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Scientia Agricola

versión impresa ISSN 0103-9016

Sci. agric. v.56 n.1 Piracicaba  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-90161999000100034 

NOTA

INTRODUÇÃO DOS CULTIVARES DE UVA DE MESA `FANTASIA' E `RUIVA' NO BRASIL

 

Celso Valdevino Pommer1,2,*; Maurilo Monteiro Terra1,2; Erasmo José Paioli Pires1,2; Ilene Ribeiro Silva Passos1; Fernando Picarelli Martins1
1Seção de Viticultura-IAC, C.P. 28, CEP: 13001-970 - Campinas, SP.
2Bolsista do CNPq.

 

 

RESUMO: `Fantasia' e `Ruiva' são dois cultivares de uva de mesa desenvolvidos pelo Departamento de Agricultura dos E.U.A., lançadas na Califórnia em 1989 e introduzidos no Brasil, no mesmo ano, pelos autores. No final do inverno de 1991, garfos dos dois cultivares foram enxertados sobre três diferentes porta-enxertos, a saber: Kober 5BB, Ripária do Traviú (106-8 Mgt) e IAC 766 `Campinas', no Centro Experimental de Campinas, do IAC. Garfos também foram distribuídos para alguns viticultores selecionados em diferentes regiões paulistas. Resultados de observações preliminares são apresentados. Para a familiarização pelos viticultores, bem como facilitar a pronúncia em português, os cultivares foram renomeados como sendo `Fantasia' para "Fantasy Seedless" e `Ruiva' para "Crimson Seedless". `Fantasia' é uma uva preta, de ciclo precoce a médio, com cachos médios (350-550g), de 13-20cm de comprimento e de compacidade média a solta. Os bagos são naturalmente grandes, apesar de apirenas, pesando em média 4-9g, com diâmetro de 17 a 22mm e 20-30mm de comprimento e ovais. `Ruiva' é uma uva avermelhada, de ciclo médio, com cachos médios a grandes (460-620g), com 18-30cm de comprimento e levemente compactos. Os bagos são naturalmente grandes, apesar de apirenas, pesando em média 3,5-8,0g, diâmetro de 16-21mm e 18-30mm de comprimento e cilíndricas a ovais. A duração do ciclo vegetativo (da poda à colheita) em Campinas, para ambos os cultivares foi aproximadamente o mesmo, independentemente do porta-enxerto utilizado. Por outro lado, o vigor, avaliado por intermédio do diâmetro do tronco e do peso de ramos podados, foi mais pronunciado para Ruiva enxertado sobre Kober 5BB. O comportamento de ambos cultivares em São Paulo, avaliado nas condições enunciadas, mostrou elevado potencial produtivo, aliado a excelentes características comerciais.
Palavras-chave: uva de mesa, uva sem semente, cultivares, porta-enxertos, fenologia

 

INTRODUCTION OF THE TABLE GRAPE CULTIVARS `FANTASY SEEDLESS' AND `CRIMSON SEEDLESS' IN BRAZIL

ABSTRACT: "Fantasy Seedless" and "Crimson Seedless" are two vinifera table grape cultivars released in 1989 by the USDA, Fresno, CA, USA, and introduced in Brazil by the authors. At the end of winter of 1991, cuttings of both cultivars were grafted on three different rootstocks at Campinas, SP, Brazil. Cuttings were also distributed for selected growers of various regions in the São Paulo State. Results of preliminary observations are presented here. "Fantasy Seedless" is an early to mid-season black seedless grape with cluster medium in size (350-550g), with a length of 13-20cm and a medium to loose compactness. The berries are naturally large, averaging 4-9g, 17-22mm in diameter, 20-30mm long, and are mostly oval. "Crimson Seedless" is a mid season red seedless grape with cluster medium in size (460-620g) and length (18-30cm), and are slightly compact. The berries are naturally large, averaging 3.5-8.0g, 16-21mm in diameter, 18-30mm long, and are cylindrical to oval in shape. The duration of the cycle (pruning to harvest) in Campinas, for both cultivars was about the same whether grafted on Kober 5BB, 106-8 Mgt or IAC 766, but vigor evaluated through trunk diameter and pruned weight, was higher for Crimson Seedless grafted on Kober 5BB. The performance of both cultivars in the São Paulo State showed that they can be commercially recommended. Both varieties were renamed in Portuguese as follows: Fantasia for "Fantasy Seedless" and Ruiva for "Crimson Seedless".
Key words: table grape, seedless grape, cultivars, rootstock, phenology

 

 

INTRODUÇÃO

O interesse mundial por uvas sem sementes vem aumentando continuamente e esse fato tem gerado uma demanda de informações e de tecnologia a respeito.

Os centros de pesquisa no mundo todo têm respondido com sucessivos lançamentos de cultivares apirenos (Bazak & Pearl, 1994; Mortensen & Gray, 1986; Moore, 1989; Weinberger & Harmon, 1974; Ramming, 1987; Reisch et al., 1985; Terra et al., 1985).

