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Scientia Agricola

versão impressa ISSN 0103-9016

Sci. agric. v.56 n.1 Piracicaba  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-90161999000100027 

CARACTERIZAÇÃO MORFOLÓGICA DE TANGERINAS DO BANCO ATIVO DE GERMOPLASMA DE CITROS DO CENTRO DE CITRICULTURA SYLVIO MOREIRA/IAC

 

Edson Tobias Domingues1; Vinícius Castro Souza2; Cássia Mônica Sakuragui3; Jorgino Pompeu Júnior1; Rose Mary Pio1; Joaquim Teófilo Sobrinho1; Juliana P. Souza2
1Centro de Citricultura Sylvio Moreira - IAC, C.P. 04 - CEP: 13.490-970 - Cordeirópolis, SP.
2Depto de Botânica, ESALQ/USP, C.P. 9 - CEP: 13418.900 - Piracicaba, SP.
3Depto de Botânica, IB/USP, C.P. 11461 - CEP: 05422.970 - São Paulo, SP.

 

 

RESUMO: O número de variedades de tangerinas utilizadas economicamente é muito restrito, apesar da importância comercial deste grupo de citros. O Banco Ativo de Germoplasma de Citros do Centro de Citricultura Sylvio Moreira/IAC possui em torno de 383 acessos de tangerineiras e híbridos, os quais têm sido estudados sob o ponto de vista botânico, genético e agronômico. Este trabalho visa descrever por meio de 38 caracteres morfológicos, os frutos das tangerineiras Satsuma Unshiu Wase, Clementina, Mel, Portuguesa, Natsu Mikan, Dancy, Cascalho, Campeona, Mexerica-do-Pará e Mexerica-do-Rio. Foram coletados 30 frutos maduros de cada acesso, sendo 10 frutos por planta, num total de 3 plantas por acesso. As tangerineiras, enxertadas sobre tangerineira Cleópatra e espaçadas de 7,5 m entre linhas por 5,5 m entre plantas, foram estudadas com 8 anos de plantio (safra 1994). Foi observada variabilidade fenotípica acentuada entre os acessos estudados, para a maioria dos caracteres avaliados e verificou-se que muitos caracteres agronômicos desejáveis encontram-se dispersos entre os acessos analisados, podendo vir a ser aproveitados em programas de melhoramento. A análise de agrupamento dos acessos através dos caracteres avaliados quantitativamente pode fornecer indicativos sobre as distâncias filogenéticas entre os diferentes genótipos.
Palavras-chave: Citrus, tangerinas, análise de agrupamentos, banco de germoplasma, melhoramento

 

MORPHOLOGICAL CHARACTERIZATION OF MANDARINS FROM THE ACTIVE CITRUS GERMPLASM BANK OF THE `CENTRO DE CITRICULTURA SYLVIO MOREIRA/IAC'

ABSTRACT: The number of mandarin varieties economically explored is very restricted, in spite of their commercial importance. The Active Citrus Germplasm Bank, of the `Centro de Citricultura Sylvio Moreira/IAC' holds around 383 accessions of mandarins and hybrids, which are analyzed in botanical, genetic and agronomic aspects. As a part of this program, this work aims the fruit morphological description through 38 characters of the following mandarins: Satsuma Unshiu Wase, Clementina, Mel, Portuguesa, Natsu Mikan, Dancy, Cascalho, Campeona, Mexerica-do-Pará and Mexerica-do-Rio. The mandarin trees are about 8 years old spaced 7.5 m between lines and 5.5 m between plants, and were grafted on Cleopatra. A large phenotypic variation in most of the analyzed characters was observed. The best characters, from the economic point of view, are dispersed through the analyzed accessions and can be further explored in genetic breeding programs. The cluster analysis carried out with characters measured quantitatively can be useful for the knowledge of the philogenetic distances among each accession.
Key words: Citrus, mandarins, cluster analysis, gene bank, breeding

 

 

