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Scientia Agricola

On-line version ISSN 1678-992X

Sci. agric. vol.56 n.4 Piracicaba Oct./Dec. 1999

https://doi.org/10.1590/S0103-90161999000400017 

Intensidades de pastejo e a composição morfológica de pastos de Cynodon spp.

 

Jailson Lara Fagundes1,3; Sila Carneiro da Silva2*; Carlos Guilherme Silveira Pedreira2; Roberta Aparecida Carnevalli1,3; Carlos Augusto Brandão de Carvalho1,4; André Fisher Sbrissia1,4; Luiz Felipe de Moura Pinto1,3
1Pós-Graduandos do Depto. de Produção Animal - ESALQ/USP.
2Depto. de Produção Animal - ESALQ/USP, C.P. 9 - CEP: 13418-900 - Piracicaba, SP.
3Bolsista da CAPES.
4Bolsista da FAPESP.
*e-mail: scdsilva@carpa.ciagri.usp.br

 

 

RESUMO: Avaliou-se a composição morfológica de pastos de Cynodon spp. (‘Tifton 85’, ‘Florakirk’ e ‘Coastcross’) submetidos a quatro intensidades de pastejo (5, 10, 15 e 20 cm) estabelecidas por ovinos em regime de lotação contínua. O delineamento experimental utilizado foi o de blocos completos casualizados com quatro repetições e parcelas sub-divididas, onde na parcela foram alocados os cultivares e na sub-parcela as intensidades de pastejo. O período de avaliação foi de 3 de julho a 31 de dezembro de 1998. Pastos mantidos mais altos apresentaram as maiores massas de forragem (kg MS ha-1), sendo que ‘Tifton 85’ apresentou os valores mais elevados, seguido de ‘Florakirk’ e de ‘Coastcross’. Valores calculados para densidade "bulk" (kg MS cm-1 ha-1) mostraram-se mais elevados para pastos mais baixos, sendo que ‘Tifton 85’ apresentou os maiores valores para qualquer das alturas estudadas. Os cultivares foram classificados em ordem decrescente de proporção de material vivo no pasto da seguinte maneira: ‘Tifton 85’ > ‘Coastcross’ > ‘Florakirk’. Já o comportamento dos cultivares em relação a material morto foi o inverso. Ocorreu um aumento do percentual de haste no pasto com o avanço do período experimental. Os cultivares não apresentaram uma relação consistente quanto a proporção de haste, mas puderam ser classificados em ordem decrescente quanto a proporção de folha da seguinte maneira: ‘Tifton 85’ > ‘Coastcross’ @ ‘Florakirk’. As diferentes intensidades de pastejo estudadas não apresentaram influência sobre as características morfológicas avaliadas.
Palavras-chave: Cynodon, intensidade de pastejo, composição morfológica

 

Grazing intensities and the morphological composition of Cyonodon spp. pastures

ABSTRACT: The morphological composition of three Cynodon spp. pastures, mantained under steady state conditions, was evaluated under a complete randomized block design with four replications. Treatments were assigned to experimental units according to a split-plot arrangement. Grass cultivars (‘Tifton 85’, ‘Florakirk’ and ‘Coastcross’) were allocated to plots and grazing intensities (5, 10, 15 and 20 cm) to sub-plots. Grazing intensities were established by sheep under a continuous stock management and measurements performed from 3 July to 31 December, 1998. Taller swards presented the highest values for herbage mass (kg MS ha-1), with ‘Tifton 85’ ranking first and followed by ‘Florakirk’ and ‘Coastcross’. Calculated values of bulk density (kg MS cm-1 ha-1) were higher for short swards, with ‘Tifton 85’ presenting the highest values for any of the sward heights used. Cultivars were ranked in order of decreasing live material proportion as ‘Tifton 85’ > ‘Coastcross’ > ‘Florakirk’. Ranking regarding the proportion of dead material in the swards followed an inverse order. There was an increase in the proportion of stem in the sward as the experimental period progressed. No consistent behaviour of the stem component throughout the experimental period was observed. According to the leaf proportion in the swards, cultivars were ranked as ‘Tifton 85’ > ‘Coastcross’ @ ‘Florakirk’. Different grazing intensities did not have any influence on the morphological traits evaluated.
Key words: Cynodon, grazing intensity, morphological composition

 

 

