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Scientia Agricola

versão impressa ISSN 0103-9016

Sci. agric. v.56 n.3 Piracicaba Jul. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-90161999000300025 

Produção e perfilhamento de Brachiaria decumbens Stapf. em função de doses de enxofre1

 

Anacleto Ranulfo dos Santos2,4*; Francisco Antonio Monteiro3,5
2Escola de Agronomia - UFBA, CEP: 44.380-000 - Cruz das Almas, BA.
3Depto. de Solos e Nutrição de Plantas - ESALQ/USP, C.P. 09 - CEP: 13418-900 - Piracicaba, SP.
4Bolsista da CAPES.
5Bolsista do CNPq.
*e-mail: anacleto@ufba.br

 

 

RESUMO: O experimento foi realizado em casa-de-vegetação em Piracicaba, São Paulo, no período de outubro a dezembro de 1996, com Brachiaria decumbens Stapf. cv. Basilisk cultivada em solução nutritiva e utilizando sílica como substrato. Foi empregado o delineamento de blocos completos ao acaso, com quatro repetições. O primeiro corte das plantas foi efetuado 40 dias após transplante para os vasos, e o segundo corte 30 dias após o primeiro. Foram avaliadas oito doses de enxofre (0; 2; 4; 16; 32; 48; 64 e 80 mg L-1) na produção de matéria seca e no número de perfilhos. As doses de enxofre proporcionaram aumentos na produção de matéria seca da parte aérea e das raízes do capim-braquiária e influenciaram o número de perfilhos no segundo crescimento dessa forrageira.
Palavras-chave: capim-braquiária, enxofre, solução nutritiva

 

Herbage yield and tillering of Brachiaria decumbens Stapf. in response to sulfur

ABSTRACT: An experiment with Brachiaria decumbens Stapf. cv. Basilisk in a sand subtrate was carried out under greenhouse conditions from October to December 1996. The objective was to determine the effect of sulfur fertilization (eight sulfur levels were used: 0; 2; 4; 16; 32; 48; 64 and 80 mg L-1 of solution) on the forage dry weight and tiller number. A randomized complete block design, with four replications, was used. At forty and seventy days after transplanting, the first and second harvest were performed. Sulfur rates significantly increased grass shoot and root dry weight and influenced the tiller number in the plants.
Key words: signal grass, sulfur, nutrient solution

 

 

INTRODUÇÃO

A exploração racional das pastagens é fundamental para aumentar a disponibilidade de forragem e melhorar a qualidade da alimentação dos herbívoros. A Brachiaria decumbens Stapf., comumente denominada capim-braquiária, é bastante difundida nas regiões brasileiras e apresenta boa adaptação principalmente nas áreas de Cerrado, as quais se caracterizam pela relativa acidez e baixa fertilidade dos solos. Carvalho et al. (1991) relataram que as pastagens formadas com essa forrageira têm apresentado redução gradativa de produtividade após seu estabelecimento. Também Soares Filho et al. (1992) relataram que a maioria das pastagens com capim-braquiária no Estado de São Paulo vem apresentando queda de produção no decorrer dos subsequentes ciclos. Estima-se que pastagens de braquiárias ocupem mais de 40 milhões de hectares no Brasil e a Brachiaria decumbens Stapf. junto com a Brachiaria brizantha cv. Marandu representam mais de 85 % dessa área (Valle & Miles, 1994).

A maior utilização de adubos concentrados nos anos recentes vem reduzindo significativamente a adição de enxofre em áreas de cultivo, com efeitos mais agravantes em solos de textura mais arenosa e com baixo teor de matéria orgânica, situados em áreas com alta incidência pluvial. Ressalta-se, também, que a percolação de água no perfil do solo favorece a lixiviação do sulfato e que áreas submetidas a queimadas periódicas facilitam a volatilização do enxofre (Malavolta et al., 1974; Vitti & Novaes, 1986). Esse nutriente é constituinte dos aminoácidos cistina, cisteína e metionina, os quais constituem cerca de 90% do total de enxofre na planta. Em condições de baixa disponibilidade desse nutriente tem-se constatado limitação na produção de matéria seca de forrageiras (Werner & Monteiro, 1988).

