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Scientia Agricola

versão On-line ISSN 1678-992X

Sci. agric. v.57 n.1 Piracicaba jan./mar. 2000

https://doi.org/10.1590/S0103-90162000000100027 

Nota

Avaliação de porta-enxertos para pepino tipo japonês1 

 

Márcio Santos Lima2,4*; Marcelo Fontanetti Verdial2,4; Keigo Minami3; João Tessarioli Neto3
2Depto. de Horticultura - FCA/UNESP, Faz. Lageado, C.P. 237 - CEP: 18603-970 - Botucatu, SP.
3Depto. de Produção Vegetal - USP/ESALQ, C.P. 9 - CEP: 13418-900 - Piracicaba, SP.
4Bolsista FAPESP.
*Autor correspondente <santao@zipmail.com.br>

 

 

RESUMO: A enxertia de pepino híbrido do tipo japonês em aboboreira tem por objetivo principal o manejo de doenças causadas por fungos de solo, consequentemente obter maior produtividade, além de frutos menos cerosos. Neste trabalho estudou-se o comportamento da cultivar Rensei, avaliando-se o desenvolvimento vegetativo das mudas, a produtividade e as características dos frutos das plantas enxertadas em diferentes porta-enxertos, em comparação com as não enxertadas. O trabalho foi realizado sob estufa do tipo túnel alto, com as plantas conduzidas em recipientes plásticos, de julho/96 a julho/97, em Piracicaba – SP. Os tratamentos foram os seguintes: T1 testemunha (planta não-enxertada); T2 enxertia em abóbora Menina Brasileira; T3 enxertia em abóbora híbrida Ikki; T4: enxertia em abóbora-de-moita Novita; T5 enxertia em abóbora híbrida Tetsukabuto; T6 enxertia em abóbora híbrida Kirameki. A porcentagem de pegamento da enxertia só não apresentou valores superiores a 83,3% quando se utilizou abóbora Menina Brasileira. Foram obtidos frutos mais brilhantes e com pouca cerosidade, de interesse comercial, na enxertia em Ikki e Kirameki. Nestes porta-enxertos, seguidos por Tetsukabuto, houve maior produção em peso e número de frutos por planta.
Palavras-chave: Cucumis sativus, pepino, abóbora, enxertia, muda

 

Evaluation of graft supports for japanese cucumber

ABSTRACT: The japanese cucumber hybrid grafting on pumpkin plants has the main objective of obtaining tolerance for soil diseases, higher yield and less wax on fruits. The behavior of the Rensei hybrid grafted on different supports was studied evaluating fruit characteristics, vegetative development of seedlings and yield as compared to non-grafted plants. The experiment was carried out in a high tunnel greenhouse, with the plants growing in plastic containers, between July/96 and July/97, in Piracicaba, SP, Brazil. The treatments used were: T1, control (non-grafted plant); T2, grafted on ‘Menina Brasileira’ pumpkin; T3, grafted on ‘Ikki’ hybrid pumpkin; T4, grafted on ‘Novita’ hybrid squash; T5, grafted on ‘Tetsukabuto’ hybrid pumpkin; T6, grafted on ‘Kirameki’ hybrid pumpkin. The graft catch was satisfactory, except to ‘Menina Brasileira’. Brighter fruits and with less wax were obtained for ‘Kirameki’ and ‘Ikki’. These two supports plus ‘Tetsukabuto’ presented a higher yield in terms of weight and number of fruits per plant.
Key words: Cucumis sativus, cucumber, pumpkin, grafting, seedling

 

 

INTRODUÇÃO

A cultura do pepino tipo japonês (Cucumis sativus L.) é dentre os produtos hortícolas, uma das mais utilizadas em sistema protegido (estufas), pois apresenta elevado valor econômico na entressafra da região centro-sul (maio a setembro) e ciclo vegetativo curto. Cultivares híbridos do tipo japonês alcançam elevada produtividade nestes sistemas de cultivo (Yoshimura et al., s.d.).

A enxertia do pepino e outras técnicas como uso de mulching plástico e fertirrigação, são práticas incorporadas aos cultivos de elevada produtividade e tecnificação, porém elevam o custo de investimento. Apesar disso, o incremento de tecnologia e a remodelação dos sistemas de produção e comercialização tornam-se necessários à medida que se elevam as exigências de qualidade em nossos mercados.

