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Scientia Agricola

Print version ISSN 0103-9016

Sci. agric. vol. 53 n. 1 Piracicaba Jan./Apr. 1996

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-90161996000100011 

EFEITOS DO ÁCIDO GIBERÉLICO E DA BAIXA TEMPERATURA NA GERMINAÇÃO DE SEMENTES DE KIWI (Actinidia deliciosa, A. Chev.) CULTIVAR BRUNO

 

B. MATTIUZ; V.C. FERRI; J.C. FACHINELLO; J.L. NEDEL
Departamento de Fitotecnia-FAEM/UFPel, C.P. 354, CEP: 96010-000 - Pelotas, RS.

 

 

RESUMO: O kiwi é uma frutífera exótica de clima temperado cuja principal característica de seus frutos é o alto teor de vitamina C. A propagação por semente é de importância, pois além de produzir plantas que se destinem à porta-enxertos, contribui para a obtenção de novas cultivares. Pesquisas tem demonstrado um baixo índice de germinação das sementes de kiwi. O objetivo deste trabalho foi o de avaliar dois diferentes métodos de elevação do índice de germinação de sementes de kiwi, da cultivar Bruno: estratificação à baixa temperatura (4 0C), através dos tratamentos de zero, duas e quatro semanas; ácido giberélico (AG3) testado em cinco diferentes concentrações (0, 100, 500, 1.000 e 2.500 ppm). A testemunha, para ambos os métodos, apresentou um baixo percentual de germinação das sementes (2,49%). Sementes não submetidas aos tratamentos de estratificação, mostraram uma resposta significativa aos tratamentos com AG3, até a concentração de 500 ppm, após a qual se mantiveram constantes. O índice máximo de germinação de sementes não estratificadas, foi de 36,85% com 2.500 ppm de AG3. A estratificação (40C), através de seus tratamentos de duas e quatro semanas, apresentou um efeito significativo na germinação das sementes (70,23%), não ocorrendo diferença significativa entre estes. Conclui-se que o melhor método de ampliação do índice de germinação de sementes de kiwi da cultivar Bruno, foi a estratificação à baixa temperatura (40C), com tratamentos de duas ou quatro semanas de estratificação.
Descritores: Actinidia deliciosa, kiwi, germinação, estratificação, ácido giberelico

 

GIBBERELLIC ACID AND LOW TEMPERATURE EFFECTS ON THE SEED GERMINATION OF THE KIWIFRUIT (Actinidia deliciosa, A.Chev.) CV. BRUNO

SUMMARY: The kiwifruit is an exotic fruit tree of temperate climate whose main characteristic is the high content of vitamin C. Seed propagation of this species is very important to produce new varieties and rootstocks. Research results have demonstrated that this species shows a low porcentage of seed germination. The objective of this study was to evaluate different procedures to overcome seed dormancy: stratification (4°C) for 2 and 4 weeks; (gibberelic acid) GA3 with 0, 100, 500, 1,000 and 2,500 ppm). The seed germination of the check was 2,49%. Seeds not submitted to the stratification treatment showed a significative response to GA3 doses until 500 ppm. Seeds submitted to the stratification treatment (2 and 4 weeks) did not show response to GA3. The highest level of germination was 36.85% at the level of 2,500 ppm. There was a significant effect of stratification on seed germination (70,23%), however not between the two treatments. Seeds stratified for 2 weeks showed a significantly higher germination than the seeds submitted to the 500 ppm GA3 treatment. In conclusion, stratification for two weeks was the best procedure to overcome satisfactorly kiwi seed dormancy, cv. Bruno.
Key Words: Actinidia deliciosa, kiwi, germination, stratification, gibberellic acid

 

 

INTRODUÇÃO

O kiwi é uma frutífera exótica, dióica e caducifólia. Pertencente a família das Actinideaceae, originária do Sudeste da China. É típica de clima temperado, necessitando de horas de frio para a superação da dormência natural (Rosemberg & Kulczewski, 1981).