INTRODUÇÃO

O Brasil é o maior produtor mundial de citros, com 15,4 milhões de toneladas (safra de 1993/94), sendo a quase totalidade desta referente à produção de laranjas (FAO, 1994). As tangerinas ocupam o segundo lugar em importância, porém estão longe de atingir os 20% da produção total de citros, a qual corresponde à tendência de consumo internacional desta fruta. O número de variedades utilizadas economicamente no Brasil é bastante restrito, apesar de existirem fontes de variabilidade para esta cultura, disponíveis em Bancos de Germoplasma do país, estas são ainda pouco exploradas. O banco ativo de germoplasma de citros do Centro de Citricultura Sylvio Moreira (CCSM) do Instituto Agronômico (IAC) possui por volta de 636 acessos de laranjas doces e 383 de tangerinas e híbridos (Domingues et al., 1995a). Alguns destes acessos correspondem a variedades bastante conhecidas e exploradas comercialmente, como é o caso das laranjas Pêra e Natal ou da tangerina Poncan e Mexerica-do-Rio. Por outro lado, existem acessos que podem vir a ser explorados comercialmente ou serem utilizados em programas de melhoramento genético para a obtenção de novas variedades copa, produtoras de frutos destinados ao consumo in natura ou para a indústria, ou variedades destinadas a porta-enxertos. Com a finalidade de se conhecer melhor os frutos destes acessos, têm-se iniciado diversos trabalhos visando a caracterização quanto aos aspectos botânico, genético e agronômico. Como parte deste programa, este trabalho apresenta a descrição de 10 acessos destas tangerinas e híbridos, para 38 caracteres morfológicos, externos e internos, referentes aos frutos, muitos dos quais de interesse agronômico imediato, como número de sementes/ fruto, espessura de casca, entre outros. Os caracteres avaliados quantitativamente (21) permitiram o agrupamento destas 10 variedades de acordo com o grau de similaridade morfológica, o qual provavelmente possa dar uma idéia da proximidade genética destes materiais.

Apesar da importância da caracterização morfológica dos cultivares de tangerinas para o melhoramento genético destas espécies, poucos trabalhos trataram deste assunto no Brasil, podendo ser destacados os de Pio (1992) e Donadio et al. (1995).

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foram caracterizados frutos das tangerineiras oriundas de diversas partes do mundo e atualmente mantidas no BAG - Citros do CCSM/IAC a saber: Satsuma Unshiu Wase, Clementina, Mel, Portuguesa, Natsu Mikan, Dancy, Cascalho, Campiona, Mexerica-do-Pará e Mexerica-do-Rio. Foram coletados 30 frutos de cada acesso, sendo 10 frutos por planta, num total de 3 plantas por acesso. Os frutos maduros foram colhidos e analisados em julho de 1994. Nessa época as tangerineiras, de clone velho, contavam com 8 anos de idade, estando enxertadas sobre tangerineira Cleópatra (Citrus reshni Hort. ex. Tanaka) e espaçadas de 7,5 m entre linhas por 5,5 m entre plantas. Essas plantas não sofreram desbaste de frutos jovens (técnica normalmente utilizada para não estressar a planta e produzir frutos maiores).

Os frutos foram coletados e caracterizados de acordo com aspectos externos e internos, qualitativos e quantitativos. A terminologia para os dados morfológicos seguiu as propostas dos descritores do IBPGR (1988) com algumas modificações no que se refere à terminologia de formato, ápice e base dos frutos, para os quais aplicou-se a terminologia proposta por Radford et al. (1974), já que este autor apresenta maior objetividade para análise destes caracteres. No que se refere ao comprimento do fruto utilizou-se alternativamente o termo "altura" por ser este amplamente utilizado na literatura em citros.

Os dados sobre coloração basearam-se na tabela de cores da Royal Horticultural Society (1992), a qual é amplamente aplicável para vegetais de uma forma geral. No que se refere à coloração dos frutos, os valores entre 1 e 13 indicam tonalidade amarela, entre 14 e 23 amarelo-alaranjada, entre 24 e 29 alaranjada e entre 30 e 35 laranja-avermelhada. As letras que acompanham tais números indicam cores mais claras ou mais escuras (em uma mesma tonalidade), sendo a letra A indicadora de tons mais escuros e a letra D de tons mais claros. No que se refere à coloração dos cotilédones, foram assinalados também padrões verde-amarelados, que na escala correspondem a valores entre 144 e 154, sendo os valores menores correspondentes a tons mais intensamente esverdeados.

