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Scientia Agricola

versión impresa ISSN 0103-9016

Sci. agric. (Piracicaba, Braz.) v.51 n.2 Piracicaba mayo/ago. 1994

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-90161994000200011 

FITOTECNIA

 

Efeito residual do adubo aplicado na soja (Glycine max L. Merrill) sobre a cana-de-açúcar (Saccharum spp.)1

 

Residual effect of fertilizer applied to soybean on sugarcane yield

 

 

H.A.A. MascarenhasI, 2; A.A. CostaI, 2; R.T. TanakaI, 2; E.J. AmbrosanoI, 2; F.V. RosaII; V.F. CostaII

IInstituto Agronômico, Caixa Postal 28, CEP: 13001-920, Campinas, SP
IINova Aliança-Agrícola e Comercial Ltda, C.P. 178, CEP: 14001-920, São Joaquim da Barra, SP

 

 


RESUMO

Foi conduzido na Fazenda Nova Aliança no município de Sales de Oliveira, SP em latossolo roxo distrófico um experimento com 14 tratamentos para verificar o aproveitamento pela cana, do efeito residual do adubo aplicado na soja e vice-versa. O delineamento experimental foi de blocos ao acaso com quatro repetições. Os resultados mostraram que cana apenas aproveitou o efeito residual quando as doses de fertilizantes foram altas.

Descritores: soja, cana, adubação, efeito residual.


ABSTRACT

An experiment was installed on a dark red latosol in the County of Sales de Oliveira, SP, to verify the residual effect of fertilizer applied to soybean on the sugarcane yield and vice versa. A randomized block design with four replications was utilized. The results showed that sugarcane responded to residual fertilization only at high fertilizer doses.

Key Words: soybeans, sugarcane, fertilization, residual effect.


 

 

INTRODUÇÃO

A rotação de culturas é uma prática agrícola que consiste em alternar no mesmo terreno, diferentes culturas em uma seqüência de acordo com um plano definido (MIYASAKA, 1983).

Espécies e variedades diferem na eficiência com que utilizam os elementos absorvidos no processo de formação da colheita. Há diferenças varietais na capacidade de extrair elementos do solo e de responder a adubação (BATAGLIA et al. 1977).

Atualmente no Brasil, os produtores que utilizam a rotação de culturas vem obtendo resultados favoráveis e com isso, esta prática tem aumentado ano a ano.

Esta utilização mais intensa do solo, parece estar condicionada a razão de ordem econômica, a necessidade de produções cada vez maiores de alimentos e a sustentabilidade do sistema agrícola.

Cada espécie vegetal modificando o ambiente por sua seletividade na absorção de nutrientes, nas excreções radiculares e na brota da rizosfera, alteram o pH do solo, a absorção, a transpiração da água e o retorno de restos vegetais de modo que, a cada cultivo apresentam-se como um ecossistema diferente (PRIMAVESI, 1982).

Experimentação de rotação com adubos verdes em condições tropicais e subtropicais tem demonstrado aumento na produtividade dos cereais, oleaginosas e leguminosas. Uma das razões desse incremento é o balanço favorável do nitrogênio: no caso de leguminosas, estas em associações simbióticas com as bactérias formam nódulos e fixam aquele elemento do ar que, posteriormente, com a decomposição da fitomassa se mineraliza (MASCARENHAS et al. 1984).

Na produção de 50kg de nitrogênio mineral consome-se energia equivalente a 80 litros de gasolina. Plantas das famílias leguminosas são as que mais fixam o nitrogênio por unidade deárea, além de produzirem alimentos e fibras (ROHWEDER et al. 1977). Considerando a atual crise energética e financeira nacional, esta reflete-se sobre os fertilizantes nitrogenados, com diretas implicações nos custos dos produtos agrícolas (MASCARENHAS et al. 1977).

A soja (Glycine max (L.) Merrill) é planta que fixa o nitrogênio atmosférico mediante simbiose com a bactéria Bradyrhizobium japonicum. Esta característica possibilita à leguminosa, quando a sua semente é inoculada com a bactéria, uma situação de independência de adubação para suprir as exigências em nitrogênio (MASCARENHAS et al. 1977), o mesmo não ocorrendo com a cana de açúcar (Saccharum spp.), gramínea que reage acentuadamente à aplicação do nitrogênio mineral (ESPIRONELO et al. 1987).

A cultura do milho ou algodão, em sucessão à soja aproveitam de forma eficiente o resíduo do adubo da leguminosa e ambas dispensam a aplicação de nitrogênio mineral em cobertura (MASCARENHAS, et al. 1984).

Durante o período de pousio da gleba destinada ao cultivo consecutivo da cana de açúcar (outubro a março) é possível cultivar-se a soja. Essa prática tem a vantagem de: não necessitar de novas fronteiras agrícolas, ou o deslocamento de outras culturas de grãos; minimizar a erosão pela presença de cobertura viva durante a estação chuvosa; empregar a mão de obra durante a entressafra da cana; obter renda nesse período; diminuir o custo da implantação de cana seja pelo menor preparo de solo exigido, seja pela maior disponibilidade de N fixado pela soja.

O objetivo deste trabalho foi verificar se as doses crescentes de adubação em soja poderia dispensar a da cana em sucessão a essa leguminosa.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Na Fazenda Nova Aliança, em Sales de Oliveira, SP num Latossolo Roxo distrófico foi conduzido nos anos agrícolas de 1983/85 um experimento de sucessão soja-cana. A análise química do solo (método do ácido sulfúrico) efetuada após a aplicação de 3t/ha de calcário dolomítico mostrou os seguintes resultados: pH 6,5, matéria orgânica 2,0%, P = 7,1 ppm, K = 31 ppm, Ca e Mg respectivamente de 1,76 e 0,72 meq/100 ml. Esta gleba havia sido cultivada com cana de açúcar para produção de mudas.

