SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.56 issue2ASSOCIATED CONTROL OF Cornitermes cumulans (KOLLAR, 1832) (ISOPTERA: TERMITIDAE) WITH Metarhizium anisopliae, Beauveria bassiana AND IMIDACLOPRIDGIRDLING AND GIBBERELLIC ACID ON THE FRUTIFICATION OF 'MARIA' SEEDLESS GRAPEVINE author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Scientia Agricola

On-line version ISSN 1678-992X

Sci. agric. vol.56 n.2 Piracicaba  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-90161999000200009 

TAMANHO DA ÁREA DE FORRAGEAMENTO DO CUPIM SUBTERRÂNEO Heterotermes tenuis (ISOPTERA; RHINOTERMITIDAE) EM CANA-DE-AÇÚCAR1

 

José Eduardo Marcondes Almeida2*; Sérgio Batista Alves3; Júlio Marcos Melges Walder4
2Laboratório de Controle Biológico, Centro Experimental do Instituto Biológico, C.P.70 - CEP:13001-970 - Campinas, SP.
3Depto. de Entomologia, Fitopatologia e Zoologia Agrícola - ESALQ/USP. C.P. 09, CEP: 13418-900 - Piracicaba, SP.
4Laboratório de Radioentomologia - CENA/USP, C.P. 09, CEP: 13418-900 - Piracicaba,SP. *e-mail: ceib@dglnet.com.br

 

 

RESUMO: Estudou-se a área de forrageamento do cupim Heterotermes tenuis utilizando-se a isca Termitrap® marcada com o radioisótopo 32P. O experimento foi conduzido numa área com cana-de-açúcar, em Piracicaba-SP. Foram localizados 20 focos de H. tenuis, com iscas. Em cada um desses focos aplicou-se uma isca Termitrap® impregnada com 18,5 MBb (500 mCi) 32P na forma de fosfato de sódio diluído em 15 ml de água destilada. Ao redor das iscas marcadas, foram instaladas iscas sem marcador em quatro pontos: Norte, Sul, Leste e Oeste, eqüidistantes de 1, 5, 10 e 20 metros. Cada tratamento foi representado por um foco previamente determinado e marcado e uma das distâncias estipuladas para a isca de monitoramento, sendo repetido de 4 a 6 vezes. Após 15 dias da marcação, procedeu-se a avaliação coletando-se 15 indivíduos de H. tenuis de cada isca de monitoramento infestada, acondicionando-os em frascos de vidro com água destilada, que foram analisados em cintilador líquido, pelo teste de Cerenkov. Verificou-se que em apenas 20% das iscas de monitoramento coletaram-se cupins e 11,3% estavam marcadas com o radioisótopo. Constatou-se que ocorrem diversas colônias forrageando numa mesma área. A área de forrageamento de H. tenuis em cana-de-açúcar pode variar de 3 a 1.250 m2.
Palavras-chave: iscas, Heterotermes tenuis, radioisótopo, forrageamento

 

FORAGING AREA OF THE UNDERGROUND TERMITE Heterotermes tenuis (ISOPTERA; RHINOTERMITIDAE) IN SUGARCANE

ABSTRACT: The area of foraging of the termite species Heterotermes tenuis was evaluated using the Termitrap® bait marked with the radioisotope 32P. The experiment was conducted in an area with sugarcane, in Piracicaba,SP Brazil. Twenty infestion foci of H. tenuis were identified with baits. Each focus recieved baits labeled with 18.5 MBb (500 mCi) 32P in the form of sodium phosphate diluted in 15 ml of distilled water. Surrounding the marked baits were installed baits without marker in four points: North, South, East and West, halfway of 1, 5, 10 and 20 meters. Each treatment was represented previously by a focus settled and marked and one of the distances specified for the monitoring bait, being repeated of 4 to 6 times. After 15 days of the demarcation, the evaluation was proceeded by collecting 15 individuals of H. tenuis from each infested monitoring bait. These insects were transferred to glass flasks with distilled water, and analyzed in a liquid cintilador, by the test of Cerenkov. It was verified that in only 20% of the monitoring baits termites were collected and 11.3% were marked with the radioisotope, and that several colonies may by foraging in a same area. The foraging area for a colony of H. tenuis in sugarcane can vary from 3 to 1,250 m2.
Key words: baits, Heterotermes tenuis, radioisotope, forraging

 

 

INTRODUÇÃO

O controle de cupins subterrâneos com iscas tem sido estudado por diversos pesquisadores em todo o mundo, visto ser considerada técnica eficiente, que elimina a colônia e não prejudica o meio-ambiente.