Os dados analisados neste trabalho, ilustrados em grande parte na Figura 1, foram os seguintes:

1. Formato:
1. oboval depresso; 2. largamente oboval depresso; 3. muito largamente oboval depresso; 4. oval depresso; 5. largamente oval depresso; 6. transversal elíptico; 7. oblato; 8. circular

2. Altura (cm).

3. Diâmetro (cm).

4.Base:
1. atenuada; 2. não atenuada

5. Altura do colarinho (cm), quando presente.

6. Largura do colarinho (cm), quando presente.

7. Depressão ao redor do colarinho:
0. presente; 1. não bem definido; 2. ausente

8. Ápice do fruto:
1. arredondado; 2. truncado; 3. retuso

9. Profundidade da depressão do ápice (mm).

10.Formato do cálice na frutificação, quando presente:
0. ausente; 1. arredondada; 2. estrelada

11. Largura do cálice na frutificação, quando presente (mm).

12. Diâmetro da cicatriz do cálice na frutificação, quando presente (mm).

13. Diâmetro da cicatriz do estilete (mm).

14. Presença de raios ao redor da cicatriz:
0. ausente; 1. pouco evidente; 2. muito evidente; 3. umbigo

15. Peso (g).

16. Brilho:
1. brilhante; 2. opaco

17. Cor do epicarpo, segundo a tabela de cores da Royal Horticultural Society (1992).

18. Superfície do epicarpo:
1. lisa; 2. intermediária; 3. rugosa; 4. muito rugosa

19. Aderência da casca:
0. insignificante; .....5. média; .... 10. muito forte

20. Largura do epicarpo (mm).

21. Largura do mesocarpo (mm).

22. Cor do mesocarpo, segundo a tabela de cores da Royal Horticultural Society (1992).

23. Número de glândulas de óleo visíveis a olho nu por cm2.

24. Comprimento do fruto sem a casca (cm).

25. Largura do fruto sem a casca (cm).

26. Aderência entre os gomos:
0. insignificante; .... 5. média; .... 10. muito forte

27. Comprimento das vesículas de suco (mm).

28. Largura das vesículas de suco (mm).

29. Número de gomos.

30. Columela, observada na região equatorial do fruto:
1. imperceptível; 2. sólida; 3. porosa

31. Seção da columela, quando perceptível:
1. circular; 2. irregular

32. Diâmetro da columela, na região equatorial do fruto, quando perceptível (mm).

33. Número de sementes por fruto.

34. Comprimento das sementes (mm).

35. Largura das sementes (mm).

36. Peso das sementes (g).

37. Cor da testa, segundo a tabela de cores da Royal Horticultural Society (1992).

38. Cor dos cotilédones, segundo a tabela de cores da Royal Horticultural Society (1992).

 

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Figura 1 - Desenho ilustrativo de alguns dos caracteres morfológicos avaliados para os frutos das dez variedades de tangerinas. 2. Altura (cm); 3. Diâmetro (cm); 5. Altura do colarinho (cm); 6. Largura do colarinho (cm), 7. Depressão ao redor do colarinho; 8. Ápice do fruto; 12. Diâmetro da cicatriz do cálice na frutificação (mm); 13. Diâmetro da cicatriz do estilete (mm); 20. Largura do epicarpo (mm); 21. Largura do mesocarpo (mm); 23. Número de glândulas de óleo visíveis a olho nu por cm2; 27. Comprimento das vesículas de suco (mm); 28. Largura das vesículas de suco (mm); 29. Número de gomos; 33. Número de sementes por fruto; 34. Comprimento das sementes (mm); 35. Largura das sementes (mm).

 

Os dados avaliados qualitativamente foram representados nas TABELAS 1 e 2, da seguinte maneira: Uma nota somente, representa que apenas aquele valor estava presente, quando duas notas prevaleceram em proporções praticamente iguais foram representadas com a 1ª nota / 2ª nota e quando haviam notas cujas frequências médias eram significativamente menores que a tendência média foram representadas pela nota entre parêntesis.

