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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.9 no.2 Florianópolis  2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2001000200020 

Feminismo e psicanálise, ainda...

 

Para além do falo: uma crítica a Lacan do ponto de vista da mulher
BRENNAN, Teresa (Org.).
Rio de Janeiro: Record/Rosa dos Tempos, 1997. (Coleção Gênero, v. 4). 360 p.

 

 

Inicialmente, ressaltaria a importância da tradução desta coletânea pela Editora Rosa dos Tempos, aproximando-nos de autoras que são pouco traduzidas no Brasil. São textos densos, reveladores dos níveis de aprofundamento teórico que marcam, nos países europeus, as trocas fecundas e não isentas de tensões, entre estudos feministas e psicanálise.

A tradução brasileira do título original da edição inglesa Between Feminism and Psychoanalysis, no entanto, coloca-nos algumas questões. Primeiro, o recurso à categoria mulher nas formas essencializadas que o conceito e os estudos de gênero vêm discutindo e complexificando há pelo menos duas décadas (e a Rosa dos Tempos não esteve alheia a esta ebulição, já que se constituiu neste campo e para ele tem contribuído, trazendo a público numerosas obras). Além disso, a ênfase na oposição entre psicanálise e estudos feministas, com um caráter linear e definitivo, o que os próprios textos desta coletânea se encarregam de desmentir.

Estas questões não são novas. Já haviam ocorrido com a edição, em 1990, do livro da americana Nancy Chodorow, com o título original The Reproduction of Mothering: Psychoanalysis and the Sociology of Gender, traduzido pela Rosa dos Tempos como Psicanálise da Maternidade: uma crítica a Freud a partir da mulher.

Será que este apelo a uma tensão irreconciliável, uma clivagem entre psicanálise e feminismo promove a venda de livros? Penso que, ao contrário, o encontro (tenso e fértil) entre os campos atingiria um público mais amplo de feministas ou de psicanalistas que usualmente não estão voltados para as discussões sobre gênero.

Quem é esta "mulher" com um ponto de vista homogêneo que critica Freud (no subtítulo de Chodorow) e Lacan (no desta coletânea), jogando fora a criança com a água do banho? Certamente, para a editora, é brasileira, já que as feministas européias e americanas estão discutindo séria e profundamente os encontros e oposições entre psicanálise e feminismo, há várias décadas, conforme este livro vem demonstrar.

A coletânea teve por base uma série de quinze seminários realizados na Universidade de Cambridge, no King's College e na faculdade de Ciências Sociais e Políticas, entre janeiro e julho de 1987, conforme explicita Teresa Brennan em seu prefácio, acrescentando que as mulheres que os apresentaram, provenientes da Índia, dos Estados Unidos, da França e da própria Inglaterra, identificadas com posições distintas e muitas vezes opostas, eram principalmente teóricas da literatura (apenas duas tendo antecedentes nas ciências sociais). Informando sobre as questões em torno das quais se fizeram os debates, a organizadora dos seminários e da coletânea ressalta como ponto comum entre psicanálise e feminismo, a preocupação com a transformação social.

A introdução do livro, escrita também por Brennan, tem partes distintas. Nas páginas iniciais e no item "Os textos" (p. 27 a 36), em que produz a resenha perfeita da coletânea, ela apresenta os artigos, caracterizando-os de forma sucinta, contextualizando-os nas seis partes que compõem a estrutura do livro, cada uma contendo dois ou três textos articulados em torno dos temas privilegiados nos seminários.

Enfatizando que a psicanálise é uma entidade inteiramente política, a autora ensina que "o livro se refere a quatro questões que ficaram estagnadas no pensamento psicanalítico feminista: o estatuto do 'simbólico' lacaniano, a diferença e o conhecimento sexuais, influência do essencialismo sobre a política feminista e a relação entre a realidade psíquica e o social" (p. 10). Questões cujas reflexões, no seu entender, levam a um impasse por terem sido ignorados seus contextos político ou psicanalítico. É disso que ela vai tratar na outra parte de seu artigo, referenciando-se fortemente nas demais autoras da coletânea.

