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Scientia Agricola

Print version ISSN 0103-9016

Sci. agric. vol. 55 n. 2 Piracicaba May/Aug. 1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-90161998000200013 

UTILIZAÇÃO DO TESTE DE CONDUTIVIDADE ELÉTRICA PARA PREVISÃO DO POTENCIAL GERMINATIVO DE SEMENTES DE INGÁ1

 

C.J. BARBEDO2; S.M. CICERO3
2Seção de Sementes e Melhoramento Vegetal-IBt/SMA, CEP: 04301-012 - São Paulo, SP.
3Depto. de Agricultura-ESALQ/USP, C.P. 9, CEP: 13418-900 - Piracicaba, SP.

 

 

RESUMO: Sementes de espécies do gênero Inga apresentam curta longevidade em condições naturais, freqüentemente inferiores a 15 dias. O teste de germinação para estas sementes tem duração de 7 a 15 dias, tornando-o de difícil aplicabilidade na separação de lotes de sementes a serem beneficiados e armazenados. Assim, esta pesquisa visou verificar a eficiência da utilização do teste de condutividade elétrica na separação, quanto à qualidade fisiológica, de lotes de sementes de ingá (Inga uruguensis Hook. & Arn.). Foram utilizados três lotes de sementes distintos quanto à sua época de coleta, cada qual com dois sublotes em função da forma de obtenção (colheita diretamente nas árvores e coleta sobre o solo). Todos foram armazenados por período de 80 dias, em vermiculita úmida dentro de câmara fria, com análises a cada 20 dias. Os resultados comprovaram a eficiência do teste na separação de lotes de alta (germinação superior a 50%), média (germinação entre 10 e 40%) ou baixa (germinação inferior a 10%) qualidade fisiológica que corresponderam a valores de condutividade elétrica de, respectivamente, 0-25, 25-60 e acima de 60 mS.g de peso de matéria seca-1.cm-1.
Descritores:
qualidade de sementes, avaliação rápida, semente recalcitrante

 

USE OF THE ELECTRICAL CONDUCTIVITY TEST FOR GERMINATION PREVIEW IN Inga uruguensis HOOK. & ARN. SEEDS

ABSTRACT: Inga seeds have short life under natural conditions, often lower than 15 days. Since, the germination tests for these seeds last 7-15 days, they are inefficient to separate seed lots for processing and storage. This research was carried out to verify the efficacy of the electrical conductivity test to determine the physiological seed quality of I. uruguensis. Fruits were collected at three dates, directly from the trees or from the ground, forming six sublots of different quality. All of them were stored for 80 days in wet vermiculite and in a cold chamber. Seed quality was evaluated every 20 days. The results confirmed the test efficacy to separate of seed lots in three categories: high (more than 50% germination), intermediate (germination between 10 and 40%) and poor (less than 10% germination) qualities that corresponded, respectively, to 0-25, 25-60 and up 60 mS.g of dry weight-1.cm-1.
Key Words:
seed quality, quick estimation, recalcitrant seed

 

 

INTRODUÇÃO

Inga uruguensis Hook. & Arn. é uma das espécies do gênero Inga, da família Leguminosae (Corner, 1976; Custódio Filho & Mantovani, 1986). É uma espécie conhecida popularmente por ingá, ingá-banana, ingá-do-brejo e ingá-de-quatro-quinas, entre outras designações. Ocorre desde o Uruguai até o Estado de São Paulo, no Brasil, incluindo Paraguai e Argentina. São plantas de 5 a 28m de altura podendo seu tronco atingir 70cm de diâmetro. O sistema radicular é pivotante, superficial, com numerosas raízes secundárias imediatamente abaixo da região do colo. As raízes possuem nódulos onde se alojam bactérias fixadoras do N atmosférico (Sanchotene, 1989; Lorenzi, 1992; Figliolia, 1993). Estas características conferem à espécie um grande potencial de recuperação de áreas com risco de erosão (pela velocidade e amplitude de crescimento do sistema radicular) ou áreas de vegetação degradada, adaptando-se bem a solos freqüente-mente inundados como os que margeiam rios.