Para os caracteres avaliados quantitativamente foram realizadas análises de variância e as médias foram contrastadas pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade. Para simplicidade de apresentação, foram indicados em tabelas os valores médios para os caracteres avaliados e os respectivos desvios padrão. A análise de agrupamento obedeceu as técnicas descritas por Crisci & Armengol (1983) e Manly (1994). Os dados tomados quantitativamente foram padronizados e foi utilizada a distância Euclidiana para a obtenção do dendrograma, para os pares ordenados pela média aritmética não ponderada (UPGMA) utilizando-se o programa "Statistica" para "Windows".

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Alguns dos resultados, aqui discutidos em detalhe, foram apresentados resumidamente por Domingues et al. (1995b e 1995c). As TABELAS 1 e 2 apresentam os dados morfológicos coletados para frutos dos 10 acessos de tangerinas estudados. As tabelas apresentam as médias e os desvios para os dados avaliados quantitativamente, externos e internos; os dados avaliados qualitativamente foram agrupados de acordo com a ordem de frequência.

Os formatos de frutos predominantes para as variedades analisadas foram o "muito largamente oboval depresso" e o "largamente oboval depresso", ambos formatos desejáveis em frutos para consumo in natura. Entretanto, todas mostraram algum tipo de variação em relação ao formato de fruto, sendo que as que mais se distanciaram do formato característico das tangerinas foram a Natsu Mikan e Campeona.

No que se refere ao aspecto externo do fruto, representado principalmente pelo brilho e coloração, considerou-se que frutos brilhantes e de coloração mais avermelhada são mais atrativos para o consumidor dos frutos in natura, embora o excesso de vermelho possa ser visto como sinônimo de fruta passada. A variedade de maior destaque nesse sentido foi a Dancy com epicarpo de coloração geralmente laranja-avermelhada, sendo menos comumente alaranjado. No outro extremo a variedade Natsu Mikan apresentou coloração amarelo-pálida em todas as amostras, o que é pouco desejável para tangerinas.

A aderência entre a casca e os gomos, que deve ser preferencialmente pouco intensa para o consumo de frutas in natura, foi classificada em uma escala de 0 a 10, onde se destacou a variedade Cascalho com aderência bastante reduzida. No outro extremo está a variedade Natsu Mikan com aderência bastante acentuada. Os demais frutos apresentaram valores intermediários nesse sentido, podendo ser considerados apropriados para consumo in natura. Da mesma forma, a proporção entre a largura do fruto com e sem casca, que pode ser considerado um critério mais objetivo nessa avaliação, confirmaram estes dados.

O número de sementes por fruto é outra característica importante na escolha de frutos para consumo in natura, havendo grande preferência por frutos com poucas ou nenhuma semente. Nesse sentido, destacou-se de forma bastante evidente a Satsuma Unshiu Wase, com média de 1,26 sementes por fruto. Os demais acessos apresentaram valores médios entre 12,69 (Dancy) e 25,44 sementes por fruto (Cascalho). As amostras de Clementina apresentaram número médio de sementes relativamente alto (22,42 sementes por fruto) embora tal variedade, de acordo com a literatura, geralmente apresente poucas sementes. Tendo-se em vista que esta variedade é monoembriônica, isto pode ser indicativo de que o acesso estudado seja de origem híbrida, embora em coleções de germoplasma o número médio de sementes seja normalmente elevado, devido à diversidade de variedades polinizadoras.

Como alguns dos caracteres estudados apresentam interesse agronômico imediato, segue uma breve apresentação dos principais para cada variedade, seguida dos resultados obtidos para as mesmas no presente trabalho. A classificação sistemática do gênero Citrus é bastante controversa. Enquanto Swingle & Reece (1967) consideravam este gênero como subdividido em 16 espécies, Tanaka, citado por Swingle & Reece (1967), considerou o número de 159 espécies para o mesmo, sendo 35 espécies somente para as tangerinas. Como a espécie Citrus reticulata Blanco é utilizada por Swingle & Reece (1967), de um modo geral, para designar tangerinas, no presente trabalho utilizamos esta classificação e, quando possível, outras designações consideradas por outros taxonomistas.

