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Scientia Agricola

On-line version ISSN 1678-992X

Sci. agric. vol.56 n.3 Piracicaba July 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-90161999000300002 

Ácido Giberélico (GA3) e maturação de frutos das tangerinas 'mexerica montenegrina'e 'poncã'

 

Celso Jamil Marur1*; Neusa Maria Colauto Stenzel1; Elcio Felix Rampazzo2; Maria Brígida Santos Scholz1
1IAPAR, C.P. 481 - CEP: 86001-970 - Londrina, PR.
2EMATER-PR, C.P.763 - CEP: 86001-970 - Londrina, PR.
*e-mail: cjmarur@pr.gov.br

 

 

RESUMO: Na região norte do estado do Paraná, Brasil, as tangerinas 'Ponkan' (Citrus reticulata) e 'Montenegrina' (Citrus deliciosa) geralmente são colhidas em maio e julho, respectivamente. Aplicações de produtos à base de GA3 podem estender o período de produção, permitindo aos produtores programar a colheita e obter melhores preços. Neste trabalho foi estudado o efeito do GA3 sobre a maturação dos frutos de ambas as espécies, nos anos de 1996 e 1997. Os tratamentos constaram de concentrações compreendidas entre 20 e 60 mg L-1 de GA3 aplicadas ao início da mudança de cor dos frutos e quando a coloração alaranjada estava mais avançada. A cada 21 dias a maturação dos frutos foi visualmente avaliada e 6 frutos por parcela foram amostrados para análises do grau Brix e acidez. Com os resultados obtidos, pode-se concluir que a aplicação do produto parece ser mais eficiente quando efetuada no início de mudança de coloração do fruto, por mantê-los verdes por um período maior. Para ambas as espécies parece não ter havido diferenças entre as concentrações do produto, que estenderam o período de colheita por aproximadamente 3 semanas. Verificou-se, também, que o produto aplicado agiu somente na aparência da casca, sem alterar as características do suco.
Palavras-chave: ácido giberélico, maturação, mexerica 'Montenegrina', tangerina 'Poncã'

 

Gibberellic Acid  (GA3) and the ripening of 'Ponkan' and 'Montenegrina' mandarin frutts

ABSTRACT: In the North region of the Paraná State, Brazil, 'Ponkan' (Citrus reticulata) and 'Montenegrina' (Citrus deliciosa) mandarins are usually harvested in May and July, respectively. Application of giberelic acid (GA3) could extend the ripening period, allowing farmers to program harvest to obtain better prices for the fruits. In this work, the effect of GA3 on the maturation of fruits of both species of mandarins, was studied during 1996 and 1997. GA3 was applied at rates between 20 and 60 mg L-1, at the begining of fruit colour change or when the orange colour was more advanced. Every 21 days, the ripening of fruits was visually evaluated and 6 fruits per plot were sampled for analysis of brix and acidity. The results showed that GA3 seems to be more efficient when applied at the begining of fruit colour change, to keep them greenish for a longer time. For both species, there were no differences for the concentrations of the product, which extended the harvest for approximately 3 weeks. In both mandarin species, GA3 had effect only on peel appearance, with no underisable influence on juice quality.
Key words: gibberellic acid, ripening, 'Montenegrina' mandarin, 'Ponkan' mandarin

 

 

INTRODUÇÃO

As tangerinas representam o segundo grupo de frutos cítricos em importância da citricultura mundial. Os principais produtores a nível mundial são a China, Espanha e Japão, sendo que o Brasil está situado como o quarto produtor, apresentando uma área superior a 45 mil hectares. No Brasil, as variedades tangerina 'Poncã' (Citrus reticulata Blanco) e tangerina mexerica 'Montenegrina' (Citrus deliciosa Tenore) apresentam boa aceitação comercial e o estado do Paraná, que planta basicamente tangerina 'Poncã', está posicionado como o terceiro produtor com 6340 hectares (Coelho, 1996).