As sementes de I. uruguensis, em número de 2 a 13 por fruto, são envoltas por uma polpa branca, aquosa, com 2 a 3 mm de espessura, doce e comestível, denominada sarcotesta. Esta polpa acrescenta outras possibilidades de uso à espécie, como a confecção de gulodices para crianças, refrescos, doces e licores. Seus frutos podem ser aproveitados na alimentação de aves, peixes e mamíferos; a casca de seu tronco pode ser utilizada em curtumes (por possuir de 10 a 15% de substâncias taníferas) e na conservação de redes de pesca (o caldo do seu cozimento); sua madeira pode ser empregada na produção de caixotaria, em obras internas, na confecção de lápis e brinquedos e suas flores prestam-se à produção de mel. A espécie pode, ainda, ser utilizada em paisagismo urbano (Sanchotene, 1989; Lorenzi, 1992; Oliveira & Beltrati, 1993).

Outras espécies deste gênero são consideradas úteis, também, em vários outros aspectos, como sombreamento em cultivos de café e cacau, lenha, composição de formações florestais heterogêneas com produção de fitomassa voltada à geração de energia, fonte alimentar e fitoterapia (Polhill & Raven, 1981; Paula & Silva Jr., 1994; Correa et al., 1995; Pritchard et al., 1995).

I. uruguensis produz sementes que atingem 100% de germinação tanto sob condições controladas quanto em ambiente não controlado, sendo freqüente na espécie a viviparidade (Barbosa, 1982; Oliveira & Beltrati, 1992). Entretanto, a viabilidade destas sementes, assim como as de outras espécies do gênero, é muito curta, em geral não ultrapassando 15 dias em condições naturais (Lorenzi, 1992; Oliveira & Beltrati, 1993; Barbedo & Bilia, 1994).

Esta curta longevidade das sementes das espécies do gênero Inga confere, à análise da qualidade fisiológica dos lotes de sementes, dificuldades na obtenção e apresentação de resultados. O teste de germinação realizado para a espécie tem duração de 7 a 14 dias, quando as últimas plântulas normais são computadas. Portanto, quando os resultados são obtidos a qualidade fisiológica das sementes já não corresponde ao resultado da análise realizada, pela própria deterioração das sementes. Isto tem resultado em problemas na separação de lotes de sementes quanto à sua qualidade fisiológica, o que compromete o beneficiamento e o armazenamento destas, até mesmo inviabilizando, em alguns casos, sua utilização. Assim, torna-se necessário o desenvolvimento de técnicas que permitam a avaliação da qualidade fisiológica destas sementes em períodos mais curtos.

O presente trabalho visou verificar a eficiência do teste de condutividade elétrica na avaliação da qualidade fisiológica de sementes de ingá, com vistas à obtenção destes resultados em 24 horas.

 

MATERIAL E MÉTODOS

A espécie estudada no presente trabalho foi identificada como Inga uruguensis Hook. & Arn. O local de coleta dos frutos compreende um fragmento de mata ciliar, dentro do domínio do Cerrado, às margens do rio Oriçanga, no município de Moji-Guaçu/SP. As coordenadas geográficas deste local são 22º17'S e 47º03'WG, com altitude média de 600 metros e topografia relativamente plana.

Na mata ciliar do local, que apresenta, em média, 55 metros de cada lado do rio, foram selecionadas 12 árvores de I. uruguensis, todas adultas, com 6 a 7 metros de altura. Nas árvores selecionadas foram realizadas coletas de frutos em três épocas: 27/12/95, 09/01/96 e 23/01/96. Em cada época foram obtidos frutos colhidos diretamente nas árvores e frutos apanhados no solo, separadamente. Assim, foram constituídos dois sublotes por lote de colheita, um formado pelos frutos colhidos nas árvores e o outro pelos coletados no solo.

