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Scientia Agricola

versão impressa ISSN 0103-9016

Sci. agric. v. 55 n. 3 Piracicaba  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-90161998000300001 

TEOR E DISTRIBUIÇÃO DA MATÉRIA ORGÂNICA EM LATOSSOLOS DAS REGIÕES DA FLORESTA AMAZÔNICA E DOS CERRADOS DO BRASIL CENTRAL1

 

A.A. TOGNON2; J.L.I. DEMATTÊ3; J.A.M. DEMATTÊ3
2Pós-Graduando em Solos e Nutrição de Plantas-ESALQ/USP.
3Depto. de Ciência do Solo-ESALQ/USP, C.P. 9, CEP: 13418-900 - Piracicaba, SP.

 

 

RESUMO: Com o principal objetivo de estudar as variações nos teores de matéria orgânica tanto em superfície como subsuperfície de latossolos das regiões da Amazônia e dos Cerrados, foi desenvolvido essa pesquisa com auxílio dos mapas de solos obtidos pelo projeto RADAMBRASIL, uma área abrangendo grande parte das regiões da Amazônia e dos Cerrados. Foram 78 perfis de Latossolo Amarelo e 184 de Latossolo Vermelho Amarelo na região Amazônica e 123 perfis de Latossolo Vermelho Amarelo e 121 de Latossolo Vermelho Escuro na região dos Cerrados. Os perfis foram grupados de acordo com as características climáticas, de vegetação e material de origem. Notou-se que o teor de matéria orgânica da região amazônica é maior nos horizontes superficiais. À medida que aumenta o teor de argila do solo, aumenta o teor de matéria orgânica. Em profundidade, os teores de matéria orgânica dos latossolos dos Cerrados ultrapassam os da Amazônia. Com o aumento de precipitação pluvial ocorreu aumento no teor de matéria orgânica para ambas as regiões. Na região amazônica, o tipo de vegetação influencia na quantidade de matéria orgânica do solo, assim como os materiais das formações geológicas Solimões e Barreiras. Os solos da região amazônica apresentam maior teor de nitrogênio com relações C/N menores do que nos Cerrados.
Descritores:
matéria orgânica, latossolos, amazônia, cerrados

 

ORGANIC MATTER CONTENT AND DISTRIBUTION OF AMAZONIAN AND "CERRADO" LATOSOLS

ABSTRACT: The primary goal of this research was to characterize the Amazonian Latosols (Oxisols) and correlate them to those of the "Cerrado". An area was defined with the aid of soil maps, in the Amazonian and "Cerrado" regions. 78 Yellow Latosols and 184 Red-Yellow Latosols in the Amazonian region, and 123 profiles of Red-Yellow Latosols and 121 Dark-Red Latosols in the "Cerrado" region were studied. These profiles were grouped according to climate, vegetation, and parent material characteristics. It was noted that theorganic matter content of the Amazonian region is higher in the upper horizons. As soil clay content increases, the organic matter content increases. In depth, profiles of Latosols of the "Cerrado" region present a higher organic matter content those of the Amazonia. As rainfall increases organic matter increases in both regions. In the Amazonian vegetation type affects the amount of organic matter in the soil, as well as the materials from the Solimões and Barreiras geological formations. Latosols of the Amazonian region have higher nitrogen contents with C/N lower ratios than those of the "Cerrado" region.
Key Words:
organic matter, amazonian region, "cerrados", latosols

 

 

INTRODUÇÃO

A região Amazônica, com aproximada-mente 4,8 milhões de km2, 38% coberto por latossolos (Demattê, 1988) é a última fronteira agrícola brasileira, uma vez que os solos dos Cerrados do Brasil Central estão sendo paulatinamente conhecidos e conquistados. Esta região, responsável pela produção de 30% de grãos do país (Lopes, 1983), é constituída por 48% de oxissolos de baixa fertilidade (Macedo, 1996).