INTRODUÇÃO

Ao longo dos anos as plantas do gênero Cynodon despertaram grande interesse e ganharam popularidade devido à sua facilidade de cultivo, alta produção de forragem (20 a 25 t MS.ha-1.ano-1) de bom valor nutritivo (11 a 13% de proteína bruta e 58 a 65% de digestibilidade) (Pedreira, 1996). No entanto, segundo Da Silva & Pedreira (1997) poucos têm sido os trabalhos que têm gerado informações suficientes para que o planejamento de estratégias de desfolha eficientes possa ser elaborado visando máxima utilização da pastagem, promovendo produtividade e sustentabilidade. A maioria dos trabalhos são relacionados com taxa de lotação, níveis de fertilizantes e avaliação de desempenho, gerando informações importantes mas, contudo, pouco relevantes para a solução dos conflitos de interesses entre planta e animal em ecossistemas de pastagens.

As práticas de manejo adotadas em um sistema de produção animal em pastagens devem ser determinadas em função das características morfológicas e fisiológicas das plantas para assegurar altas produções e persistência das pastagens, sendo que estas características interagem de maneira marcante com as condições de ambiente (Jacques, 1973). Hodgson (1990) considera que altura do relvado é uma variável estrutural do pasto que apresenta uma grande influência sobre a produção de forragem, especialmente em se tratando de gramíneas forrageiras prostradas, de porte baixo e com alto potencial de perfilhamento.

Sheehy & Cooper (1973) demonstraram que as grandes diferenças entre espécies e/ou variedades em taxas de crescimento estão associadas com diferenças na distribuição de luz dentro do relvado, sugerindo que a arquitetura e composição morfológica das plantas são fatores importantes a se considerar para explicar as características de crescimento das mesmas.

Assim, o presente estudo teve por objetivo avaliar o efeito de intensidades de pastejo sobre a estrutura do dossel de pastos de Cynodon spp., mantidos sob regime de lotação contínua por ovinos, através de variações em massa de forragem, densidade ‘bulk" e composição morfológica.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Área experimental

O ensaio foi conduzido na Unidade Experimental de Plantas Forrageiras (UEPF) em área do Departamento de Produção Animal da ESALQ/USP, Piracicaba-SP. O experimento foi instalado em solo classificado como terra roxa estruturada eutrófica, cuja análise de terra revelou os seguinte resultados: ph (CaCl2) = 5,4; MO (g kg-1) = 37,0; P (mg dm-3) = 99; K (cmolc) = 0,46; Ca (cmolc) = 7,50; Mg (cmolc) = 2,60; H+Al (cmolc) = 3,00; SB (cmolc) = 10,60; T (cmolc) = 13,60 e V(%) = 78,0. Devido à elevada fertilidade do solo não foi realizada calagem no momento da implantação das pastagens.

Durante o período experimental (3 de julho a 31 de dezembro de 1998), a temperatura média diária máxima foi de 30,0°C e a mínima de 10,8°C. Já a precipitação pluvial total foi de 626,5 mm e a umidade relativa do ar variou entre 76 e 83%. Os demais dados meteorológicos encontram-se na TABELA 1.

 

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Delineamento experimental e tratamentos

O ensaio foi realizado seguindo um delineamento de blocos completos casualizados, com parcelas subdivididas (split-plot). Os tratamentos corresponderam a três cultivares de Cynodon spp., ‘Tifton 85’, ‘Florakirk’ e ‘Coastcross’, que foram alocados às parcelas, e de quatro condições de pasto, geradas por ovinos sob regime de lotação contínua, alocadas nas sub-parcelas. Cada condição de pasto correspondeu a uma altura média de 5, 10, 15 e 20 cm, mantidas constantes através da adição ou retirada de animais das parcelas durante o transcorrer de todo o período experimental. Assim, o ensaio apresentou um total de 48 unidades experimentais (4 blocos x 12 unidades/ bloco) com uma área média de 400 m2 cada, separadas por tela de 1,20 m de altura para delimitação dos piquetes (unidades experimentais) e contenção dos animais. A área experimental total compreendeu 2,0 ha.

Cortes de uniformização foram realizados em janeiro e março de 1998. Em 3 de junho de 1998 os animais foram alocados nas unidades experimentais que haviam atingido a altura pré-determinada para os tratamentos específicos. À medida que as demais unidades experimentais atingiam a altura desejada, animais eram adicionados dando início ao processo de pastejo.