Após as coletas, os frutos foram transportados ao Laboratório da Seção de Sementes e Melhoramento Vegetal, do Instituto de Botânica (IBt), em São Paulo/SP. Os frutos foram homogeneizados (por sublote), abertos manualmente e as sementes, separadas por sublote, foram retiradas e homogeneizadas. Constituíram-se, assim, os dois sublotes de sementes, doravante denominados apenas "sublote árvore" e "sublote solo", em cada uma das três épocas de coleta. Amostras de cada um destes sublotes foram retiradas para as avaliações iniciais do teor de água, da porcentagem de germinação e da condutividade elétrica da solução de embebição. As sementes destinadas a estas avaliações tiveram sua sarcotesta removida manualmente, ao passo que as demais permaneceram intactas.

As sementes beneficiadas de cada sublote foram separadas em três grupos, cada qual submetido a diferentes condições de armazenamento: 1) sementes em bandejas abertas, em ambiente natural de laboratório; 2) sementes em bandejas abertas, em câmara fria; 3) sementes em bandejas com vermiculita úmida, em câmara fria. A temperatura e a umidade relativa do ar da câmara fria, registradas durante o período em que as sementes ficaram armazenadas, foram 9ºC±1ºC e 85%±5%, respectivamente. Os dados climáticos do período que compreendeu o armazenamento das sementes, na região onde o mesmo foi realizado (IBt/SP), apresentaram temperatura máxima de 35ºC, temperatura mínima de 20ºC e umidade relativa do ar oscilando entre 65 e 95%.

No substrato denominado "bandeja aberta", as sementes foram espalhadas no interior de bandejas plásticas pretas, em camadas rasas praticamente sem sobreposição de sementes, as quais não receberam qualquer tipo de cobertura ou fechamento. Para a formação do substrato com vermiculita umedecida a proporção utilizada entre água e vermiculita, em volume, foi 2:1. A proporção entre a vermiculita e a massa de sementes armazenadas foi, em volume, 1:1. Estas bandejas foram fechadas por um filme de PVC (transparente e auto-aderente), sem vedação.

O delineamento adotado foi inteiramente casualizado, num esquema fatorial 2 x 3, envolvendo dois tipos de coleta (árvore e solo) e três condições de armazenamento (bandeja aberta em ambiente natural de laboratório, bandeja aberta em câmara fria e bandeja com vermiculita úmida em câmara fria), com quatro repetições em todos os testes.

Amostras das sementes armazenadas, dentro de cada época de coleta, por sublote e sob cada condição de armazenamento, foram retiradas a cada 20 dias, até 80 dias, a partir do início do período de armazenamento, para a realização dos testes de avaliação da qualidade fisiológica das sementes.

Para avaliação do teor de água das sementes utilizou-se o método da estufa a 105ºC±3ºC, durante 24 horas (Brasil, 1992), sendo tomada uma amostra de 20 sementes, por repetição, em cada tratamento.

Os testes de germinação foram realizados utilizando-se germinadores regulados à temperatura constante de 30ºC, baseando-se nos resultados de Barbedo & Bilia (1994) e Pritchard et al. (1995). As sementes foram colocadas em rolos de papel (Brasil, 1992), baseando-se nos resultados obtidos por Barbosa (1982), com duas folhas de papel de germinação formando a base de semeadura e uma folha como cobertura. Foram semeadas 20 sementes em cada repetição, por tratamento. As leituras de germinação foram realizadas aos sete e aos 14 dias após a instalação do teste. Os critérios de normalidade ou anormalidade de plântulas foram baseados em informações de Oliveira & Beltrati (1992) e Figliolia (1993).