Dentre os fatores primordiais na condução da cultura, a propagação é prática fundamental, mas pouco utilizada de maneira eficaz por muitos olericultores. Não a utilizando convenientemente perde-se em produtividade. Segundo Filgueira (1981), a propagação é a fase da produção de hortaliças na qual são cometidos os maiores erros, por isso exige necessidade de assistência técnica intensiva.

A prática da enxertia do pepino sobre abóbora (Cucurbita moschata Duchesne), moranga (Cucurbita maxima Schrad.) ou abóboras híbridas é utilizada por muitos produtores de pepino. O objetivo é aproveitar o maior desenvolvimento radicular e rusticidade de certas abóboras. Sabe-se que esta prática pode elevar a produtividade (Zijlstra et al., 1993; Janowski & Skapski, 1985), conferir resistência à doenças de solo (Nomura, 1989; Tsambanakis,1984) e brilho aos frutos de pepino (Yoshimura et al., s.d.). É importante observar que a literatura científica nacional nesse tema é escassa.

Oda et al. (1995) cita que 85% do fracasso da produção de hortaliças em cultivos sucessivos no Japão deve-se a doenças causadas por patógenos do solo. A situação também acontece no Brasil, onde ocorrem grandes prejuízos devido à patógenos de solo.

Este trabalho teve por objetivo analisar o comportamento do pepino híbrido tipo japonês Rensei em diferentes espécies de abóboras utilizadas como porta-enxerto. Foram avaliados o pegamento e o desenvolvimento das mudas, a produção e a qualidade dos frutos sob condições de estufa.

 

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi instalado em uma estufa do tipo túnel alto, pertencente ao Departamento de Produção Vegetal da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz", Universidade de São Paulo, Piracicaba, SP, no período de julho de 1996 a julho de 1997.

O ensaio foi conduzido em duas etapas, sendo que na primeira avaliou-se o pegamento e o desenvolvimento das mudas enxertadas. Na segunda avaliou-se a produção em peso e número de frutos das plantas enxertadas após o transplante para o local definitivo.

Utilizou-se como copa o pepino híbrido tipo japonês Rensei, que foi enxertado nos porta-enxertos relacionados abaixo. Como testemunha utilizou-se o mesmo cultivar de pepino não enxertado. Os tratamentos foram os seguintes:

T1: testemunha (planta não-enxertada);
T2: enxertia em abóbora Menina Brasileira;
T3: enxertia em abóbora híbrida Ikki;
T4: enxertia em abóbora-de-moita híbrida Novita;
T5: enxertia em abóbora híbrida Tetsukabuto;
T6: enxertia em abóbora híbrida Kirameki.

Os porta-enxertos foram semeados, em julho de 1996, em bandejas de poliestireno expandido de 128 células, em substrato comercial, usando-se uma bandeja para cada material. Cerca de 3 dias após a semeadura dos porta-enxertos foi semeado o pepino híbrido Rensei, em duas bandejas de 200 células, com substrato comercial. Após 10 dias da semeadura do pepino, onde as mudas apresentavam duas folhas verdadeiras, foi realizada a enxertia por encostia conforme Yoshimura et al. (s.d.).

Para a segunda etapa do trabalho, as plantas foram transplantadas em vasos de plástico, com capacidade de cinco litros, contendo substrato comercial, dispostos no espaçamento de 1,0m x 0,5m. Foi realizada uma adubação de base no substrato com o adubo de liberação lenta Osmocote 8-6-12 (6g/litro de substrato) e, em seguida, foram feitas duas vezes por semana fertirrigações com fertilizante solúvel Peters Lite 20-10-20 (200g/100 litros de água) até o final do ciclo. Foi utilizado o sistema de irrigação por gotejamento através de "espaguetes". O tutoramento das plantas foi feito com fitilhos em condução de haste única. Os tratos fitossanitários foram realizados conforme as necessidades da cultura.

As características avaliadas na etapa de produção de mudas foram:

a) Altura da parte aérea;
b) Comprimento da raiz;
c) Matéria seca da parte aérea;
d) Matéria seca da raiz;
e) Pegamento do enxerto (%).

