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Scientia Agricola

On-line version ISSN 1678-992X

Sci. agric. vol.56 n.2 Piracicaba  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-90161999000200032 

VALIDAÇÃO DE TÉCNICAS EXPERIMENTAIS PARA AVALIAÇÃO DE CARACTERÍSTICAS AGRONÔMICAS E ECOLÓGICAS DE PASTAGENS DE CYNODON DACTYLON CV. 'COASTCROSS-1'

 

Roberta Aparecida Carnevalli1,3; Sila Carneiro da Silva2*
1Graduanda em Engenharia Agronômica - ESALQ/USP, C.P. 09 - CEP:13418-900 - Piracicaba, SP.
2 Depto. de Produção Animal - ESALQ/USP, C.P. 09 - CEP:13418-900 - Piracicaba, SP.
3Bolsista da FAPESP.
*e-mail: scdsilva@carpa.ciagri.usp .

 

 

RESUMO: Este trabalho consiste na avaliação de uma pastagem tropical Cynodon dactylon, enfocando, principalmente necessidade de adaptação, aferição da precisão e transferência de metodologias comumente utilizadas para plantas de clima temperado. Neste estudo, pôde-se avaliar produção de forragem, composição botânica, crescimento por perfilho e senescência foliar (fluxo e renovação de tecidos) e dinâmica populacional de perfilhos (morte, sobrevivência e aparecimento de perfilhos), relacionada com a densidade de perfilhos (números de perfilhos/m2), possibilitando a detecção de falhas e imprecisões nestes métodos quando transferidos de forma direta de comunidades de plantas de clima temperado para plantas de clima tropical. Foram geradas, ainda, equações de calibração, ou seja, relação entre altura e massa de forragem do pasto, as quais sofreram modificações ao longo do ano devido a mudanças, principalmente, na estrutura do pasto.
Palavras-chave:
cynodon, produção de forragem, perfilhamento, fluxo de tecidos

 

EVALUATION OF SOME AGRONOMIC AND ECOLOGICAL CHARACTERISTICS OF CYNODON DACTYLON CV. 'COASTCROSS-1' , TO VALIDATE TECHNIQUES FOR PASTURE AND GRAZING STUDIES

ABSTRACT:This study consisted of the evaluation of the tropical grass Cynodon dactylon 'coast-cross-1' focusing, mainly, adaptation needs, precision and transference of techniques commonly used for temperate pasture plants. Some features evaluated were: yield, botanical composition, growth per tiller and leaf senescence (tissue flow) and tiller population (death, survival and tillers growth) as related to tiller density (tillers number/m2). These measurements allowed to detect problems and lack of precision of the techniques when transfered directly from temperate to tropical pasture plants. Functional relationships between sward height and shoot mass were established and, as a consequence, regression curves were generated, that change during the year due to changes in ward struture.
Key words: cynodon, herbage production, tillering, tissue flows

 

 

INTRODUÇÃO

As informações de manejo de pasto ou corte de Cynodon dactylon cv. coastcross-1, existentes na literatura, são encontradas somente em alguns trabalhos em condições semelhantes às do Brasil. Na grande maioria das vezes são dados oriundos de ensaios de frequência de corte ou pastejo e lotações animais fixas, variáveis estas que não permitem, quando usadas isoladamente, perfeito controle e entendimento de eventos ocorridos, uma vez que grande parte da variação na composição e na comunidade de plantas (perfilhamento) não pode ser devidamente controlada (Hodgson,1985).

Hodgson (1990) entende que o perfilho é a unidade básica da produção de gramíneas, sendo este um ponto de crescimento localizado na bainha das folhas e que é suportado pelo mesmo sistema radicular que lhe deu origem. Este tem a capacidade para desenvolver novas gerações de perfilhos oriundos de cada uma de suas folhas individuais.

A produção de novos perfilhos é normalmente um processo intermitente que pode ser estimulado pela desfolha da planta e, consequentemente, melhoria da iluminação na base do pasto. Perfilhos individuais têm um determinado tempo de vida que pode ser de mais de um ano ou apenas algumas semanas. Assim, para a população poder ser mantida, existe a necessidade de substituição contínua para a perenização do pasto (Hodgson,1990). Fica evidente, portanto, a importância de estudos básicos que baseiam-se no controle efetivo do processo de desfolha e que permitam entender como a planta responde às variações de ambiente e manejo de corte ou pastejo (ecologia de pastagens).

