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Revista Estudos Feministas

versão impressa ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. v.10 n.1 Florianópolis jan. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2002000100003 

O Ciborgue Zapatista: tecendo a poética virtual de resistência no Chiapas cibernético

SARAH GRUSSING ABDEL-MONEIM
Macalaster College

 

 

Resumo: A circulação global, entre 1994 e 2001, do neo-zapatismo e do ativismo solidário não-indígena como símbolos de resistência no ciber-espaço sugere a necessidade de novas formas de leitura dos movimentos sociais na era digital. Uma leitura feminista do binarismo local/global do espaço discursivo em torno da rebelião maia em Chiapas tanto afirma quanto contesta teorias predominantes pós-modernas sobre a relação entre corpo humano e tecnologias cibernéticas. Esse espaço híbrido transgride e confirma fronteiras entre ator/atriz e audiência, escritor/a e leitor/a, humano e máquina. A relação entre o teatro da resistência material na Zona de Conflito e o crescimento da resistência virtual no Ciber-Chiapas ilustra a natureza ciborgue material/tecnológica da rebelião de Chiapas.
Palavras-chave:
zapatista, Chiapas, México, Internet, feminismo, movimentos sociais.

 

 

A circulação de ativistas de solidariedade neozapatistas e não-indígenas como símbolos de resistência no espaço cibernético durante os últimos sete anos sugere a necessidade de métodos novos para entender os movimentos sociais nesta era virtual. Esta monografia1 é parte de um estudo maior sobre implicações teóricas do papel da tecnologia na criação e expansão desse espaço discursivo e do teatro global da resistência associada à recente rebelião indígena em Chiapas, México.2

Eu gostaria de concentrar-me aqui na "des-locação" dos corpos e das vozes indígenas de "Um lugar chamado Chiapas" (como o documentário de Nettie Wild o classificou) ao sul do México para um espaço incorpóreo. Como é que os indígenas engajados na resistência são deslocados da zona material de conflito em Chiapas (de fato um 'não-lugar' visto de uma perspectiva antes de 1994) para uma zona sem fronteiras e sem dimensões, que é simultaneamente 'em lugar nenhum' e 'em todo lugar'? Quais são as contradições envolvidas quando rebeldes maias, de um movimento que procura ligação com outros movimentos sociais globais, viajam pelo espaço cibernético como ícones de multimídia? Apesar do modelo militar do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), embora invertido, será que a digitalização do movimento rebelde dá caminho, paradoxalmente, à transcendência de suas origens militares enquanto é tecida uma rede global descentralizada de solidariedade? Será que a tecedura dessa rede de solidariedade também se qualifica como ato de resistência que se apropria do próprio espaço cibernético ¾ espaço esse que teve sua origem como arma militar de defesa e que se encontra atualmente dominado pelo capital global?

Parte das séries de desplazamientos a que me refiro envolve a representação e a participação das mulheres nesse espaço tecnologicamente mediado, como, também, a relevância do feminismo para a análise desse espaço. A tecnologia muitas vezes tem sido representada como aspecto do domínio e da autoria masculinos da cultura 'moderna' e, de fato, 'pós-moderna', em que o agenciamento da mulher é mal recebido e mesmo visto como não natural. Apesar de tudo, a teórica feminista Sadie Plant nos lembra que a computação e a rede de computadores seguem o modelo de atividade tradicionalmente feminina da tecedura. Sadie Plant também nos lembra que uma mulher, Ada Lovelace, foi uma pioneira de destaque no processo de invenção do primeiro protótipo de computador no século XIX.3 Com as afirmações dessa autora em mente, eu gostaria de explorar a questão de como as teorias feministas, ao estabelecer relações entre tecnologias emergentes e os modelos para visualização de articulações políticas radicais, podem fornecer insights úteis quanto ao fenômeno de Chiapas e quanto ao sucesso da tecedura de um espaço alternativo para novas formas de visualizações e realizações de políticas locais e globais. De suma importância para esse ato de tecer espaço são os vários processos de 'des-locação' dos indígenas e dos corpos das mulheres enquanto viajam pelo espaço cibernético, assim como a 'des-locação' experimentada pelos agentes não-indígenas e pelo público na produção de textos multimídia de solidariedade transnacionais.4 Tomando por empréstimo as idéias das pesquisadoras feministas Donna Haraway e Anne Balsamo, discutirei como o fenômeno dos "Zapatistas no espaço cibernético" ao mesmo tempo afirma e contesta teorias pós-modernas prevalecentes sobre a relação entre o corpo humano e as tecnologias cibernéticas. Antes de dar início à exploração dessas questões teóricas, porém, fornecerei um breve sumário sobre a rebelião indígena em Chiapas e a rede nacional e global de solidariedade, a qual emerge em resposta àquela rebelião e que vem produzindo, ativamente, matérias para a imprensa convencional e multimídia em apoio às demandas dos/as rebeldes por justiça e dignidade.