As tangerinas mexericas apresentam certas características que as distinguem das demais tangerinas, como tamanho pequeno e forma lanceolada das folhas, aroma especial do óleo das folhas, aroma agradável do suco e natureza distinta da fragrância do óleo da casca do fruto (Leite Júnior, 1992). Embora recebam denominações diferentes nas diversas regiões onde são cultivadas, o que pode sugerir grande variabilidade entre os materiais , pouca ou nenhuma diferença tem sido encontrada entre as mexericas procedentes de várias regiões. Exceção é a tangerina mexerica 'Montenegrina', originária do Rio Grande do Sul, que apresenta maturação tardia.

A maturação dos frutos cítricos ocorre através de processo fisiológico acompanhado por trocas físicas e químicas que dão origem a novas substâncias, enquanto outras se transformam, para que se atinja finalmente um equilíbrio entre ácidos e açúcares. Este processo é determinado por um conjunto de fatores externos, como por exemplo o tipo de clima, características do solo, etc, e internos, aqueles que a própria planta sintetiza, tais como os hormônios vegetais.

A atividade metabólica da planta está diretamente relacionada com o equilíbrio dos níveis específicos de seus hormônios, sendo que este equilíbrio pode ser alcançado pela utilização de substâncias exógenas reguladoras de crescimento.

Na literatura tem sido relatados diversos trabalhos sobre o aumento do período de colheita de frutos cítricos através da aplicação de produtos à base de ácido giberélico (Fachinello et al., 1994; Barros & Rodrigues, 1994). Esta prática foi inicialmente concebida na tentativa de controle das moscas-das-frutas, pragas consideradas entre as de maior importância econômica para a citricultura. Normalmente, antes de atingir a maturação, os frutos possuem, como defesa natural, a firmeza de suas cascas e a presença de óleos tóxicos. À medida que os frutos desenvolvem-se, suas cascas ficam mais macias e o nível daqueles óleos diminui, tornando o fruto mais susceptível ao dano. A aplicação do produto à base de ácido giberélico em frutos ainda verdes resulta em redução nas alterações da casca, promovendo, assim, maior controle ao ataque desta praga. Outras consequências interessantes desta aplicação são a uniformização e o retardamento da maturação, que são fatores determinantes para a programação do escalonamento da colheita e a obtenção de melhores preços do produto colhido.

Esta prática, portanto, aplicada à tangerina mexerica 'Montenegrina', poderia prolongar ainda mais o período de sua maturação, favorecendo o produtor tanto no escalonamento da colheita, como na possibilidade de obter melhores preços.

Da mesma forma, esta prática também pode apresentar-se favorável para a tangerina 'Poncã', cujo período de maturação está concentrado nos meses de maio e junho no norte do Paraná.

A cultura de tangerinas é mais uma opção agrícola ao produtor, e pesquisas que contribuam para o seu êxito são de fundamental importância. Este trabalho foi conduzido para verificar o efeito da aplicação de ácido giberélico, em diferentes épocas e concentrações, na tangerina mexerica 'Montenegrina' e na tangerina 'Poncã', objetivando a permanência do fruto por mais tempo na planta, sem que se alterem suas qualidades.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os trabalhos foram conduzidos em pomares comerciais, nos anos de 1996 e 1997 sendo a tangerina 'Poncã' estudada no município de Cambé e a tangerina mexerica 'Montenegrina' no município de Ibiporã, ambos localizados no Norte do Paraná, a 23o25' de latitude Sul.

Em todos os experimentos a unidade experimental foi formada por duas plantas, com 4 repetições, em um delineamento experimental de blocos ao acaso.

Em 1996, no experimento da 'Poncã', os tratamentos constaram de aplicações de ácido giberélico (GA3) nas concentrações de 20, 30, 40 e 60 mg L-1, efetuadas ao início da mudança de coloração dos frutos (21/03/96 - Época 1) e quando a coloração estava mais avançada (09/04/96 - Época 2). Assim, juntamente com o tratamento controle, o trabalho constou de 9 tratamentos. As aplicações foram feitas com pulverizador costal, com bico leque, procurando molhar uniformemente as folhas e frutos.