Brown & Mislevy (1989), estudando frequência de corte em C. dactylon , concluíram que a frequência mais adequada entre 2, 4, 6 e 8 semanas foi a de 4 semanas no período do verão, quando se obteve maior produção da forragem e consequentemente maior produção de perfilhos.

Analisando três espécies de cynodon, Novoa (1984) concluiu que o número de perfilhos basais foi aumentado quando se utilizava intervalos de corte maiores, observando também que o número de perfilhos aéreos tem relação com a quantidade de nitrogênio aplicada no solo. Chapman et al. (1983) concluíram que o tamanho dos perfilhos e a extensão das folhas estão inversamente relacionados com a densidade de perfilhos.

A expansão da área foliar pode ser medida em extensão foliar, aparecimento de folhas, folha senescida por perfilho e número de perfilhos por unidade de área. (Davies,1981, citado por Gastal et al. 1992).

Davidson (1968), citado por L'Huiller (1987), concluiu que a variação no efeito de cortes ou pastejos mais severos sobre a produção de forragem ocasiona resposta diferenciada entre as espécies. Espécies de hábito de crescimento ereto aceitam frequência de desfolha mais intensa, porém respondem com queda no acúmulo de forragem. O contrário ocorre com espécies de hábito de crescimento mais prostrado.

Já L'Huiller(1987), em seu experimento com Lolium perene, observou, sob intensidades maiores de desfolha, que o acúmulo de forragem verde não é afetado e que em situações de pastejo menos intensos a quantidade de material morto acumulado, aumentava. Mislevy et al (1989), comparando três cultivares de grama estrela (Cynodon nlemfuensis), observaram 8% de aumento na produção quando passou de uma altura de pastejo de 150mm (mais intenso) para 600mm (menos intenso).

Observa-se que os dados encontrados dizem respeito a espécies de hábito de crescimento diferente do Cynodon dactylon e em condições também distintas. Verifica-se também que no que se refere a grama-bermuda os dados são obtidos considerando condições de ambiente fixas, o que não ocorre na prática. Existe uma variação normal no clima dentro do período de crescimento que faz com que seja difícil se fixar uma frequência de corte ou pastejo.

Como normalmente se fixa a frequência, diferenças nas taxas de acúmulo de forragem são compensadas por lotação animal variável, o que acarreta descontrole total na composição e estrutura da planta, afetando sua qualidade, produção e longevidade.

Fica evidente, portanto, a necessidade de trabalhos ou estudos que permitam conhecer melhor a planta forrageira a fim de que técnicas e sistemas de pastejo eficientes possam ser desenvolvidos.

Este trabalho apresenta um estudo realizado com a espécie Cynodon dactylon cv. coastcross-1, enfocando aspectos relacionados com crescimento, produção, composição e disponibilidade de forragem da pastagem, submetida a regime de pastejo.

A frequência de pastejo é função da capacidade de regeneração de folhas por parte da planta forrageira (Corsi et al. 1994), evento este total e diretamente relacionado ao fluxo de tecidos (morte, senescência, aparecimento e expansão de folhas ) na comunidade de plantas. Com bases nessas informações é possível a realização de manejo racional da planta. Esse tipo de informação foi gerado neste ensaio através de metodologias e técnicas experimentais de onde foram também obtidos os coeficientes de variação das respectivas medidas, que permitiram inferir sobre a eficiência das diferentes técnicas utilizadas.

Assim sendo, o presente trabalho teve por objetivos:

a) Testar e aferir metodologias experimentais para fins de estudo da ecologia de plantas forrageiras sob pastejo;

b) Estudar o comportamento e a resposta de C. dactylon cv. coastcross-1 submetida a pastejo por ovinos (aspectos quantitativos);

c) Gerar equações de calibração para futuras técnicas de avaliação indireta de massa de forragem e taxas de acúmulo.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Área experimental

O experimento foi realizado num piquete medindo aproximadamente 700m2 , formado com coastcross e usualmente pastejado por ovinos em sistema de rotação com outros piquetes, durante o período de novembro de 1995 a outubro de 1996.

A área está localizada nas dependências do Departamento de Produção Animal, setor de Ruminantes, e faz parte do sistema intensivo de produção animal da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", Piracicaba, São Paulo.

Pastejo

O cronograma de pastejo utilizado durante o experimento já estava pré-definido de acordo com o sistema de rotação vigente para os outros piquetes.