A variedade Satsuma Unshiu Wase (Citrus unshiu Marcovitch), segundo Hodgson (1967), originou-se no século XV no Japão, sendo que o nome Wase significa que ela era considerada precoce. Segundo Shamel (1943) sua origem se deu por mutação somática a partir da Owari, com reversões frequentes. Na presente caracterização morfológica esta variedade apresentou frutos com tamanhos adequados para consumo in natura com altura em torno de 5,3 cm e diâmetro em torno de 6,2 cm, com peso médio de 109,6 g. Porém, como aspecto negativo, não ocorreu predominância de brilho na casca desses frutos, as quais apresentaram aderência média e levemente rugosas, embora de coloração laranja intensa e com espessura média de 4,0 mm por fruto. Esta variedade produziu, em média, 9,3 gomos e 1,3 sementes por fruto, sendo este último dado bastante importante, uma vez que são raros os cultivares de tangerinas no Brasil cujos frutos apresentem baixo número de sementes por fruto.

A variedade Clementina (Citrus clementina Hort. ex. Tanaka) é uma das mais importantes e precoces do mediterrâneo, normalmente sem sementes, mas devido ao fato de ser monoembriônica pode produzir híbridos de qualidade inferior, se propagada por sementes (Hodgson, 1967). No presente trabalho observou-se que esta variedade desenvolveu frutos com tamanho adequado para consumo in natura com altura em torno de 5,4 cm e diâmetro em torno de 5,9 cm, com peso médio de 101,5 g. Os frutos apresentaram casca brilhante, de aderência média e superfície entre lisa e rugosa, com coloração alaranjada e espessura média de 3,1 mm por fruto. Foram observados, como valores médios, 8,9 gomos e 22,4 sementes por fruto.

A variedade Mel (Citrus reticulata Blanco) apresentou frutos pequenos, com altura em torno de 4,5 cm e diâmetro em torno de 5,6 cm, com peso médio de 76,6 g. Esses mostraram casca brilhante, de aderência média e superfície entre lisa e rugosa, coloração alaranjada e espessura média de 3,7 mm por fruto. Os quais apresentaram, ainda, como valores médios, 10,5 gomos e 16,5 sementes por fruto.

A variedade Portuguesa (Citrus reticulata Blanco) desenvolveu frutos com altura em torno de 6,1 cm e diâmetro em torno de 5,8 cm, com peso médio de 114,1 g. Os frutos exibiram casca brilhante, a qual apresentou aderência média e superfície levemente rugosa, com coloração alaranjada intensa e espessura média de 3,9 mm por fruto. Esta variedade apresentou, como valores médios, 10,2 gomos e 15,6 sementes por fruto.

A variedade Natsu Mikan (Citrus reticulata Blanco) produziu frutos com altura em torno de 8,9 cm e diâmetro em torno de 9,8 cm, com peso médio de 459,0 g. Os frutos mostraram brilho de casca, a qual apresentou aderência pronunciada ao endocarpo do fruto e superfície muito rugosa, com coloração amarelo-pálida e espessura média de 8,8 mm por fruto. Esta variedade exibiu, como valores médios, 10,5 gomos e 17,4 sementes por fruto. Devido ao tamanho pronunciado, aos valores elevados de rugosidade, espessura e aderência da casca dos frutos, entre outros caracteres julga-se tratar-se de uma variedade de origem híbrida entre uma tangerina com outra espécie de citros.

A variedade Dancy (Citrus tangerina Hort. ex. Tanaka) provavelmente se originou na Índia, sendo muito cultivada no sul da China segundo Hodgson, 1967. No presente trabalho de caracterização morfológica esta variedade apresentou frutos com tamanhos adequados para consumo in natura com altura em torno de 4,7 cm e diâmetro em torno de 6,3 cm, com peso médio de 103,4 g. Os frutos mostraram brilho de casca, a qual apresentou aderência média e superfície entre lisa e rugosa, com coloração intensa laranja-avermelhada e espessura média de 3,5 mm por fruto. Esta variedade teve, como valores médios, 10,2 gomos e 12,7 sementes por fruto. Esta variedade realmente merece destaque pela coloração intensa dos frutos tanto interna quanto externamente e provavelmente alcançaria um bom valor comercial caso se conseguissem frutos com menor número de sementes e um pouco maiores. Cabe lembrar no entanto que este trabalho foi conduzido sem o desbaste das plantas, o que quando bem conduzido nos pomares comerciais permite a obtenção de frutos com tamanhos mais adequados.