Marques et al. (1995) relataram que a omissão de enxofre não influenciou o perfilhamento e nem o rendimento total de matéria seca da parte aérea dos capins braquiarão e andropogon cultivados em Cambissolo álico. Em estudo com solução nutritiva, Monteiro et al. (1995) verificaram significativas reduções na produção de matéria seca e no número de perfilhos da Brachiaria brizantha, conhecido como braquiarão, no tratamento em que se omitiu enxofre quando comparado ao tratamento completo.

Os objetivos deste estudo foram de avaliar as respostas da Brachiaria decumbens Stapf. cv. Basilisk quanto à produção de matéria seca e ao perfilhamento, quando submetida a doses de enxofre em solução nutritiva.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi realizado no período de outubro a dezembro de 1996, em casa-de-vegetação, do Departamento de Solos e Nutrição de Plantas da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" em Piracicaba, São Paulo, utilizando-se a espécie forrageira Brachiaria decumbens Stapf. cv. Basilisk. Foram utilizadas oito doses de enxofre em solução nutritiva correspondentes a: 0, 2, 4, 16, 32, 48, 64 e 80 mg de S L-1 . As soluções foram preparadas a partir da solução de Sarruge (1975), devidamente modificada para as doses de enxofre propostas.

Foi empregado o delineamento experimental de blocos completos ao acaso, com oito doses de enxofre e quatro repetições, sendo que cada repetição constou de dois vasos. Assim sendo, empregaram-se 64 vasos nesse estudo.

As sementes de braquiária foram germinadas em bandejas plásticas, contendo areia lavada em água corrente e posteriormente em água deionizada. Vasos plásticos com capacidade para 3,6 litros foram preenchidos com sílica, que também foi lavada até retirada das impurezas e que apresentava partículas com diâmetro em torno de 2-3 mm.

Após 14 dias da semeadura, 15 mudas com cerca de 5 cm de altura foram transplantadas em cada vaso e foi adicionado um litro de solução diluída a 30% da concentração total correspondente a cada dose de enxofre. Procederam-se a desbastes periódicos até permanecerem cinco plantas por vaso. Após oito dias do transplante, as soluções com concentração definitiva foram adicionadas nos vasos e foram trocadas a cada 14 dias. As soluções foram circuladas através da sílica três vezes ao dia para que houvesse aeração das mesmas e a solução de cada vaso foi drenada à noite para um litro receptor. O volume de cada litro foi completado diariamente com água deionizada, antes de ser adicionado no seu respectivo vaso pela manhã. Durante o período experimental, a cada três dias, os vasos eram remanejados dentro de cada bloco para que houvesse menor efeito das condições ambientais.

Aos 40 dias após o transplante procedeu-se ao primeiro corte e as plantas foram separadas em folhas não-expandidas, lâminas de folhas novas (lâminas das duas folhas superiores totalmente expandidas), lâminas de folhas velhas (lâminas das demais folhas) e colmos+bainhas (colmos propriamente dito mais as bainhas que foram mantidas a eles circundadas). As folhas foram consideradas totalmente expandidas quando apresentavam a lígula visível.

O segundo corte da forrageira foi realizado 30 dias após o primeiro e as plantas foram separadas segundo o mesmo critério, sendo que as raízes também foram separadas e lavadas. O material vegetal foi colocado para secar em estufa de circulação de ar, à temperatura de 650C, até massa constante.

As produções de matéria seca de cada componente da parte aérea e das raízes foram obtidas através de pesagens do material vegetal após a secagem em estufa. A produção total da parte aérea foi obtida pela soma dos pesos de cada parte.

Os resultados foram submetidos à análise estatística de variância e em função do nível de significância no teste F para doses de enxofre, procedeu-se ao estudo de regressão ou teste de médias (Tukey 5%), utilizando-se o programa estatístico SAS Institute (1989).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise de variância mostrou significância (P<0,01) do efeito das doses de enxofre na solução na produção de matéria seca da parte aérea e das raízes, tanto no primeiro quanto no segundo crescimento da forrageira (Figura 1).

 

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Figura 1 - Produção de matéria seca da parte aérea e das raízes do capimbraquiária no primeiro e segundo cortes em função das doses de enxofre na solução nutritiva.

