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Scientia Agricola

Print version ISSN 0103-9016

Sci. agric. (Piracicaba, Braz.) vol.52 no.2 Piracicaba May/Aug. 1995

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-90161995000200022 

ARTIGOS

 

Enraizamento de estacas de lichia (Litchi chinensis Sonn.)

 

Rooting of lychee (Litchi chinensis Sonn.) cuttings

 

 

S. LeonelI; J. D. RodriguesII; S. D. RodriguesII

IPós-Graduanda, FCA/UNESP, Botucatu, SP
IIDepto. de Botânica - I.B/UNESP - CEP: 18618-000 - Botucatu, SP

 

 


RESUMO

Estudou-se os efeitos de auxilias exógenas e ácido bórico, no enraizamento de estacas de lichia (Litchi chinensis Sonn.). As estacas foram uniformizadas, com 25 cm de comprimento e 4 folhas cortadas pela metade. Cerca de 2,5 cm da base das mesmas foi mergulhado nos tratamentos: H2O; Boro 150 µg/ml; IBA 5.000 ppm, IBA 2.000 ppm; IBA 5.000 ppm + Boro 150 µg/ml; IBA 2.000 ppm + Boro 150 µg/ml; NAA 3.000 ppm; NAA 1.500 ppm; NAA 3.000 ppm + Boro 150 µg/ml; NAA 1.500 ppm + Boro 150 µ/g/ml. A estaquia foi realizada no mês de setembro (Hemisfério sul), sendo que as estacas foram colocadas em bandejas de isopor, tendo como substrato vermiculita e mantidas sob nebulização intermitente. Os resultados obtidos permitiram concluir que o IBA 5.000 ppm por 1 minuto foi o tratamento mais efetivo, proporcionando 83,33% de estacas enraizadas em 120 dias, enquanto o tratamento testemunha (H2O), apresentou somente 16,67% de estacas enraizadas.

Descritores: reguladores vegetais, ácido bórico, "callus", lichieira, estacas; enraizamento


ABSTRACT

The effects of exogen auxins and boric add were studied on lychee (Litchi chinensis Sonn.) cuttings. Cuttings were standardized to twenty-five cm length, with four leaves, cut in half. The bases of the cuttings were dipped of 2,5 cm in water solutions, resulting in the following treatments: H2O; Boron 150 µg/ml; IBA 5,000 ppm; IBA 2,000 ppm; IBA 5,000 ppm plus boron 150 µg/ml; IBA 2,000 ppm plus boron 150 µg/ml; NAA 3,000 ppm; NAA 1,500 ppm; NAA 3,000 ppm plus boron 150 µg/ml; NAA 1,500 ppm plus boron 150 µg/ml. Cutting was performed in September (southern hemisphere) and the cuttings were place in styrofoam trays, using vermiculite as substratum and kept under intermittent mist It was concluded that 5,000 ppm IBA for one minute was the best treatment to improve rooting (83,33%), while the control (H2O) showed only 16,67% of rooted cuttings.

Key Words: growth regulators, boric acid, "callus", lychee, cuttings


 

 

INTRODUÇÃO

A lichia é uma fruta exótica, de origem chinesa, que está tornando-se bastante conhecida no Brasil, onde vem sendo muito procurada. Contudo, o que se observa é a existência de poucos produtores dessa frutífera em nosso país, devido principalmente às dificuldades de propagação.

A propagação através de sementes retarda a produção, devido ao longo período improdutivo ocasionado pela juvenilidade, tendo também a desvantagem de que as sementes dessa espécie perdem rapidamente o poder germinativo (BAILEY, 1927; COBIN, 1954; GOMES, 1987; HARTMANN & KESTER, 1983; SINGH et al., 1963). Além disso, muitas plantas originadas de sementes têm pequena produção, com frutas de baixa qualidade (YEE, 1957), sendo que tais fatores desfavorecem um maior interesse por parte dos fruticultores.

O enraizamento de estacas é uma das alternativas para a propagação dessa espécie, uma vez que permite o início da produção de fruta num menor espaço de tempo, além de permitir a manutenção das características desejáveis selecionadas nas matrizes, embora em alguns casos, seja um processo difícil e demorado (MENZEL, 1985). Para acelerar e promover o enraizamento de estacas, habitualmente são empregados hormônios do grupo das auxinas, os quais levam à uma maior porcentagem de formação de raízes, melhor qualidade das mesmas e uniformidade no enraizamento (HARTMANN & KESTER, 1983).