O processo de controle com iscas tem como objetivo atrair uma parte da população do cupim, visando contaminá-la com os agentes de controle acrescentados à isca e obter sua transmissão para o restante da população, incluindo a rainha, principal elemento da colônia (Almeida, 1994).

Tamashiro et al. (1973) desenvolveram uma isca visando a captura de Coptotermes formosanus para uso em controle microbiano dessa praga no Havaí. Através de iscas de madeira, os pesquisadores, utilizando a técnica de marcação, estudaram a localização da colônia e constataram que as galerias de C. formosanus atingem um raio de até 50 metros.

Para o sucesso do controle de cupins subterrâneos com iscas, é importante conhecer o hábito de forrageamento da espécie a ser controlada. Su et al. (1984) estudaram o forrageamento de C. formosanus, marcando uma parte da população com Sudan Red 7B. Os cupins selecionam os locais de forrageamento e após uma seleção, os indivíduos da colônia passam a visitar os locais específicos. Assim, é teoricamente possível introduzir um agente de controle que atinja uma parte da população ativa no forrageamento e obter a eliminação da colônia inteira.

Van der Linde et al. (1989) utilizaram os radioisótopos 131I e 125I para identificar as colônias de Heterotermes mossambicus, avaliando o território de forrageamento. Observaram que as áreas de forrageamento das colônias estavam entre 0,5 e 3,1 ha, sendo que essas áreas não eram, necessariamente, território exclusivo de uma única colônia.

Grace et al. (1989) utilizaram armadilhas de Pinus de 1,5 x 1,5 x 15 cm para capturar Reticulitermes flavipes numa área infestada. Com a técnica de marcação, com Fat Red 7B, em papelão corrugado, marcaram uma grande quantidade de indivíduos de dois locais de captura e os soltaram nos mesmos locais. Com a recaptura, estimaram área de 266 e 1091 m2 para cada colônia, sendo que as galerias estendiam-se a uma distância de 79 m. As duas colônias estudadas possuiriam 2,1 e 3,2 milhões de indivíduos, respectivamente.

Shahid & Akhtar (1992) verificaram que os cupins Odontotermes guptai, Microtermes obesi, M. mycophagus e Eremotermes paradoxalis foram encontrados em cana-de-açúcar em Gojra e Pakistan. A população máxima foi encontrada em 269,1/m2, em maio de 1988, quando a temperatura era de 30oC e umidade relativa de 64%. Os danos foram estimados em 34,5%.

Haagsma & Rust (1995) utilizaram isca de papelão corrugado para estudar o tamanho de uma colônia, a fenologia e outros parâmetros referentes à espécie do cupim R. hesperus, em uma área na Universidade da Flórida e numa floresta. Estimaram que na área urbana a população da colônia era de 830.531 insetos e na área natural de 103.758 indivíduos.

Almeida & Alves (1995) desenvolveram uma isca para estudos e controle do cupim subterrâneo H. tenuis em cana-de-açúcar. Para isso, testaram diferentes tipos de materiais celulósicos e constataram que papelão corrugado foi o mais atrativo, para os cupins dos gênero: Cornitermes, Syntermes, Procornitermes, Coptotermes, e Nasutitermes.

O objetivo deste trabalho foi estudar a área de forrageamento do cupim H. tenuis, utilizando iscas Termitrap® marcadas com o radioisótopo 32P .

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi realizado em canavial da Fazenda Retiro, Usina Santa Helena, município de Piracicaba-SP (22o42' S, 47o38' W e 580 m), em outubro de 1997.

Instalaram-se 100 iscas Termitrap®, de 10 em 10 metros na linha de cana, para a localização dos focos necesários para a pesquisa. Os focos foram caracterizados por um número de indivíduos na isca maior que 1000, distantes 25 metros.