Durante a condução do experimento foram realizadas quatro adubações nitrogenadas com sulfato de amônio (40 kg N ha-1 em 08 de julho, 40 kg N ha-1 em 19 de setembro, 50 kg N ha-1 em 21 de outubro e 25 kg N ha-1 em 07 de dezembro), totalizando 155 kg N ha-1. As quantidades de fertilizantes aplicadas foram dimensionadas para que um acúmulo mínimo de forragem pudesse ser obtido para a manutenção de pelo menos dois animais nas unidades experimentais.

A intensidade de pastejo foi monitorada através da tomada de 20 medidas de altura, em cada parcela, realizada com o "rising plate meter" ou disco calibrado duas vezes por semana. Uma vez por mês era feita a calibração da altura comprimida (disco) com a altura não comprimida (régua), de forma que foi possível a geração do valor de altura usado como referência para o monitoramento dos tratamentos. Este procedimento permitiu economia significativa em tempo e procedimentos de corte (amostragens destrutivas), uma vez que o prato se mostrou um equipamento muito mais ágil, permitindo que um grande número de leituras fosse feito num curto espaço de tempo.

Avaliação

A massa de forragem (kg MS ha-1) em cada unidade experimental foi calculada a partir das alturas médias obtidas com o disco calibrado utilizando-se as equações de calibração geradas para cada cultivar e para cada mês do período experimental. A partir dos dados de massa de forragem e da altura média não comprimida, calculou-se a densidade "bulk" (kg MS cm-1ha-1).

Para avaliação da composição morfológica do pasto foi cortada a forragem contida dentro de 2 quadrados de 25 cm de lado por unidade experimental (625 cm2 por quadrado) respeitando um intervalo mensal entre amostragens sucessivas. A área amostrada correspondeu, sempre, a uma região do piquete que estivesse com uma altura média correspondente àquela do tratamento em avaliação (5, 10, 15 ou 20 cm). A forragem foi cortada ao nível do solo e levada para o laboratório no menor espaço de tempo possível. Ao final da colheita da forragem as amostras foram lavadas, sub-amostradas e fracionadas manualmente em material vivo e morto. O material vivo foi, adicionalmente, fracionado em folhas (lâminas foliares) e hastes (hastes e bainhas). Após a separação, estes componentes foram levados para secagem em estufa a 65 0C até massa constante. Após secagem, as amostras eram pesadas. Com os valores obtidos calculou-se a proporção de cada componente no pasto (% folha + % haste + % morto = 100%, sendo % folha + % haste = % vivo).

Análise estatística

Os dados coletados foram analisados utilizando-se o procedimento GLM do pacote estatístico SAS. Dentro deste procedimento a análise foi realizada pelo sub-procedimento de medidas repetidas no tempo, uma vez que todas as respostas em estudo foram avaliadas ao longo de vários meses e a não homogeneidade de correlações entre tempos fez com que um procedimento de análise multivariada tivesse que ser empregado (SAS Institute, 1988). Utilizou-se o "LSMEANS" para efeito de comparação de médias entre tratamentos.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Massa de forragem

Foram observados efeitos de mês do ano (P=0,0001), cultivar (P=0,0001), altura (P=0,0001) e interações entre mês do ano x cultivar (P=0,0006), mês do ano x altura (P=0,0037), mês do ano x cultivar x altura (P=0,0045) e cultivar x altura (P=0,0363). Os dados são apresentados na TABELA 2. ‘Tifton 85’ apresentou uma massa de forragem consistentemente mais elevada que ‘Florakirk’ e esta, por sua vez, maior que ‘Coastcross’. Com relação às alturas de pastejo, pastos mantidos mais altos apresentaram as maiores massas de forragem. Interessante notar uma tendência de aumento na massa média de forragem para os tratamentos à medida que se avançou no período experimental (maior disponibilidade de temperatura e luz, principalmente). Além disso, durante o período de avaliação, particularmente de Agosto a Novembro, os cultivares ‘Florakirk’ e ‘Coastcross’ apresentaram desenvolvimento reprodutivo (florescimento) bastante intenso e contínuo, fato este que deve ter sido responsável por variações na estrutura do pasto (e.g. densidade de forragem) devidas a mudanças nas proporções de haste no relvado.