A condutividade elétrica foi obtida pela imersão de 20 sementes (previamente pesadas) em 75ml de água destilada (cuja condutividade elétrica variou de 3 a 6 mS.cm-1), em copos plásticos (200ml), por repetição. Estas sementes permaneceram imersas, no interior de câmaras incubadoras tipo BOD, regulada à temperatura de 25ºC constante, por 24 horas (Vieira, 1994).

A leitura da condutividade elétrica foi feita em um condutivímetro de bancada para soluções aquosas Tecnopon, modelo CA 150, com faixa de leitura de 0 a 20 000mS.cm-1 (4 escalas), célula de condutividade tipo caneta e constante de eletrodo 1,0.

O método tradicional do teste de condutividade elétrica prevê a padronização do teor de água inicial das sementes (Vieira, 1994). Entretanto, em sementes de I. uruguensis alterações no teor de água implicam em modificações na viabilidade. Assim, as sementes, para a execução deste teste, foram imersas sem qualquer modificação do seu teor de água. Visto que lotes, sublotes e ambientes de armazenamento distintos apresentaram sementes com grandes variações no teor de água, duas formas de cálculo da condutividade elétrica foram realizadas.

A primeira, denominada condutividade elétrica com base no peso da massa de sementes úmidas, foi calculada dividindo-se o valor de leitura registrado no condutivímetro pelo peso inicial da massa de sementes colocada em imersão, isoladamente para cada um dos copos. O resultado foi expresso em mS.g PF-1.cm-1, onde PF significa peso das sementes frescas. A segunda, denominada condutividade elétrica com base no peso de matéria seca da massa de sementes, foi calculada descontando-se, do peso inicial da massa de sementes colocada em embebição, o peso de água da mesma, através dos valores obtidos no teste para determinação do teor de água, obtendo-se o peso de matéria seca da massa de sementes. Os resultados foram expressos em mS.g PS-1.cm-1, onde PS significa peso da matéria seca das sementes.

A análise estatística dos dados foi efetuada separadamente para cada época de colheita. Todos os dados obtidos na determinação do teor de água, da germinação e da condutividade elétrica da solução de embebição das sementes foram submetidos a análise de variância. Os dados de porcentagem foram transformados em arc sen (%/100)0,5 ou, na existência de elevada freqüência de zeros, em arc sen [(%+0,5)/100]0,5. As médias foram comparadas pelo teste de Tukey ao nível de 5% de probabilidade (Gomes, 1973).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Após cada colheita e ao final de cada período de armazenamento, obtiveram-se sementes com diversos níveis de qualidade fisiológica, caracterizados pelo seu teor de água, por sua porcentagem de germinação e pelos valores obtidos para condutividade elétrica da solução de embebição.

O teor de água das sementes colhidas nas árvores, da primeira à segunda épocas de coleta, reduziu e a qualidade fisiológica aumentou, como mostram os valores de germinação e de condutividade elétrica (TABELA 1). Verifica-se, também, que a variação nos valores da segunda para a terceira época de coleta foi mínima, resumindo-se à redução no teor de água e na condutividade elétrica com base no peso das sementes frescas. Com relação às sementes de frutos coletados sobre o solo, houve variação, da primeira para a segunda época, apenas na condutividade elétrica calculada pelo peso das sementes frescas, que diminuiu. Da segunda à terceira época, além deste valor, que continuou diminuindo, também a porcentagem de germinação apresentou alteração, diminuindo em 4%. Apesar desta diferença ser pequena, ela pode estar associada a um início de deterioração das sementes de frutos caídos sobre o solo, na terceira época de coleta (TABELA 1).

 

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A caracterização inicial dos materiais permitiu separar as sementes em três grupos distintos quanto a sua qualidade. O primeiro grupo constou das sementes oriundas de frutos colhidos nas árvores em 27/12/95 (primeira coleta) e caracterizou-se pela imaturidade das mesmas, porém sem grandes danos sofridos por agentes bióticos ou não bióticos. Este foi o grupo de pior qualidade das sementes, inclusive com menor porcentagem de germinação inicial, ou seja, logo após a colheita (83%).