Os inúmeros êxitos alcançados com a agricultura e a pecuária na região dos Cerrados contrastam com os fracassos parciais da pecuária (Serrão et al., 1979) e agricultura de baixo nível na Amazônia (Smyth & Cravo, 1989). Tais êxitos se devem a diversos fatores, entre eles ao melhor conhecimento e desenvolvimento de práticas de manejo elaboradas principalmente pelo Centro de Pesquisas Agropecuárias dos Cerrados (CPAC) da EMBRAPA. Dentro do contexto agrícola, os solos assumem grande importância.

Apesar das duas regiões serem caracterizadas por apresentarem solos de baixa fertilidade (Demattê & Demattê, 1996a, b) o teor e a distribuição da matéria orgânica nestes dois ambientes continuam sendo ainda pouco entendidos, principalmente a distribuição em profundidade.

O teor e a dinâmica da matéria orgânica do solo são componentes importantes no manejo, principalmente nos latossolos de ambientes tropicais, muito intemperizados e lixiviados como indicado por Hernani et al. (1987). Sua influência nos diversos atributos do solo tem sido comprovada particularmente no manejo das cargas elétricas (Sanchez, 1976) e no ponto de carga zero (Uehara & Gilmann, 1981), bem como fornecedora de nutrientes para as plantas, quando está sendo mineralizada. Vitorello et al. (1989) avaliaram a distribuição da matéria orgânica em latossolos sob floresta e cultivado, verificando que a taxa de decomposição é maior nos solos cultivados.

Portanto, esta pesquisa tem os seguintes objetivos: (a) caracterizar o teor e a distribuição de matéria orgânica de alguns latossolos das regiões Amazônica e dos Cerrados; (b) estudar as possíveis semelhanças e diferenças deste atributo nas duas regiões, para possibilitar um melhor entendimento de seu comportamento, visando o manejo, tendo-se como base o êxito alcançado pela agricultura na região dos Cerrados; (c) caracterizar as possíveis relações, nos latossolos da Amazônia, entre tal atributo, com o clima atual, a vegetação e o material de origem.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Caracterização do meio físico: A área estudada, englobando as regiões Amazônica e a maior parte da área dos Cerrados, situa-se entre os paralelos 04° 00'N e 20° 00'S e 48° 00' e 75° 00'WGr. do território nacional. A área da Amazônia foi considerada até o paralelo 12°00'S e a dos Cerrados até o paralelo 20° 00'S. Na área amazônica, têm-se a seguinte distribuição dos tipos climáticos de Köppen (Vieira & Santos, 1988): (a) tipo Afi: apresenta chuvas relativamente abundantes durante todo o ano e ausência de período seco; (b) tipo Ami: é o predominante e caracteriza-se por um regime pluviométrico anual que define um pequeno período seco, porém, com precipitação total anual suficiente para manter este período; (c) tipo Awi: é o de menor abrangência e apresenta índice pluviométrico anual relativamente elevado, com nítida estação seca. Na área dos Cerrados verifica-se um padrão de precipitação pluvial marcado por dois períodos distintos: seco e chuvoso, os quais variam temporalmente, de região para região. O tipo Aw é o predominante, e o Am, subdominante.

Na Amazônia a vegetação dominante é a Floresta Tropical Densa, representada por árvores de grande porte, característica de regiões com elevada precipitação pluvial (Coelho et al., 1976). Onde predominam climas úmidos quentes, com chuvas torrenciais bem marcadas por um pequeno período seco, ocorre a Floresta Tropical Aberta. Na área de contato dos climas tropical superúmidos Amazônicos, e o monçônico do planalto central, ocorre a Floresta Estacional (semi-decidual e decidual), designada de Contato Floresta Ombrófila/Floresta Estacional. Na área dos Cerrados, encontram-se com maior expressão a Savana Arbórea e a Floresta Aberta (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, 1975), embora a área contínua dos Cerrados apresente heterogeneidade em sua vegetação, dando lugar a uma caracterização que distingue Savana Densa, Savana Arbórea, Savana Parque e Floresta Aberta.