Densidade de forragem (bulk density)

Foram observados efeitos de mês do ano (P=0,0002), cultivar (P=0,0001), altura (P=0,0001) e interações entre mês do ano x cultivar (P=0,0029), mês do ano x altura (P=0,0166), mês do ano x cultivar x altura (P=0,0090) e cultivar x altura (P=0,0041). Os dados são apresentados na TABELA 3. ‘Tifton-85’ apresentou uma densidade de forragem mais elevada que ‘Florakirk’ e esta maior que ‘Coastcross’. Este fato é consistente com as variações em massa de forragem observadas (TABELA 2) e reflete, provavelmente, as diferenças morfológicas dos cultivares em estudo. Com relação às alturas de pastejo, pastos mantidos mais baixos apresentaram as maiores densidades de forragem. Com o avanço do período experimental foi observada a tendência de aumento na densidade de forragem de forma análoga àquela ocorrida para a variável massa média de forragem (TABELA 2), aumento este que deve ter estado relacionado com o comportamento reprodutivo dos cultivares em estudo.

 

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Material vivo

Os dados referentes à porcentagem de material vivo são mostrados nas TABELAS 4 e 5. Houve diferenças referentes a meses do ano (P=0,0001), cultivar (P=0,0001) e interação entre meses do ano e cultivar (P=0,019) as quais podem ser visualizadas através da observação dos dados da TABELA 4. Foi observada também uma interação entre meses do ano e altura (P=0,011), cujos valores podem ser observados na TABELA 5.

 

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Observou-se um aumento nos valores de material vivo à medida que avançou o período experimental (meses outubro, novembro e dezembro quando comparados a agosto e setembro) (Figuras 1, 2 e 3). Este aumento deve estar relacionado com as mudanças ambientais ocorridas (TABELA 1) e à provável decomposição dos restos de forragem acumulados na superfície do solo decorrentes dos cortes de igualação realizados em janeiro e março de 1998.

 

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De maneira geral, as diferenças observadas entre cultivares foram inconsistentes ao longo do período experimental, com os valores observados variando dentro da amplitude 42,6 a 66,9% mas, de uma forma geral, os cultivares puderam ser classificados em ordem decrescente de proporção de material vivo da seguinte maneira: ’Tifton 85' > ‘Coastcross’ > ‘Florakirk’ (TABELA 4). Valle (1985) trabalhando com diferentes espécies de braquiária observou pouca diferença entre os valores médios de porcentagem de massa verde, que variaram de 67% para Brachiaria brizantha a 72% para Brachiaria humidicola.

Interessante notar que a partir de outubro, quando as temperaturas começaram a subir e os índices pluviométricos a aumentar, as maiores intensidades de pastejo proporcionaram pastos com maior percentual de material vivo (TABELA 5). Pastos mantidos sob regime de desfolha mais intensos são normalmente caracterizados por uma maior proporção de material vivo (Korte & Harris, 1987).

Clavero Cepeda (1993) também constatou diferenças para as medidas de material vivo em Cenchrus ciliaris para cada estação do ano avaliada e entre os anos estudados. Essas variações observadas em proporções de material vivo e morto no pasto são o resultado do equilíbrio dos processos dinâmicos e concomitantes de crescimento e morte/senescência de tecidos (Hodgson, 1990), os quais são afetados de forma diferenciada por práticas agronômicas e de manejo (Korte & Sheath, 1979).

Folha

Os dados referentes a porcentagem de folha no pasto são mostrados nas TABELAS 6 e 7. Houve diferenças referentes a meses do ano (P=0,0001), cultivar (P= 0,0001) e interação entre meses do ano e cultivar (P=0,0001) as quais podem ser visualizadas através da observação dos dados da TABELA 6. Foi observada também uma interação entre meses do ano e altura (P=0,0029) caracterizada pelos dados apresentados na TABELA 7.

 

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Não foi observado efeito de intensidade de pastejo (P>0,05) sobre a porcentagem de folha no pasto apesar de Humphreys (1991) relatar que a altura de corte pode resultar em variações nas proporções de folha, caule e inflorescência. Contudo, a partir do mês de outubro, observou-se tendência de maiores proporções de folha em pastos sob desfolha mais intensa, seguindo o mesmo comportamento já relatado para material vivo.