Nenhuma avaliação foi feita sobre produção ou desempenho animal, uma vez que os animais cumpriram a função de agentes desfoliadores para a retirada da forragem. Esse fato permitiu avaliar a resposta da planta sob condições de pastejo.

Frequência de pastejo

O período de descanso médio ficou entre 3-4 semanas até o mês de maio, tornando-se mais longo (5-6 semanas) a partir desse mês devido a queda de temperatura e défict hídrico comuns nessa época do ano, que promove a redução no crescimento das plantas forrageiras tropicais.

Procurou-se deixar a altura residual do pastejo em torno de 5 cm , o que nem sempre foi possível por causa da restrição alimentar provocada nos animais nos últimos dias de pastejo.

Avaliações

Avaliação de disponibilidade de forragem e taxa de acúmulo

Para se obter a disponibilidade de forragem através de corte, foram feitas amostragens aleatórias em toda a área, segundo Frame (1981).

Antes e depois de cada pastejo foi lançado, ao acaso, um amostrador retangular medindo 0.30m x 0.50m (0.15m2), 5 vezes, dando aproximadamente 70 amostras/ha ou 10,5m2/ha.

A cada lançamento, a forragem do interior do amostrador foi cortada ao nível do solo, identificada e armazenada em sacos de papel.

O processamento destas amostras se deu em laboratório para determinação de quantidade de matéria seca de forragem. A forragem de cada amostrador foi lavada para retirar possíveis resíduos de terra e sub-amostrada para determinação de composição botânica e morfológica, sequiram posteriormente para a estufa de circulação de ar a 65oC por 72 horas (atingindo peso constante). Passado esse tempo, as amostras foram pesadas e depois foram somados aos pesos de suas respectivas sub-amostras, seguindo-se assim os dados para o cálculo de disponibilidade de forragem.

Com o valor de forragem de pós- pastejo e o valor de forragem de pré- pastejo (ambos tendo o nível do solo como referência), se obteve por diferença o acúmulo líquido no período entre cortes consecutivos, valor este que relacionado ao intervalo entre pastejos, gera a taxa média de acúmulo diário.

Composição Botânica e Morfológica

As sub-amostras separadas na lavagem da forragem da metodologia de disponibilidade, foram divididas nas seguintes categorias: folhas, hastes (entende-se haste como a soma de haste verdadeira com nós e entrenós e pseudohaste formada pela bainha das folhas) e material morto. Após separação manual das partes, as sub-amostras foram secas em estufa a 65oC por 72 horas e pesadas.

Os dados obtidos da pesagem dos componentes separadamente, propiciaram o cálculo da porcentagem de cada um na composição total que multiplicados pela produção total de matéria seca geraram o quanto foi produzido de cada componente em massa, para cada período de pastejo.

Dinâmica Populacional de Perfilhos

Inicialmente, com o objetivo de se avaliar os padrões demográficos de perfilhamento e suas respectivas taxas de natalidade, mortalidade e sobrevivência, foram selecionadas 60 plantas divididas em 4 réguas transectas de 15 perfilhos cada espaçados de 20 cm um do outro.

Estas plantas foram marcadas com arame plastificado colorido, sendo que todos os perfilhos existentes em cada planta foram identificados, inicialmente, com uma única cor.

Seguindo-se os pastejos, se procedia a contagem dos perfilhos mortos, vivos e a marcação dos que nasceram no período entre pastejos com uma nova cor .

Contudo, no decorrer das avaliações detectou-se falha na metodologia, ou seja, o método só considerava o perfilhamento que ocorria acima do nível do solo e somente a partir das plantas selecionadas, o que estaria correto se a espécie não apresentasse perfilhamento a partir de rizomas, uma vez que esses perfilhos não seriam detectados pelo método. No caso dessa espécie, o que ocorreu foi que depois de alguns meses de avaliação, as plantas marcadas começaram a secar e eventualmente, morrer, sinalizando um desaparecimento das plantas, já que as taxas de natalidade eram menores que a de mortalidade. No entanto, a avaliação visual e de contagem de perfilhos por unidade de área não comprovaram essa tendência de desaparecimento de plantas do pasto.

Por isso, foram promovidas alterações na metodologia, onde ao invés de selecionar plantas, delimitou-se pequenas áreas de solo e marcou-se todos os perfilhos dentro delas, inicialmente com uma única cor.