O delineamento experimental utilizado foi de blocos ao acaso, com quatro repetições. Os 14 tratamentos consistiram de:

(1) alqueive e cana sem adubo;

(2) soja sem adubo e cana sem adubo;

(3) Soja com adubo (0-42-30) e cana sem adubo;

(4) soja com adubo (0-84-60) e cana sem adubo;

(5) soja com adubo (0-126-90) e cana sem adubo;

(6) soja com adubo (0-168-120) e cana sem adubo;

(7) soja com adubo (0-210-150) e cana sem adubo;

(8) alqueive e cana com adubo (16-80-80);

(9) soja sem adubo e cana com adubo (16-80-80);

(10) soja com adubo (0-42-30) e cana com adubo (16-80-80);

(11) soja com adubo (0-84-60) e cana com adubo (16-80-80);

(12) soja com adubo (0-126-90) e cana com adubo (16-80-80);

(13) soja com adubo (0-168-120) e cana com adubo (16-80-80) e

(14) soja com adubo (0-210-150) e cana com adubo (16-80-80).

Quatro meses após o brotamento da cana, foi feita em todos os tratamentos, adubação em cobertura na dose de 40kg/ha de N na forma de sulfato de amonio. Portanto, os primeiros sete tratamentos receberam no total, 40 kg/ha de N mineral, enquanto os demais receberam 56.

A parcela da soja consistiu de 12 linhas de 10 metros espaçadas entre si de 0,60m. A soja 'IAC-Foscarin-31' foi semeada em outubro 1983. Um mês após a germinação foi feito o desbaste deixando-se 15 plantas por metro linear. Na época do florescimento foram amostradas 30 folhas por parcela, para verificar o estado nutricional das plantas.

A colheita foi efetuada no início de março colhendo as quatro linhas centrais, deixando um metro de cada extremidade.

Em seguida foi plantada (sulcos de 0,25 m e profundidade de 0,40 m) a cana cultivar NA56-79 nas parcelas de cinco linhas de 10 m espaçadas entre si de 1,40 m. Nove meses após o plantio foi feita para análise química, amostragem de 15 folhas de cana por parcela, as terceiras do ápice, excluindo a nervura. As amostras das folhas das duas culturas foram lavadas com água destilada e secas durante três dias, em estufa a temperatura de 60°C, moídas e em seguida analisadas quanto aos teores de macronutrientes, conforme a metodologia de BATAGLIA et al. (1983).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Houve um normal crescimento das plantas de soja na fase vegetativa devido a quantidades e freqüências adequadas de precipitações pluviais. No início de florescimento houve dez dias de veranico, comprometendo o pegamento de vagens, resultando num coeficiente de variação alto. Conforme ARRUDA et al. (1976), o estádio crítico da soja quanto à disponibilidade de água é no florescimento e frutificação. Embora não tenha havido diferenças significativas entre os tratamentos adubados, observa-se que onde não foi feita a adubação, houve uma maior produção de soja (TABELA 1). Verificando as análises de folhas (TABELA 2), nota-se que os teores de fósforo e potássio estão em quantidades adequadas (OHLROGGE e KAMPRATH, 1968). MASCARENHAS et al. (1977) também mostraram que o cultivo da soja após o do milho e do algodão, adubados adequadamente, aproveitou eficientemente o efeito residual não necessitando de quantidades extras de nutrientes.

 

 

 

 

Além disso, o cultivar de soja IAC-Foscarin-31 é tolerante à alta disponibilidade de manganês (MASCARENHAS et al., 1990) e menos exigente em fósforo e potássio (TANAKA & MASCARENHAS, 1992) do que os outros cultivares. Os tratamentos com adubos aumentaram as concentrações nas folhas sem aumentar a produtividade, indicando que houve uma absorção de luxo (TABELA 2).

Os dados de produtividade apresentados na TABELA 1 mostram que a cana de açúcar apenas aproveitou o efeito residual da adubação da soja, quando esta foi superior a 0-126-90 kg/ha. A produtividade média de 1700 kg/ha de soja deve ter exportado somente 20 kg/ha de P2O5 e 38 kg/ha de K2O, deixando ainda uma considerável quantidade de nutrientes primários para a cana. Infere-se portanto que a cana para ter um desenvolvimento normal, necessita que o adubo seja aplicado de forma localizada, não tendo capacidade eficiente para aproveitar o resíduo das adubações anteriores.

Os dois tratamentos de alqueive da soja evidenciaram que esta cultura não trouxe benefícios para a cana de açúcar, pois tanto com o alqueive como com a soja, as produtividades de cana foram semelhantes.

As folhas da cana não apresentaram variações em função dos cultivos anteriores de soja ou das adubações residuais da soja e diretas da cana de açúcar (TABELA 3).

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BATAGLIA, O.C.; MASCARENHAS, H.A.A.; TISSELLI FILHO, O. Composição mineral das sementes de nove cultivares de soja. Bragantia, Campinas, v.36, p.XLVIII-L, 1977.        [ Links ]

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Enviado para publicação em 30.08.93
Aceito para publicação em 24.01.94

 

 

1 Trabalho realizado com o apoio financeiro da Nova Aliança Agrícola e Comercial Ltda. e apresentado na XXI Reunião Brasileira de Fertilidade do Solo e Nutrição de Plantas, realizada em Petrolina(PE), no período de 28/08 a 02/09/94.
2 Bolsista do CNPq.