As características avaliadas na etapa de cultivo foram os seguintes:

a) Produção (g/planta) (PGP);
b) Número de frutos por planta (NFP);
c) Aspecto visual de brilho e cerosidade dos frutos.

Esta característica foi avaliada tomando-se como padrão os frutos do tratamento testemunha. Comparou-se visualmente as parcelas, utilizando dez frutos por parcela.

As mudas foram avaliadas no momento coincidente ao seu transplante, isto é, 20 dias após a enxertia ou 30 dias após a semeadura do pepino. Na segunda etapa, os frutos foram colhidos no ponto comercial para pepino tipo japonês, ou seja, com comprimento variando de 20 a 22 cm e diâmetro de 2 a 3 cm. O número de frutos defeituosos, apesar de terem sido contados, não foram computados, pois não mostraram diferenças estatísticas dentre os tratamentos.

O delineamento experimental foi inteiramente aleatorizado, com 6 tratamentos e 4 repetições, num total de 24 parcelas, com 10 plantas por parcela, para ambas as etapas. Os dados obtidos foram submetidos à análise de variância e ao teste F, e as médias dos tratamentos foram comparadas pelo teste de Tukey, a 5% de probabilidade.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na TABELA 1 estão relacionados os valores obtidos e estatisticamente analisados, referentes à etapa de produção das mudas. Os resultados obtidos mostram que os tratamentos T4 (enxertia em Novita) e T5 (enxertia em Tetsukabuto) apresentaram os maiores valores no crescimento da parte aérea. A enxertia aumentou a quantidade de massa da parte aérea da planta em quatro dos cinco tratamentos realizados [T2 (enxertia em Menina Brasileira), T5, T4 e T3 (em Ikki)].

 

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Para o desenvolvimento radicular em comprimento, verificou-se que os tratamentos enxertados diferiram estatisticamente da testemunha. Quanto à característica matéria seca da raiz, apenas o tratamento T2 foi inferior estatisticamente à testemunha (raiz de pepino).

Os tratamentos T3 (Ikki) e T5 (Tetsukabuto) apresentaram os maiores valores de porcentagem de pegamento da enxertia, acima de 90%, enquanto que os tratamentos T4 (Novita) e T6 (Kirameki) apresentaram pegamento superior a 80%. O tratamento T2 (Menina Brasileira) apresentou o menor valor, com 61,1% de pegamento.

Na TABELA 2 estão relacionados os valores obtidos e estatisticamente analisados referentes à etapa de produção da cultura. Observando esse quadro pode-se constatar que o tratamento T1 (testemunha) apresentou os maiores valores tanto para produção em peso como para número de frutos comerciáveis por planta em relação às plantas enxertadas. A causa provável é o ponto instável delicado (o local da encostia) e o processo de corte da haste da planta, que pode provocar um estresse nas mudas, interferindo no seu desenvolvimento. No entanto, existem referências de que a enxertia pode aumentar o número de frutos por planta (Cañizares & Goto, 1997). Em ensaios onde se avalia a enxertia como controladora de doenças de solo, certamente a produtividade aumentará, quando utilizados porta-enxertos adequados, em relação a plantas não enxertadas. Com a presença do fator limitante (fungo no solo, principalmente Fusarium solani) o potencial da enxertia será mais explorado.

 

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Comparando os porta-enxertos, percebe-se que os tratamentos T5 (enxertia em Tetsukabuto), T3 (enxertia em Ikki) e T6 (enxertia em Kirameki), apresentaram os maiores valores tanto para produção em g/planta como para número de frutos/planta. Os tratamentos T2 (enxertia em Menina Brasileira) e T4 (enxertia em Novita) apresentaram os menores valores para ambas as características. Resultados obtidos por Cañizares & Goto (1997), demonstraram que os híbridos de pepino japonês ‘Nikkey’ e ‘Ancor 8’ enxertados em ‘Ikki’ produziram maior número de frutos por planta do que as enxertadas em ‘Tetsukabuto’, sugerindo uma possível influência dos genótipos das copas na interação enxerto/porta-enxerto.