Estes encontros ocorreram na Inglaterra, país que acolheu Freud, quando precisou sair da Áustria invadida pelos nazistas, o país de Ernest Jones, seu biógrafo, de Robert Strachey, tradutor, comentador e editor de sua obra em inglês, língua a partir da qual ela se difundiu para inúmeras outras línguas. País de Melanie Klein, cuja contribuição à teoria e à clínica psicanalíticas foi de extrema importância e levantou temas fundamentais para as teorias feministas, nas discussões sobre a fase pré-edipiana e a ênfase no papel da relação mãe¾filho no desenvolvimento emocional da criança.

Os seminários se realizaram em diálogo com psicanalistas feministas da França, país de Jacques Lacan, o teórico do retorno a Freud pela releitura de sua obra à luz dos avanços da ciência lingüística, e cuja contribuição à teoria e à prática psicanalíticas tem sido responsável pelo diálogo da psicanálise com os paradigmas e movimentos das últimas décadas e da virada do século.

Destes seminários emergem as figuras de psicanalistas cujas teorizações se fazem no encontro entre psicanálise e feminismo. A importância da edição desta coletânea está justamente aí, onde se discutem e aprofundam os olhares sobre as obras de autoras, como as francesas, pouco traduzidas entre nós, pelo menos nos textos que dialogam com o feminismo (o caso de Júlia Kristeva, por exemplo). Assim, os seminários destacam as contribuições de Luce Irigaray, que deles também participou, de Hélène Cisoux e Júlia Kristeva, pela França, de Juliet Mitchell e Jacqueline Rose pela Inglaterra. Se as francesas se destacam por sua oposição a Lacan, quando se trata de pensar sobre a feminilidade em relação ao significante fálico, Mitchell e Rose destacam as contribuições da psicanálise freudo-lacaniana ao pensamento feminista (não contra ele).

As autoras que participaram dos seminários discutiram especialmente as contribuições de uma nova geração de psicanalistas, pós-lacanianas, às teorias feministas. Foi lembrada também a americana Nancy Chodorow, naturalmente a mais conhecida entre nós, via influência dos Estados Unidos sobre nosso sistema acadêmico, a partir dos anos 60. Acredito, no entanto, que a articulista Toril Moi conseguiu definir bem a importância relativa de Chodorow com respeito à psicanálise kleiniana das relações de objeto, com a qual ela costuma ser identificada, quando a caracterizou como mais próxima das psicologias do ego americanas, versões da psicanálise que Lacan coloca fora do campo freudiano, na medida em que minimizam a concepção de inconsciente.

No primeiro capítulo da coletânea Jane Gallop, professora de língua inglesa na Universidade de Wisconsin, estranha a parceria entre feminismo e psicanálise lacaniana, através da crítica aos escritos psicanalíticos de Juliet Mitchell. Autora, entre outros livros, de Feminism and Psychoanalysis: the daughter's seduction e Reading Lacan, ela esclarece que seu artigo se constitui numa versão revista de Juliet Mitchell e as "ciências humanas", que seria publicado em um volume intitulado Lacan and the Human Sciences.

Gallop traça o percurso de Mitchell, do marxismo a Althusser e deste a Lacan. Comentando vários textos da autora, Gallop ressalta os dilemas com os quais ela se debate: natureza x cultura, humano x biológico. Analisando a forma como Mitchell utiliza o termo histórico adjetivando invariavelmente o simbólico lacaniano, Gallop procura demonstrar que são as questões da autora, como feminista marxista procurando juntar feminismo e psicanálise nos anos 60, que orientam sua leitura particular de Lacan. Este artigo é de muito interesse, já que Mitchell é uma das psicanalistas feministas traduzidas no Brasil (Interlivros, de Belo Horizonte, 1979, e Campus, Rio de Janeiro, 1988).

O artigo de Rachel Bowlby, autora de livros e conferencista de língua inglesa na Universidade de Essex, refere-se às dificuldades das traduções de teorias. Analisa a difícil relação entre feminismo e psicanálise na Inglaterra como marcada pela reinterpretação, na tradução para o inglês, dos termos com que Freud teorizou a questão da feminilidade, os enigmas e negações do feminino, em especial o repúdio ao feminino.