 

De nenhuma parte para toda parte

No dia de Ano Novo em 1994, um exército de homens e mulheres maias autodenominado Exército Zapatista de Liberação Nacional (EZLN) emergiu de 'nenhum lugar' para tomar posse de várias vilas e centros de comunicação em Chiapas, no mesmo dia em que entrou em vigor o NAFTA (Acordo de Livre Comércio entre México e Estados Unidos). No contexto dos acordos de livre comércio, a emenda adicionada pelo presidente Salinas ao Artigo 27 da Constituição mexicana pôs um fim às diretrizes de divisão de terras tradicionais sem resolver a crise agrária sofrida pelas comunidades camponesas e indígenas do México e sem, tampouco, gerar suficientes oportunidades para que esses setores da sociedade pudessem levar uma vida com dignidade. No discurso do EZLN, as medidas do plano de ação neoliberal são vistas como produtos da Nova Ordem Mundial, que é baseada na injustiça social, econômica e política, apesar da retórica democrática usada para apoiá-la.

O símbolo de Zapata, há muito tempo cooptado pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI) , tem sido sempre um elemento-chave na disputa pelo sentido da Revolução Mexicana. Por defender a causa em prol de um novo significado, embora historicamente ligado à luta zapatista e à luta do México por uma democracia inclusiva geral, o discurso neozapatista re-apropria-se do significado do herói revolucionário camponês martirizado, assim como de outros símbolos culturais em circulação. A 'significância excessiva' desses símbolos muitas vezes subverte sua interpretação pelas instituições mexicanas. É por essa razão, entre outras, que eu chamo de 'neozapatista' essa nova forma de resistência, para que a possamos diferenciar do movimento zapatista original da Revolução Mexicana.

A rebelião neozapatista está profundamente enraizada na história mexicana; entretanto, seu programa de demandas e a visão de mundo que a orienta estão bem ligados ao contexto mundial atual. A arma mais efetiva dos neozapatistas é o seu convite para a re-articulação da identidade mexicana ¾ e da identidade humana ¾ através da busca por dignidade, democracia, e justiça social e econômica. Depois dos primeiros dias de conflito armado, o EZLN, na maioria das vezes, utiliza-se de estratégias não-violentas; uma delas é uma chamada à solidariedade da sociedade civil mexicana e do público internacional. Um elemento importante para o sucesso dos/das rebeldes em resistir às tentativas do exército que os quer esmagar é a circulação efetiva de comunicações via e-mail e websites, assim como a divulgação de informações sobre a crise através do apelo às organizações não-governamentais (ONGs) que produzem boletins de ação urgente e publicam casos de abusos de direitos humanos na Internet. Tais iniciativas de contatos através do espaço cibernético ajudam a transmitir notícias de minuto a minuto que complementam, corrigem e contradizem as reportagens mais comuns e convencionais. Além disso, a agenda dos/das rebeldes tem despertado o interesse de uma grande variedade de indivíduos e grupos, tais como ativistas de direitos humanos, acadêmicos, artistas, músicos populares, jornalistas progressistas e grupos ecumênicos em prol da justiça social, que têm realizado produções simbólicas pela Internet. A "Guerra da Tinta e da Internet" do EZLN, como é chamada,5 tem sido tão triunfante que os 'atos da fala' dos neozapatistas ressoam dentro do contexto do discurso global de direitos humanos. O crescente acesso e manipulação da Internet, com as suas possibilidades utópicas e democratizantes, resulta na criação e na expansão contínua de um espaço dinâmico e discursivo em que as palavras, imagens e atos de resistência diária nas comunidades de base zapatistas na Zona de Conflito adquirem numerosos níveis de significância.

