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Scientia Agricola

On-line version ISSN 1678-992X

Sci. agric. vol. 55 n. 1 Piracicaba Jan./Apr. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-90161998000100013 

ÍNDICES BIOCLIMÁTICOS PARA A CULTURA DE GIRASSOL1

 

P.C. SENTELHAS2; M.R.G. UNGARO3,4
2Departamento de Física e Meteorologia-ESALQ/USP, C.P. 9, CEP:13.418-900 - Piracicaba, SP.
3Seção de Oleaginosas-IAC, C.P. 28, CEP: 13.001-970 - Campinas, SP.
4Bolsista do CNPq.

 

 

RESUMO: Foram avaliados cinco índices bioclimáticos para a estimativa da duração do ciclo de dois cultivares e de um híbrido de girassol, em Monte Alegre do Sul, SP. Os índices avaliados foram: índice térmico (IT); unidades heliotérmicas (UH); acúmulo da radiação fotossinteticamente ativa (ARFA); índice heliotérmico de Geslin (IHG); acúmulo da evapotranspiração potencial (AETP). Foram avaliados dois cultivares, IAC-Anhandy e VNIIMK, e o híbrido Contisol-621, os quais foram semeados mensalmente, totalizando 22 épocas distintas, variando de 14/01/88 a 19/01/90. Através do CV(%) foi possível verificar que o IT foi o índice que apresentou a menor variação ao longo das diferentes épocas de semeadura, com valores de CV de 4,5 e 5,9%, respectivamente, para os cultivares IAC-Anhandy e VNIIMK, e de 3,7% para o híbrido Contisol-621. Utilizando-se o índice térmico, determinou-se, através da análise de variância e teste de Tukey, a diferença entre os materiais avaliados. O cultivar IAC-Anhandy (1743oC.dia) e o híbrido Contisol-621 (1713oC.dia) não apresentaram diferença significativa entre si. Já o cultivar VNIIMK foi o mais tardio, apresentando maior índice térmico (1848 oC.dia).
Descritores: girassol, índice bioclimático, IAC-Anhandy, Contisol-621, VNIIMK

 

BIOCLIMATIC INDEXES FOR THE SUNFLOWER CROP

ABSTRACT: Five bioclimatic indexes were evaluated to estimate the cycle duration of two sunflower cultivars and one hybrid, at Monte Alegre do Sul, State of São Paulo, Brazil. The following bioclimatic indexes were evaluated: thermic index (IT); heliothermic units (UH); accumulated photosyntetically active radiation (ARFA); Geslin heliothermic index (IHG), and accumulated potential evapotranspiration (AETP). The cultivars, IAC-Anhandy and VNIIMK, and the hybrid Contisol-621 were sown monthly, totalizing 22 different seasons, ranging from 01/14/88 to 01/19/90. Mean standart deviation and coefficient of variation (CV, %) were determined for each bioclimatic index, for all cultivars. The CVs showed that IT was the index that presented the lowest variation for all sowing seasons, with values of 4.5, 3.7, and 5.9%, respectivelly, for IAC-Anhandy, Contisol-621, and VNIIMK. The index IT was used to determine, by variance analysis and Tukey test, the differences between cultivars and the hybrid. The IAC-Anhandy (1743oC.day) and Contisol-621(1713oC.day), did not show significant differences. On the other hand, the VNIIMK was a later cultivar, requiring 1848oC.day to complete its cycle.
Key Words: sunflower, bioclimatic index, IAC-Anhandy, Contisol-621, VNIIMK

 

 

INTRODUÇÃO

A cultura do girassol tem a duração de seu ciclo afetada basicamente pelos seguintes elementos climáticos: temperatura do ar; radiação solar e fotoperíodo (Goyne & Hammer, 1982). Porém, de acordo com Robinson (1979), o girassol pode ser considerado pouco sensível ao fotoperíodo, por florescer numa larga faixa de comprimento do dia.

