista com sofrimento, dor e saudade, sendo que a manifestação de tais sentimentos ocorreu de maneira mais explícita do que quando apresentada pelos adolescentes. O avanço da idade pareceu propiciar reflexões sobre a brevidade da própria vida, especialmente nos momentos de perda. Ao abordarem a questão da morte do outro e a ideia da própria finitude, os participantes falaram da necessidade de aproveitar bem a vida e o momento presente, num movimento de aparente afastamento do tema da morte, deixando-a para mais tarde. Ao refletirem sobre suas histórias de vida, relembram as dificuldades e os obstáculos encontrados. Percebem a necessidade de atentarem para o presente e para o futuro, a fim de desfrutarem o que a vida já lhes proporcionou e para o que podem ainda desejar, distanciando-se da perspectiva da finitude.

Quanto aos idosos, suas falas denotam certa aceitação com a proximidade da própria morte e das perdas de pessoas queridas. Vários disseram pensar sobre a própria finitude e parecem sentir-se conformados em não desejar nada mais de suas vidas além de saúde, felicidade e uma morte tranquila e sem sofrimento. Em seus relatos, a morte do outro foi vista com grande sofrimento, suscitando lembranças nostálgicas e solitárias. Quando questionados sobre como veem a vida, disseram saber que estão no fim de suas jornadas e que a incerteza, com relação ao tempo que ainda lhes resta, não lhes permite traçar grandes planos futuros. Contudo, ao longo das entrevistas, quase todos os idosos aproveitaram a oportunidade de falar livremente para se recordarem de eventos significativos de suas vidas, em que superaram sofrimentos e obtiveram conquistas.

De modo geral, adolescentes e idosos mostraram menos aflição ao falarem de morte, quando comparados aos adultos. Entretanto, apesar da naturalidade apresentada por ambos, os significados de seus discursos revelaram importantes diferenças. Isso porque, enquanto os idosos falaram da morte com maior conformidade, denotando estar se preparando para ela, os adolescentes apresentaram um discurso de banalização da morte, esquivando-se dela e colocando-a como uma possibilidade remota.

Os adultos, entre as três gerações entrevistadas, são aqueles que mantiveram uma relação mais conflituosa com o morrer. Todos são genitores e, em certa medida, ainda sentem-se responsáveis pelo cuidado dos filhos, de modo a projetarem suas perspectivas de vida em virtude deles. No entanto, à medida que envelhecem e experienciam a morte de diversas pessoas ao redor, passam a temer o próprio futuro que, de um lado, pode trazer a perda de seus genitores, e, de outro, pode lhes retirar desse mesmo papel. Diante de tal ameaça, portanto, eles foram os que mais demonstraram temer a morte, negando-a mais do que adolescentes e idosos.

Com relação à religião, excetuando-se um adolescente que se declarou sem religião e um idoso, na mesma situação, mas que disse acreditar em Deus, os demais participantes (93,5%) declararam pertencer a alguma denominação religiosa, sendo: 18 católicos (58%); quatro espíritas (13%); sete evangélicos (23%). Esses dados são similares aos encontrados por Nascimento e Roazzi (2007), ao estudarem a representação social da morte na interface com as religiosidades cristãs que acreditam na vida eterna e na sobrevivência da alma ou espírito após a morte. A concepção de morte como etapa esperada e natural da vida foi mais frequente entre os entrevistados evangélicos, aparecendo em 86% de suas falas, em 50% das falas dos espíritas e em 33% dos relatos dos católicos. O adolescente que se mostrou mais reticente ao falar da morte e que mais evitou o tema da própria morte foi o que se declarou sem religião. Os participantes que praticavam a religião espírita foram os únicos a relatar que trazem a reflexão sobre a morte para suas vidas diárias. Não se observaram outras diferenças entre os participantes nas demais categorias de respostas ou entre as faixas etárias com relação à religião declarada e, neste estudo, não houve aprofundamento dessa questão.

Estudo realizado por Torres (1986) mostrou que a ortodoxia religiosa leva a um menor temor da morte. As diferenças entre evangélicos, espíritas e católicos, quanto à forma de se referir à morte, na categoria Processo natural do desenvolvimento, podem ser decorrentes das peculiaridades de cada religião quanto à crença do que ocorre após a morte e à ortodoxia da crença na ressurreição e vida eterna, notadamente maior entre evangélicos do que entre a maioria dos católicos. Entre os espíritas, a crença na reencarnação leva seus adeptos a encarar a morte como uma simples "passagem" entre vidas, tornando mais confortadora a ideia da morte (Nascimento & Roazzi, 2007; Torres, 1986). De acordo com Horta, Neme, Capote e Gibran (2003), Kovács (2003b) e Neme (2005), a fé e a religiosidade, independentemente da denominação religiosa, auxiliam no enfrentamento da doença grave e da morte, permitindo reflexões sobre o significado da vida e a manutenção da esperança frente a uma realidade que traz insegurança e sofrimento.

