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Scientia Agricola

On-line version ISSN 1678-992X

Sci. agric. vol. 55 n. 1 Piracicaba Jan./Apr. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-90161998000100004 

ANÁLISE FAUNÍSTICA DE ESPÉCIES DE MOSCA-DAS-FRUTAS (DIP., TEPHRITIDAE) EM MINAS GERAIS1

 

N.A. CANAL2; C.D. ALVARENGA3; R.A. ZUCCHI4
2Facultad de Agronomia, Universidad del Tolima, A.A. 546, Ibagué, Tol., Colômbia.
3CRNM/EPAMIG, C.P. 12, CEP: 39440-000 - Janaúba, MG.
4Depto. de Entomologia, ESALQ/USP, C.P. 9, CEP: 13418-900 - Piracicaba, SP.

 

 

RESUMO: Em seis locais de quatro municípios (Janaúba, Jaíba, Nova Porteirinha e Itacarambí) do norte do Estado de Minas Gerais, foram coletados 29.454 espécimes de mosca-das-frutas, pertencentes a Ceratitis capitata e a 20 espécies de Anastrepha. O levantamento foi feito entre janeiro de 94 e dezembro de 96, utilizando armadilhas plásticas tipo McPhail. Ceratitis capitata foi a espécie predominante em áreas urbanas. As espécies de Anastrepha predominaram em áreas rurais. A. obliqua, A. zenildae e Anastrepha n. sp.3 foram as espécies predominantes do gênero, entretanto, essa predominância variou de local para local em função da disponibilidade de hospedeiros. As comunidades apresentaram índices de diversidade baixos e quocientes de similaridade entre 73 e 100%.
Descritores: Moscas-das-frutas, Tephritidae, Anastrepha, Ceratitis capitata, ecologia

 

FAUNISTIC STUDY OF FRUIT FLIES (Dip., Tephritidae) IN MINAS GERAIS, BRAZIL

ABSTRACT: A total of 29,454 specimens of fruit fly were trapped in six sites of four counties (Janaúba, Jaíba, Nova Porteirinha and Itacarambí) of the north of the State of Minas Gerais, Brazil. The specimens were collected using McPhail plastic traps from January 1994 to December 1996. The trapped fruit flies belonged to Ceratitis capitata and to 20 species of Anastrepha. Ceratitis capitata was the predominant species in the urban areas and Anastrepha species were predominant in the field areas. A. obliqua, A. zenildae and Anastrepha n. sp.3 were the predominant species of the genera, whereas the predominant species differed among localities, according to host availability. The diversity indexes were low and the coefficient of similarity varied from 73 to 100%.
Key Words: Fruit flies, Tephritidae, Anastrepha, Ceratitis capitata, ecology

 

 

INTRODUÇÃO

O norte do Estado de Minas Gerais é uma área com grande potencial para a exploração da fruticultura (Saturnino, 1994). A construção, nessa área de caatinga, de um projeto de irrigação que supera 100.000 ha, favoreceu o aumento da produção frutícola da região, uma vez que parte significativa da região está sendo plantada com pomares de várias frutíferas.

Nas áreas frutícolas, as moscas-das-frutas assumem um papel importante, tanto na produção como na comercialização dos produtos. Entretanto, poucos estudos sobre moscas-das-frutas têm sido realizados na área de caatinga (Araujo et al., 1996b; Carvalho et al., 1991; Nascimento et al., 1993a,b).

Segundo Southwood (1995), é necessário aumentar os conhecimentos sobre a estrutura e funcionamento das comunidades animais. Assim, apresenta vários tipos de modelos para estudar as relações entre comunidades e sugere que se deve iniciar pelos modelos mais simples, que proporcionam uma idéia da estrutura da comunidade, antes de eleger modelos de estudo mais complexos. Portanto, a diversidade de uma comunidade deve ser estudada através de modelos matemáticos. Entretanto, dependendo das condições, podem ser empregados diversos índices estatísticos não paramétricos como os referidos por Silveira Neto et al. (1976) e Southwood (1995).