A luta das comunidades autoproclamadas autônomas em Chiapas ressoa profundamente em muitos setores da sociedade civil mexicana que também estão tentando rearticular uma identidade nacional que não mais exclua os grupos que historicamente ocuparam e continuam ocupando posições marginalizadas. Os/as rebeldes mascarados dentro dessa "colônia interna"6 na fronteira sul têm convidado o seu público no México e no estrangeiro para participar do processo de exposição da imagem ilusória do México como nação que pretende entrar para o 'Primeiro Mundo', uma imagem que tem sido projetada para solicitar investimento internacional. Ao desconstruir o mito de uma nação democrática e inclusiva e revelar o 'outro México', os/as rebeldes também encorajam a construção de alianças através das fronteiras de etnia, gênero e classe da sociedade civil de maneira que possam promover o nascimento de instituições sociais e políticas mais democráticas e justas.

Apesar dos esforços do Estado e do exército mexicanos para limitar a rebelião a uma pequena 'Zona de Conflito' através da contenção física das comunidades rebeldes, a rebelião armada de Chiapas ironicamente abriu um espaço discursivo que vai muito além do nível local. A subversão neozapatista de esquemas estabelecidos de diálogo entre os indígenas e o Estado começou com o pedido do EZLN pela mediação por parte da sociedade civil nesse diálogo, na tentativa de achar alternativas de paz para a resolução do conflito armado. Esse convite zapatista à sociedade civil, atraente para grupos e agentes tão diversos quanto os sindicatos trabalhistas, ativistas de direitos homossexuais, grupos em defesa de direitos indígenas, ativistas lutando por reformas eleitorais, estudantes, artistas e escritores/as, jornalistas, homens e mulheres de partidos políticos, músicos populares e até mesmo os setores desarticulados de classe média, resultou em uma mediação física entre o Estado e os rebelados através da formação de um cinturón de paz durante as primeiras fases de negociação. O convite também inspirou a criação e o fortalecimento de novas organizações políticas e sociais que se dedicam a vários aspectos da luta pela democracia, justiça e pluralidade, e que fazem pressão por reformas políticas. "Los zapatistas abrieron la puerta, y nosotros nos estamos metiendo", disse Arturo Sanabria, diretor da Gestión de Servicios de Salud, uma organização que ajuda a desenvolver alternativas centradas nas comunidades para limitar os serviços médicos oferecidos pelo exército mexicano como parte de sua estratégia de guerrilha de baixa intensidade.7 Essa abertura realizada pelo discurso neozapatista reflete uma transformação radical nos velhos processos da mediação cultural.

 

Tecendo a teia da Internet

Em um artigo publicado em janeiro de 1999 por um jornal mexicano, La Jornada, Fabrizio Mejía Madrid assim resumiu a trajetória da rebelião em Chiapas desde que esta apareceu em janeiro de 1994: "La história de estos cinco años va del agrarismo tradicional a la penosa contrucción de um lugar en el que nadie ha estado, de ocupación de tierras a la identidad sin territorio definido".

Comunidades indígenas em resistência em Chiapas têm adquirido importância transnacional dentro do contexto da globalização dos projetos neoliberais. Comunidades autônomas, situadas em uma das mais isoladas e marginalizadas regiões de México, agora se encontram no centro de um espaço discursivo que vem transgredindo muitas fronteiras. Nesse espaço, o futuro dos direitos humanos é discutido, assim como são as questões de autonomia cultural, o enfraquecimento ou desaparecimento de tradicionais fronteiras geográficas, econômicas, políticas e culturais, e a possibilidade de construção de comunidades locais e globais. Através da produção de milhares de textos eletrônicos e interativos, imagens de zapatistas circulam como símbolos das possibilidades subversivas de rearticulação de um sentido da comunidade contestatória do modelo IBM de 'Vila Global'.