Em grande parte da superfície Amazônica ocorrem as seguintes rochas sedimentares: Formação Solimões (TQs): sedimentos predominantemente pelíticos, constituídos sobretudo por argilitos e siltitos finamente laminados ou maciços. Associados a essa seqüência pelítica, ocorrem, em menor quantidade, sedimentos siltosos e arenosos finos a médios (Fernandes et al., 1977; Lourenço et al., 1978); Formação Barreiras (KTb): de acordo com Oliveira & Leonardos (1943), é constituída por intercalações de arenitos finos a médios e argilitos pobremente consolidados, maciços, laminados, e contendo bolsões de areias; Formações cretáceas (K) formações de idade cretácea constituídas por sedimentos arenosos, subordinadamente pelíticos, e originados em ambientes fluviais e lacustres; Outros sedimentos terciários e quaternários (TQ), rochas pré-cambrianas do Complexo Xingu (pÎx) e de várias outras formações pré-cambrianas (pÎ).

Obtenção e seleção dos dados: Foram utilizados todos os dados dos perfis referentes aos Latossolo Amarelo (LA, 78 perfis), Latossolo Vermelho-Amarelo (LV, 184 perfis) da Amazônia e Latossolo Vermelho-Amarelo (LV, 123 perfis) e Latossolo Vermelho-Escuro (LE, 121 perfis) dos Cerrados. Estes perfis constam nos volumes 4 a 20, 22, 25, 26, 27 e 31 do Projeto RADAMBRASIL, cujas metodologias para obtenção dos dados analíticos dos solos são descritos em cada volume.

Em relação aos aspectos climáticos, foram selecionados os perfis de ocorrência entre as isoietas nos seguintes intervalos: 1000 a 1500; 1500 a 2000; 2000 a 2500; 2500 a 3000 e maior que 3000 mm.

Seleção dos horizontes: Adotou-se a designação dos horizontes que constituem a maior parte dos perfis dos latossolos apresentados pelo projeto RADAMBRASIL, quais sejam: A1, A3, B1, B21, B22 e B23. Entretanto, para as demais designações, fez-se necessário enquadrá-los em uma dessas designações de horizonte. Dessa forma, em alguns casos os horizontes denominados A11, A12 e A13 foram incluídos como horizonte A1; os horizontes A3/B1, A31, A32, como A3;os horizontes B11, como B1; os horizontes B12, como B21; os horizontes B2, como B22; e os horizontes B3, como B23. A frequência de tais ocorrências não ultrapassou os 3%. Não foram considerados os O2, A2, A3cn, A, AB, B21cn, B21pl, B22cn, B23cn, B23pl, B3cn, IIB22, IIIB23 e C, bem como, os horizontes A1 dos perfis de solo localizados em vegetação secundária e os Ap de áreas de culturas e pastagens.

Determinação das profundidades dos horizontes: Primeiramente foram avaliadas as espessuras médias dos horizontes nos volumes do RADAMBRASIL. Posteriormente estabeleceram-se as seguintes espessuras e profundidades como padrão, consideradas as mais próximas do valor médio daquelas espessuras dos horizontes: profundidade 1 (horiz. A1), 0-15 cm; profundidade 2 (horiz. A3), 15-35 cm; profundidade 3 (horiz. B1), 35-60 cm; profundidade 4 (horiz. B21), 60-100 cm; profundidade 5 (horiz. B22), 100-150 cm; profundidade 6 (horiz. B23), 150-180 + cm. Isso se fez necessário para poder realizar uma comparação direta entre os dados, haja visto existirem diferenças entre as espessuras dos horizontes dos diversos perfis.