A variedade Cascalho (Citrus reticulata Blanco) foi originada no Destrito de Cascalho, pertencente ao Município de Cordeirópolis, no Estado de São Paulo. Provavelmente de origem híbrida, ela apresentou frutos com altura média de 6,1 cm e diâmetro em torno de 6,5 cm, com peso médio de 110,3 g. Os frutos exibiram cascas opacas, as quais apresentaram baixa aderência ao endocarpo do fruto, o que é muito desejável para as tangerinas destinadas ao consumo in natura, porém superfície de casca rugosa, com coloração alaranjada e espessura média de 4,3 mm por fruto. O número médio de gomos e de sementes foi de 8,8 e 25,4, respectivamente.

A variedade Campeona era cultivada, segundo Hodgson (1967), na região de Entre Rios na Argentina, sendo provavelmente originada do Uruguai. Alguns especialistas notaram similaridades entre Campeona e King (Citrus nobilis Lour.) e as vezes é chamada erroneamente de Bergamotta. Ela apresentou frutos com altura em torno de 6,3 cm e diâmetro em torno de 8,0 cm, com peso médio de 204,0 g. Os frutos exibiram casca brilhante, a qual apresentou aderência pronunciada ao endocarpo e superfície predominantemente rugosa, com coloração alaranjada e espessura média de 4,9 mm por fruto. Esta variedade teve, como valores médios, 10,5 gomos e 24,8 sementes por fruto.

A Mexerica-do-Pará (Citrus deliciosa Ten.) foi introduzida daquele Estado na então Estação Experimental de Limeira, segundo Donadio et al. (1995). No presente trabalho esta variedade apresentou frutos com altura em torno de 4,7 cm e diâmetro em torno de 5,6 cm, com peso médio de 85,8 g. Os frutos, com 9,0 gomos e 20,0 sementes em média, mostraram brilho de casca, a qual apresentou aderência mediana e superfície predominantemente rugosa, com coloração alaranjada e espessura média de 5,3 mm por fruto.

A Mexerica-do-Rio (Citrus deliciosa Ten.) é bastante popular nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, principalmente pelo seu aroma acentuado. Segundo Donadio et al (1995) ela é bastante semelhante às chamadas tangerinas do Mediterrâneo, as quais no Brasil passaram a ser designadas de mexericas. Neste trabalho esta variedade produziu frutos com altura média de 4,7 cm e diâmetro em torno de 6,0 cm, com peso médio de 90,2 g. Esses apresentaram casca brilhante, com baixa aderência ao endocarpo, entre lisa e rugosa, de coloração levemente alaranjada e espessura média de 2,2 mm por fruto. Essa variedade exibiu, em média 10,3 gomos e 23,8 sementes por fruto. Pela sua popularidade, sabor agradável, baixas espessura e aderência de casca e entre gomos, essa variedade poderia adquirir grande valor comercial caso seus frutos tivessem maiores dimensões e menor número de sementes, o que deve ser visado no melhoramento dessa variedade.

Algumas das variedades estudadas como a tangerina Dancy e Mexerica-do-Rio provavelmente ocupariam maior valor econômico se alguns de seus caracteres fossem trabalhados em programas de melhoramento. Foi observado ainda que alguns dos acessos estudados possivelmente são de origem híbrida, como é o caso da `Clementina' (autofecundação ou cruzamento da variedade Clementina) e da Natsu Mikan, esta última provavelmente trata-se de um híbrido interespecífico.

Os demais dados analisados são pouco significativos dos pontos de vista agronômico e comercial, mas mostraram-se apropriados do ponto de vista taxonômico, uma vez que podem auxiliar na distinção entre estas variedades. Os dados tomados quantitativamente e padronizados, foram utilizados para obtenção do dendrograma, utilizando a técnica UPGMA e a distância Euclidiana.