Foram fixados no campo, então, 8 anéis separados aos pares (dois em cada régua transecta). Esses anéis foram feitos com tubo PVC de 15 cm de diâmetro por 2 cm de altura.

Depois de cada pastejo, as mesmas avaliações foram feitas, com a diferença de que se marcou uma população. A área contida dentro do anel passou a ser a unidade de avaliação, o que permitiu a determinação da produção de perfilhos, eventualmente oriundos da sub-superfície do solo, uma vez que a planta em estudo apresentava rizomas.

Densidade de perfilhos

Outra avaliação feita foi a densidade de perfilhos e para a obtenção de tais valores foram utilizados amostradores circulares de 22 cm de diâmentro, dando cerca de 0.04 m2, lançados ao acaso na área, 10 vezes, promovendo uma amostragem de 140 amostras/ha ou 5.6m2/ha.

A cada lançamento, foram contados os perfilhos existentes no interior do amostrador, cortados ao nível do solo, identificados, secos em estufa e pesados.

Se obteve com esta avaliação o número de perfilhos/m2 ou por ha em cada período e, com isso, se observou o comportamento da população de perfilhos no decorrer do período total de avaliação.

Fluxo e renovação de tecidos

O estudo de fluxo e renovação de tecidos na comunidade de plantas foi realizado através de seleção de 4 grupos de 15 perfilhos cada marcados, inicialmente, uma semana antes do pastejo no verão e 2 semanas antes do pastejo no inverno, com avaliações sucessivas a cada dois dias até a data de entrada dos animais. Essa mudança ocorreu porque , no inverno, o crescimento da forragem se torna lento e com apenas 4 dias de avaliação (período de 8 dias) não estava sendo possível detectar o aparecimento de folhas.

Os perfilhos foram marcados com arame colorido no primeiro dia e a partir daí foram tomadas as seguintes medidas, de acordo com Davies (1981):

• altura do perfilho: distância entre a base do perfilho e a ponta da última folha expandida;

• haste: entende-se por haste a soma de haste verdadeira com nós e entrenós e pseudohastes formada pela bainha das folhas;

• comprimento da haste: distância entre a base do perfilho e a lígula da última folha expandida;

• comprimento da lâmina foliar expandida: distância entre a lígula e a ponta da folha;

• comprimento da lâmina foliar em expansão: distância entre a lígula da última folha expandida (sendo este um ponto de referência) e a ponta da folha em questão;

• folha senescente: a senescência foi medida indiretamente, ou seja, mediu-se toda a parte que ainda estava verde na folha, partindo da lígula para a ponta da folha. A medição da parte verde é mais fácil que a medição da parte já senescida, além de ser uma prática internacionalmente reconhecida;

• número de folhas vivas: contagem do número de folhas verdes do perfilho;

• aparecimento de folhas: expresso como o número de dias necessários para uma folha tornar-se visível.

Para complementar o método e chegar, assim, em valores de taxas de acúmulo diário, foram feitas outras medições.

Os dados de altura de perfilho foram usados para gerar categorias de alturas. Para cada categoria, foram escolhidos 10 perfilhos que se encaixassem nesses padrões de altura.

Esses 10 perfilhos foram divididos em haste, folha 1, folha 2, folha 3 até a última folha existente no perfilho, começando a numerar de baixo para cima, com a finalidade de se gerar uma relação entre comprimento de haste e folhas e seus respectivos pesos.

Cada porção foi medida continuamente, ou seja, se obteve x cm de haste, y cm de folha1, z cm de folha 2 e assim por diante. Depois seguiram para secagem e pesagem.

Com os dados de comprimento em mm e peso em mg, obteve-se as relações mg/mm de folha ou haste para cada categoria, o que permitiu transformar os dados medidos no campo de mm para mg e chegar num acúmulo líquido expresso em Kg MS/perfilho.dia. Usando ainda os dados de densidade (no de perfilhos/m2), foi possível calcular uma taxa de acúmulo em KgMS/ha.dia. Esses dados foram relacionados com os dados de corte, que também avaliaram esta mesma variável.