Métodos estatísticos: A base dos procedimentos estatísticos utilizados neste trabalho refere-se ao programa "Statistical Analysis System" (SAS). Para os valores de matéria orgânica, foram determinados a média com intervalo de confiança ao nível de 95%, o desvio padrão, erro padrão da média e o coeficiente de variação, para cada classe de latossolo. Para tanto, agrupou-se os horizontes por classes de textura, material de origem, tipo de vegetação, classes de precipitação pluvial anual e por classes climáticas de Köppen. Foram realizadas análises estatísticas (teste t) para diferenciar os teores médios de matéria orgânica em profundidade.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Levando-se em consideração apenas os tipos de solos das duas regiões (TABELA 1), no horizonte superficial (A1), não há diferenças nos teores de matéria orgânica entre os solos da Amazônia (32,1 gkg-1 para o LA e 32,2 gkg-1 para o LV) e os dos Cerrados (26,5 gkg-1 e 26,6 gkg-1 para o LV e LE, respectivamente), com teores um pouco mais elevados para os solos Amazônicos. Em profundidade, a matéria orgânica torna-se superior no LVA dos Cerrados no B23.

 

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Em relação a freqüência de distribuição da matéria orgânica (TABELA 2), notaram-se também diferenças entre os dois agrupamentos de solos. Enquanto que nos solos dos Cerrados, principalmente no LV há uma concentração maior de matéria orgânica na faixa de 1 a 3% (em torno de 65% no A1) nos solos da Amazônia a freqüência da distribuição é menor. Teores de matéria orgânica superiores a 50 gkg-1 na camada superficial são encontrados em 20% dos perfis do LA e 13,5% no LV da região amazônica contra 7,3% e 4,6% respectivamente para os LV e LE dos Cerrados.

 

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Pela TABELA 3, o teor de matéria orgânica, independentemente da região, aumentou com o teor de argila, com exceção apenas no B23 do LA e LV da Amazônia, cujos valores se mantiveram constantes nesse horizonte, para as classes texturais argilosa e muito argilosa.

 

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Entretanto, observou-se que há tendência de maior concentração de matéria orgânica nas camadas superficiais, tanto para as texturas mais grosseiras como para as mais finas, principalmente para os solos da Amazônia. Ao passo que, nos solos dos Cerrados, à medida que aumenta o teor de argila e aumenta a profundidade do solo, o teor de matéria orgânica tende a ficar mais elevado. No horizonte A1, para textura muito argilosa, os teores de matéria orgânica dos solos da Amazônia são maiores que os solos dos cerrados (TABELA 3). No horizonte B22 e B23 dos solos muito argilosos, por sua vez, os teores de matéria orgânica são maiores nos solos dos cerrados, concordando com Demattê & Demattê (1993).

Transformando-se os dados percentuais em t ha-1 de matéria orgânica (Figura 1 a,b) observaram-se diferenças no teor de reserva acumulada de matéria orgânica de acordo com a textura. Nos latossolos mais argilosos dos cerrados, os teores tendem a se acentuar a partir dos 80 cm de profundidade. Até o intervalo de 60 a 100 cm de profundidade e para a classe de textura argilosa, a diferença da quantidade de matéria orgânica entre os solos das duas regiões é de 11,5 t ha-1 de matéria orgânica, passando para 26,9 t ha-1 na classe mais argilosa. Em relação a quantidade de matéria orgânica acumulada, as diferenças médias passam de 26,6 t ha-1 para a textura argilosa para 68,2 t ha-1 para a muito argilosa. Numa profundidade de até 200 cm a quantidade de matéria orgânica acumulada para os latossolos dos Cerrados de textura muito argilosa chega a 68 t ha-1 superior aos latossolos Amazônicos de mesma textura. Portanto, os teores de matéria orgânica acumulada apresentaram-se com maior teor na camada superficial dos solos da Amazônia, e na camada subsuperficial nos solos dos cerrados, principalmente naqueles muito argilosos (Figura 1).

 

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Figura 1 - Reserva acumulada em profundidade de matéria orgânica dos latossolos argilosos (a) e muito argilosos (b) das regiões amazônica e dos cerrados. (1) Comparação entre as médias de matéria orgânica acumulada de uma mesma profundidade. Médias precedidas da mesma letra, não diferem significativamente ao nível de 5 % de probabilidade (Teste t).