A despeito das diferenças nas três faixas etárias estudadas, os resultados obtidos mostram que a morte foi abordada com maior inquietação por adolescentes e adultos, visto que eles ainda têm projetos futuros e, por essa razão, encaram a morte como aniquilação da vida ou finalização de projetos existenciais. Os idosos, mais do que adultos e adolescentes, falaram da morte como processo natural da vida, considerando mais concretamente os temores de adoecer, de se tornarem dependentes e de morrer com sofrimento. O sentimento de perda, vazio, saudade e tristeza pela morte de entes queridos é mais presente para os idosos, levando-os a reflexões e falas que revelam suas recordações.

 

Considerações finais

A realização deste trabalho possibilitou aos participantes abertura para falarem e compartilharem seus sentimentos, opiniões, crenças e temores sobre um tema complexo e dificilmente abordado. Ao criar espaços para que o silêncio ao redor do assunto fosse quebrado, este estudo permitiu lançar um olhar reflexivo ao modo como os seres humanos de três faixas etárias concebem a inevitável finitude em suas vidas. Assim, foi possível perceber que, embora a morte seja tratada como um fenômeno natural, na maior parte dos relatos, o aprofundamento da reflexão sobre o tema possibilitou trazer à tona os medos, as preocupações, as aflições e as dificuldades de encará-la sem sofrimento.

Em linhas gerais, os resultados confirmam o que a literatura sobre o desenvolvimento humano descreve sobre as concepções de morte nas diferentes faixas etárias. Também confirmam possíveis relações entre a religiosidade e o modo de ver a vida e a morte, independentemente da faixa etária estudada. Contudo, acredita-se que tais resultados poderiam ser diferentes, caso se considerassem diferentes classes sociais e condições de vida entre os indivíduos das mesmas faixas etárias estudadas.

A entrevista permitiu aos participantes a exposição e a reflexão de suas experiências de vida, bem como possibilitou que a relutância inicial para falar sobre o assunto fosse gradativamente substituída por uma postura de maior abertura. Falar sobre a morte permitiu vislumbrar muito da vida de cada participante, obtendo-se mais que uma simples e superficial descrição. Evidenciou-se que o tema da morte é mobilizador de sentimentos em qualquer etapa da vida, e a possibilidade de abordá-lo gerou reflexões frequentemente ausentes nos diálogos e contextos familiares e educacionais. Que benefícios educativos o poder falar abertamente sobre suas angústias e temores frente à ideia da morte poderiam trazer às crianças, adolescentes e adultos jovens? Esse tipo de diálogo, ainda constrangedor, poderia auxiliar adultos e idosos que, gradativamente, vão se conscientizando dessa realidade no decorrer do curso vital? Como educadores e profissionais de saúde poderiam melhor se preparar para atuar como facilitadores quando se trata de abordar a morte e o morrer? As crenças religiosas sobre a continuação da vida após a morte seriam uma maneira de aceitação/negação do próprio fim? Tais questões, suscitadas por este estudo, sugerem a realização de outros trabalhos, nos quais poderiam ser contemplados aspectos não abordados, ampliando-se os limites do presente estudo. Sugere-se a realização de pesquisas com outras faixas etárias (crianças e adultos jovens), com maior número de participantes, em diversos contextos e classes sociais e em diferentes áreas de conhecimento, bem como estudos comparativos entre gêneros e diferentes religiosidades. As dificuldades observadas para abordar a questão da morte mostram que ela precisa ser reconduzida ao seu lugar originário, qual seja, o interior da existência humana. Espera-se que o desenvolvimento de estudos dessa natureza diminua o silêncio que cerca o assunto, propiciando, assim, abertura para novas possibilidades de viver e de significar a vida.

 

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Endereço para correspondência:
Caroline Garpelli Barbosa
Rua Maria Térci, 87
CEP 18.085-610. Sorocaba-SP, Brasil
E-mail: psica_ca@yahoo.com.br

Recebido: 03/03/10
1ª revisão: 26/08/10
Aceite final: 14/10/2010

 

 

Caroline Garpelli Barbosa é Professora do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Paulista, Campus Sorocaba-SP.
Lígia Ebner Melchiori é Professora Doutora do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista, campus Bauru-SP.
Carmen Maria Bueno Neme é Professora Adjunta do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista, campus Bauru-SP.

 

 

1 Este texto foi revisado seguindo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990), em vigor a partir de 1º de janeiro de 2009. Este artigo é derivado da Dissertação de Mestrado da primeira autora, sob orientação da segunda autora e coorientação da terceira. Apoio: FAPESP.

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