As informações sobre análise faunística de moscas-das-frutas são escassas na literatura e limitam-se a alguns trabalhos realizados no Brasil.

Nascimento et al. (1983) elaboraram uma análise faunística das espécies de Anastrepha coletadas em frascos caça-moscas em cinco municípios do recôncavo baiano, caracterizando as comunidades através dos índices de freqüência, constância, abundância e dominância e delimitando-as com os índices de similaridade e coeficiente de semelhança. Dentre 20 espécies coletadas, A. fraterculus, A. obliqua e A. sororcula foram predominantes em todos os locais. Os autores discutiram algumas características ecológicas que poderiam influenciar o comportamento das populações de Anastrepha.

Arrigoni (1984), através de uma análise faunística, observou que entre 14 espécies de Anastrepha coletadas em Piracicaba, Limeira e Jundiaí, Estado de São Paulo, A. fraterculus foi a mais importante e C. capitata a espécie predominante.

Nascimento (1990) fez a análise faunística das espécies de Anastrepha, em cinco municípios de três Estados brasileiros procurando estabelecer a importância de A. obliqua. O autor caracterizou as comunidades com os índices de freqüência, constância e dominância. Concluiu que A. obliqua, importante praga da manga, não foi predominante em nenhum dos locais, A. sororcula destacou-se sobre A. fraterculus e apareceram outras espécies dominantes associadas à vegetação nativa da região. Observou também que os índices indicavam um comportamento diferente em cada um dos locais.

Silva (1993), através da coleta de frutos hospedeiros, caracterizou quatro locais de dois municípios do Amazonas, delimitando-os com relação às espécies de Anastrepha. As principais espécies foram A. obliqua, A. fraterculus e A. bahiensis Lima, 1938, sendo A. obliqua a espécie predominante.

Martins et al. (1996) calcularam os índices de diversidade, freqüência e dominância para as espécies de moscas-das-frutas, coletadas em armadilhas, em três locais do Norte do Espírito Santo, sendo C. capitata e A. fraterculus as principais espécies.

Este trabalho apresenta uma análise faunística das espécies de moscas-das-frutas em quatro municípios do norte do Estado de Minas Gerais. Faz parte de uma série, desenvolvidos dentro de um projeto realizado pelo Centro Regional Norte de Minas da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (CRNM/EPAMIG), e tem por objetivo obter conhecimentos básicos da biologia e ecologia dos tefritídeos na região, que possam ser utilizados no desenvolvimento de programas de manejo dessas pragas.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Locais de coleta: As coletas foram realizadas em seis locais de quatro municípios do norte do Estado de Minas Gerais: Nova Porteirinha, Janaúba, Jaíba e Itacarambí (Figura 1), localizados no ecossistema conhecido como caatinga, com algumas áreas de transição para o cerrado. Na região é comum encontrar espécies frutíferas em pomares comerciais, domésticos ou com fins ornamentais e de sombra. As espécies frutíferas comerciais ou potencialmente comerciais foram discutidas por Saturnino (1994).

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Figura 1 - Locais de coleta de moscas-das-frutas no norte do Estado de Minas Gerais. A. Nova Porteirinha (dois locais), B. Janaúba, C. Jaíba, D. Distrito de Mocambinho (município de Jaíba) e E. Itacarambí. Em destaque os projetos de irrigação de Gorutuba e Jaíba.

 

Segundo a classificação climática de Köppen o tipo de clima predominante na região estudada é o Aw, e na classificação bioclimática de Gaussen e Bagnouls pertence ao tipo 4 bTh. As condições climáticas da região estão representadas por temperaturas médias que variam de 21 a 25oC, com uma temperatura média mínima oscilando de 14 a 19oC e máximas de 26 a 31oC; a precipitação total anual varia de 700 a 1.200 mm, sendo que o período chuvoso estende-se de outubro a abril e o seco de maio a setembro; a umidade relativa média diária varia de 60 a 70% (Antunes, 1994).

