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Scientia Agricola

Print version ISSN 0103-9016

Sci. agric. vol. 53 n. 1 Piracicaba Jan./Apr. 1996

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-90161996000100017 

EFEITO DE MODOS E ÉPOCAS DE APLICAÇÃO DE GESSO E CALCÁRIO SOBRE A CULTURA DO FEIJOEIRO (Phaseolus vulgaris L.) cv. CARIOCA-80

 

J.A. GALON1; P.A. BELLINGIERI2; J.C. ALCARDE3
1Pós-graduando da FCAV/UNESP.
2Depto. de Tecnologia-FCAV/UNESP, CEP 14870-000, Jaboticabal, SP.
3Depto. de Química-ESALQ/USP, C.P. 9, CEP 13418-900, Piracicaba, SP.

 

 

RESUMO: Instalou-se sobre um latossolo vermelho-escuro textura média, um experimento cujo objetivo foi avaliar a influência de modos e épocas de aplicação de gesso e de calcário sobre algumas características nutricionais e tecnológicas da cultura do feijoeiro irrigado. Utilizou-se no experimento o delineamento em blocos casualizados em esquema fatorial (4x3)+2 com quatro repetições, correspondendo a 4 modos de aplicação de gesso e/ou calcário, 3 doses de gesso e 2 tratamentos adicionais. Os resultados mostraram que: o uso do gesso proporcionou maiores teores de Ca nos grãos e consequentemente maior tempo para o seu cozimento. A associação gesso e calcário propiciou aumento no teor de S das folhas e também no peso de 100 grãos, quando comparado à utilização de apenas gesso. A relação de hidratação diminuiu com o aumento das doses de gesso quando utilizou-se os modos de aplicação M1 (gesso aplicado no solo 45 dias antes da semeadura) e M2 (gesso e calcário aplicados conjuntamente aos 45 dias antes da semeadura).
Descritores: extração, nutrientes, reatividade, irrigação

 

EFFECT OF MODE AND TIME OF APPLICATION OF GYPSUM AND LIME ON A BEAN CROP (Phaseolus vulgaris L.) cv. CARIOCA-80

ABSTRACT: In a dark red latossol, medium texture, an experiment was conducted in order to estimate the influence of mode and time of application of gypsum and lime on some nutrition and thecnologic characteristics of the bean crop (Phaseolus vulgaris L.) cultivated under irrigation. The experimental design consisted of random bloks in a factorial (4x3)+2 scheme, with four repetitions, including four modes of application of gypsum and lime, three levels of gypsum and two extra treatments. The results showed that the use of gypsum determined higher contents of Ca in the grain, resulting in longer cooking time. The association between gypsum and lime determined an increase in the sulfur content in leafs and in the weight of a hundred grains, when gypsum was utilized separatelly. The relation of hidratation decreased with the increase of the doses of gypsum when gypsum was delivered to the soil 45 days before seeding and when gypsum and lime were delivered to the soil 45 days before seeding.
Key Words: extration, nutrients, reactivity, irrigation

 

 

INTRODUÇÃO

O feijoeiro (Phaseolus vulgaris L.) é uma planta cultivada em praticamente todos os estados brasileiros, constituindo uma das principais fontes de proteína para as populações de baixa renda. Esta cultura como qualquer outra, necessita durante seu ciclo, de um suprimento adequado de nutrientes. Neste aspecto o calcário a beneficia, aumentando a disponibilidade de alguns nutrientes, insolubilizando outros que em certos níveis são tóxicos como Mn, Fe e Cu (Feitosa et al., 1980). Aumenta também a eficiência das estirpes de Rhizobium phaseoli possibilitando um incremento do N foliar e produção de matéria seca quando da elevação do valor pH acima de 5,5 (Pereira, 1979).

Por sua vez, o S é um elemento essencial na constituição protéica da planta e tende a se tornar um nutriente limitante da produção, principalmente com a utilização de adubos pobres neste nutriente. Esta possível deficiência pode ser suprimida com o uso do gesso como fonte de S, pois contém em sua composição química 15% de S e 26% de CaO. Além de fornecer Ca e S, o gesso pode atuar como um condicionador de solo (Mascarenhas, 1974), pode neutralizar o Al3+ tóxico (Malavolta & Vitti, 1985) e aumentar a produção de grãos (Mascarenhas et al., 1976).

Procurou-se neste trabalho, a obtenção de informações sobre a influência de modos e épocas de aplicação de gesso e calcário sobre algumas características nutricionais (teores de macro e micronutrientes nas folhas e grãos) e tecnológicas (cozimento e hidratação dos grãos) do feijoeiro sob irrigação.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi instalado num latossolo vermelho-escuro textura média, localizado na área pertencente à Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Campus de Jaboticabal (595 m de altitude, 21o 15' 22" S latitude e 48o 18' 18" de longitude).