O segundo grupo foi constituído das sementes de frutos colhidos nas árvores e coletados sobre o solo, em 09/01/96 (segunda coleta), e os colhidos nas árvores em 23/01/96 (terceira coleta). Estas sementes foram as de melhor qualidade, com pouco dano sofrido por agentes externos. Apresentaram, inicialmente, germinação total (100%) de suas sementes, confirmando resultados e observações de Barbosa (1982), Oliveira & Beltrati (1992), Bilia & Barbedo (1994) e Pritchard et al. (1995), para o gênero Inga.

As sementes de frutos coletados sobre o solo na primeira e na terceira épocas (27/12/95 e 23/01/96) constituíram o terceiro grupo, caracterizando-se por sementes com sinais de deterioração pela ação de agentes externos, por um "armazenamento" no solo ou, até, por um início de germinação sem seqüência do processo. Estas sementes apresentaram qualidade intermediária entre as demais.

A condutividade elétrica da solução de embebição das sementes, antes do início do armazenamento, acompanhou o comportamento observado no teste de germinação. Assim, valores entre 2,9 e 5,2 mS.gPF-1.cm-1 ou entre 6,2 e 11,8 mS.gPS-1.cm-1 corresponderam a germinação superior a 95%. Por outro lado, sementes coletadas nas árvores, na primeira época de coleta, que apresentaram 83% de germinação, apresentaram valores de condutividade elétrica bem acima dos anteriores, ou seja, 11,7 mS.gPF-1.cm-1 e 27,9mS.gPS-1.cm-1.

Durante o armazenamento das sementes, o teor de água oscilou de forma diferenciada conforme o tratamento aplicado (TABELA 2). Nos tratamentos que não envolveram vermiculita úmida como substrato de armazenamento, houve redução do teor de água das sementes até os primeiros 20 a 40 dias, nas três épocas e nos dois tipos de coleta. A partir deste período (20 a 40 dias) os valores estabilizaram em torno de 14-15%, para sementes em ambiente natural de laboratório, e 20-23%, para sementes em câmara fria (TABELA 2).

 

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Por outro lado, nos tratamentos em que a vermiculita úmida estava presente, houve uma nítida absorção de água pelas sementes durante seu armazenamento, aumentando de forma contínua desde o início, quando os valores estavam em torno de 48 a 58%, até os 80 dias, quando os valores atingiram 70 a 75%, em todas as épocas e tipos de coleta (TABELA 2). Este aumento no teor de água indica, provavelmente, que estas sementes iniciaram o metabolismo voltado à germinação durante o armazenamento, como o que foi verificado por Farrant et al. (1989), para sementes de outras espécies com sementes recalcitrantes. Segundo estes autores, o metabolismo durante o processo de germinação implica na necessidade de elevadas quantidades de água que, se não estiver disponível, resultará em morte do embrião.

As sementes que foram armazenadas sem a utilização de vermiculita úmida, ou seja, em bandejas abertas, no ambiente do laboratório ou na câmara fria e de quaisquer tipos ou épocas de coleta, perderam totalmente a capacidade germinativa já aos 20 dias de armazenamento, à exceção apenas das sementes colhidas nas árvores na terceira época, armazenadas em câmara fria. Estas, porém, a partir de 40 dias de armazenamento também perderam a capacidade de germinar (TABELA 3). A perda da capacidade germinativa coincidiu com a redução do teor de água das sementes para valores inferiores a 35%, fato este considerado comum, por Pritchard et al. (1995), para sementes de espécies do gênero Inga. Em praticamente todas as situações em que as sementes armazenadas perderam completamente a capacidade germinativa, os valores de condutividade elétrica superaram 30mS.gPF-1.cm-1 ou 80mS.gPS-1.cm-1 (TABELAS 4 e 5).