Para a 'Montenegrina', foram estudados 5 tratamentos, a saber: controle; 30 mg L-1 de GA3 ao início de mudança da coloração (16/05/96, época 1); 30 mg L-1 em 16/05 + 30 mg L-1 com a coloração mais avançada (30/05/96); 30 mg L-1 em 30/05 (época 2), e 60 mg L-1 em 16/05.

No ano seguinte (1997), tanto para a 'Montenegrina' como para a 'Poncã', foram estudados os tratamentos: i) controle; ii) 30 mg L-1 de GA3 ao início de mudança da coloração; iii) 60 mg L-1 ao início de mudança da coloração; iv) 30 mg L-1 ao inicio de mudança da coloração + 30 mg L-1 com a coloração mais avançada; v) 30 mg L-1 com a coloração mais avançada; vi) 60 mg L-1 com a coloração mais avançada.

Para a 'Poncã', a aplicação do inicio de mudança da coloração ocorreu em 04/03/97 e a da coloração mais avançada em 25/03/97. Para a 'Montenegrina' as aplicações acima ocorreram em 06/05/97 e 27/05/97, respectivamente.

Nos dois anos, aproximadamente aos 20, 40, 60 e 80 dias após a primeira aplicação, foram coletados 3 frutos de cada planta (6 por parcela), para análise dos seguintes parâmetros físico-químicas: sólidos solúveis totais (grau Brix), acidez e ratio (relação entre sólidos solúveis totais e acidez). Nestes dias também foram dadas notas de maturação (escala compreendida entre notas 1, para frutos verdes e 5, para frutos completamente maduros). Procedeu-se, em todos os casos, à análise de variância e as médias foram comparadas através do teste Tukey, a 5% de probabilidade.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As notas de maturação obtidas para a tangerina 'Poncã', em 1996, encontram-se na Figura 1-A. Nota-se que aos 40 dias após a primeira aplicação, todos os tratamentos mostraram-se diferentes do controle, que apresentava-se com a nota 3,73. Na amostragem seguinte (20/05/96, 61 dias após a primeira aplicação), as plantas do tratamento controle e, por conseguinte de todo o pomar, atingiram a nota 4,5; nesta data os tratamentos com aplicação do produto também mostraram-se estatísticamente diferentes do controle, apresentando notas mais baixas. O ponto de colheita do pomar, portanto, ocorreu entre os dias 10 e 20/05/96.

 

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Figura 1 - Notas de maturação na tangerina 'Poncã', no ano 1996, em função das concentrações e épocas de aplicação de ácido giberélico.

 

Na amostragem do dia 11/06/96, somente os tratamentos que receberam a aplicação do produto ao início de mudança de coloração dos frutos, independentemente da concentração, mostraram-se estatísticamente diferentes do controle, enquanto a aplicação efetuada em 09/04/96 mostrou-se igual.

Com relação às análises físico-químicas, os parâmetros acidez e ratio não apresentaram diferenças para os diferentes tratamentos. Quanto ao parâmetro grau Brix, houve diferença significativa, na amostragem do dia 20/05, entre o tratamento controle e a concentração de 60 mg L-1 aplicada no início de mudança da coloração (Figura 1-B); nesta ocasião, a nota de maturação deste tratamento também foi a menor, juntamente com a do tratamento 40 mg L-1 aplicados na mesma época (Figura 1-A).

No segundo ano (1997), os tratamentos com aplicação do produto apresentaram notas de maturação estatísticamente diferentes do controle já a partir dos 42 dias. Aos 81 dias após a primeira aplicação, quando as plantas controle atingiram a plena maturação (nota 5), os tratamentos com aplicação do produto apresentaram notas inferiores a 4,0 e atingiram a maturação plena somente 20 dias depois (Figura 2-A). Quanto às análises físico-químicas (Figura 2-B, C e D), ocorreram diferenças significativas somente no parâmetro ratio, sendo que as aplicações realizadas com a coloração mais avançada conferiram valores maiores que aqueles obtidos no controle e no início de mudança de cor. Este resultado indica, portanto, que as aplicações procedidas no início da mudança da cor não alteram a qualidade do fruto.