Recentemente, o Serviço de Pesquisa Agrícola do Departamento de Agricultura dos E.U.A., em seu laboratório de Fresno, na Califórnia, liberou para propagação os cultivares `Crimson Seedless' e `Fantasy Seedless' (USDA, 1989a, 1989b).

Visando oferecer mais opções aos viticultores de São Paulo e do Brasil, o IAC, por intermédio dos autores, introduziu esses cultivares, efetuando observações preliminares sobre seu comportamento, as quais são o objetivo deste trabalho.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Os cultivares `Crimson Seedless' e `Fantasy Seedless' resultaram dos cruzamentos esquematizados na Figura 1, efetuados em 1979 e 1978, respectivamente.

 

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Figura 1 - Genealogia dos cultivares Ruiva e Fantasia.

 

O experimento foi conduzido no Centro Experimental de Campinas, em Latossolo Vermelho escuro, fase arenosa. O clima predominante, segundo a classificação de Köppen, é do tipo mesotérmico de inverno seco, cwa.

O delineamento foi o de blocos ao acaso, com seis tratamentos e quatro repetições, com uma planta por parcela.

As plantas foram enxertadas sobre os porta-enxertos Kober 5BB, IAC 766 `Campinas' e Ripária do Traviú (106-8 Mgt) em 1991, obedecendo espaçamento de dois metros entre linhas e um metro entre plantas.

As videiras foram conduzidas em cordão esporonado unilateral espaldeira com três fios de arame, o primeiro a 70cm, o segundo a 110cm, e o terceiro a 140cm do solo, respectivamente. As plantas sofreram poda de inverno mista, alguns ramos com apenas uma gema e outros ramos, com 10 a 12 gemas, para verificação da sua fertilidade.

Após a poda, todas as plantas receberam tratamento com cianamida hidrogenada (Dormex), na dose de 2,5% para quebra da dormência e uniformidade da brotação.

O controle fitossanitário realizado foi o usual da região, com aplicação de fungicida à base de Mancozeb para o controle do míldio (Dithane) e fungicida sistêmico Triadimefon (Bayleton) para controle do oídio.

Na poda efetuada no início de agosto de 1994 os ramos podados foram pesados, como forma de avaliar o vigor relativo das plantas. Com essa mesma finalidade, foi medido o diâmetro do caule das plantas a 60cm do solo.

O ciclo vegetativo dos cultivares foi caracterizado por meio de avaliações semanais conforme escala sugerida por Eichorn & Lorenz (1984) (Figura 2).

 

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Figura 2 - Estádios fenológicos da videira, de acordo com Eichorn & Lorenz (1984).

 

A produção de cachos foi pequena, devida especialmente a certa dificuldade inicial na condução das plantas. Por essa razão, foi feita uma amostragem geral dos cachos colhidos sem levar em conta o porta-enxerto. Nessa amostra foram avaliados o peso, o comprimento e a largura dos cachos e o número de bagos. A avaliação das características dos bagos foram obtidos de quatro sub-amostras, nas quais se avaliaram o peso, o comprimento e a largura dos bagos e o teor de sólidos solúveis.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As estimativas de vigor por intermédio do peso dos ramos podados e do diâmetro do caule estão na TABELA 1. Pode ser observado que `Ruiva' e `Fantasia' equivaleram-se em vigor, avaliado por qualquer dos componentes mensurados. O vigor das plantas enxertadas sobre Kober 5BB foi maior que daquelas enxertadas sobre Ripária do Traviú e IAC 766, na média. Entretanto, IAC 766 equivaleu-se a Kober 5BB em peso dos ramos podados, quando enxertados com `Ruiva'. Considerando que a videira é planta perene, com longevidade alcançando facilmente 10-15 anos, pode-se esperar que essa relação copa/porta-enxerto possa se modificar, o que não é incomum na cultura.

 

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A evolução do ciclo vegetativo dos cultivares é mostrada na Figura 3. Embora a figura forneça informações preciosas sobre a fenologia dos cultivares `Ruiva' e `Fantasia' sobre três porta-enxertos, a avaliação foi interrompida cerca de 45 dias antes da maturação das uvas. É possível verificar, no entanto, que o desenvolvimento vegetativo dos cultivares copa foi muito semelhante nos três casos. `Fantasia' mostrou-se, ao longo de todo o período avaliado, 4 a 6 dias mais precoce que `Ruiva'. Esse fato veio a se consumar na colheita, quando `Fantasia' pode ser colhida 10 dias antes de `Ruiva'. É preciso relatar que o ano de 1994 foi extremamente seco, chovendo em Campinas, de 1º de junho a 31 de outubro, 55 mm, em comparação com 361 mm em 1992 e 287 mm em 1993. Este fato abreviou sobremaneira o ciclo dos cultivares que acabou sendo de 110 dias para Fantasia e de 120 dias para Ruiva. Isto é bastante interessante, pois eles foram consideradas, no seu lançamento, como tardia (Ruiva) e de meia-estação (Fantasia) (USDA, 1989a e b). Comparadas com outros cultivares colhidas no mesmo local, os ciclos podem ser considerados como médio-precoce e médio, para `Fantasia' e `Ruiva', respectivamente.