Notou-se uma diminuição nos valores de porcentagem de folha no pasto nos meses setembro, novembro e dezembro quando comparados a julho, agosto e outubro (Figuras 1, 2 e 3). Provavelmente a redução verificada no mês de setembro foi devida ao estádio de pleno florescimento em que se encontravam os cultivares ‘Coastcross’ e ‘Florakirk’, o qual limitaria a emissão de novas folhas nos perfilhos reprodutivos. Já nos meses de novembro e dezembro, os baixos valores observados podem ter sido relacionados com as mudanças ambientais ocorridas e ao baixo índice pluviométrico observado durante o mês de novembro (TABELA 1).

De acordo com os resultados de Carnevalli & Da Silva (1999), os valores porcentuais de folha para ‘Coastcross’ variaram entre 13,7 e 36,9%. Esses autores citam que a quantidade de folhas apresentou seu valor mais elevado quando os fatores de crescimento não eram limitantes (de agosto a março) reduzindo a partir daí quando a planta perdeu sua capacidade de reposição rápida de folhas, por causa da queda de temperatura e umidade, tendo a menor proporção sido registrada em julho. No presente estudo os valores médios de folhas apresentaram uma variação na faixa de 10,4 a 27,1%. Esta menor variação pode ser atribuída à curta duração do período de avaliação (6 meses) e ao método de pastejo empregado (lotação contínua vs pastejo rotacionado). Os resultados obtidos corroboram os resultados obtidos por Clapp Junior et al. (1965) com Costal bermuda. Aqueles autores relataram valores de porcentagem de lâminas verdes que variaram de 13,0 a 18,8% para os diferentes sistemas de desfolha avaliados.

Haste

Os dados referentes a porcentagem de haste no pasto são mostrados nas TABELAS 8 e 9. Houve diferenças referentes a meses do ano (P=0,0001), cultivar (P=0,0001) e interação entre meses do ano e cultivar (P=0,0001) as quais podem ser visualizadas pela observação dos dados da TABELA 8. Foi observada também uma interação entre meses do ano e altura (P=0,0029) caracterizada pelos dados apresentados na TABELA 9.

 

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Ocorreu um aumento dos valores de haste no pasto à medida que avançou o período experimental (meses de novembro e dezembro quando comparados aos demais meses) (Figuras 1, 2 e 3). Este comportamento foi o inverso daquele verificado para a porcentagem de folhas, e deve ter sido consequência do florescimento generalizado dos cultivares ocorrido no mês de Dezembro. Resultados similares foram verificados por Euclides et al. (1985) para pastagens de Panicum maximum e Brachiaria spp. ocorrendo um acréscimo na proporção de caule em relação a quantidade de folha na pastagens durante a estação de crescimento.

De acordo com os resultados de Carnevalli & Da Silva (1999) os valores percentuais de haste para ‘Coastcross’ variaram entre 22,1 e 56,2%. Esses autores citam que a quantidade de hastes manteve-se constante ao longo do período de novembro a março, diminuindo a partir da entrada do outono. No presente ensaio os valores médios de haste apresentaram uma variação na faixa de 31,8 a 49,0 %. Esta menor variação possivelmente deve-se ao diferente método de desfolha empregado no presente ensaio (lotação contínua vs pastejo rotacionado) além de, adicionalmente, as intensidades de pastejo estudadas terem sido superiores àquelas empregadas pelos autores citados.

Material morto

Os dados referentes a porcentagem de material morto são mostrados nas TABELAS 10 e 11. Houve diferenças referentes a meses do ano (P=0,0001), cultivar (P=0,0057) e interação entre meses do ano e cultivar (P=0,036) as quais podem ser visualizadas através da observação dos dados da TABELA 10. Foi observada também uma interação entre meses do ano e altura (P=0,065) caracterizada pelos dados apresentados na TABELA 11.

 

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A porcentagem de material morto no pasto não apresentou uma variação marcante durante o período experimental, exceto no mês de setembro onde os cultivares ‘Coastcross’ e ‘Florakirk’ apresentaram uma elevada porcentagem de material morto (Figuras 1, 2 e 3). A partir do mês de outubro, pastos mantidos mais baixos (desfolhas mais intensas) apresentaram menores proporções de material morto, comportamento este complementar àquele relatado para material vivo.

Gomide et al. (1997), trabalhando com braquiária sob diferentes intensidades de desfolha definidas pela altura do relvado, relatam que o IAF e a massa de forragem verde e morta aumentaram com alturas maiores de manejo, porém não apresentaram relação linear entre si bem estabelecida. Os autores indicam também que na maior altura de manejo a proporção de material morto foi menor, embora em termos absolutos a massa tenha sido semelhante entre aquelas das alturas de 30 e 40 cm.