Bowlby, fazendo analogia com a tríplice encruzilhada que se antepõe entre a menina e a feminilidade, retoma os diferentes termos utilizados por Freud (verwerfen, ablehnen e weisen), traduzidos por Strachey como repúdio, apenas. Fala do repúdio das feministas inglesas à psicanálise, as acusações de parte a parte sobre quem está do lado do masculino (patriarcal) e quem faz o resgate do feminino, repetindo, como numa relação/ruptura amorosa, quem exerce o direito jurídico (masculino) de repudiar o outro (a mulher). Voltando à tradução de Freud, a autora se pergunta qual é realmente o usurpador: Strachey, que, talvez por ingenuidade e não por incompetência, unificou, simplificando e radicalizando, os termos empregados pelo autor, ou Lacan, que, no seu entender, desdobrou os sentidos dos conceitos para além de Freud, reivindicando a releitura do autor?

Nos capítulos seguintes, as autoras tratam de aspectos da história institucional das relações entre feminismo e psicanálise.

Lisa Jardine, autora de vários livros sobre filosofia da ciência e mulher e literatura, professora visitante em Cambridge, fala da aceitação da teoria psicanalítica feminista nas universidades, o que, no entanto, não se fez acompanhar de qualquer alteração nas relações de poder entre homens e mulheres nas administrações institucionais. Ela reflete sobre a autorização das falas femininas e masculinas nas instituições analisando um trecho de Deus e o gozo da mulher, do Livro 20 d'O Seminário de Lacan (p. 99-101, na edição brasileira da Jorge Zahar), em que o autor fala da mulher não toda e sua "juissance" suplementar, "um gozo para além do falo", do qual, por mais que se lhes suplique (às psicanalistas mulheres), elas nada têm a dizer.

Jardine contrapõe este discurso de Lacan, que classifica como pedagógico, "o discurso da autoridade, a hierarquia da instituição acadêmica" (p. 93), ao de "Speculum, l'autre femme", de Luce Irigaray, em que esta abandona Lacan e começa a produzir seu modelo teórico de um imaginário feminino alternativo. A articulista reconhece que este discurso dentro do discurso psicanalítico tem a capacidade de nele se introduzir para desancorar o discurso masculino da teoria, deslocando seu falocentrismo. Neste sentido, é um discurso político, desestabilizador. A autora, no entanto, refere-se ao desconforto que ele causou a ela e a muitas feministas, pela reintrodução de partes do corpo feminino no discurso, quando o corpo tem sido tradicionalmente identificado pelo feminismo como o lugar da opressão das mulheres.

Alice Jardine, professora de línguas e literaturas românicas na Universidade de Harvard, autora e editora de livros sobre feminismo, reflete sobre a psicanálise na universidade e, em sua condição de feminista ensinando na academia, sobre a prática de duas gerações de professoras, explícita e politicamente feministas, na instituição acadêmica (as doutoradas entre 1968 e 1978 e as doutoradas após 1978). Comparando-as com as primeiras psicanalistas, ela analisa o percurso percorrido pelas mulheres, da voz à escrita, do privado ao público, estabelecendo analogia destes com o fetichismo e a paranóia.

A autora compara as duas gerações de feministas psicanalistas da academia às três gerações de psicanalistas referidas por Júlia Kristeva em Les temps des femmes. Enquanto as primeiras gerações de feministas e psicanalistas acadêmicas combinavam sedução e resistência aos discursos feminista e psicanalista, as segundas gerações pareciam fazer plena transferência com os dois discursos. Enquanto as primeiras gerações se enquadravam na categoria de mulheres que postulavam um lugar na história linear, ou daquelas que afirmavam um tempo diferente para as mulheres, fora da história dos homens, as mulheres da segunda geração lutavam por um lugar na história masculina, apenas para afirmar suas diferenças singulares e radicais, procurando confundir público e privado. Ela acredita que, cruzando as gerações, as mulheres feministas possam livrar-se da paranóia e seus públicos, do fetichismo e seus privados e, ainda, do próprio conceito de geração.