Para se comparar os valores absolutos entre os métodos de corte direto e de fluxo de tecidos em relação à variável taxa de acúmulo de matéria seca, foi detectada a necessidade de avaliação de fluxo de tecidos uma semana imediatamente após o pastejo e uma semana antes do pastejo no caso de pastejo intermitente, obtendo-se uma curva média no período, que poderia, então, ser comparada com curva de corte. Como a finalidade desta avaliação, neste ensaio, não foi de comparar os valores absolutos de produção e sim relacionar o comportamento das curvas e também gerar coeficientes de variação que atestam a eficiência de utilização dos métodos em experimentos posteriores, este procedimento não foi executado.

Equações de calibração

No decorrer do ensaio, foram feitas medições de altura e massa de forragem. Com esses dados pôde-se gerar equações de calibração que indicam a disponibilidade de forragem a cada pastejo ou mês a partir de valores de altura do pasto.

No campo, foram escolhidos locais com disponibilidade de forragem baixa, média-baixa, média, média alta e alta que para o coastcross correspondem a alturas em torno de 5, 10, 15, 20 e 25 cm.

Foram tiradas 4 amostragens medindo 0.15m2 cada, para cada altura, de maneira semelhante ao corte (item 3.4.1.).

De dentro do amostrador foram feitas medições com régua da altura do pasto em 10 pontos diferentes e calculada a média das alturas para cada amostra. Para medir essa altura, apenas se introduziu uma régua até o nível do solo e procedeu-se a leitura onde a folha mais alta (na sua posição natural) tocava na graduação da régua, segundo Hodgson (1990).

Com a série de dados pareados de altura e massa de forragem gerou-se equações do tipo y = a + bx para cada ciclo de pastejo.

 

RESULTADOS E DISCUÇÕES

Disponibilidade de forragem e Composição botânica e morfológica

Os resultados obtidos de disponibilidade e taxas de acúmulo de matéria seca de forragem no período de novembro/95 a outubro/96, através do método de corte podem ser observados na TABELA1.

 

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Os resultados mostram a grande quantidade de resíduo de pós-pastejo, valores de 40 a 70% da massa disponível no pré-pastejo.

Os dados de composição botânica revelaram que este resíduo era formado praticamente por hastes e material morto (vide Figuras 1 e 2), indicando grande seletividade por parte dos animais e baixo índice de utilização ( aproveitamento) da forragem produzida.

 

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Figura 1 - Composição botânica e morfológica da massa de forragem de pós- pastejo.

 

 

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Figura 2 - Composição botânica e morfológica da massa de forragem em pré-pastejo.

 

Os dados de produção na TABELA 2 e Figura 3, referentes aos diferentes partes constituintes do pasto, revelam a tendência de resposta da planta ao longo do período.

 

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Figura 3 - Massa de forragem correspondente a folhas, hastes e material morto.

 

Nota-se na Figura 3 um pico de produção de folhas em janeiro, o qual diminui em fevereiro e se manteve estável até março, voltando a cair mais acentuadamente em abril, quando a planta vai perdendo sua capacidade de reposição rápida de folhas, por causa da queda de temperatura e umidade. A menor produção ocorreu em julho e voltou a crescer a partir de agosto/ setembro, quando os fatores de crescimento já não eram mais limitantes.

A quantidade de hastes se manteve ao longo do período de novembro a março , diminuindo a partir da entrada do outono.

A presença de alta quantidade de material morto no início, foi contornada com pastejo mais intenso, conseguindo-se uma boa redução. Porém com a entrada dos fatores climáticos desfavoráveis a partir de fevereiro, o aumento na quantidade desse material foi inevitável, mas a partir de agosto esse material morto tendeu a diminuir novamente.

Dinâmica Populacional de Perfilhos

Na avaliação de perfilhamento foi usado um método ainda pouco testado para plantas desse gênero. Esperava-se, ao avaliar aparecimento, mortalidade e sobrevivência de perfilhos, que houvesse reposição dos perfilhos mortos através do nascimento, como ocorre com as plantas que têm perfilhamento exclusivamente aéreo.

Porém, como o método avalia a planta individualmente, o que se obteve foi apenas o ciclo de vida da planta, pois o método desconsiderou o perfilhamento eventualmente provenientes de rizomas, que ao longo do tempo demostrou papel importante para a manutenção da população de perfilhos (vide dados de densidade de perfilhos, item - 4.3 ).

Com os dados médios de natalidade, mortalidade e sobrevivência e sabendo-se que as plantas marcadas estavam supostamente no mesmo grau de desenvolvimento, pois o número de perfilhos por planta era de 1 ou 2, pode-se avaliar os pontos falhos do método.