 

A produção da parte aérea do capim-braquiária, nos dois crescimentos mostrou ajuste a um modelo de segundo grau, enquanto as raízes ajustaram-se a um modelo linear. No primeiro crescimento a forrageira apresentou um incremento na produção de matéria seca da parte aérea de 19%, considerando a produção desde condições de omissão do nutriente até a máxima produção. Comparativamente, verificou-se que no primeiro crescimento da planta a produção de matéria seca foi inferior ao crescimento subsequente para todas as doses de enxofre estudadas. No segundo crescimento foi observado que a produção de matéria seca apresentou um incremento de 48% para as mesmas condições avaliadas no primeiro cultivo. Esta diferença entre as produções, que foi de 2,5 vezes maior no segundo cultivo, pode ser atribuída à existência do maior volume de raízes que podem ter favorecido a uma maior absorção de nutrientes e, naturalmente, um maior desenvolvimento vegetativo da forrageira. Além disso, nesse segundo período a forrageira já se encontrava estabelecida.

Através das equações de regressão apresentadas na Figura 1, obteve-se que as doses de enxofre de 78 e 62 mg L-1 foram as que proporcionaram as máximas produções de matéria seca da parte aérea no primeiro e no segundo cortes da forrageira, respectivamente. Vale ressaltar que a máxima produção de matéria seca no primeiro crescimento representou apenas 40% da obtida por ocasião do segundo corte. Hoffmann (1992) verificou que as máximas produções de matéria seca da parte aérea dos capins braquiária e Colonião somente foram alcançadas mediante aplicações de altas doses de enxofre a um Latossolo Vermelho-Escuro de baixa fertilidade.

Para as raízes, houve um incremento de produção de matéria seca da ordem de 39%, entre a dose 0 e a de 80 mg de S L-1 (Figura 1). A resposta linear apresentada pelo sistema radicular às doses de enxofre indica que o capim-braquiária pode produzir mais massa de raízes a concentrações mais elevadas de enxofre na solução que as utilizadas neste estudo. Este efeito de linearidade na produção de matéria seca das raízes deve ser considerado como informação relevante para a definição de um programa de manejo mais adequado para esta braquiária, quanto ao uso de fertilizantes contendo enxofre.

Monteiro & Ono (1995) também obtiveram respostas significativas (P<0,01) na produção de matéria seca de raízes de Brachiaria brizantha em função da aplicação de enxofre na solução nutritiva.

O perfilhamento da forrageira foi afetado significativamente (P<0,01) pelas doses de enxofre, apenas no segundo corte (Figura 2). Nesse corte verificou-se que as doses de enxofre de 64 e 80 mg L-1 não diferiram entre si, mas tiveram número de perfilhos superior ao das doses mais baixas de enxofre.

 

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Figura 2 - Perfilhamento do capim-braquiária no primeiro e segundo cortes, em função das doses de enxofre na solução nutritiva. Letras diferentes entre níveis de enxofre, para o mesmo corte, indicam diferenças significativas (Tukey a 5%).

 

Respostas ao enxofre, semelhantes às obtidas neste estudo, foram verificadas por Marques et al. (1995) no perfilhamento dos capins andropogon e braquiarão. Por outro lado, Hoffmann (1992) verificou respostas significativas deste nutriente no perfilhamento da braquiária no primeiro corte, com o máximo número de perfilhos obtido em alta disponibilidade de enxofre. Além disso, não constataram influência do enxofre no perfilhamento do capim-colonião. Efeito significativo do enxofre no perfilhamento do braquiarão cultivado em solução nutritiva também foi verificado por Monteiro et al. (1995).

A diferença do número de perfilhos entre os dois cortes da forrageira pode ser devido ao melhor estabelecimento do sistema radicular existente no segundo crescimento da forrageira, promovendo uma maior absorção de nutrientes e maior acúmulo de assimilados pela fotossíntese e de energia necessária para estimular o número de gemas basais existentes. Além disso, o procedimento do corte também estimula o perfilhamento, ao proporcionar maior luminosidade na base da planta (Langer, 1963).

 

AGRADECIMENTO

Os autores agradecem à FAPESP pelo auxílio financeiro.

 

CONCLUSÃO

As doses de enxofre proporcionaram aumentos na produção de matéria seca da parte aérea e das raízes do capim-braquiária e influenciaram no número de perfilhos no segundo crescimento dessa forrageira.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 12.12.97
Aceito para publicação em 14.05.99

 

 

1Parte da Tese de Doutorado do primeiro autor apresentada à ESALQ/USP - Piracicaba, SP.