O presente trabalho, foi conduzido com o objetivo de avaliar o efeito da utilização de fitorreguladores, como o ácido indol-butírico e alfa-naftaleno-acético, aplicados isoladamente ou em conjunto com o ácido bórico, o qual de acordo com diversos autores (HIRSCH et al., 1982; JARVIS et al., 1983; LEWIS, 1980; MIDDLETON, 1977), exerceria um efeito sinergístico com as auxinas, no desenvolvimento de raízes em estacas de lichieira (Litchi chinensis Sonn.).

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi realizado em câmara de nebulização, sob ripado, do Departamento de Horticultura, da Faculdade de Ciências Agronômicas, do Campus de Botucatu, UNESP - SP.

As estacas foram retiradas de ramos terminais de lichieira com 18 anos de idade, pertencentes ao pomar da Fazenda Experimental Lageado e padronizadas de modo a apresentarem um comprimento de 25 cm (RAM & MAJUMDAR, 1983), sendo mantidas 4 folhas cortadas pela metade.

A época para retirada das estacas das plantas matrizes correspondeu ao mês de setembro de 1988. Foram utilizadas 360 estacas de lichieira, devidamente identificadas e distribuídas aleatoriamente, sendo cada tratamento constituído por 9 estacas por parcela, com 4 repetições, num delineamento inteiramente casualizado.

Os tratamentos utilizados, foram os seguintes:

.T1 (H20) - 03 horas

. T2 (Boro 150 µg/ml) - 03 horas

. T3 (IBA 5.000 ppm) - 01 minuto

. T4 (IBA 2.000 ppm) - 05 minutos

. T5 (IBA 5.000 ppm + Boro 150 µg/ml) - 01 hora

. T6 (IBA 2.000 ppm + Boro 150 µg/ml) - 01 hora

. T7 (NAA 3.000 ppm) - 01 minuto

. T8 (NAA 1.500 ppm) - 05 minutos

. T9 (NAA 3.000 ppm + Boro 150 µg/ml) - 30 minutos

. T10 (NAA 1.500 ppm + Boro 150 µg/ml) - 30 minutos

O ácido alfa-naftaleno-acético foi utilizado na forma do produto comercial Nafusaku, contendo 20% de NAA.

O tratamento constou da imersão de 2,5 cm da base das estacas em soluções preparadas com os fitorreguladores e o ácido bórico, sendo que nos tratamentos com o NAA e com o boro utilizou-se água destilada para a diluição, e nos tratamentos com o IBA utilizou-se uma mistura de 1:1 de álcool etílico 99% e água.

A seguir, as estacas foram colocadas para enraizar em bandejas de isopor de 12 cm de profundidade, tendo como substrato vermiculita de granulação média e mantidas sob nebulização.

Os parâmetros avaliados foram: porcentagem de sobrevivência das estacas, porcentagem de formação de calos, porcentagem de enraizamento e comprimento médio das raízes (mm), sendo as avaliações realizadas aos 120 dias após a instalação do experimento.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O emprego de auxinas exógenas, visando favorecer ou acelerar o enraizamento de estacas, já foi comprovado em várias frutíferas, havendo entretanto, poucos trabalhos no que se refere à estaquia da lichieira.

Os resultados obtidos com este trabalho, mostram um incremento na porcentagem de estacas enraizadas (Figura 1), através do uso do ácido indol-butírico 5.000 ppm/01 minuto, o que vem concordar com os resultados de BHANDARY & SHIVASHANKAR (1970), que conseguiram alta porcentagem de enraizamento, utilizando estacas de lichieiras tratadas com IBA 5.000 ppm, antes de serem colocadas sob névoa. Já Lenka & Das (1981), citados por MENZEL (1985) utilizaram IBA 3.000, 6.000 e 9.000 ppm, obtendo 32,8% de estacas enraizadas com IBA 3.000 ppm, vindo comprovar a citação do mesmo autor, sobre a dificuldade de enraizamento dessa espécie.

 

 

O sucesso no enraizamento das estacas depende de inúmeros fatores, incluindo época de estaquia, temperatura, concentração dos fitorreguladores, tempo de imersão das estacas nos tratamentos, etc., sendo que a escolha de urna boa combinação do binômio concentração/tempo de imersão, não é uma tarefa fácil, havendo inclusive, controvérsias na literatura, com relação a algumas espécies.