A análise química do solo foi realizada de acordo com Raij & Quaggio (1983) e está apresentada na TABELA 1.

 

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O gesso utilizado no experimento apresentava 26% de CaO e 15% de S e o calcário dolomítico 28,6% de CaO, 16,3% de MgO com PRNT de 84%. As doses de gesso utilizadas foram: 0,5: 1,0 e 1,5 t/ha e a de calcário 3,7 t/ha, suficiente para elevar a saturação por bases a 70% segundo Raij et al. (1985).

Foi semeada a cultivar IAC carioca-80 em 01/08/91 numa densidade de 20 sementes por metro linear, sendo aplicadas as doses de 60 kg/ha de P2O5 na forma de superfosfato triplo e 40 kg/ha de K2O na forma de cloreto de potássio, no sulco de semeadura. A adubação de cobertura foi realizada 30 dias após a germinação das sementes, adicionando-se ao solo 30 kg/ha de N na forma de uréia. O feijoeiro foi irrigado por um sistema de aspersão convencional. Durante a condução do experimento, foram realizados os tratos culturais necessários ao desenvolvimento da cultura. Durante o florescimento realizou-se a amostragem foliar nos tratamentos, de acordo com Malavolta et al. (1989).

A colheita foi feita manualmente na área total das parcelas, sendo os grãos separados das plantas através do uso de uma trilhadeira. De cada tratamento foram retiradas sub-amostras de grãos para se determinar a umidade, os teores de nutrientes e as características tecnológicas. Os dados de produção do experimento foram corrigidos para 13% (base úmida) e expressos em kg/ha.

Determinou-se nas folhas e grãos os teores de N, P, K, Ca, Mg, S, Cu, Fe, Mn e Zn, sendo empregada a metodologia preconizada por Bataglia et al. (1983). As características tecnológicas de hidratação e cozimento foram avaliadas de acordo com Durigan (1979).

Utilizou-se no experimento o delineamento em blocos casualizados em esquema fatorial (4x3)+2, correspondendo a 4 modos de aplicação de gesso e/ou calcário (M1, gesso aplicado no solo aos 45 dias antes da semeadura; M2, gesso e calcário aplicados no solo aos 45 dias antes da semeadura; M3, calcário aplicado no solo aos 45 dias e gesso aos 30 dias antes da semeadura e M4, gesso aplicado no solo aos 45 dias e calcário aos 30 dias antes da semeadura), 3 doses de gesso (G1, 0,5; G2, 1,0 e G3, 1,5 t/ha) e 2 tratamentos adicionais (testemunha 1, sem gesso e sem calcário e testemunha 2, dose G3 de gesso). Cada tratamento foi repetido 4 vezes, totalizando 56 parcelas constituídas por 6 linhas de 4 m de comprimento espaçadas de 0,6 m, perfazendo 14,4 m2 de área total.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na TABELA 2 estão apresentados os teores médios dos nutrientes em folhas de plantas do feijoeiro, amostradas no estádio do florescimento. Verificam-se efeitos significativos para os teores de S, Mn e Zn quando são comparados entre si, os tratamentos adicionais (testemunha 1 vs. testemunha 2). No tratamento testemunha 2 que recebeu gesso, nota-se um aumento no teor foliar de S, justificando o uso deste produto como fonte do nutriente. Com relação ao menor teor de Zn nas folhas, evidencia-se que a adição de gesso ao solo pode provocar uma saturação de Ca o que acarretaria numa inibição competitiva com o Zn (Malavolta et al., 1989).

 

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Comparando-se as testemunhas com o fatorial (4 modos de aplicação de gesso e/ou calcário vs. 3 doses de gesso), observa-se efeito significativo para os teores de Ca, Mg, Fe e Mn. Estes efeitos estão relacionados com o calcário, presente no fatorial, que além de aumentar os teores de Ca e Mg no solo e consequentemente na planta, aumenta o valor pH, diminuindo com isso a solubilização de Fe e Mn. Com relação ao Mn ocorre uma mudança de valência do Mn2+ para Mn4+ ou Mn3+ , este insolúvel, e no caso do ferro ocorre a formação de óxidos e hidróxidos de Fe (Malavolta & Vitti, 1985). Observa-se nesta mesma TABELA 2 que os modos de aplicação afetaram os teores de P, Ca, S, Fe e Mn. O modo M3 aumentou a absorção de P pelas plantas do feijoeiro, quando comparado aos demais. Em relação aos teores de S, houve um aumento de absorção nos modos M2, M3 e M4 quando comparados ao modo M1. Esse aumento verificado deve-se à ação do calcário que provoca uma maior degradação da matéria orgânica, pois proporciona um melhor ambiente para o desenvolvimento dos microorganismos formadores da matéria orgânica e sendo esta, outra fonte de S para o solo e consequentemente para as plantas, o resultado obtido é justificado.