Iniciando as partes da coletânea intituladas "Por outro simbólico", as primeiras autoras discutem "A coisa essencial". Rosi Braidotti, professora de estudos da mulher na Universidade de Utrecht, chama a atenção para o conceito de diferença que tem ocupado a agenda ocidental desde Nietzsche e Freud, minando a concepção de sujeito conhecedor, derivada do homem da razão. Ela se refere à psicanálise como teoria que representa a mudança histórica que abre a modernidade para a crise da visão clássica do sujeito e para a proliferação das imagens do outro como signo da diferença. Analisa psicanálise e feminismo nos seus encontros e discordâncias, refletindo sobre as concepções de sujeito, diferença, identidade, subjetividade, sexo, gênero.

Considerando mulher e feminismo como metáforas privilegiadas da diferença e da crise dos valores racionais masculinos, Braidotti idealiza uma ontologia feminista, em que as mulheres se responsabilizem por todas as definições que têm sido feitas sobre a mulher como essência histórica (p. 140). A autora retoma a questão do corpo e do essencialismo, reportando-se a Irigaray e seu projeto de um simbólico feminino. Tomando o essencialismo como uma diferença e afirmando que "a mulher teórica feminista que está interessada em pensar sobre a diferença sexual e o feminismo hoje não pode se dar ao luxo de não ser uma essencialista" (p. 128), ela se posiciona por um outro essencialismo, que não abra mão do jogo de representação da mulher, ou da ligação entre o simbólico, ou discursivo e o corporal, ou material (p. 140).

Margaret Whitford, conferencista sobre língua francesa no Queen Mary College, em Londres, autora e editora de livros sobre filosofia e feminismo, propõe uma releitura de Luce Irigaray. Analisando as críticas e leituras da feminista psicanalista francesa por feministas radicais e feministas psicanalistas de língua inglesa, a autora argumenta que estas não dão conta da complexidade das concepções da francesa. Whitford sintetiza as críticas a ela em dois grandes grupos: o primeiro ressalta que Irigaray é uma essencialista biológica que proclama uma feminilidade constituída pela biologia; o outro grupo é formado pelas críticas de psicanalistas lacanianas que a acusam de essencialista psíquica, que distorce as implicações da teoria de Lacan.

A articulista ressalta a erudição filosófica dos escritos de Irigaray, o que em certas circunstâncias tem alimentado as críticas contra ela, procurando esclarecer em que consiste seu projeto. Analisa diferentes textos da autora para contra-argumentar com seus críticos de língua inglesa. Whitford afirma que a escrita de Irigaray, jamais simples ou livre de contradições, contribui para os entendimentos distorcidos de suas idéias. Contra as leituras que considera equivocadas da autora, ela ressalta que a reafirmação da diferença anterior ao Édipo entre homens e mulheres, a recuperação da centralidade da relação mãe/filha como base da diferença, não torna Irigaray uma essencialista biológica linear. Whitford entende que a argumentação da autora, quando caracteriza a relação mãe/filha como não simbolizada, é uma argumentação construída sobre o simbólico, postulando por um simbólico feminino e um imaginário feminino. Lembra que Irigaray não é uma pré-lacaniana, mas uma pós-lacaniana que se confronta com as implicações da obra de Lacan, ressaltando que a ordem simbólica está amarrada a uma estrutura metafísica masculina, fundada num imaginário masculino, que precisaria ser subvertida.

Pelos argumentos de Whitford sobre ela, pode-se entender que o projeto de Irigaray se desenvolve no sentido de buscar um significante feminino que represente a mulher na ordem do simbólico. Exatamente o que sugere Lacan com o axioma "A mulher não existe", ressaltando que não há um significante simbólico que represente a mulher, já que ela se diferencia, como o homem, em torno do significante masculino, o falo.