 

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Com relação aos tratamentos envolvendo a vermiculita úmida como substrato e que permaneceram na câmara fria, houve uma queda menos acentuada da capacidade germinativa das sementes ao longo de 80 dias de armazenamento. Dentre estes tratamentos, verificou-se uma queda mais rápida da qualidade das sementes colhidas nas árvores na primeira época de coleta. Nas sementes coletadas sobre o solo, na primeira e na terceira épocas de coleta, em presença de vermiculita úmida, a germinação decresceu gradualmente até os 80 dias de armazenamento.

As sementes da segunda época de coleta, colhidas nas árvores e coletadas sobre o solo, permaneceram com elevada porcentagem de germinação até os 20 dias de armazenamento (TABELA 3), valores esses muito próximos dos iniciais (TABELA 1).

Ainda com relação aos tratamentos que envolveram vermiculita úmida, como substrato, e câmara fria, como ambiente, nas sementes da terceira época de coleta até os 20 dias de armazenamento não houve diferença no comportamento germinativo entre as colhidas nas árvores e as coletadas sobre o solo. Após 40 dias, entretanto, e até os 80 dias de armazenamento, as sementes colhidas nas árvores sempre apresentaram germinação superior às coletadas sobre o solo.

Os resultados de condutividade elétrica da solução de embebição das sementes, calculados com base no peso das sementes frescas ou com base no peso de matéria seca das sementes, apesar da grande variação no teor de água das sementes dos diferentes tratamentos (de 12,7% a 76,6%), acabaram apresentando uma forte relação entre si (Figura 1). Verificou-se que, apesar dos maiores valores da condutividade elétrica com base no peso de matéria seca das sementes, em relação aos baseados no peso de sementes frescas, a relação entre ambas as formas de cálculo foi praticamente linear (Figura 1), com poucos desvios.

 

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Figura 1 - Relação entre os valores obtidos para condutividade elétrica da solução de embebição das sementes de Inga uruguensis, calculada pelo peso da matéria seca da massa de sementes (PS - eixo X) e pelo peso das sementes frescas (PF - eixo Y).

 

O cálculo da condutividade elétrica pelo peso de matéria seca das sementes demonstrou que valores acima de 110 mS.gPS-1.cm-1 corresponderam a germinação zero. Valores inferiores a 25 mS.gPS-1.cm-1 corresponderam a germinação superior a 50%. Valores de 25 a 60 mS.gPS-1.cm-1 corresponderam a germinação entre 10 e 40%, com raras exceções, e de 60 a 110 mS.gPS-1.cm-1, a valores de germinação entre 0 e 10%, também com raras exceções (TABELAS 3 e 5). A relação entre os resultados, por esta forma de cálculo, da condutividade elétrica e os da germinação está representada na Figura 2.

 

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Figura 2 - Relação entre os valores obtidos para germinação de sementes de Inga uruguensis em função da condutividade elétrica da solução de embebição, calculada pelo peso de matéria seca (CEPS) da massa de sementes imergidas.

 

Com relação à condutividade elétrica calculada pelo peso das sementes frescas, verificou-se que valores acima de 40 mS.gPF-1.cm-1 correspon-deram à perda completa da capacidade germinativa. Por outro lado, valores inferiores a 8 mS.gPF-1.cm-1 corresponderam a germinação superior a 50%. Entre 8 e 40 mS.gPF-1.cm-1 os valores de germinação correspondentes oscilaram de 0 a 54%, com maior freqüência na faixa entre 9 e 21% (TABELAS 3 e 4). Esta relação entre condutividade elétrica com base no peso das sementes frescas e a germinação pode ser visualizada na Figura 3.

 

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Figura 3 - Relação entre os valores obtidos para germinação de sementes de Inga uruguensis em função da condutividade elétrica da solução de embebição, calculada pelo peso das sementes frescas (CEPU).

 

A relação entre os resultados de condutividade elétrica e de germinação, ilustrados nas Figuras 2 e 3, apontaram a perspectiva de utilização do teste para a separação, em 24 horas, de lotes com baixa, média ou alta qualidade.