O município de Janaúba está localizado a 540 km ao norte da cidade de Belo Horizonte, à margem direita do Rio Gorotuba. As coletas foram feitas na área urbana da cidade e em alguns pomares não-comerciais dos subúrbios.

O município de Nova Porteirinha está localizado à margem esquerda do Rio Gorotuba, em frente à Janaúba. Nele foi construído o Projeto de Irrigação do Gorotuba com uma extensão de 5.000 ha. Nesse município as coletas foram realizadas em dois locais, a Fazenda Experimental do Gorotuba, da EPAMIG (FEG) e a área de colonização do projeto Gorotuba. A fazenda está localizada nos subúrbios de Nova Porteirinha, a 5 km de Janaúba à margem direita da rodovia BR-122. O segundo local está localizado a 13 km de Janaúba, iniciando-se à margem esquerda da mesma rodovia.

O município de Jaíba está localizado a 70 km de Janaúba. Foram amostrados dois locais, o Centro Experimental de Jaíba, (CEJA/EPAMIG) e o distrito de Mocambinho. O Centro Experimental localiza-se em área rural com predomínio de mata nativa. O segundo local está localizado a 50 km da cidade, à margen direita do Rio São Francisco, onde está sendo construído o Projeto Jaíba, destinado a irrigar mais de 100.000 ha de terra. Em Mocambinho, as coletas foram feitas em aproximadamente 15.000 ha já colonizados no Projeto.

A cidade de Itacarambí está localizada na rodovia BR-135 e à margem esquerda do São Francisco. Dista aproximadamente 130 km de Janaúba. As coletas foram realizadas nas fazendas dos grupos empresariais Colonial e Icil.

Coleta das moscas-das-frutas: Em cada um dos locais de amostragens, foram colocados frascos plásticos tipo McPhail, contendo 200 ml de uma solução a 5% de proteína hidrolisada de milho, obtida no laboratório de moscas-das-frutas do Instituto de Biociências/USP. Os frascos foram pendurados em árvores frutíferas de pomares domésticos e comerciais.

Semanalmente, os insetos coletados na armadilha foram retirados e a solução de proteína trocada por uma nova. Os insetos encontrados no frasco foram transportados até o laboratório de entomologia da FEG/EPAMIG, onde os espécimes de moscas-das-frutas foram contados e fixados em álcool 70% para posterior identificação.

O levantamento em frascos caça-moscas foi feito por um período de três anos, entre janeiro de 1994 e dezembro de 1996. A distribuição das armadilhas foi feita selecionando pontos dentro de toda a área de cada um dos locais de estudo, sem uniformidade.

Análise faunística: Para conhecer a influência de diferentes fatores sobre as populações das moscas, foi realizada uma análise faunística. Cada um dos locais de coleta foi considerado como uma comunidade diferente com características próprias, sendo assim, possível caracterizar e delimitar essas comunidades através dos índices faunísticos propostos por Silveira Neto et al. (1976) e Southwood (1995). A caracterização das comunidades baseou-se nos índices de freqüência, constância, abundância e dominância. A delimitação das comunidades foi feita através do quociente de similaridade de Sorensen (Qsl = 2j/a+b) e o agrupamento através do desenvolvimento desses valores, segundo a metodologia de Silveira Neto et al. (1976).

Para cada uma das comunidades foi calculado também o índice de diversidade, através da fórmula proposta por Margalef (Silveira Neto et al., 1976).