É grande a variabilidade genética das mudas de kiwi obtidas por sementes, por isso, não recomenda-se o seu uso, sem a posterior enxertia. Se trata de uma espécie dióica, pode levar até oito anos para florescer e assim ser identificado seu sexo. Além disso, o número de plantas masculinas chega a 80% das plantas produzidas. Conforme relatos de Bellini et al. (1986), sua propagação por sementes, tem duas razões principais: a) no trabalho de melhoramento quando objetiva-se a obtenção de novas cultivares e, b) na obtenção de "seedlings" que serviram de porta-enxerto. Na América do Sul o kiwi tem sido multiplicado quase que exclusivamente por enxertia (Gardiazabal, 1988).

Pesquisas tem mostrado um baixo índice de germinação das sementes de kiwi e isto tem ocorrido por serem semeadas e levadas diretamente aos germinadores (Lawes & Sim, 1980).

Trabalhos conduzidos por Bailey (1961), segundo citação de Lawes (1990), indicam que a estratificação com temperaturas próximas de 4,4oC por 6 e 8 semanas, tem melhorado a germinação de sementes de kiwi. Smith & Toy, 1967), mostram que uma estratificação a 4,4oC por mais de duas semanas combinado com alternâncias de temperaturas, promovem a germinação das sementes de A. chinensis.

As giberelinas tem mostrado aumentos de germinação de sementes de A. kolomikta (especialmente quando combinadas com cinetina), diminuindo o período de estratificação pelo frio (Lawes, 1990). Da mesma maneira Ferri (1979), relata que aplicações de AG3 pode substituir o efeito da estratificação de baixa temperatura associada a alternâncias de temperaturas. Segundo Bretzloff & Pellett (1979), aplicações com AG3 por um período superior a seis semanas, aumentam a germinação de sementes de Carpinus caroliana. Lawes & Anderson (1980) através da estratificação a 4oC por 5 semanas, aumentaram a germinação de sementes de kiwi, quando seguida por flutuação diurna de temperaturas de 21oC por 16 horas e, 10oC por 8 horas. O maior índice de germinação de sementes foi obtido com aplicações de 2.500 a 5.000 ppm de AG3 por 24 horas, em sementes estratificadas à frio ou não.

O presente trabalho teve por objetivo verificar: a) efeito da estratificação à baixa temperatura (4oC), aplicada por zero, duas e quatro semanas; b) o efeito de cinco diferentes concentrações de AG3 e; c) o efeito associado dos dois métodos, sobre a superação da dormência de sementes de kiwi da cultivar Bruno.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi conduzido no Laboratório de Análises de Sementes da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel, pertencente a Universidade Federal de Pelotas.

Os frutos de kiwi da cultivar Bruno foram coletados do pomar pertencente a Gervásio Silvestre, localizado no município de Farroupilha, Rio Grande do Sul. Quando os frutos se encontravam maduros, procedeu-se a extração das sementes que serviram aos testes, através da passagem da polpa em um liqüidificador usado por pouco tempo em baixa rotação. Em seguida, usou-se uma peneira fina, com o intuito de separar as sementes da polpa. Na seqüência, as sementes foram imergidas numa solução a 0,5% de Captan por 5 minutos.

Em seguida as sementes foram colocadas sobre um disco de papel absorvente, que foi embebido em água destilada e, posteriormente colocadas dentro de um recipiente do tipo Gerbox (11,5 cm x 11,5 cm x 3,5 cm), que foi posta à temperatura de 4oC no escuro. Após vencido o período correspondente a cada tratamento de estratificação (zero, 2 e 4 semanas), as sementes foram retiradas e imergidas nos cinco diferentes tratamentos com AG3 (0, 100, 500, 1.000 e 2.500 ppm) por 24 horas. E posteriormente as sementes foram colocadas num papel filtro embebido em água destilada e colocadas nos recipientes do tipo Gerbox, e então foram conduzidas ao germinador com temperatura de 21oC e umidade constante de 95%, onde foram mantidas sob nebulizações periódicas.

Para tal, aplicou-se a condução experimental com delineamento inteiramente casualizado, obedecendo-se um esquema fatorial de 3 x 5. Os dois fatores utilizados foram: estratificação (4oC), sob três níveis (controle, 2 e 4 semanas); e concentrações de AG3 , em cinco níveis (0, 100, 500, 1.000, 2.500 ppm). Assim, organizou-se 15 tratamentos, inseridos de quatro repetições de 100 sementes em cada repetição. Perfazendo-se 400 sementes por tratamento e um total de 6.000 sementes de kiwi da cultivar Bruno.