O emprego do método padrão, em que se obtém o quociente entre o valor de leitura da condutividade elétrica da solução e o peso inicial, para sementes recalcitrantes como as de I. uruguensis não parece muito sensato. Nestas sementes, a alteração do teor de água (através da secagem, por exemplo), por si só, já resulta em mudança na qualidade da semente. Esta não suporta a dessecação e apresenta comportamentos distintos, no armazenamento, conforme seu teor de água inicial (Bilia, 1997). Em sementes recalcitrantes, inclusive, a redução do teor de água para níveis críticos resulta em sua morte. Estes níveis freqüentemente envolvem teores de água ainda elevados (Chin et al., 1984). Portanto, não seria lógico padronizar o teor de água das sementes, para valores baixos, antes de se iniciar o teste.

Por outro lado, a divisão do valor de leitura da condutividade elétrica pelo peso total da massa de sementes, estas com diferentes teores de água de um lote a outro, também não permite a obtenção de informações confiáveis quanto à comparação da qualidade entre os lotes. Sementes de similar qualidade, liberando a mesma quantidade de eletrólitos para a solução, porém com teores de água diferentes, apontarão diferentes valores de condutividade elétrica, pois estes estarão sendo divididos por pesos diferentes.

Considerou-se aqui, portanto, mais sensata a divisão do valor de leitura, no aparelho medidor da condutividade elétrica, pelo peso médio de matéria seca da massa de sementes.

Se, por um lado, a condutividade elétrica baseada no peso das sementes frescas apresentou uma forte relação com a porcentagem de germinação, permitindo a separação em três categorias, a baseada no peso de matéria seca permitiu a separação em, ao menos, quatro categorias. Empregando-se o cálculo baseado no peso de matéria seca, os intervalos de condutividade elétrica, para cada faixa da porcentagem de germinação das sementes, foram maiores que os obtidos pelo cálculo com base no peso total das sementes. Então, a confiabilidade na separação dos lotes segundo sua qualidade, utilizando-se a condutividade elétrica da solução com base no peso de matéria seca das sementes, também é maior.

Vieira (1994) mencionou que os resultados do teste de condutividade elétrica só permitem comparações do potencial fisiológico dos lotes avaliados, não possibilitando estimativas sobre o comportamento de lotes sob condições de campo, bem como sobre o potencial de armazenamento. Entretanto, em I. uruguensis, a rápida determinação da qualidade das sementes é fundamental. As leituras finais do teste de germinação necessitam 7 a 14 dias, no mínimo, para serem efetuadas. Após este período, a qualidade das sementes pode ter sofrido grandes alterações. Têm-se constatado que, quando armazenadas em condições naturais, estas sementes podem, em 7 a 14 dias, reduzir sua porcentagem de germinação de valores superiores a 80% para valores inferiores a 10% (observações pessoais). Portanto, quando constatada a porcentagem de germinação inicial de um lote, esta já não será representativa do mesmo. O teste de condutividade elétrica, por outro lado, fornece uma boa estimativa do potencial germinativo das sementes, em 24 horas, tempo em que as alterações no lote são muito pequenas.

 

CONCLUSÕES

Os resultados obtidos permitiram concluir que o teste de condutividade elétrica da solução de embebição das sementes fornece, em 24 horas, uma estimativa do potencial germinativo de lotes de sementes de Inga uruguensis, podendo-se separá-los em baixa (germinação inferior a 10%), média (germinação entre 10 e 40%) ou elevada (germinação superior a 50%) qualidade, correspon-dendo, respectivamente, a valores de condutividade elétrica de 0 a 25, 25 a 60 e acima de 60 mS.g de matéria seca da massa de sementes-1.cm-1.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 05.08.97
Aceito para publicação em 11.03.98

 

 

1Parte da tese de doutorado do primeiro autor apresentado à ESALQ/USP.