Observa-se na TABELA 2, que os teores de Ca são maiores nos tratamentos que receberam gesso e calcário em comparação ao tratamento que recebeu só gesso. Isto ocorreu pelo fato de ambos serem fontes de Ca. Os micronutrientes Fe e Mn foram afetados diferenciadamente pelos modos de aplicação. Houve uma redução mais acentuada de Fe no modo M4, enquanto que para o Mn essa redução de absorção ocorreu no modo M3, ambas devido ao efeito da insolubilização desses nutrientes pela reação do calcário no solo.

Analisando-se as variações das doses de gesso, observam-se efeitos positivos sobre a absorção de P, S e Cu. No caso destes nutrientes a dose G3 (1,5 t/ha) provocou uma maior absorção pela planta.

Estão apresentados na TABELA 3, os teores médios dos nutrientes analisados nos grãos e também alguns parâmetros analíticos como tempo de cozimento, teor proteico, peso de 100 grãos e produção.

 

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Comparando-se os tratamentos testemu-nhas, verifica-se efeito significativo para os teores de Zn, S e tempo de cozimento. Nota-se que no tratamento com gesso (testemunha 2) ocorre um aumento no teor de S dos grãos. Quanto ao Zn, verifica-se uma redução da absorção, provavelmente devido à inibição competitiva entre o Ca fornecido pelo gesso e o Zn presente no solo.

Analisando-se os dados de tempo de cozimento, observa-se que a testemunha 2 apresenta o maior tempo. O fato se justifica pois este tratamento recebeu Ca (proveniente do gesso), sendo este nutriente o responsável por provocar um aumento de rigidez na parede celular, conforme Malavolta (1980).

Comparando-se o tratamento testemunha com o fatorial (4 modos de aplicação de gesso e/ou calcário vs. 3 doses de gesso), nota-se que os teores de Zn dos grãos diminuiram, indicando que o corretivo utilizado nos tratamentos que compõem o fatorial torna-o menos disponível às plantas.

A característica peso de 100 grãos foi influenciada positivamente, indicando que a associação gesso-calcário melhora o ganho de peso dos grãos, devido principalmente aos efeitos positivos que a mesma propicia às propriedades químicas do solo, como aumento no valor pH e uma maior disponibilidade de nutrientes para as plantas.

Os modos de aplicação de gesso e/ou calcário afetaram os teores de Ca e as características tempo de cozimento e peso de 100 grãos. Quanto ao tempo de cozimento, verifica-se que o tratamento M1 apresentou o maior tempo, justificando o fato de que, quanto maior o teor de Ca nos grãos maior o tempo de seu cozimento. Elias et al. (1986), verificaram que houve correlações positivas entre os teores de Ca nos grãos e o tempo de cozimento.

Não houve o aparecimento de "hardshell" como pode-se verificar na TABELA 4. Segundo Sartori (1988), esse termo refere-se à condição encontrada em sementes maduras e secas que não absorvem água dentro de um período razoavelmente longo, quando umedecidas.

 

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Observa-se ainda que a relação de hidratação dos grãos de feijão apresentam respostas diferenciadas perante os modos de aplicação e doses de gesso. No modo M1 , o aumento das doses de gesso provocou uma diminuição na relação de hidratação, ou seja, os grãos absorveram menor quantidade de água.

Quando o gesso e calcário foram aplicados na mesma época (modo M2), observou-se um aumento da relação de hidratação dos grãos com o aumento das doses de gesso. Nota-se que o resultado obtido pelo modo M3 assemelha-se ao obtido pelo modo M1, no qual o aumento das doses de gesso diminui a relação de hidratação. No modo M4, observa-se que o tratamento G2C1 apresentou maior relação de hidratação.

 

CONCLUSÕES

O gesso provocou diminuição nos teores de Zn das folhas e grãos do feijoeiro e um aumento nos teores de Ca dos grãos, resultando num maior tempo para o seu cozimento.

A associação gesso-calcário propiciou um aumento, no teor de S das folhas e peso de 100 grãos, quando comparada à utilização do gesso isoladamente.

A relação de hidratação diminuiu com o aumento das doses de gesso, quando utilizou-se os modos de aplicação M1 (gesso aplicado no solo aos 45 dias antes da semeadura) e M2 (gesso e calcário aplicados no solo aos 45 dias antes da semeadura).

A adição de gesso na dose de 1,5 t/ha (testemunha 2) provocou um aumento de produção de grãos de 432,51 kg/ha em comparação à (testemunha 1), que não utilizou gesso.

 

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Recebido para publicação em 28.09.95
Aceito para publicação em 27.01.96