Segundo o que foi observado no campo, a planta vai sofrendo modificações ao longo do tempo. Partindo de uma planta formada somente por 1 ou 2 perfilhos, com o pastejo e eliminação do meristema apical, ela começa emitir perfilhos pelas gemas axilares e, até então, a planta permanecia vigorosa. Com o passar dos meses as hastes vão se lignificando e os perfilhos mais novos vão tendo uma vida cada vez mais curta, talvez até pela maior facilidade de captação pelo animal ou avanço da estação de crescimento. Quase prestes a secar, a planta começa a emitir pequenos perfilhos e número muito grande, formando uma espécie de "coroa" na ponta da haste já escura.

Estes pequenos perfilhos têm uma vida muito curta, não vingando de um pastejo para o outro. A partir daí, a planta já não emite mais perfilhos e os que restam, se não são eliminados pelos animais, secam completamente em pouco tempo.

Como mostra a Figura 4 de perfilhamento, a planta original da 1a. geração demonstra uma sobrevivência maior que as outras, tendendo lentamente ao declínio. Quanto mais nova a população mais acentuado é o declínio (menor sobrevivência), até a última geração que nasce num mês e morre no mês seguinte, dando o pico visível na Figura citada.

 

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Figura 4 - Dinâmica populacional de perfilhos obtida pelo método da régua transecta.

 

Na TABELA 3 observa-se as taxas de natalidade, mortalidade e sobrevivência que, segundo os resultados, se concluiria que o pasto havia desaparecido, já que toda população está morta.

 

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Observa-se que no 1o. período houve nascimento de muitos perfilhos que, por nascerem vigorosos, mantiveram-se vivos por um tempo maior.

A partir daí , a natalidade foi cada vez menor até o nascimento daqueles perfilhos pequenos. Consequentemente a taxa de mortalidade foi aumentando até chegar em 100%.

Nos últimos períodos avaliados sobraram poucas plantas que fizeram parte da média, o que justifica os coeficientes de variação altos.

Porém, os dados de densidade de perfilhos, coletados mensalmente, mostram que a população se mantinha relativamente constante.

Densidade de perfilhos

Segundo a avaliação de densidade de perfilhos, se obteve valores relativamente constantes, oscilando entre 4600 e 6600 perfilhos/m2. Este fato pode ser visualizado na Figura 5.

 

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Figura 5 - Densidade populacional de perfilhos.

 

Para contornar o problema de falha na metodologia, optou-se pela avaliação por unidade de área, já descrita no item 3.4.4.

Após a implementação da nova técnica , o que se observou, imediatamente, foi a presença de perfilhos provenientes da sub-superfície do solo, ou de rizomas, que perfaziam um total de 11% dos perfilhos que nasceram por ocasião da 1a. avaliação de perfilhamento. Obteve-se também uma sobrevivência alta e uma taxa de natalidade maior que a taxa de mortalidade. A análise dos dados de densidade, permitiu averiguar que realmente houve um aumento da população e o método foi sensível o suficiente para detectar este evento.

Pôde-se constatar, portanto, com esse método a melhor avaliação de perfilhamento. Na TABELA 4 pode ser verificado a grande quantidade de perfilhos provenientes de rizomas ( vide % perfilhos basais). Através de observação de campo pôde-se constatar, também, a presença daquelas hastes velhas com a "coroa" (já descritas) nos diferentes períodos de contagem. Seria necessário, porém, pelo menos mais um período para poder verificar o que aconteceria com a população, já que houve uma queda na natalidade e um aumento na mortalidade no último período (vide Figura 6). O que se supõe é que essa alta mortalidade foi devido a um pastejo muito intenso ocorrido. Como mostram os dados de disponibilidade de forragem, o resíduo que era mantido sempre ao redor de 2500 - 3000 caiu para 1350 kgMS/ha.

 

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Figura 6 - Dinâmica populacional de perfilhos obtida pelo método da área.

 

Fluxo de tecidos e taxa de acúmulo

A avaliação de fluxo de tecidos teve primeiramente a função de gerar informações sobre a espécie e também testar a eficiência do método. Pôde-se verificar que é um método de avaliação de disponibilidade de forragem que gerou coeficientes de variação dentro dos níveis aceitáveis (20-30%) quando se trata de avaliação de forragem no campo.