IRITANI (1981), sugere que estacas herbáceas devem ser tratadas com baixas concentrações de auxinas, enquanto que para estacas lenhosas e de difícil enraizamento, como é o caso das estacas de lichieira, a concentração deve ser alta, próxima à fitotóxica. Contudo, neste trabalho, pode observar-se o efeito desfavorável do emprego de altas concentrações (IBA 5.000 ppm + Boro/60 minutos; NAA 1.500 ppm + Boro/30 minutos), em tempos de imersão prolongados. O uso desses fitorreguladores em altas concentrações num tempo de imersão também alto, teve efeitos contrários ao enraizamento, não devendo portanto, ser recomendado.

Nesses tratamentos, observou-se inicialmente uma intensa queda de folhas, seguida de descorticamento da base das estacas. Diferentes pesquisadores, concordam que para um bom enraizamento é necessária a presença de folhas e ou gemas nas estacas (WEAVER, 1982); portanto, pode-se também, atribuir o fato do não enraizamento das estacas as quais receberam esses tratamentos, à falta de folhas. Trabalhando com estacas de pessegueiro, FACHINELLO & KERSTEN (1981), observaram que a aplicação exógena de auxinas não teve efeito naquelas que não possuíam folhas.

A utilização do ácido bórico, aplicado isoladamente, não se mostrou ser tão eficiente na indução do enraizamento (22,22%) e nem na sobrevivência das estacas (50,00%), vindo a corroborar a literatura existente. Para MURRAY et al. (1957), o boro não tem efeito na emissão de raízes, não tendo com isso, efeito similar ao dos reguladores vegetais, sendo essencial para o desenvolvimento das raízes. Tal fato, pode ser verificado através das Figuras 1 e 2, nas quais esse elemento apesar de não aumentar o enraizamento, promoveu o crescimento de raízes com o segundo maior comprimento médio das raízes (57,50 mm), em detrimento somente do obtido com a utilização do DBA 2.000 ppm (59,00 mm).

 

 

O tempo de imersão se mostrou ser adequado para o IBA 5.000 ppm e para o IBA 2.000 ppm, dados esses refletidos na máxima porcentagem de sobrevivência (100%) e no melhor enraizamento das estacas (83,33% e 66,67%, respectivamente).

No que se refere à formação de calos, o que se observou foi uma baixa porcentagem de estacas com calos em praticamente todos os tratamentos (Figura 1), podendo tais resultados serem atribuídos à dificuldade da espécie para emissão dos calos ou então, adicionado a isso, ao tempo de imersão considerado fitotóxico em alguns tratamentos. Entretanto, é importante lembrar que, de acordo com SILVA (1985), a rapidez na formação de calo, nem sempre está relacionado com a formação de raízes, uma vez que são processos fisiológicos independentes. HARTMANN & KESTER (1983), relatam que em lenho perene, onde já estão presentes xilema e floema secundários, as raízes adventícias têm origem, geralmente, do tecido jovem do floema secundário, mas também podem originar-se os raios vasculares, câmbio, ou dos calos produzidos na base das estacas. À semelhança do ocorrido com a porcentagem de estacas enraizadas, porém em proporções menores, o tratamento com IBA 5.000 ppm/01 minuto, proporcionou a maior porcentagem de estacas com calos (33,33%), todavia igualando-se, neste parâmetro, ao IBA 2.000 ppm + Boro/01 hora (33,33%).

 

CONCLUSÕES

Através dos resultados obtidos, foi possível concluir que:

- O emprego do IBA (ácido indol-butírico) foi superior ao do NAA (ácido alfa-naftaleno-acético), sendo a maior porcentagem de estacas enraizadas (83,33%), obtida com IBA 5.000 ppm por 1 minuto;

- O mês de setembro foi uma época favorável para a sobrevivência e para o enraizamento das estacas;

- O tempo de imersão das estacas nas soluções foi supra-ótimo para o IBA 5.000 ppm + Boro 150µg/ ml por 60 minutos; para o NAA 3.000 ppm + Boro 150 µg/ml por 30 minutos e para o NAA 1.500 ppm + Boro 150 µg/ml por 30 minutos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 09.01.95
Aceito para publicação em 14.07.95