Clapp Junior et al. (1965) observaram, em plantas de Coastal bermuda submetidas a desfolhas mais severas, a menor porcentagem de material morto. Em tratamentos de desfolha mais lenientea Coastal apresentou auto-sombreamento e a porcentagem de material morto observada foi maior.

De uma forma geral, os pastos apresentaram cerca de 60% de material vivo e 40% de material morto, sendo que para intensidades de pastejo mais leves estes valores foram próximos de 50%. As proporções de material morto no pasto podem ser consideradas elevadas e poderiam ser um indício de baixa utilização da forragem produzida. No entanto, uma análise mais cuidadosa dos fatos permite inferir que isso pode não ser verdade, uma vez que a forragem sendo utilizada seria aquela sendo consumida acima da altura de pastejo específicada, ficando a biomassa abaixo desta com acesso bastante restrito ao animal. Vale ressaltar que o objetivo das avaliações realizadas foi determinar variações na composição morfológica dos pastos como indicadoras de variação em sua estrutura e arranjo espacial. Neste caso os resultados estariam apontando apenas para uma mudança na estrutura do relvado que poderia interferir no ambiente luminoso dentro do dossel e no processo de pastejo pelos animais (comportamento ingestivo). Segundo Euclides et al. (1985), durante a estação de crescimento o acúmulo de material morto está associado a senescência natural de folhas e à rejeição destas pelo animal.

O aumento do percentual de material morto em setembro deveu-se à senescência e morte de perfilhos que encontravam-se na fase reprodutiva e que tiveram seu meristema apical decaptado. Como no mês de outubro ocorreu um aumento no percentual de material vivo, resultante de condições de ambiente favoráveis, especialmente precipitação pluviométrica somada ao efeito da adubação nitrogenada (realizada em 19 de setembro e 21 de outubro), ocorreu uma diminuição da proporção de material morto. Neste mês os processos de decomposição de material morto na base do pasto devem ter sido intensificados (temperatura e unidade do solo mais elevadas) e as taxas de crescimento aumentadas como consequência da maior disponibilidade de nitrogênio para as plantas. Já nos meses de novembro e dezembro estes valores tenderam a estabilizar-se. Wilson & Mannetje (1978) analisaram os efeitos das variáveis ambientais sobre a senescência foliar de Panicum maximum e Cenchrus ciliaris mostrando que elevado estresse hídrico, seguido de períodos úmidos, acelerou a senescência.

Carnevalli & Da Silva (1999) trabalhando com Cynodon dactylon var ‘Coastcross’ encontraram uma grande quantidade de material morto pós-pastejo, com valores de 40 a 70% da massa disponível no pré-pastejo. Os dados de composição botânica revelaram que este resíduo era formado praticamente por hastes e material morto, indicando grande seletividade por parte dos ovinos e um baixo índice de utilização da forragem produzida sob as condições de manejo utilizadas em seu ensaio.

 

CONCLUSÕES

• Pastos mantidos mais baixos apresentaram as menores massas de forragem e as maiores densidades "bulk".

• As diferentes intensidades de pastejo estudadas, no entanto, não apresentaram influência sobre as características morfológicas avaliadas.

• Os cultivares puderam ser classificados em ordem decrescente de proporção de material vivo da seguinte maneira: ‘Tifton 85’ > ‘Coastcross’ > ‘Florakirk’.

• Ocorreu um aumento dependente de cultivar do percentual de haste no pasto com o avanço do período experimental, e este esteve relacionado com o desenvolvimento reprodutivo dos cultivares em Dezembro.

• Os cultivares não apresentaram uma relação consistente quanto a proporção de haste no pasto.

• Dos três cultivares estudados, ‘Tifton 85’ apresentou a maior proporção de folhas no pasto, seguido de ‘Coastcross’ e ‘Florakirk’.

 

AGRADECIMENTOS

Aos estagiários do Grupo de Estudo com Plantas Forrageiras, que ajudaram na instalação, condução e análise deste experimento. À CAPES pela concessão da bolsa de estudos, e à FAPESP pelo financiamento deste programa de pesquisa.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Recebido para publicação em 11.02.99
Aceito para publicação em 27.05.99

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