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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.9 no.2 Florianópolis  2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2001000200017 

Resenhas

 

Sexualidades, nacionalidades e escolarização

 

Sexualidades e institución escolar
EPSTEIN, D.; JOHNSON, R.
Madrid: Paideia; Ed. Morata, 2000. 232 p.

 

 

O que diferencia um livro de tantos outros que lemos e nos leva a nominá-lo como um livro especial? Essa pergunta talvez não tenha sentido quando pensamos nas leituras que fazemos com um prazer "que se constrói aos poucos, à medida que se liga a palavra à frase, ao que é dito", leituras nas quais a história ou o conteúdo, em si, quase que passam para o segundo plano, já que passa a importar muito mais "a maneira como esse narrado vai sendo desenvolvido, num crescendo, tomando o leitor por inteiro, prazer desfrutado pouco a pouco até o prazer final, supremo deleite que se sente ao fechar o livro e querer mais..."1

Mas faz todo o sentido tentar responder a isso quando se trata de resenhar um livro, exatamente porque temos, então, de fazer uma análise e uma indicação -empreendimentos que envolvem refletir sobre e narrar a nossa própria experiência de leitor ou leitora. Corremos alguns riscos nesse processo porque o modo como o fazemos atravessa e demarca outras relações, ainda inscritas no futuro, com o texto em pauta. Pode-se argumentar que essa é, exatamente, a finalidade de uma resenha e, portanto, a atribuição do/a resenhista, de forma que resolvi correr esses riscos pela primeira vez, para falar de um livro que considero especial: Schooling Sexualities, o livro de Debbie Epstein e Richard Johnson, editado pela Open University Press em 1998 e que foi publicado em espanhol no ano passado (2000), por iniciativa da Fundación Paideia, no âmbito da Colección Educación Crítica, dirigida por Jurjo Torres Santomé.

Não foi propriamente pelo tipo de prazer acima referido, mas como doutoranda em fase final de curso que fiz minha primeira leitura deste livro de Epstein e Johnson, há quase três anos. Estava envolvida com a escrita de minha tese e essa leitura me foi apontada como um "exemplo" de pesquisa pós-estruturalista, na qual a construção de um referencial teórico-metodológico complexo se fazia por dentro da análise empírica, numa investigação que envolvia procedimentos e dados extraídos de fontes de natureza e amplitude bastante diversas. E a autora e o autor faziam isso utilizando um estilo de escrita que, com essas características (ou apesar delas), conseguia reunir um (para mim) conjunto expressivo de qualidades: consistência, acessibilidade, clareza, simplicidade e rigor.

Naquele momento, portanto, não me aproximei do livro em função do tema nele discutido, ou buscando a "aprendizagem" dos referenciais teóricos e dos conceitos-chave ali adotados. O que eu buscava, com a leitura, era visualizar um jeito de analisar e articular dados e conceitos e de narrar esse processo de pesquisar. Um jeito que envolvesse: operar com conceitos mais do que discorrer sobre eles; possibilidades de fazer leituras significativas de aspectos naturalizados ou banalizados do cotidiano; construir um texto que expressasse a conflitualidade e multidimensionalidade do social e da cultura, explorando os efeitos da articulação de gênero com outros marcadores sociais tais como sexualidade e nacionalidade; compor uma análise na qual se conectassem, de forma visível, o olhar "interessado" reivindicado pelos Estudos Feministas e Culturais com os efeitos da virada lingüística, operada pelo pós-estruturalismo de Foucault e Derrida.

Não era pouca coisa que eu desejava saberxencontrar ali! No entanto, encontrei muito de tudo isso nesse livro, naquela ocasião. Isso me salta aos olhos cada vez que me deparo com a quantidade de marcações coloridas e com o teor das anotações com as quais enchi as margens e o corpo do texto nessa primeira leitura e sempre que revejo o texto com que narro a trajetória teórico-analítica que empreendi por dentro de minha própria investigação2.