Houve discrepâncias nos coeficientes de variação das taxas de senescência, pois trata-se de uma medida indireta, onde se mede a parte verde da folha e, por não ser um local exato e sim gradual na folha, a chance de variação se torna maior. Além disso, são poucas as folhas que senescem, diminuindo o espaço amostral, o que contribuiu para o aumento na variabilidade dos dados. Na TABELA 5, são mostrados esses coeficientes de variação.

 

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Além disso, foi possível calcular os dias de descanso para fins de máxima utilização (ideal) para cada período, a partir do número de folhas vivas e do aparecimento de folhas (dias/folha) (TABELA 6).

 

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Taxas de acúmulo de matéria seca

Para se calcular a taxa da acúmulo de matéria seca a partir da avaliação de fluxo de tecidos (método não destrutivo), basta somar as partes que cresceram (mg MS/perf.) multiplicar-se pela densidade de perfilhos (no perf./m2) do período e transformar o produto em Kg/ha.

Para se obter essa taxa através de amostragens com o uso de cortes de forragem (método destrutivo), basta calcular-se o quanto foi acumulado no período (diferença entre pré e pós-pastejo consecutivos) e dividir-se o valor obtido pelo número de dias de descanso (intervalo entre pastejos).

Os resultados obtidos foram satisfatórios, já que não se esperava curvas sobrepostas (item 3.4.5.) e sim que apresentassem a mesma tendência, como pode ser observado na Figura 7.

 

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Figura 7 - Comparação entre os métodos de corte e fluxo de tecidos para fins de determinação de taxas de acúmulo de matériaseca.

 

Vale ressaltar que somente fazendo a avaliação uma semana depois e uma antes do pastejo, de forma a assegurar uma média, os dados colhidos podem ser comparados aos dados de corte.

Equações de calibração

As equações obtidas no período estão contidas na TABELA 7 e Figura 8.

 

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Figura 8 - Curvas de calibração geradas pelo método indireto de avaliação de massa de forragem a partir da altura do pasto.

 

Observa-se que as curvas não se sobrepoem , ou seja, para cada período elas são diferentes. Aparentemente, a cada 2 períodos a diferença é pequena, pois a e b são muito próximos, porém somente uma análise estatística é que poderia esclarecer se essas diferenças são significativas. Para essa análise, seria preciso ter arranjos de dados diferentes e passíveis de comparação.

Contudo, não foi o objetivo desse trabalho realizar este tipo de avaliação. Planejou-se, somente, estabelecer-se relações entre altura e massa de forragem e demonstrar que essas relações variaram ao longo do ano, indicando a necessidade de calibração constante e periódica de métodos indiretos de avaliação de acúmulo de massa de forragem.

 

CONCLUSÕES

As técnicas de avaliação de disponibilidade de forragem, taxa de acúmulo de matéria seca, composição botânica, densidade de perfilhos e fluxo de tecidos apresentaram resultados bastante satisfatórios quando aplicados à espécie Cynodon dactylon, ou seja, os coeficientes de variação das medições e amostragens ficaram dentro de limites aceitáveis para experimentos a campo (< 30 %), onde o controle sobre as condições do meio é restrito.

Já a avaliação de dinâmica populacional de perfilhos ou perfilhamento necessitou algumas alterações no decorrer do ensaio em função da diferença de origem dos perfilhos produzidos entre o C. dactylon e as espécies de clima temperado. Os resultados permitem inferir que existe uma participação significativa de perfilhos oriundos do sub-solo em relação aos aéreos, provavelmente provenientes de rizomas.

Portanto, essas técnicas de avaliação podem ser utilizadas em variedades de C. dactylon ou mesmo em plantas que apresentem o mesmo hábito de crescimento.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O trabalho tratou de uma espécie que tem uma expressiva importância na alimentação de ruminantes. Plantas desse mesmo gênero e espécie (cultivares), que vem ganhando espaço na pecuária, recentemente mas são, no entanto, e são muito pouco estudadas.

Daí a grande necessidade de avaliações de parâmetros que permitam conhecer a ecologia da planta com a finalidade de gerar-se um banco de dados que propicie condições de manejo racional da pastagem, ganhando em produção, qualidade e longevidade da espécie.

 

AGRADECIMENTOS

À FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo) pelo fornecimento de Bolsa de Iniciação Científica no período experimental.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 30.01.98
Aceito para publicação em 18.12.98

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