Luce Irigaray, psicanalista praticante, pesquisadora e autora de muitos livros, foi a feminista francesa convidada para os seminários que resultaram nesta coletânea. Seu artigo procura recuperar a importância do gesto na cena psicanalítica, obliterada pela importância atribuída à linguagem verbal. Voltando à famosa cena do fort-da, analisada por Freud (e revista por Lacan, por Derrida), em que seu neto Ernest, brincando com um carretel preso a uma linha, procura lidar com a ausência da mãe, acompanhando os gestos de lançar e puxar o carretel com os sons fort-da (longe-perto, lá-ici em francês), Irigaray reflete sobre estes sons, suas diferenças no alemão e no francês, onde se produzem na boca, no palato, onde se prendem ou se soltam ¾ nos lábios, atrás dos dentes, os sons que se projetam, aqueles que se incorporam. Retoma a significação dos gestos de mãos e braços de Ernest para lançar e trazer de volta seu carretel e procura diferenciar os gestos de meninos e meninas diante da ausência da mãe. Ressalta o fato de que Ernest era menino para argumentar que a criança do fort-da não poderia ser uma menina.

Relembrando gestos femininos na análise e em análises de meninas, a autora descreve possibilidades gestuais de as meninas lidarem com a ausência da mãe (sem o controle do objeto externo) e postula uma diferenciação sexual anterior ao Édipo, que se revelaria em outros sons, em cantilenas com os lábios fechados, e outros gestos, circulares, centrados em si. Na parte final de seu artigo Irigaray compara Dora e Schreber, "o casal das origens da prática analítica" (p. 184), seus gestos, movimentos, palavras, para defender sua concepção de uma diferença sexual desde sempre ¾ sua concepção de que a criança psicanalítica não é neutra, diante de uma diferenciação que se irá produzir em um momento estruturante posterior.

Nos capítulos seguintes, com subtítulo "Para além do falo", temos mais três autoras. Elizabeth Wright, conferencista e visitante de língua alemã em Cambridge, analisa a relação entre feminismo e psicanálise concentrando-se na crítica feminista, para a qual a questão fundamental é como dar à mulher acesso ao discurso: através da submissão à linguagem pública do patriarcado, ou pela criação de uma outra linguagem, que não alcança hegemonia, mantendo-se às margens, estranhada. Wright defende a construção de um espaço para a mulher entre estas fronteiras, no contexto pós-moderno.

Ressaltando estar, em sua investigação crítica da psicanálise, do feminismo e do pós-modernismo, "interessada em revelar os fundamentos incertos de qualquer sistema idealista que se considere baseado em dados ontológicos" (p. 190), Wright sustenta que a crítica feminista oferece a instância mais clara e visível das dificuldades de tentar subverter ou reformar, a partir de dentro, qualquer sistema. Assinala, no entanto, a importância, para a pesquisa crítica, de poder manter-se aberta a tal subversão. A autora ressalta que a crítica literária, que enfrentou a ortodoxia na instituição psicanalítica, foi o campo onde floresceu a psicanálise-pelo-feminismo, tornando a psicanálise mais política do que já era para algumas feministas. A crítica literária deu às mulheres acesso ao discurso como escritoras e como críticas, o que elas não haviam logrado obter na psicanálise ou na política. Wright destaca, na relação entre psicanálise e gênero, o fato de esta ter oferecido ao feminismo os instrumentos conceituais para demonstrar que o gênero é simbólico e não biológico, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, construía a mulher em torno do símbolo fálico. Afirmando dever-se à teoria e à prática do lapso de linguagem causado pelo desejo inconsciente o fato de as feministas continuarem a abraçar Freud e Lacan, a articulista discute algumas críticas de feministas inglesas a Lacan. Através da leitura de Toril Moi, ela retoma Júlia Kristeva, centrando-se na questão pré-edipiana da relação da criança com a mãe e na escritura desta relação. Cita Suleiman, que, apontando para o fato de as mães serem escritas, ao invés de escreverem, solicita mais informações das próprias mães, através de diários, ensaios, etc., instando-as a falarem sobre si e suas relações com os filhos, desconstruindo assim, talvez, o arcabouço patriarcal que harmoniza a mulher com este lugar-tarefa da maternagem.