Essa é, então, uma das importantes razões pelas quais recomendo hoje, já como professora de dois programas de pós-graduação na UFRGS, a leitura do livro a estudantes e a minhas/meus orientandas/os, quando estas/es se deparam com o desafio de elaborar seus projetos e dissertações ou teses dentro destas abordagens teórico-metodológicas. O livro pode, efetivamente, ser explorado como um bom exemplo de pesquisa nestes campos teóricos. Explorá-lo sob esta ótica, no entanto, exige do leitor ou da leitora pesquisadora uma certa intimidade com teorizações feministas e culturais contemporâneas e com a obra de Michel Foucault. Exatamente porque opera com estes referenciais teóricos para analisar uma problemática específica, sem a pretensão de discuti-los exaustivamente, o texto de Epstein e Johnson não deve ser buscado com o objetivo de introduzir-se nestes campos de estudo.

Mas o livro pode e deve ser lido ainda por outras razões, sobretudo por aquelas e aqueles que tratam de discutir e problematizar as complexas e conflituosas relações que se estabelecem entre sexualidade, culturas nacionais e instituição escolar nas sociedades ocidentais contemporâneas.

Egressos do Departamento de Estudos Culturais de Birminghan Inglaterra ¾ onde este campo de estudos de estruturou e consolidou a partir dos anos 70, Debbie Epstein e Richard Johnson são estudiosos culturais e feministas que contabilizam uma extensa produção intelectual. Debbie trabalha como professora e orientadora na Faculdade de Educação da Universidade de Londres e Richard Johnson na Universidade Trent de Nothingham. Em consonância com as perspectivas teóricas e políticas que assumem, a autora e o autor se inscrevem dentro de sua investigação e, ao fazê-lo, colocam em plano crítico processos particularmente significativos de sua vida e de sua formação em relação à sexualidade, gênero, raça e nacionalidade. Para Debbie

la marginación y la estigmatización de determinados grupos há sido tema de sus estudios desde donde le alcanza el recuerdo. Su origen y educación judios, de sudafricana opuesta al segregacionismo, partícipe de una tradición de socialismo judio, fueran la clave de la temprana formación de su identidad. [...] quando se declaró lesbiana publicamente [...] se hizo, tal vez, inevitable que más pronto o más tarde su trabajo se centrara en los temas de sexualidad y escuela (p. 20).

Já Richard Johnson refere que suas diversas identidades não marcadas (homem branco, de classe média e heterossexual) contribuíram para que a sexualidade não se constituísse como uma

clave tan evidente de su vida personal. [..] las preocupaciones por la sexualidad y la escuela surgieron en parte de las experiencias de sus intimos amigos homossexuales y lesbianas. La influencia de sus amigos y colegas feministas le llevaron también a hacerse preguntas sobre la heterosexualidad (p. 20).

É, pois, acerca das implicações das políticas educacionais inglesas (fortemente marcadas pelo tatcherismo, pelo neoliberalismo e pelo novo trabalhismo dos anos 90) e de sua veiculação e discussão na mídia, sobre o processo de escolarização e sobre a produção de identidades sexuais e de gênero que se efetiva neste espaço, que trata o livro. Fundamentalmente, a autora e o autor procuram explorar as relações entre sexualidades e escola, nacionalidades e sexualidades e nacionalidades e escola, e a discussão acerca destas relações é apresentada, no livro, em duas grandes partes.