Foram utilizados 20 focos de H. tenuis. Em cada foco aplicou-se na isca, 18,5 MBb (500 mCi) de radioisótopo (32P) na forma de fosfato de sódio diluído em 15 ml de água destilada. A meia-vida física do 32P é de 14,3 dias. A aplicação desse marcador radioativo foi feita por técnicos do Centro de Energia Nuclear da Agricultura (CENA), segundo os cuidados recomendados por normas internacionais.

Ao redor das iscas marcadas, foram instaladas quatro iscas Termitrap de monitoramento, sem qualquer marcador nos quatro pontos cardeais, eqüidistantes de 1, 5, 10 e 20 metros. Cada tratamento foi representado por um foco previamente determinado e marcado com 32P, e uma das distâncias estipuladas para a isca de monitoramento, sendo repetido de 4 a 6 vezes. O delineamento experimental foi inteiramente casualizado, com quatro tratamentos, representados pelos focos previamente determinados, com as seguintes repetições: Tratamento 1: 1 metro, seis repetições; Tratamento 2: 5 metros, seis repetições; Tratamento 3: 10 metros, quatro repetições e Tratamento 4: 20 metros, quatro repetições. Assim, foram utilizadas 80 iscas sem marcação e 20 iscas marcadas com a solução radioativa de 32P.

Após 15 dias, procedeu-se à avaliação, coletando-se 15 indivíduos de H. tenuis, por repetição, das iscas sem marcador, acondicionando-os em frascos de vidro com água destilada, preparados assim para serem analisados em cintilador líquido, (marca Packard, modelo Tricarb 1.600), utilizando o efeito de Cerenkov, com contagem da radiação por dois minutos por frasco, no Centro de Energia Nuclear na Agricultura, CENA-USP.

 

RESULTADOS E DISCUÇÃO

Em apenas 20% das iscas sem marcador (16 iscas) coletaram-se indivíduos de H. tenuis, e em nove frascos analisados (11,3%) existiam os insetos marcados, indicando que as demais sete iscas foram infestadas por populações diferentes daquelas dos focos inicialmente marcados (TABELA 1).

 

n2a10t1.gif (10784 bytes)

 

Observou-se também que, nos cupins marcados, não houve preferência pela direção da isca em nenhuma das distâncias estudadas, comportamento notado por Almeida (1994) em teste de laboratório, onde verificou-se que parte da população sai em busca de alimento e abrigo e, assim que os encontra, conduz para aquele local o restante da população forrageira.

De acordo com Su et al. (1984), C. formosanus possui hábito de forrageamento em áreas selecionadas e após a seleção do local de forrageamento, os indivíduos daquela colônia passam a visitá-lo. Notou-se que o cupim H. tenuis possui hábito semelhante, pois apesar de haver diferentes tipos de alimento no local, e mesmo, mais de uma isca, a colônia seleciona este local e passa a atacá-lo.

No trabalho, outras populações de H. tenuis invadiram as iscas não marcadas, demonstrando a presença de diversas colônias numa mesma área de forrageamento. Esse fato foi constatado pela captura de cupins nas iscas sem marcador, portanto indivíduos que não se contaminaram com 32P, evidenciando serem indivíduos de colônias diferentes daquelas que foram marcadas. Van der Linde et al. (1989) verificaram o mesmo comportamento com a espécie H. mossambicus, a qual possuía uma área de forrageamento de 0,5 a 3,1 ha.

Os maiores números de indivíduos marcados foram coletados nas iscas localizadas a 1 metro de distância da isca com 32P, seguido da distância de 10 metros. Também foram coletados cupins nas iscas localizadas nas distâncias de 5 e 20 metros. Como foram coletados cupins portadores de radioatividade na maior distância testada (20 m), pôde-se calcular que a área de forrageamento de H. tenuis foi de 1.256,63 m2. No entanto, a freqüência de forrageamento foi maior próximo do foco marcado, pois na distância de 1 metro foram coletados mais indivíduos marcados do que nas armadilhas mais distantes. Porém, nas distâncias de 5 e 20 metros esse tipo de comportamento não se repetiu, provavelmente, pela interferência de outros alimentos que interessaram mais a população que foi marcada, no entanto, a freqüência de visita foi três vezes superior para a distância de 10 metros da população marcada (Figura 1).