Considerando-se que as espécies de Anastrepha só podem ser identificadas através das fêmeas, a análise faunística foi feita apenas com as fêmeas coletadas, tanto de Anastrepha como de C. capitata. Igualmente, foram descartados, na análise ecológica, os registros de armadilhas em que não foi coletado nenhum exemplar de Tephritidae.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Nos levantamentos de moscas-das-frutas, utilizando-se armadilhas tipo McPhail, realizados nos quatro municípios (Janaúba, Jaíba, Nova Porteirinha e Itacarambí) do norte de Minas Gerais, foram coletados 29.454 tefritídeos, sendo que 15.243 espécimes pertenciam à Ceratitis capitata (Wiedemann, 1824) e 14.211 à várias espécies de Anastrepha (TABELA 1). Ceratitis capitata é originária da África, tendo sido introduzida em diversas partes do mundo (White & Elson-Harris, 1992). É considerada uma das principais pragas da fruticultura no Brasil (Zucchi, 1988). O gênero Anastrepha é originário da América tropical (White & Elson-Harris, 1992). Nos quatro municípios do norte de Minas Gerais estudados está representado por 20 espécies (TABELA 2). Dentre as espécies identificadas neste trabalho, três pertencem a novas espécies, as quais estão em fase de descrição (CANAL & ZUCCHI em prep.) e, portanto, estão sendo denominadas Anastrepha n. sp.1, Anastrepha n. sp.2 e Anastrepha n. sp.3.

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Uma revisão detalhada da literatura taxonômica de Anastrepha no Brasil mostra que na região semi-árida, apesar do seu potencial para a fruticultura, são poucos os levantamentos de moscas-das-frutas. Nascimento (1990) fez levantamentos em cinco municípios, sendo dois deles localizados no semi-árido (Mossoró e Assu), encontrando seis espécies de Anastrepha, das quais apenas A. manihoti Lima, 1934 não foi coletada no norte de Minas Gerais. Araujo et al. (1996b) encontraram, também em Mossoró e Assu, oito espécies de Anastrepha, que ocorrem também no norte de Minas Gerais.

No sub-médio São Francisco, nos municípios de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), Carvalho et al. (1991), Haji et al. (1991) e Nascimento et al. (1993a) registraram a presença de C. capitata e oito espécies de Anastrepha. Das espécies coletadas por esses autores, apenas A. manihoti não foi coletada no norte de Minas Gerais.

Nascimento & Zucchi (1981) registraram 20 espécies para o recôncavo baiano, sendo 11 delas encontradas no presente trabalho. Entretanto, os municípios onde foram feitos esses levantamentos, encontram-se, na realidade, numa área de transição entre a caatinga seca e a mata atlântica úmida.

Análise faunística por localidade: Os índices faunísticos foram calculados para cada um dos seis locais estudados (TABELA 3). Os índices de diversidade dos seis locais foram baixos e não muito diferentes entre si. Martins et al. (1996), estudando três locais no norte do Espírito Santo, encontraram valores da diversidade de Tephritidae entre 13 e 17.

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Segundo Silveira Neto et al. (1976), os valores do índice de diversidade tendem a ser baixos em locais onde os fatores limitantes e a competição interespecífica atuam intensamente. Nesses locais, as espécies mais comuns aumentam suas populações e as espécies raras apresentam baixo nível populacional. No norte de Minas Gerais, ocorre um período prolongado de seca, que pode ser considerado como um fator limitante às populações de insetos. As observações nessa região corroboram com esses autores. A quantidade de espécies não foi muito variável de um local para outro, porém as freqüências das espécies predominantes sempre foram muito altas, enquanto as não-dominantes foram representadas apenas por alguns exemplares.

Na FEG/EPAMIG foram coletadas 14 espécies de moscas-das-frutas sendo 13 de Anastrepha e C. capitata. Nesse local, foi coletado o maior número de exemplares de mosca dentre os seis locais estudados (40,48%). Entretanto, dentre as espécies coletadas, C. capitata foi a mais freqüente com 63,77% dos exemplares coletados. Anastrepha obliqua foi a segunda espécie em freqüência, representando 21,73% das coletas. As outras 12 espécies representaram os 15% restantes.

Quanto ao índice de constância, apenas duas espécies foram acessórias e as demais acidentais. A constância refere-se à presença ou não da espécie nas coletas. Essa presença pode variar com o tempo ou o local. Como os locais foram divididos de forma a ficarem mais ou menos pequenos e uniformes, esse índice deve ser influenciado, nesse caso, pelas coletas ao longo do tempo. Portanto, C. capitata, que foi acessória e freqüente, foi coletada apenas em alguns períodos do ano, mas as coletas foram de elevado número de exemplares. Anastrepha obliqua também foi coletada em alguns períodos, porém, com menos exemplares do que a mosca-do-mediterrâneo. Das demais espécies, foram coletados poucos exemplares, em apenas algumas semanas.