 

As diferenças nos teores de matéria orgânica entre as duas regiões podem estar relacionadas à própria ação da vegetação, a sua natureza e ao tipo de sistema radicular. No caso da Amazônia, há acentuada acumulação da matéria orgânica na superfície do solo devido a reciclagem dos elementos constituintes dos galhos, folhas e sistema radicular superficial. Entretanto, a heterogeneidade da vegetação é grande, contribuindo para a variação quanto a natureza da matéria orgânica (Sanchez, 1976). Além disso, as espécies florestais de maneira geral têm sistema radicular com hábitos pivotantes, e estas incorporam pouca matéria orgânica.

Por sua vez, o ambiente dos Cerrados é totalmente diferente quanto ao aspecto de vegetação. As árvores de baixa densidade por hectare, contribuem muito pouco em termos de matéria orgânica incorporada ao solo. Entretanto, nesta região desenvolvem-se gramíneas adequadamente adaptadas ao ambiente ácido dos solos. Elas são mais homogêneas e apresentam sistema radicular fasciculado, que penetra em profundidade criando condições de maior acúmulo de matéria orgânica, quando comparado com os solos da Amazônia. Aliás, as gramíneas têm capacidade de introduzir matéria orgânica via sistema radicular em maior profundidade do que a vegetação de floresta como já salientara Buol et al. (1973) ao tratar das diferenças entre os solos de floresta com os desenvolvidos nas pradarias ("prairie") americanas.

O teor de matéria orgânica nos solos é influenciado por uma série de fatores, porém o clima atua como um forte componente (Buol et al., 1973; Birkeland, 1984). Em trabalhos pioneiros, Jenny (1941, 1961) constatou que o teor de matéria orgânica e, consequentemente, o de nitrogênio, aumentam logaritmicamente de acordo com o aumento da umidade e decresce exponencialmente com o aumento da temperatura.

Levando-se em consideração o horizonte superficial, os dados da matéria orgânica em função da precipitação (TABELA 4) são pouco consistentes para alguns solos para indicar tendências, tanto nos da Amazônia como nos dos Cerrados. Entretanto, para o LA da Amazônia os teores de matéria orgânica passam de 31,9 g kg-1, na faixa de precipitação 1500 a 2000 mm, para 36,3 g kg-1 na faixa de 2500 a 3000 mm. No caso do horizonte A3, as tendências foram as mesmas, com ligeiro acréscimo de matéria orgânica, à medida que a precipitação aumenta. Nos horizontes mais inferiores praticamente não há distinção, e uma possível explicação para tal caso poderia estar relacionada ao próprio hábito do sistema radicular pivotante que incorpora pouca matéria orgânica em profundidade.

 

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No LV da região amazônica, com exceção dos valores da faixa de 1000 a 1500 mm, há tendência de aumento no teor de matéria orgânica ao passar da faixa dos 1500 mm para os 3000 mm. No caso dos solos dos Cerrados e particularmente para o LV, as tendências são as mesmas, ou seja, acréscimo do teor de matéria orgânica à medida que aumenta a precipitação. Em relação ao horizonte superficial, os teores de matéria orgânica passam de 20,6 g kg-1 a 31,8 g kg-1, enquanto que a precipitação passa de 1000 a 2500 mm. Quanto ao horizonte A3, a tendência tem sido a mesma com acréscimo de 17,0 a 21,2 g kg-1. Tais tendências de acréscimo se mantêm, principalmente nos horizontes inferiores, contrariamente aos solos da Amazônia. Assim é que para o horizonte B22 o aumento da matéria orgânica foi de 5,2 a 7,9 g kg-1 para um acréscimo de 1000 a 2500 mm de chuva, e para o horizonte mais profundo foi de 5,8 para 7,7 g kg-1. Em relação ao LE, também houve acréscimo no teor de matéria orgânica de acordo com o aumento da precipitação, porém com dados menos consistentes. As grandes variações para os LE estão na faixa dos 1000 a 2000 mm de precipitação pluviométrica.