Wright discute o percurso do feminismo que, adotando a psicanálise, encampa o pós-modernismo, ambos interessados em estender fronteiras para além das oposições binárias. Discutindo a intersecção entre feminismo e pós-modernismo, o primeiro oferecendo ao segundo uma política aos campos literário e artístico, Wright procura destacar as principais linhas do debate sobre o pós-modernismo, desde diferentes posições, que analisa pela referência a vários autores/as. Ela reflete também sobre o rompimento das fronteiras dos discursos, comentando a prática de uma escrita pós-feminista de escritoras influenciadas por Lacan, como Kristeva e Hélène Cisoux. Ressaltando que "o feminismo examina os processos pelos quais se concede, ou se recusa, o acesso da mulher ao discurso, e ao mesmo tempo inaugura um novo modo de pensar, escrever, falar" (p. 201) e as críticas feministas oferecem, junto com leituras subversivas de textos tradicionais e modernos, um contínuo desafio às estruturas de poder dominantes com suas alegações de imparcialidade, a autora destaca que não há nada de imparcial sob o sol, nem o próprio discurso feminista, que prospera com suas diferenças internas (e por elas).

O artigo escrito por Morag Schiach, conferencista sobre língua inglesa no Queen Mary College, autora de livros, um dos quais sobre Hélène Cisoux, tem como título uma citação desta autora, tirada de seu texto "A risada da Medusa": "O 'simbólico' deles existe, detém poder ¾ nós, as semeadoras da desordem, o conhecemos bem demais".

Schiach analisa a obra de Cisoux, de quem é tradutora para o inglês. Em seu entender, os escritos desta autora permitem "analisar o que definimos como teoria feminista ou crítica feminista e considerar as implicações de uma prática teórica que começa com uma política articulada" (p. 205) já que o feminismo é um termo político, um questionamento do poder e da possibilidade de mudança. Para Schiach, recorrendo aos termos da psicanálise, Cisoux está constantemente minando-os. O simbólico é descrito como o simbólico "deles", um conceito do qual as mulheres deveriam distanciar-se, na possibilidade de articularem um novo simbólico, "nosso". Para a autora, Cisoux equacionou o poder com o simbólico, equação que nem todos aceitariam, mas fundamental para a escrita da francesa, para quem "a organização da linguagem, os duplos conjuntos hierarquizados de oposição que estruturam o pensamento filosófico e a linguagem narrativa, é o que produz o fundamento lógico para, e os meios de, oprimir a mulher" (p. 207). Poder ao qual ela antepõe a possibilidade de recusa e desordem. Analisando vários textos de Cisoux, Schiach procura mostrar de que modo e até que ponto a autora interroga os conhecimentos que estruturam as identidades e as relações sociais femininas. Em sua opinião, até os excessos de Cisoux, que se encontram e são perpetuados nos textos filosóficos e de ficção, devem ser compreendidos como parte de seu compromisso de minar as representações da "mulher".

O argumento de Schiach é que os textos em que a autora francesa analisa a obra de Clarice Lispector, como também suas peças de teatro, não devem ser lidos somente como parte da construção de uma estética feminina, mas devem ser colocados no contexto de um conjunto de problemas teóricos sobre a natureza da diferença (questão melhor articulada, segundo Schiach, na obra de Derrida). Tomando o gênero como um termo estruturante, na opressão oficial e simbólica, Cisoux tenta desenvolver uma prática de escrita para as e em benefício das mulheres, já que é na escrita que ela vislumbra a possibilidade de transformação.

No último capítulo destas considerações "Por um outro simbólico", Naomi Segal, professora de línguas modernas no St. John's College, Cambridge, autora de livros sobre filosofia, literatura e psicanálise, parte da interpretação do mito de Narciso centrando-se na figura e no papel de Eco na narrativa, para analisar algumas obras do récit confessional francês dos séculos XVIII e XIX. Todos textos escritos por homens, sobre homens e, por implicação, segundo a autora, para homens.