Ceratitis capitata e A. obliqua foram muito abundantes e dominantes, enquanto que as demais espécies foram comuns e não-dominantes. A abundância é um índice referente à distribuição das espécies na área, assim as espécies podem ser comuns quanto à sua distribuição na área, porém, acidental quanto à sua distribuição nas coletas.

Pelos valores dos índices, C. capitata é a espécie predominante na FEG. Anastrepha obliqua também é uma espécie que se destaca pelos elevados índices. Na fazenda, além dos pomares de manga, uva e citros, encontram-se grande quantidade de outros frutos hospedeiros dessas moscas, dentre os quais destacam-se a castanhola, a ciriguela, a goiaba, a mandioca e a pitanga, que são os principais hospedeiros das espécies mais freqüentes nesse local (Zucchi, 1988). Na realidade, o aparecimento de espécies de moscas-das-frutas nas armadilhas coincidiu com a época de frutificação dos hospedeiros.

Na área de colonização do projeto Gorotuba foram coletadas quinze espécies de moscas-das-frutas, das quais 14 correspondem às presentes na FEG. Nesse local, foram capturados 7,37% dos exemplares de todos os municípios. Anastrepha obliqua e A. zenildae foram as espécies mais freqüentes da área e representaram cerca de 80% das coletas. Apesar da alta freqüência de A. zenildae, essa espécie foi acidental. Em realidade, ela foi coletada principalmente no último ano de coleta, provavelmente devido ao início de produção dos pomares irrigados de goiaba. De acordo com Araujo et al. (1996a), a goiaba e o juá são os hospedeiros de A. zenildae. Anastrepha obliqua foi a espécie com maior índice de constância, entretanto foi apenas acessória. Os hospedeiros conhecidos (Zucchi, 1988) de A. obliqua estiveram presentes durante os três anos de coleta. A implantação dos pomares de goiaba, hospedeiro adequado de A. zenildae, possibilitou que essa espécie se tornasse predominante no último ano do estudo (1996).

Quanto à abundância, A. obliqua e A. zenildae foram espécies muito abundantes e as 13 espécies restantes foram comuns na área. As espécies dominantes do local foram A. fraterculus, A. obliqua e A. zenildae. A espécie predominante nessa área foi A. obliqua, porém, A. zenildae também foi uma espécie de ocorrência significativa e provavelmente, se fosse feita uma análise ecológica em 1996, esta última seria a espécie dominante na área.

A área urbana de Janaúba, junto com a FEG, foi a área com maior número de tefritídeos coletados (38,55%) dentro dos seis locais estudados. Nessa localidade, foram coletadas 14 espécies de moscas-das-frutas, que corresponderam às mesmas espécies coletadas na FEG. Dos exemplares coletados na área urbana de Janaúba, 85,54% foram de C. capitata. Dos 14,46% restante, A. obliqua representou 8,01%, A. fraterculus 3,70% e A. zenildae 1,82%. As outras dez espécies juntas representaram apenas 0,93%. A mosca-do-mediterrâneo foi, sem dúvida, a espécie predominante nessa localidade, pois foi a única espécie constante, muito abundante e dominante. Apesar de que foi coletado um elevado número de indivíduos, semelhante ao obtido na FEG, C. capitata esteve sempre presente na área urbana. Assim, C. capitata comporta-se como praga urbana. Nos quatro locais, sem influência urbana, a coleta de mosca-do-mediterrâneo foi apenas ocasional.

As demais espécies coletadas em Janaúba apresentaram índices muito baixos, não sendo portanto de nenhuma expressão nesse local.

O Centro Experimental de Jaíba foi o quarto local quanto ao número de exemplares coletados (5,62%), representado por 12 espécies sendo 11 de Anastrepha e C. capitata. Na CEJA a espécie predominante é sem dúvida Anastrepha n. sp.3, que representou 85,23% do total de exemplares coletados e teve altos índices de infestação (constante, muito abundante e dominante).