As avaliações foram efetuadas diariamente após oito dias da entrada no germinador, sendo que a variável utilizada foi percentagem de sementes germinadas. Para tanto foram consideradas germinadas as sementes que apresentavam radícula com no mínimo 1 milímetro de comprimento (Lawes & Anderson, 1980).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para uma melhor compreensão, os resultados serão apresentados de acordo com o método de superação de dormência de sementes adotado, (TABELA 1).

 

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1. Efeito da estratificação (4 oC), pode-se observar que houve diferença significativa (Duncan 1%) na germinação final entre as sementes levadas diretamente ao germinador (controle) e as estratificadas (2 e 4 semanas). Verificou-se que as sementes de kiwi cultivar Bruno possuem um baixo índice de germinação quando levadas à germinar logo após a sua extração, sem artifícios que as levem a superar a sua dormência natural (2,49%). Fato este, que é concordante com trabalhos de Lawes & Sim (1980), que indicam a existência de algum tipo de dormência nas sementes. Entre os tratamentos de 2 e 4 semanas de estratificação (4oC), não houve diferença significativa, mas o melhor resultado foi obtido com 2 semanas de estratificação (70,23%), sendo ambos bastante superiores a zero semanas de estratificação. Tais resultados, assemelham-se aos obtidos por Smith & Toy (1967) e Lawes & Anderson (1980). O que demonstra que é possível, e viável, a substituição de aplicações de AG3 por estratificações de duas semanas à temperatura de 4oC, uma vez que a diferença dos índices de germinação são bastante próximos, e se levando em conta a economicidade e praticidade do uso da estratificação, esta evidência fica mais marcante.

2. Efeito do AG3 , constatamos que sementes que não foram estratificadas, responderam significativamente (Duncan 1%) e de maneira crescente, às crescentes concentrações de AG3 até 500 ppm, não diferindo entre si nos níveis superiores a este. A percentagem máxima de germinação de sementes obtida foi de 36,85%, quando usou-se 2.500 ppm de AG3 . Isto evidencia que houve um efeito do AG3 sobre a germinação das sementes de kiwi quando não submetidas a estratificação pelo frio, corroborando com trabalhos desenvolvidos por Lawes & Anderson (1980) e Schuc (1992) que obteve 65,3 % de germinação de sementes de kiwi tratadas com 5.000 ppm de AG3 . Com 2 e 4 semanas de estratificação, não houve resposta às aplicações de AG3, nos levando a deduzir que as sementes que já haviam sido estratificadas, teriam alcançado seu estado de superação de dormência, e assim estariam aptas a germinarem, uma vez que, a superação da dormência, é uma condição necessário para que as sementes de kiwi possam germinar de maneira satisfatória

O uso de estratificação à baixa temperatura (4oC) por duas semanas foi superior, mas não significativamente em relação a estratificação por quatro semanas. Porém, ambas foram destacadamente mais efetivas, na germinação de sementes de kiwi da cultivar Bruno, quando comparadas com as aplicações de AG3, independente da concentração usada.

 

CONCLUSÕES

Baseado nos resultados obtidos no presente trabalho, pode-se concluir que:

a) O método mais eficiente na germinação de sementes de kiwi da cultivar Bruno, foi o da estratificação a baixa temperatura (40C) por duas ou quatro semanas.

b) A estratificação de sementes de kiwi da cultivar Bruno, à baixa temperatura (40C), dispensa a aplicação de AG3.

c) O AG3 só foi efetivo, na germinação de sementes de kiwi da cultivar Bruno, quando estas não receberam tratamentos a baixa temperatura (40C) por duas ou quatro semanas.

d) Ambos os métodos testados (estratificação e AG3) independente de seus tratamentos, demonstraram-se mais efetivos na germinação de sementes de kiwi da cultivar Bruno, que seus controles (testemunhas).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 08.06.95
Aceito para publicação em 04.12.95