A primeira parte, intitulada Las sexualidades en el ámbito público, analisa os processos pelos quais a política, o governo formal e os meios de comunicação produzem um determinado tipo de "público nacional" que parece e pretende ser universal. Nesta parte se explora e se exercita, portanto, de forma ampla e consistente, uma das grandes contribuições dos Estudos Culturais para o campo da Educação: as noções de que identidades são produzidas em múltiplas e variadas instâncias do social e da cultura e de que os meios de comunicação, em particular (e a mídia em geral), se constituem como um locus expressivo dessa produção, nas sociedades contemporâneas. Estas noções remetem educadores e educadoras para o conceito de pedagogias culturais, o qual implica o reconhecimento e a problematização da importância educacional e cultural da imagem, das novas tecnologias da informação, enfim, da relação entre escolarização e cultura da mídia nos processos de organização das relações sociais e na produção das subjetividades. Remetem também para um importante deslocamento no âmbito da teorização educacional, que desvincula e projeta o currículo para além da escola, e isso impõe uma reconceptualização das próprias noções de escola, de currículo, de conhecimento escolar válido, do ser professor e do ser aluno...

A segunda parte do livro, intitulada Las sexualidades en la escuela, se fixa, como referem os próprios autores, "com minuciosidad y de forma analítica en la producción de las identidades sexuales en este nivel escolar" (p.23). Analisa-se, aí, com base em diários de campo e depoimentos de professores/as e estudantes, não apenas o currículo sexual formal, ou seja, as propostas de educação sexual mas, sobretudo, as culturas sexuais de docentes e estudantes, que atravessam e constituem a dinâmica escolar, em especial no que se refere aos mecanismos e às estratégias de controle, resistência e disciplinarização que aí se efetivam. O objetivo desta análise é entender, fundamentalmente, como é vivida e, por extensão, como poderia ser vivida a escolarização por docentes e estudantes gays e lésbicas. Isso, na perspectiva da autora e do autor, permite pensar em como "se relacionan sus experiencias com las estruturas más generales de la desiguald y, en particular, sobre la forma en que la heterosexualidad obligatoria es una matriz organizativa destas" (p. 113). Em síntese, trata-se, para eles, de buscar compreender as complexas e múltiplas facetas dos processos pelos quais sexualidade e escola se interferem mutuamente.

Em seu conjunto, esta abordagem das relações entre sexualidade e escolarização pode ser bastante promissora para aqueles e aquelas que, no Brasil, se envolvem com esta discussão, em um contexto onde todos se movimentam com muitas cautelas e grandes receios. Pensar as práticas de orientação ou educação sexual, na escola, ainda está reduzido a um exercício apoiado, muito freqüentemente, em um biologicismo estreito que naturaliza a sexualidade e hierarquiza sujeitos e grupos em função de suas práticas sexuais e cujos objetivos explícitos se vinculam à promoção da saúde reprodutiva e à prevenção de gravidez na adolescência e de DST/AIDS. Nessa perspectiva, Debbie Epstein e Richard Johnson, quando descrevem mecanismos e estratégias que permitem entender como a sexualidade é social e culturalmente produzida, em meio a múltiplas e complexas relações de poder que envolvem e conformam os processos de escolarização, nos possibilitam, com o seu estudo, repensar a nossa prática e construir outras abordagens para essas e muitas outras questões.

Enfim, um livro que vale a pena ser lido por educadoras/es e pesquisadoras/es que desejam exercitar aquilo que Foucault3 chamou de separar-se de si mesmo: separar-se, para olhar de fora, como se não as conhecêssemos, teorias e práticas que nos constituem tão profundamente que nem as percebemos mais como aprendidas, ou ainda, como sugere a metáfora freqüentemente empregada por estudiosos culturais, incorporar o olhar estrangeiro que, por ser estrangeiro, ainda é capaz de exercitar o estranhamento, a perplexidade e a descoberta diante do próprio saber/fazer...

 

 

1 PAIXÃO, S. P. O prazer da aprendizagem. In: LISPECTOR, C. Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. 17. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990. p. 5.
2 MEYER, D. Identidades traduzidas: cultura e docência teuto-brasileiro-evangélica no Rio Grande do Sul. Santa Cruz do Sul/RS: EDUNISC; Sinodal, 2000.
3 FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: o uso dos prazeres. 8. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1998.

 

DAGMAR ESTERMANN MEYER

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