Segal ressalta como uma das semelhanças entre os textos, na narrativa da vida fracassada do protagonista, o fato de a mulher central, um tanto mais velha que ele, servir de foco às temáticas da morte da mãe no parto e do desejo incestuoso. Narrativas em que as mulheres são faladas pelos homens (narradores, protagonistas, leitores) e lhes servem de espelho. Narrativas em que, para que eles possam emergir ao simbólico do pai, elas precisam ser abandonadas e mortas. De acordo com Segal, "essa manobra coloca em cena uma epistemofilia na qual o conhecimento dele é buscado a expensas do dela" (p. 230). É este o destino da maioria das mulheres nos récits analisados. Mas, mortas as mulheres, os protagonistas ficam sem o eco, o espelho que os sustenta e os torna visíveis para si próprios. Para a autora, a morte dos homens em conseqüência de seu narcisismo aponta para uma alternativa, uma leitura própria de mulheres, uma comunicação entre mulheres, segundo uma outra epistemologia.

A quinta parte da coletânea, intitulada "Razão e revolução", é composta por dois artigos. No primeiro, Toril Moi, residindo na Inglaterra e lecionando literatura na Noruega e nos Estados Unidos, autora e editora de livros sobre feminismo e literatura, escreve sobre "Pensamento patriarcal e a pulsão do conhecimento". Analisa a produção de autoras como Evelyn Fox Keller e Susan Bordo, em suas críticas a Descartes e à filosofia e humanidades em geral. Keller classifica a ciência como uma ideologia que divide o mundo em duas partes, a que conhece (mente) e a que é conhecida (natureza), dividindo sujeito e objeto e atribuindo gêneros às partes dicotomizadas. Segundo T. Moi, Keller se fundamenta nas idéias de Chodorow sobre o desenvolvimento das estruturas da personalidade masculina e feminina para refletir sobre a ciência masculina. Apontando esta inspiração comum entre Keller e Bordo, a autora as coloca, com Chodorow e Gilligan, como "expoentes de uma variedade psicossocial do feminismo da diferença" (p. 256), denunciando, em suas posições, um essencialismo ao contrário ¾ culturalista.

Comentando os escritos de Michelle le Doeuff sobre conhecimento, feminismo e feminilidade, destaca a crítica desta autora à filosofia (ciência masculina) que, paradoxalmente, busca a completude, achando possível construir uma estrutura sem falhas, quando o fator que a possibilita é a falta ¾ o que falta ser pensado. Ciência patriarcal que circula a mulher como duplamente faltante: em relação ao falo e em relação ao conhecimento. A falta da mulher como falta errada, sendo sempre a de um homem e não a falta de conhecimento, condição para a filosofia, tornando-a incapaz, assim, de filosofar, de pensar racionalmente. O pensamento racional como emblema da auto-suficiência narcísica masculina. A mulher como símbolo da falta e da negatividade fundamentando a própria filosofia ocidental ¾ o irracional, fora do discurso da razão, é o que na verdade o confirma, por contraste. A feminilidade como a sombra, o excluído, o inimigo interno que opera dentro da filosofia, como suporte da racionalidade.

Le Doeuff fala da importância de uma ciência aberta, inacabada, capaz de refletir sobre sua própria relação com a exclusão, na medida em que possa abandonar qualquer aspiração de lograr a um fechamento mágico, imaginário. Esta autora relaciona o método clínico de análise com uma nova forma de conhecimento, que estabelece uma relação diferente entre sujeito e objeto, não simplesmente invertendo a relação, mas subvertendo-a, ligando os dois pólos, tornando-os dependentes na situação de análise, introduzindo aí um novo termo ¾ o inconsciente que, como Lacan ressalta, não está só do lado do analisando, mas também do analista, um ponto de encontro lingüístico, significativo, que circula.

Para superar a separação entre razão e emoção, em que incorre a própria Keller quando critica, através de Descartes, a filosofia ocidental, Toi utiliza a concepção freudiana de epistemofilia, ou pulsão do conhecimento, como possibilidade de resposta ao feminismo, no sentido em que desloca os dualismos razão/emoção, mente/corpo. Argumenta que, usando esta concepção, Freud destaca a implicação do corpo, da sexualidade, em qualquer atividade humana e na própria sublimação. Conforme explicita, Toi pensa que uma filosofia da ciência feminista e antiessencialista tem mais a ganhar com Freud e Lacan do que com as psicologias do ego americanas (p. 273).