Essa fazenda está afastada de qualquer área de produção agrícola, predominando uma área de mata nativa. Anastrepha n. sp.3 esteve presente em todas as outras áreas estudadas, porém, só nessa alcançou altos índices ecológicos. Provavelmente o hospedeiro preferido dessa espécie encontra-se na mata nativa.

Na área do CEJA, as demais espécies apresentaram índices de infestação muito baixos e em geral, exceto pelas espécies associadas às euforbiáceas (A. montei, A. pickeli e Anastrepha n. sp.2), as coletas foram apenas de um único ou de alguns exemplares.

No distrito de Mocambinho, foram capturados apenas 2,97% do total de moscas, sendo que 60,76% dos exemplares coletados nessa área pertenciam à A. zenildae. Depois dessa espécie, as freqüências maiores foram de A. undosa, A. fraterculus e A. sororcula.

Quanto à constância, A. zenildae foi acessória e as demais espécies acidentais. Igualmente, os maiores índices de abundância foram para A. zenildae (muito abundante) e A. undosa (abundante). As demais espécies foram comuns. Três espécies (A. zenildae, A. undosa e A. fraterculus) foram dominantes. Segundo esses índices, A. zenildae é a espécie predominante na região, entretanto, A. undosa também é uma espécie de ocorrência significativa.

Apenas alguns exemplares de A. zenildae foram coletados nos dois primeiros anos. Essa provavelmente seja a causa de ter sido acessória no índice de abundância. Entretanto, por ser muito abundante indica que durante o período em que foi coletada (1996) suas populações foram muito altas. Em Mocambinho, em 1996, iniciou-se o período de produção em vários pomares comerciais de goiaba. Esses pomares são plantados sob irrigação e frutificam o ano todo. A fartura de substrato para oviposição tornou A. zenildae a principal espécie da região. Praticamente nada se conhece de A. undosa, além de sua descrição original baseada numa fêmea. Em Mocambinho, essa espécie foi coletada em apenas um período, portanto é acidental, porém, suas populações foram muito altas (abundante) e foi dominante na região. Estudos posteriores sobre seus índices ecológicos e hospedeiros permitirão conhecer melhor a verdadeira importância dessa espécie na região.

Em Itacarambí, como em Mocambinho, foram poucos os exemplares coletados, apenas 2,01% do total de fêmeas. A. zenildae foi a espécie predominante na região, foi a mais freqüente, constante, muito abundante e dominante. Outras espécies dominantes foram A. fraterculus e A. sororcula.

Em Itacarambí, as espécies dominantes foram as que tiveram como hospedeiro a goiaba. Como já foi citado, em Itacarambí a maioria das armadilhas foi colocada numa área de produção de frutos de uma fazenda, com pomares de acerola, abacaxi e goiaba. Nessa última frutífera, A. zenildae apresentou altos níveis de infestação (Canal et al., 1997).

Análise faunística geral: A análise faunística dos seis locais mostra que C. capitata é uma praga urbana, enquanto que as espécies de Anastrepha predominam em áreas rurais. A predominância de uma espécie de Anastrepha, em determinado local, está diretamente associada à presença do fruto hospedeiro. Entretanto, algumas espécies possuem maior potencial biótico e tornam-se dominantes na área.

Anastrepha zenildae deslocou, em termos de importância, A. fraterculus e A. sororcula, com as quais compartilha o mesmo hospedeiro (goiaba). Anastrepha obliqua foi menos importante do que A. zenildae devido à disponibilidade de goiabas durante o ano todo nos pomares irrigados. Anastrepha n. sp.3 foi coletada em frutos de maniçoba (Manihot sp.). Apesar desse hospedeiro estar presente nos quatro municípios estudados, Anastrepha n. sp.3 apresentou altos índices ecológicos apenas na área onde as populações de outras espécies de Anastrepha foram baixas, provavelmente por falta de hospedeiros adequados para essas espécies.