 

n2a10f1.gif (5684 bytes)

Figura 1 - Porcentagem de iscas com operários e soldados de Heterotermes tenuis marcados com 32P coletados em diferentes distâncias do foco inicial, em cultura de cana-de-açúcar. Piracicaba-SP.

 

Esses resultados estão condizentes com os observados para outras espécies, pois para C. formosanus, as galerias da colônia atingem até 50 metros de distância no solo (Tamashiro et al. 1973) e para R.. flavipes as galerias chegam a atingir 79 metros (Grace et al. 1989).

Considerando-se que a maior distância percorrida pelos indivíduos de uma colônia de H. tenuis foi de 20 metros, pode-se inferir que com oito armadilhas por hectare poder-se-ia exercer um controle sobre a população desses insetos. No entanto, como recomendação prática, deve-se calcular o número de armadilhas por hectare baseado nas distâncias mais freqüentes de captura de cupins marcados, que foi de 10 metros. Dessa maneira, pode-se calcular que a área de forrageamento mais intensa de H. tenuis atinge cerca de 315 m2, o que permite estimar que 32 iscas/ha seriam suficientes para estudos de controle dessa espécie em cana-de-açúcar.

 

CONCLUSÕES

O cupim Heterotermes tenuis não-se orienta numa direção pré-determinada na busca por alimento em cana-de-açúcar.

Diversas colônias de H. tenuis forrageiam numa mesma área.

A área de forrageamento de H. tenuis em cana-de-açúcar pode variar de 3 a 1.250m2.

Trinta e duas iscas/ha são suficientes para estudos de controle dessa espécie em cana-de-açúcar.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à FINEP pelo suporte na realização desta pesquisa, ao Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA/USP) e ao funcionário Luís Ancelmo Lopes (CENA).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, J.E.M. Avaliação de fungos entomo-patogênicos visando ao controle do cupim subterrâneo Heterotermes tenuis (Hagen, 1858) (Isoptera, Rhinotermitidae). Piracicaba, 1994. 105p. Dissertação (Mestrado) - Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", Universidade de São Paulo.         [ Links ]

ALMEIDA, J.E.M.; ALVES, S.B. Seleção de armadilhas para a captura de Heterotermes tenuis (Hagen). Anais da Sociedade Entomológica do Brasil, v.24, n.3, p.619-624, 1995.         [ Links ]

GRACE, J.K.; ABDALLAY, A.; FARR, K.R. Eastern subterranean termite (Isoptera: Rhinotermitidae) foraging territories and populations in Toronto. Canadian Entomologist, v.121, p.551-556, 1989.         [ Links ]

HAAGSMA, K.A.; RUST, M.K. Colony size estimates, foraging trends, and physiological characteristics of the Western Subterranean Termite (Isoptera: Rhinotermitidae). Environmental Entomology, v.24, n.6, p.1520-1528, 1995.         [ Links ]

SHAHID, A.S.; AKHTAR, M.S. Termite (Isoptera) population and damage in sugarcane field at Gorja, Toba Tek Singh, Pakistan. Pakistan Journal Zoological, v.24, n.2, p.161-164, 1992.         [ Links ]

SU, N. Y.; TAMASHIRO, M.; YATES, J.R.; HAVERTY, M.I. Foraging behaviour of the Formosan Subterranean Termite (Isoptera: Rhinotermitidae). Environmental Entomology, v.13, n.6, p.466-470, 1984.         [ Links ]

TAMASHIRO, M.; FUJII, J.K.; LAI, P.Y. A simple method to observe, trap, and prepare large number of subterranean termites for laboratory and field experiments. Environmental Entomology, v.2, n.4, p.721-722, 1973.         [ Links ]

VAN DER LINDE, T.C.; HEWITT, M.C.; VAN DER WESTHUIZEN, M.C.; MITCHELL, J. The use of 131I, 125I and agressive behaviour to determine the foraging area of Hodotermes mossambicus (Hagen) (Isoptera; Rhinotermitidae). Bulletin of Entomological Research, v.79, p.537-544, 1989.         [ Links ]

 

 

Recebido para publicação em 19.01.98
Aceito para publicação em 08.09.98

 

 

1 Parte da Tese de Doutorado do primeiro autor apresentada à ESALQ/USP - Piracicaba, SP.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License