Outro aspecto que deve ser considerado na questão da matéria orgânica, refere-se à influência da própria vegetação. A relação vegetação-solo, designada como fator biótico na pedogênese (Birkeland, 1984), é dificil de ser analisada devido às interações envolvidas principalmente levando-se em consideração o ambiente climático da Amazônia. Inicialmente, o que chama a atenção é a ocorrência do LA praticamente só em ambiente de Floresta Densa, enquanto que o LV já ocorre em outros tipos de vegetação (TABELA 5). Sem dúvida, tal diferença entre tais solos não deixa de ser um parâmetro que deve ser utilizado em futuros mapeamentos como ferramenta de apoio. Por outro lado, não há distinção entre o LA e o LV quanto ao teor de matéria orgânica quando se leva em consideração apenas o tipo de vegetação, principalmente para os horizontes mais profundos. No caso destes dois solos e no horizonte B23, os teores são de 4,9 e 5,1 g kg-1, respectivamente para a Floresta Densa (FD).

 

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Todavia, observando apenas o LV da Amazônia, verificou-se que há diferenças quanto ao teor de matéria orgânica, quando se muda o tipo de vegetação, principalmente após o horizonte A1. Ao passar da Floresta Densa para Floresta Aberta e posteriormente a FO/FE (Contato Floresta ombrófila/Floresta Estacional), o teor de matéria orgânica tende a aumentar, para todos os horizontes. Tal fato se deve provavelmente às características desta matéria orgânica e ao próprio ambiente climático de ocorrência desta vegetação. O ambiente de ocorrência da FO/FE é de contato entre o clima tropical úmido e o monçonico do planalto central, de alta precipitação porém com período seco acentuado, o que tende a reduzir a taxa de decomposição da matéria orgânica (Sanchez, 1976). No caso específico dos Cerrados, praticamente não há diferenças quanto ao teor de matéria orgânica entre os solos, principalmente nos horizontes inferiores.

As formações geológicas, representadas pelas rochas de origem do solo, têm influência em diversas propriedades do solo (Buol et al., 1973) e seguramente no teor de matéria orgânica. Para o caso dos LA, eles ocorrem principalmente em duas formações geológicas, a Solimões (TQs) e a Barreiras (KTb), enquanto que o LV não possui perfis descritos pelo RADAM na Formação Barreiras. Analisando apenas as principais formações geológicas TQs e KTb para o caso dos LA, observou-se que há sensíveis diferenças no teor de matéria orgânica (TABELA 6). De maneira geral, o teor de matéria orgânica é mais elevado nos solos derivados da Formação Solimões. Se considerarmos que a dominância dos LA está na região de Floresta Densa (TABELA 6), conclui-se que as diferenças no teor de matéria orgânica estejam relacionadas mais à influência do material de origem, uma vez que as condições de vegetação as mesmas as mesmas (Floresta densa). Para o caso do horizonte superficial, os solos da Formação Solimões, apresentaram teores de matéria orgânica de 44,3 g kg-1 para o LA e 41,2 g kg-1 para o LV, praticamente semelhantes, enquanto que na Formação Barreiras o teor no LA cai para 31,0 g kg-1. Tais diferenças continuam à medida que o solo tende a ficar mais profundo.

 

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Estas duas formações têm originado solos argilosos a muito argilosos, com diferentes graus de intemperismo, normalmente maior para a formação Barreiras (Pereira, 1987). Portanto, ocorre uma maior dominância de caulinita nos materiais da formação Barreiras, enquanto na formação Solimões ocorre a presença de minerais 2:1. Sendo assim, as diferenças na mineralogia dos solos pertencentes às duas formações, podem estar contribuindo para as variações nos teores de matéria orgânica.