Nascimento et al. (1983) caracterizaram as populações de Anastrepha em cinco munícipios do recôncavo baiano. Encontraram que A. fraterculus, A. obliqua e A. sororcula foram as espécies predominantes. Anastrepha fraterculus apresentou as maiores freqüências nos pomares de goiaba, com índices ecológicos altos. Nos pomares de laranja, as maiores freqüências foram de A. obliqua, porém, as duas espécies apresentaram índices ecológicos altos. Aqueles autores concluíram que o local teve maior influência nas populações de mosca do que o fruto hospedeiro. Essa última conclusão não concorda com os dados obtidos nos quatro municípios estudados neste trabalho, onde o hospedeiro é o principal fator que influencia as populações de mosca. No Norte de Minas Gerais, entretanto, os quatro municípios estudados são ecologicamente similares, fato que pode não ter ocorrido no estudo do recôncavo baiano.

Arrigoni (1984), em uma análise faunística das espécies de moscas-das-frutas em três municípios do Estado de São Paulo, verificou que C. capitata foi a espécie predominante seguida de A. fraterculus. Os levantamentos foram realizados em pomares comerciais e seus resultados foram diferentes dos do Norte de Minas, onde C. capitata não foi importante nas áreas rurais. Portanto, as espécies de moscas-das-frutas apresentam compor-tamento diferente em função do local de ocorrência.

Silva (1993) caracterizou quatro locais da região amazônica quanto à freqüência e dominância de moscas-das-frutas coletadas em frutos hospedeiros. Concluiu que a espécie predominante foi A. obliqua e que o fruto hospedeiro não é o único fator determinante da dinâmica populacional das espécies de moscas-das-frutas. No Norte do Espírito Santo, Martins et al. (1996) caracterizaram três locais quanto à freqüência e dominância das espécies de Anastrepha. Observaram que A. fraterculus foi a espécie predominante, enquanto que A. distincta, A. obliqua e A. serpentina foram dominantes.

De modo geral, as espécies predominantes têm sido as mesmas nos vários locais onde foram feitos estudos faunísticos. Entretanto, a importância dessas espécies varia de local para local.

Índice de similaridade: Com relação à composição de espécies, verificou-se que na FEG e na área urbana de Janaúba ocorreram as mesmas espécies (100% de similaridade). A área de colonização do projeto Gorotuba foi a mais semelhante com os outros dois locais (96%). O CEJA foi 80% similar ao grupo formado pelas três áreas anteriores, enquanto que Mocambinho e Itacarambí formaram um grupo separado com 75% de similaridade entre eles e apenas 73% semelhantes às outras comunidades (Figura 2).

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Figura 2 - Dendograma representativo dos seis locais do norte de Minas Gerais, baseado no Quociente de Similaridade.

 

As comunidades mais próximas são mais semelhantes em termos de composição de espécies, assim a FEG, a área de colonos do projeto Gorotuba e a Janaúba formam um grupo muito similar. Um segundo grupo é formado por Mocambinho e Itacarambí, próximos entre si. Em termos de semelhança, o CEJA é uma comunidade intermedíaria entre os dois grupos anteriores e geograficamente é também o ponto intermediário entre as cidades de Janaúba - Nova Porteirinha e o Rio São Francisco às margens do qual localizam-se Itacarambí e Mocambinho. O CEJA, entretanto, agrupa-se com as comunidades de Janaúba, provavelmente devido ao fato que entre Janaúba e Jaíba há uma área povoada e de atividade agropecuária. Entre Jaíba e o Rio São Francisco a predominância, atualmente, é de mata nativa, a qual durante o tempo sem chuva apresenta a vegetação quase totalmente seca, estabelecendo uma barreira à movimentação da mosca em longos períodos.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem ao Dr. Sinval Silveira Neto e à Dra. Marinéia Lara Haddad, pelo auxílio na elaboração da análise faunística.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 27.05.97
Aceito para publicação em 20.08.97

 

 

1 Parte da Tese de Doutorado apresentada à ESALQ/USP pelo primeiro autor.

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