Gayatri C. Spivak, autora de livros e artigos sobre feminismo, desconstrução e crítica ao imperialismo, professora de língua inglesa na Universidade de Pittsburgh, é uma célebre tradutora de Derrida para o inglês. O artigo de Spivak inicia pelo comentário da introdução do livro de Jacqueline Rose Sexuality in the Field of Vision, em que esta rejeita Derrida como um certo tipo de essencialista subjetivista. Spivak se percebe como defendendo um tipo de Derrida contra Rose defendendo um tipo de Lacan. A questão tratada por Spivak, segundo suas palavras, não é que a desconstrução não consiga fundar uma política, enquanto outros modelos de pensamento o conseguem, mas o fato de a desconstrução contribuir para denunciar os problemas implícitos dos programas políticos, ao torná-los mais visíveis. "Agir não é, portanto, ignorar a desconstrução, mas sim transgredi-la ativamente sem dela abrir mão" (p. 277). Com este propósito, a autora se detém na questão do nome mulher na filosofia de Nietzsche, através da análise de Derrida e na concepção elaborada por este de différance.

A respeito do sujeito feminino nos escritos de Rose, Spivak procura marcar a distinção entre epistemologia/ontologia, de um lado, e axiologia, do outro, o que a seu ver está confundido nas críticas de Rose ao sujeito descentrado de Derrida. Discutindo várias formas de nomear mulher no projeto político do feminismo (e pensando sobre as mulheres que se sentem excluídas das nomeações/representações feministas), a autora aponta para a esperança, por trás da vontade política, de que a própria possibilidade do nome possa ser finalmente apagada.

Joan Copjec, editora de revista em Nova York, autora de artigos e livro sobre feminismo, psicanálise e cinema, inaugura a última parte da coletânea, ainda referida à "Diferença sexual", que trata do "Psíquico no social". Preocupada com a questão do real, que considera subsumida nas análises contemporâneas da relação entre psicanálise e política, sua tese é a de que "o real é o que une o psíquico ao social", e esta relação é governada pela pulsão de morte (p. 305).

Baseia-se nos escritos de Freud O Mal Estar na Civilização e Para Além do Princípio do Prazer para elaborar suas reflexões sobre o princípio da realidade e o social, o princípio do prazer, as pulsões de vida e morte. Compara escritos de Freud e Bergson, de Bergson e Lacan. Analisa a questão da causa, pela referência a Lacan e Aristóteles, chegando à questão do sujeito e do sujeito do feminismo. No interesse de evitar a eliminação da realidade psíquica ou da realidade social nas análises, ela afirma que o conceito de causa precisa ser recuperado e repensado no sentido de possibilitar a compreensão da relação entre a ordem social e a existência psíquica, especialmente para a análise feminista, que depende da existência de uma semi-independência psíquica em relação às estruturas patriarcais.

Parveen Adams, conferencista sobre psicanálise de Brunel, co-fundadora e co-editora da publicação feminista m/f, escreve um ensaio sobre o lesbianismo sado-masoquista, diferenciando-o do masoquismo clínico, caracterizado como patológico.

De acordo com ela, no sentido de centrar-se fora da ordem do social e familiar e recusando as formas de patologia feminina organizadas dentro do campo fálico, a lésbica sado-masoquista resolve seu problema de entrada no desejo sem qualquer coisa que possa ser caracterizada como gozo feminino. Como uma sexualidade transgressora que só pode associar-se a uma realidade psíquica numa relação complexa com alguma porção muito nova da realidade externa, o lesbianismo sado-masoquista consegue lograr, segundo a autora, a separação radical entre gênero e sexo.

Como se pode perceber, esta é uma coletânea de muito interesse, tanto para os estudos de gênero quanto para outras áreas, como a crítica literária e a psicanálise. Traz discussões densas, atuais, com enfoques variados, que não caberiam "no ponto de vista da mulher", sugerido no subtítulo da edição brasileira. Ela mostra justamente o oposto: a riqueza e diversidade de concepções de mulheres reunidas para discutirem suas reflexões em torno de temas relevantes para os estudos feministas e de gênero.

 

MARA COELHO DE SOUZA LAGO

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