Tratamentos com maiores valores de comprimento e matéria seca da raiz coincidiram com os tratamentos que obtiveram maiores valores para produção de frutos por planta e número de frutos comerciáveis por planta (exceto testemunha, na qual o comprimento de raiz foi inferior a todos os outros tratamentos). A maior eficiência na absorção de nutrientes pelo sistema radicular dos porta-enxertos, descrito por Oda (1995), provavelmente ocorreu nas raízes das abóboras ‘Ikki’, ‘Tetsukabuto’ e ‘Kirameki’.

Quanto ao aspecto de brilho dos frutos e presença de cerosidade obteve-se, após as análises de cada colheita, os seguintes resultados:

1) O tratamento T4 (enxertia em Novita) apresentou frutos com as mesmas características visuais de brilho e cerosidade da testemunha (T1);

2) Os tratamentos T2 (enxertia em Menina Brasileira) e T5 (enxertia em Tetsukabuto) apresentaram, apesar de forma não tão proeminente, um maior nível de cerosidade e menor brilho que a testemunha T1;

3) Os tratamentos T3 (enxertia em Ikki) e T6 (enxertia em Kirameki) apresentaram maior brilho e menor cerosidade que a testemunha T1.

Os tratamentos não apresentaram diferenças quanto a sanidade das plantas, sendo esta satisfatória. A presença de doenças causadas por patógenos de solo é um fator que deve ser levado em conta em futuros trabalhos para quantificar as vantagens da enxertia no cultivo em solos com alto potencial de inóculo.

 

CONCLUSÕES

Os resultados obtidos permitem as seguintes conclusões:

  • a porcentagem de pegamento da enxertia só não apresentou valores superiores a 83,3% quando se utilizou abóbora Menina Brasileira;

  • na fase de produção de mudas, a enxertia proporcionou maior valor de matéria seca da raiz, exceto para o porta-enxerto Menina Brasileira;

  • a enxertia reduziu a produtividade em até 41%, contudo os porta-enxertos menos sensíveis foram Ikki e Tetsukabuto, seguidos por Kirameki;

  • a enxertia nas abóboras Ikki e Kirameki permitiu a obtenção de frutos de melhor qualidade: menor cerosidade e maior brilho;

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAÑIZARES, K.A.L.; GOTO, R. Efeito da enxertia de dois híbridos de pepino em dois híbridos de abóbora. In: CONGRESSO IBEROAMERICANO, 2.; CONGRESSO IBÉRICO DE CIÊNCIAS HORTÍCOLAS, 3., Vilamoura, 1997. Actas de Horticultura. Algarve, 1997. v.16, p.38-42.

FILGUEIRA, F.A.R. Manual de olericultura: cultura e comercialização de hortaliças. São Paulo: Agronômica Ceres, 1981. v.1, 338p.

JANOWSKI, G.; SKAPSKI, H. Hydro-peat method for greenhouse cucumber production. Acta Horticulture, v.156, p.27-33, 1985.

NOMURA, Y. Differences in Fusarium oxysporium f. sp. lagenariae wilt occurrence between cucumber plants grafted on pumpkin rootstock and non-grafted pumpkin plants. Proceeding of the Association for Plant Protection of Kyushu, v.35, p.30-33, 1989.

ODA, M.; TSUJI, K.; SASAKI, K. Growth and yield of tomato plants grafted using grafting instrument for plugs Bulletin National Research Institute Vegetable Ornamental Plants & Tea, v.10, p.33-38, 1995.

TSAMBANAKIS, J. Grafting cucumber hybrids on the rootstocks Cucurbita ficifolia. In: CONFERENCE ON PROTECTED VEGETABLES AND FLOWERS, 3., Heraklion, 1984. Proceedings. Ierapetra: Agricultural Research Station, 1984. 28p.

YOSHIMURA, A.M.; YOSHIDA, A.; JAMPANI, M.G. Plasticultura: uma nova tecnologia. Biritiba Mirim: s.ed., s.d. 79 p.

ZIJLSTRA, S; GROOT, S.P.C.; JANSEN, J. Genotypic variation of rootstocks for growth and production in cucumber; possibility for improving the root system by plant breeding. Scientia Horticulturae, v.56, p.185-196, 1993.

 

 

Recebido em 21.07.98

 

 

1Trabalho apresentado no 38º Congresso Brasileiro de Olericultura, Petrolina, 1998.

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