A TABELA 3, traz as distâncias Euclidianas calculadas através dos caracteres morfológicos quantitativos estudados para as dez variedades de tangerinas. Através da análise de agrupamentos observou-se que as variedades que apresentaram maior proximidade morfológica foram a Clementina e Cascalho, as quais foram agrupadas à distância de 3,2, as quais se agrupam à Mexerica-do-Pará à distância de 4,3. Da mesma maneira as variedades Mel e Portuguesa foram agrupadas à distância Euclidiana igual a 3,8 e se unem à tangerina Dancy à distância de 4,1, formando um segundo grupo. Estes dois primeiros grupos se unem à distância Euclidiana próxima a 4,6. A Mexerica-do-Rio se junta ao grupo à distância de 4,9. Estas primeiras variedades agrupadas apresentam como aspecto comum o fato de possuirem frutos de tamanho pequeno a médio, e formato característico das mexericas. A variedade Satsuma Unshiu Wase apresenta-se separada deste grupo pela distância Euclidiana de 5,5, o que talvez possa justificar a separação deste grupo pela classificação de Citrus unshiu feita por Marcovitch, embora talvez a classificação fosse mais adequada se ficasse no plano horticultural e não a nível de espécie. Cabe ressaltar que a variedade Campeona somente é agrupada as demais à distância de 6,4, enquanto que a Natsu Mikan pode ser de origem híbrida e foi a que apresentou menor semelhança com as demais tangerinas estudadas, unindo-se às demais somente à distância Euclidiana de 10,4. Se for adotada como separatriz a distância Euclidiana igual a 5 seriam formados quatro grupos principais, onde o primeiro seria constituído das tangerinas Clementina, Cascalho, Mexerica-do-Pará, Mel, Portuguesa, Dancy e Mexerica-do-Rio; o segundo grupo constituído pela Satsuma Unshiu Wase; o terceiro pela tangerina Campeona e o quarto pela Natsu Mikan. Certamente as distâncias aqui apresentadas não refletem exatamente as distâncias filogenéticas entre os diferentes acessos estudados, uma vez que os fatores ambientais influenciam na manifestação fenotípica dos diferentes genótipos, porém certamente deve ser um bom indicativo da proximidade filogenética destes acessos, o que poderia ser confirmado pelo estudo destas mesmas variedades através do uso de marcadores moleculares eficientes.

 

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Diversos trabalhos têm utilizado a análise multivariada para estudos de taxonomia em citros. Um dos primeiros e mais importantes foi realizado por Barret & Rhodes (1976), os quais baseando-se em 146 caracteres morfológicos de árvores, folhas, flores e frutos, sugeriram apenas três espécies como válidas dentro do gênero Citrus: tangerinas (Citrus reticulata Blanco), toranjas (C. grandis Osbeck) e cidras (C. medica L.). Outros mais recentes têm utilizado a análise de agrupamentos ao lado das análises moleculares, com a mesma finalidade, como é o caso de Gogorcena & Ortiz (1993). Do mesmo modo o presente trabalho estabeleceu descritores viáveis para a caracterização dos frutos de tangerinas e utilizou a análise de agrupamento como ferramenta auxiliar no sentido de ampliar a caracterização de germoplasma que possam ter uso imediato ou futuro na citricultura nacional. Os autores sugerem desse modo a utilização dessa metodologia para se caracterizar os recursos genéticos de citros das coleções de germoplasma do país. Lembram ainda que os dados avaliados podem sofrer alterações em função de diferentes condições ambientais bem como em caso de desbaste de frutos jovens, o que normalmente é realizado na produção comercial de tangerinas.

 

CONCLUSÕES

- Existe grande diversidade fenotípica entre os diferentes acessos de tangerinas estudados.

- Diversas características estudadas têm interesse agronômico e podem fornecer melhor orientação para utilização imediata ou em trabalhos futuros de melhoramento envolvendo estas variedades.

- A análise multivariada permitiu agrupar as variedades de acordo com a semelhança morfológica, a qual talvez possa ser indicativa das distâncias filogenéticas entre estas variedades estudadas.

- Adotando-se como separatriz a distância Euclidiana igual a 5 podemos separar as variedades estudadas em quatro grupos principais, o primeiro constituído das tangerinas Clementina, Cascalho, Mexerica-do-Pará, Mel, Portuguesa, Dancy e Mexerica-do-Rio; o segundo grupo constituído pela Satsuma Unshiu Wase; o terceiro pela tangerina Campeona e o quarto pela Natsu Mikan.

 

AGRADECIMENTOS

À Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo e aos estagiários do Departamento de Botânica da ESALQ, Larissa Ferrara e Ricardo Hoffmann pelo auxílio na coleta de dados.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 20.02.97
Aceito para publicação em 02.04.98