 

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Figura 3 - Ciclo vegetativo de `Ruiva' e `Fantasia' enxertadas sobre diferentes porta-enxertos: A-kober 5BB; B-Ripária do Traviú; C-IAC 766.

 

Os cachos de ambos os cultivares tiveram excelente aparência. A TABELA 2 traz os valores obtidos nas avaliações. Tanto `Ruiva' como `Fantasia' produziram cachos com pesos comercialmente desejáveis. Em média, os de Ruiva foram maiores que os de Fantasia. Nas informações de lançamento, informou-se que ambos teriam peso de cacho equivalente (0,5kg) (USDA, 1989a e b). É importante observar que o comprimento médio dos cachos de `Ruiva' foi sensivelmente maior que o de `Fantasia' (21cm contra 14cm). Com largura média equivalente, vê-se que `Ruiva' apresentou, em média, 5 bagos por cm de cacho e Fantasia, 4 bagos/cm, o que justifica claramente a classificação dos cachos quanto à compacidade: os de `Fantasia', de compacidade média a solta; os de `Ruiva', levemente compactos, (USDA, 1989a e b). Comercialmente, porém, esses graus de compacidade (ou de soltura, de fato) são muito favoráveis, pois são comparáveis aos de `Redglobe', e melhores que os de `Centennial Seedless', cultivares que, no noroeste paulista, dispensam o raleio de bagas.

 

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Na TABELA 3 encontram-se os resultados obtidos nas avaliações dos bagos. O peso médio, de quase 6g, foi igual para as duas cultivares, considerado excelente para uvas sem sementes. As dimensões dos bagos de Ruiva e Fantasia mostraram-se muito semelhantes. Os de Fantasia mostram tendência de formato oval a cilíndrico e os de Ruiva são elípticos. O teor de sólidos solúveis na colheita foi excelente em ambas as cultivares, próximo a 18 °Brix, em média. É preciso destacar que essas avaliações foram obtidas sem uso de ácido giberélico ou de anelamento, isto é, os bagos são naturalmente grandes.

 

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A análise sensorial levada a efeito pelos autores confirmou observações dos pesquisadores que obtiveram esses cultivares: os bagos de `Fantasia' são carnosos, de textura média, com sabor doce agradável; os de Ruiva são firmes, de textura bem crocante, de sabor neutro, porém com melhor equilíbrio açúcar/acidez .

Badr & Ramming (1994) aplicaram uma série de práticas culturais no cultivar Ruiva ("Crimson Seedless") e verificaram que sua poda deve ser longa, com 12 gemas, para boa produtividade, de cerca de 22t/ha; o anelamento na época do pegamento dos frutos, aumentou o tamanho dos bagos em mais de 17% em média; não houve resposta em aumento dos bagos ao ácido giberélico, mas houve efeito deletério na safra seguinte.

Informações preliminares de plantios experimentais de `Ruiva' no pólo Petrolina/Juazeiro indicam excelente comportamento do cultivar na região (Mashima, 1995). Da mesma forma, produtores do noroeste paulista que receberam o cultivar para testes dão conta da boa performance.

Os resultados ora obtidos, complementados com informações de outros autores e observações de viticultores, bem como o conhecimento prévio dos autores sobre os cultivares, levam à constatação do elevado potencial produtivo de `Ruiva' e `Fantasia', aliado a excelentes características comerciais de seus cachos e bagos.

 

CONCLUSÕES

- `Ruiva' e `Fantasia', nomes dados aos cultivares `Crimson Seedless' e `Fantasy Seedless', tiveram vigor semelhante quando enxertados sobre Kober 5BB, IAC 766 e Ripária do Traviú.

- Kober 5BB conferiu maior vigor aos dois cultivares, quando comparado ao Ripária do Traviú e ao IAC 766.

- Os cachos de `Ruiva' (526g) e os de `Fantasia' (395g) mostraram tamanho comercialmente desejável, sendo os de `Fantasia' um pouco mais soltos que os de `Ruiva', porém ambas dispensando raleio de bagos.

- Os bagos de `Ruiva' e de `Fantasia' revelaram peso médio naturalmente excelente (6,0g).

- Os ciclos vegetativos de `Ruiva' (120 dias) e de `Fantasia' (110 dias) foram bastante precoces, num ano extremamente seco.

 

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Recebido para publicação em 15.10.97
Aceito para publicação em 12.12.98