 

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Figura 2 - Notas de maturação (A), valores de grau Brix (B), de acidez (C) e de ratio (D) observados na tangerina 'Poncã', no ano 1997, em função das concentrações e épocas de aplicação de ácido giberélico.

 

Os resultados obtidos para a tangerina mexerica 'Montenegrina', em 1996, encontram-se na Figura 3. As notas observadas nos tratamentos com aplicação do produto foram diferentes do controle nas amostragens dos dias 17/06/96 e 05/07/96. Nota-se que entre 30/05/96 e 17/06/96 o tratamento controle apresentou abrupta evolução na sua maturação, o que não ocorreu nos tratamentos com a aplicação do produto; neste momento, as plantas controle já pareceram atingir, visualmente, o ponto de maturação.

 

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Figura 3 - Notas de maturação observadas na tangerina mexerica 'Montenegrina', no ano 1996, em função das concentrações e épocas de aplicação de ácido giberélico.

 

Na amostragem de 05/07/96 a concentração de 60 mg L-1, aplicada ao início de mudança da coloração, mostrou-se também diferente da concentração de 30 mg L-1 aplicada naquele momento, indicando a maior eficiência daquele tratamento.

Quanto às análises físico-químicas, ocorreu diferença significativa somente no parâmetro grau Brix na amostragem do dia 17/06, quando os tratamentos D e E mostraram-se com valores menores que o controle.

No ano seguinte, em 18/06/97, quando o pomar já atingia a plena maturação, os tratamentos com aplicação do produto apresentaram-se estatísticamente diferentes quanto à nota de maturação (Figura 4-A). Nestes tratamentos a maturação plena foi atingida somente 30 dias depois do controle. Estes resultados foram similares aos encontrados por Fachinello et al.(1994), e Barros & Rodrigues (1994) que verificaram que a aplicação de 20 mg L-1 de ácido giberélico levou ao atraso na coloração da casca da laranja 'Valência' e tangerina 'Poncã', respectivamente. Em todas as amostragens, os níveis de grau Brix, de acidez e ratio não mostraram-se diferentes do controle (Figura 4-B, C e D).

 

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Figura 4 - Notas de maturação (A), valores de grau Brix (B), de acidez (C) e de ratio (D) observados na tangerina mexerica 'Montenegrina', no ano 1997, em função das concentrações e épocas de aplicação de ácido giberélico.

 

A aplicação do produto, portanto, resultou na manutenção do nível de clorofila por mais tempo no fruto, sem que se afetasse o nível de açúcares nem a maturação interna. A aplicação do ácido giberélico, portanto, produziu frutos mais firmes e com melhor aspecto na questão da coloração, com maior aceitação por parte do consumidor. O período de colheita no presente experimento, pôde ser prolongado em até 30 dias, o que favoreceria o produtor na programação do escalonamento da colheita, de acordo com as necessidades do mercado.

 

CONCLUSÕES

Em vista dos resultados discutidos, pode-se concluir que:

  • a aplicação do produto parece ser mais eficiente quando efetuada ao início de mudança da coloração do fruto, por mantê-los verdes por um período maior;

  • com os dados obtidos no segundo ano, parece não ter havido diferenças entre as concentrações do produto, tanto para a 'Poncã' como para a 'Montenegrina';

  • o GA3 agiu somente na aparência da casca, sem alterar as características do suco.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARROS, S.A.; RODRIGUES, J.D. Efeito de fitorreguladores na maturação do fruto da tangerineira 'Ponkan' (Citrus reticulata). In: CONGRESSO BRASILEIRO DE FRUTI-CULTURA, 13., 1994. Resumos. Salvador: Sociedade Brasileira de Fruticultura, 1994. v.2, p.355-356.         [ Links ]

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Recebido para publicação em 18.09.98
Aceito para publicação em 10.12.98

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