No Brasil, a influência do clima na duração do ciclo e dos subperíodos do girassol está relacionada, principalmente, com a temperatura do ar (Massignam & Angelocci, 1993; Sentelhas et al., 1994). Trabalhos realizados por esses autores expressam essa relação através da soma térmica ou graus-dia, índice que vem sendo largamente utilizado para estimativa da duração do ciclo de diversas culturas em virtude da sua simplicidade, apesar das suas limitações (Wang, 1960).

Além dos graus-dias, vários são os sistemas de unidades bioclimáticas. No entanto, a utilização e limitação de cada um deles é pouco conhecida. Sastry & Chakravarty (1982), visando identificar as limitações de diferentes índices bioclimáticos para a cultura de trigo, avaliaram cinco deles e concluíram que o acúmulo da evapotranspiração potencial e da radiação fotossinteticamente ativa foram os que mostraram menor variabilidade, respectivamente, para os subperíodos germinação-antese e germinação-maturação.

O objetivo deste trabalho foi o de avaliar o desempenho de cinco índices bioclimáticos para estimativa da duração do ciclo (semeadura - ponto de maturidade fisiológica), de dois cultivares e de um híbrido de girassol, nas condições de Monte Alegre do Sul, Estado de São Paulo.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os dados fenológicos do girassol, utilizados neste trabalho, foram obtidos em experimentos conduzidos na Estação Experimental de Monte Alegre do Sul (Lat.: 22o40'S; Long.: 46o40'W e Alt.: 777m) do Instituto Agronômico de Campinas. O ensaio foi conduzido em Latossolo roxo e os cultivares utilizados foram: IAC-Anhandy e VNIIMK e também o hídrido Contisol-621. O delineamento experimental foi o de blocos casualizados com parcelas subdivididas, sendo as parcelas as épocas de semeadura e as subparcelas os diferentes materiais (cultivares e híbrido). Cada parcela continha 7 linhas com 8m de comprimento, espaçadas de 0,5m, com 5 plantas por metro linear. Os tratos culturais (adubação na semeadura e em cobertura, controle fitossanitário e irrigação) foram idênticos para as três subparcelas, de acordo com as necessidades de cada época de semeadura.

Foram realizadas semeaduras em 22 épocas no período de 14/01/88 a 19/01/90, sendo, aproximadamente, uma semeadura por mês. Foram coletados os seguintes dados fenológicos: data da semeadura; emergência; floração (início da antese) e maturidade fisiológica. Os dados meteorológicos correspondentes ao período do experimento, temperatura máxima e mínima e insolação, foram obtidos junto ao posto agrometeorológico situado, aproximadamente, a 1.000m da área experimental, o qual esta sob a égide da Seção de Climatologia Agrícola, Instituto Agronômico de Campinas (IAC).

Esses dados foram empregados no cálculo dos seguintes índices bioclimáticos:

a) Índice Térmico (IT):

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em que: Tmed é a temperatura média do ar (oC), a qual é estimada pela média aritmética entre as temperaturas máxima e mínima; Tb é a temperatura-base para a cultura de girassol, igual a 4,2oC de acordo com determinações feitas por Sentelhas et al. (1994); i é o índice para cada dia do ciclo após a semeadura; e M é o número total de dias do ciclo (semeadura ao ponto de maturidade fisiológica).

b) Unidades Heliotérmicas (UH):

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em que: n é a insolação (horas)

c) Acúmulo de Radiação Fotossinteticamente Ativa (ARFA):

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em que: RFA é a radiação fotossinteticamente ativa (W.m-2), estimada pela relação RFA = 0,44 * Qg (Assunção, 1994), sendo Qg a irradiância solar global (W.m-2) calculada em função da razão de insolação (n/N), de acordo com a equação de Angströn, determinada por Cervellini et al. (1966) para Monte Alegre do Sul, SP:

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sendo Qo a irradiância solar no topo da atmosfera (W.m-2) e N o fotoperíodo (horas).

d) Índice Heliotérmico de Geslin (IHG):

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e) Acúmulo de Evapotranspiração Potencial (AETP):

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em que: ETP é a evapotranspiração potencial diária (mm.dia-1), estimada pelo método de Thornthwaite (1948).