Para os solos dos Cerrados, o teor de matéria orgânica também difere de acordo com as formações geológicas, no caso, das formações terciárias e quaternárias (TQ) e das formações cretáceas (K). Neste caso particular, as formações cretáceas têm dado origem a solos mais arenosos e conseqüentemente, com menores teores de matéria orgânica.

Levando-se em consideração os dados apresentados por Sanchez (1976) sobre os teores de matéria orgânica dos solos de clima temperado até 100 cm de profundidade, notou-se que eles são semelhantes aos solos tanto da Amazônia como do Brasil Central. As explicações para tais semelhanças se devem possivelmente, de acordo com por Sanchez (1976), a: (a) no caso do ambiente perúdico de umidade, apesar do teor de matéria orgânica que entra no sistema por ha/ano na mata, ser cinco vezes superior aos solos da região temperada, a taxa de decomposição também é cinco vezes maior na região tropical úmida; (b) no caso do ambiente ústico de umidade (região dos Cerrados) o período seco prolongado tem o mesmo efeito do inverno rigoroso do hemisfério norte, fazendo com que se reduza a taxa de decomposição de matéria orgânica, de tal forma que seus níveis se mantêm semelhantes para as duas regiões.

Relação C/N: Os dados da relação C/N (TABELA 7) indicam decréscimo em profundidade para todos os solos, com valores na faixa de 12,67 e 12,46 nos horizontes superficiais dos LA e LV da Amazônia e 8,47 e 10,78 para os horizontes B23 dos mesmos solos, respectivamente. Quanto aos valores dos Cerrados, estes são superiores na superfície, na faixa de 14,74 no A1 do LV e 13,86 no LE, decrescendo para 11,69 e 11,73 no B23 destes solos, respectivamente. Neste caso, o teor de nitrogênio dos solos da região dos Cerrados é menor do que na Amazônia, principalmente quando se refere aos horizontes superficiais.

 

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Outro ponto que distingue tais solos no que diz respeito à relação C/N, se refere à freqüência de ocorrência dos resultados, observados por Tognon (1997), através da pesquisa de dados extraídos do RADAMBRASIL. Enquanto que nos solos da Amazônia, 60 a 70% da relação C/N estão na faixa de 10 a 20 para o horizonte A1, nos solos dos Cerrados ocorrem 86 a 90%. Em profundidade, os resultados também são distintos. Enquanto que no horizonte B22 dos solos da Amazônia, a grande porcentagem dos solos (68 a 70%) apresenta relação C/N na faixa de 5 a 10, nos Cerrados fica na faixa de 10 a 20.

Tais diferenças nas relações C/N entre os solos das duas regiões vem sugerir, que os latossolos da região Amazônica apresentam maior teor de nitrogênio. Entretanto, levando-se em consideração que as relações C/N na faixa de 12 a 14 indicam maior estabilidade da matéria orgânica (Buol et al., 1973), significa que os solos dos Cerrados, em profundidade, podem apresentar matéria orgânica mais estabilizada.

 

CONCLUSÕES

- O teor de matéria orgânica dos latossolos estudados na região amazônica é maior somente para os horizontes superficiais. A medida que há aumento na profundidade do solo e no teor de argila, a quantidade de matéria orgânica dos latossolos dos Cerrados ultrapassa os da Amazônia. Numa profundidade de até 200 cm a quantidade de matéria orgânica acumulada para os latossolos dos Cerrados de textura muito argilosa chega a 68 t ha-1 superior aos latossolos Amazônicos de mesma textura.

- À medida que aumenta a precipitação pluviométrica, há tendências de aumento na matéria orgânica para ambas as regiões. Na região Amazônica o tipo de vegetação, assim como os materiais de origem das formações geológicas Solimões e Barreiras, influenciam na quantidade de matéria orgânica do solo. Os solos da região Amazônica apresentam maior teor de nitrogênio e com relações C/N mais estreitas do que nos Cerrados.

 

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Recebido para publicação em 14.02.97
Aceito para publicação em 31.03.98

 

 

1Parte da Tese de Doutorado do primeiro autor, apresentada a ESALQ/USP.