Os dados obtidos foram analisados através de estatística clássica, obtendo-se a média, o desvio padrão e o coeficiente de variação, o qual serviu de base para a escolha do índice bioclimático a ser utilizado na comparação dos cultivares e do híbrido. Para essa comparação utilizou-se a análise de variância (Teste F) e o teste de Tukey.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Nas TABELAS 1, 2 e 3 são apresentados os dados de estatística clássica referentes aos índices bioclimáticos utilizados, para os dois cultivares e para o híbrido. Verifica-se que entre os índices utilizados, o IT foi o que apresentou a menor variabilidade no total de unidades requeridas para a cultura completar seu ciclo, entre as diferentes épocas de semeadura e para os três materiais estudados, com CV% de 4,5, 3,7 e 5,9%, respectivamente, para o IAC-Anhandy (TABELA 1), o híbrido Contisol-621 (TABELA 2) e o VNIIMK (TABELA 3). Isso mostra, que para as condições em questão, ou seja, cultura sem restrição hídrica, a temperatura do ar é o principal fator ambiental condicionante da duração do ciclo da cultura do girassol, sendo o sistema um bom método de estimativa, muito útil no planejamento da cultura.

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Outro índice bioclimático que teve valores de CV baixos, 6,1% para o IAC-Anhandy, 5,8% para o Contisol-621 e 7,4% para o VNIIMK, foi o IHG. No entanto, sua utilização é mais complexa pois envolve dados de fotoperíodo, além de que proporciona maior variabilidade nas estimativas da duração do ciclo do girassol.

Os índices UH e ARFA apresentaram CV da ordem de 10%, enquanto que o AETP, ao contrário do que foi encontrado para o trigo por Sastry & Chakravarty (1982), apresentou as maiores variabilidades, com CV acima de 15%, sendo todos eles descartados em virtude dos elevados CV e da complexidade.

Isso mostra que tanto o IT como o IHG podem ser utilizados, para os materiais estudados, com bom grau de confiabilidade na estimativa da duração do ciclo semeadura - maturidade fisiológica do girassol irrigado, assim como em modelos de estimativa do crescimento e desenvolvimento da planta, como por exemplo do índice de área foliar (Rawson & Hindmarsh, 1982; Barni et al., 1995; Villalobos et al., 1996).

Dessa forma, adotou-se o índice IT para se determinar as exigências térmicas dos dois cultivares e do híbrido de girassol, devido a simplicidade de sua utilização.

Através da análise de variância, teste F (Ftab = 4,98 < Fcalc = 14,79) rejeitou-se a hipótese de igualdade entre o total médio de IT necessário para que cada cultivar atinja a maturação. Pelo teste de Tukey, determinou-se a diferença mínima entre os materiais, igual a 62,43oC.dia. Assim, pôde-se verificar que o cultivares IAC-Anhandy e o híbrido Contisol-621 não apresentaram diferença significativa entre si. Já o VNIIMK, mostrou-se tardio, diferindo significativamente dos demais (Figura 1).

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Figura 1 - Índice térmico (IT) requeridos para os cultivares IAC-Anhandy e VNIIMK e para o híbrido Contisol-621 atingirem a maturidade fisiológica, a partir da semeadura. As barras com mesma letra não diferem estatisticamente entre si ao nível de significância de 1% de probabilidade.

 

CONCLUSÕES

Os resultados obtidos permitem concluir que o índice bioclimático IT foi entre os índices avaliados o que proporcionou menor variabilidade no total de unidades bioclimáticas requeridas para os materiais analisados de girassol completarem o ciclo, semeadura - maturidade fisiológica. Utilizando-se, o índice térmico, conclui-se que o cultivar IAC-Anhandy e o híbrido Contisol-621 necessitam, respectivamente, de 1743 e 1713oC.dia para atingirem o ponto de maturidade fisiológica, não diferindo significativamente entre si. O cultivar VNIIMK, mais tardio, tem uma necessidade bioclimática maior, requerendo 1848oC.dia para completar seu ciclo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 05.08.97
Aceito para publicação em 30.10.97

 

 

1 Trabalho apresentado no X Congresso Brasileiro de Agrometeorologia, Piracicaba, 13 a 18/07/1997.

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