Nos textos de mediação do contraditório mas efetivo porta-voz não-indígena do EZLN, o subcomandante Marcos, assim como no discurso de muitos ativistas políticos e organizações de direitos humanos mexicanos e transnacionais, a palavra 'Chiapas' representa o modelo de dignidade que inspira tentativas de articulação de modelos novos de justiça social e ligação com outros modelos. Não vem ao caso se a estrutura de poder utópico popular do EZLN e das suas comunidades de base realmente funciona de modo tão ideal, como Marcos e outras vozes neozapatistas o descrevem; ela tem causado o aparecimento de esquemas descentralizados de solidariedade e comunicação. Talvez seja principalmente a mediação eficiente do maia-de-honra Marcos, entre os vários discursos culturais e intelectuais em níveis locais, nacionais e globais, a razão pela qual os neozapatistas têm recebido tanta atenção de todo o mundo, e pela qual o 'Chiapas', como signo mediador, tem adquirido importância em outras lutas por autonomia ou justiça social em outras partes do mundo. Porém, o convite dos neozapatistas para novas visualizações tornou possível a formação de articulações discursivas que refletem a estrutura descentralizada das ligações hipertextuais no espaço cibernético. O slogan "Todos somos Marcos; todos somos índios; todos somos Chiapas" é repetido não só no México, mas também na Irlanda, no Japão, na Holanda, na Itália, nos Estados Unidos, e em muitos outros lugares onde os/as 'leitores/as' ou o 'público' dos textos ou performances multimídia, realizados por ou sobre os neozapatistas, também se tornam escritores/as e atores/atrizes no teatro global da resistência virtual contra a repressão das minorias, o neocolonialismo dos Estados e a expansão dos planos de ação neoliberais.

O uso de tecnologias emergentes na amplificação das vozes indígenas, assim como na criação e distribuição de textos em que os/as rebeldes neozapatistas circulam como símbolos multifacetados da resistência, tem sido fundamental no novo processo de mediação entre as vozes indígenas e as culturas hegemônicas de um México mestiço e de uma vila global desde 1994. Por exemplo, internautas em visita ao website da Comissão Nacional pela Democracia no México podem comprar camisetas que dizem "soy Zapatista". Galerias de fotos na Internet exibem cenas do dia-a-dia nas comunidades autônomas e correntes de mulheres e crianças indígenas não armadas tentando impedir, com seus próprios corpos, que soldados de tropas de choque entrem nas suas vilas e plantações de milho. Especialmente desde o massacre de mais que 40 pacifistas indígenas (principalmente mulheres e crianças) de um grupo chamado Las Abejas, em dezembro de 1997, muitos websites promovem vídeos que documentam violações de direitos humanos e entrevistam vítimas e militantes locais. Em alguns sites, vários videoclipes e filmes de entrevistas estão disponíveis para serem vistos on-line. O site da Acción Zapatista, patrocinado pela comissão de solidariedade em Austin, Texas, ostenta uma impressionante bibliografia anotada de websites sobre os/as rebeldes, ilustrados com a rendição gráfica de Marcos como ciberpunk, uma produção embelezada por técnicas eletrônicas de uma foto verdadeira do subcomandante do EZLN. Muitos outros desses websites são conjuntamente mantidos por ativistas mexicanos e internacionais.

 

Des-locar e re-colocar os corpos

A circulação das vozes e dos corpos indígenas como símbolos de resistência nos textos multimídia do espaço cibernético envolve vários processos de 'des-locamento' dos atores e do público nesse teatro global. Embora esse des-locamento afete a todos aqueles que participam dessa representação interativa, podemos argumentar que os vários níveis de des-locamento que as mulheres indígenas experimentam quando se juntam à luta nesse espaço tecnologicamente mediado de Chiapas são os mais visíveis. Embora eu queira me concentrar aqui nos desplazamientos devido à mediação tecnológica, também é importante indicar que o 'des-locar' dos corpos das mulheres indígenas começa não no espaço cibernético, mas na própria Zona de Conflito, nos altiplanos de Chiapas. A ocupação de Chiapas pelo exército mexicano produziu milhares de refugiados internos, a quem a imprensa e os grupos de direitos humanos se referem literalmente como "os deslocados". Mulheres fugindo da ameaça de violência de militares e paramilitares tentam se sustentar e cuidar das famílias em acampamentos temporários ou nos esconderijos nas montanhas. Por outro lado, a imprensa convencional imediatamente interessou-se pelo curioso fato de que muitos dos soldados zapatistas uniformizados, que participaram da captura de várias vilas e centros de comunicação em janeiro de 1994, eram mulheres. O próprio movimento rebelde 'deslocou', de suas casas e das estruturas familiares tradicionais, mulheres indígenas que se apresentaram como voluntárias para o combate junto ao EZLN e que foram para acampamentos militares de guerrilha ¾ uma mudança de identidade muitas vezes veiculada na imprensa através da imagem chocante das jovens maias rebeldes usando uniformes militares em vez de trajes típicos e carregando armas em vez de bebês. Tanto a imprensa convencional como as fontes de notícias alternativas baseadas na Internet publicaram fotos de mulheres maias das comunidades de apoio civil rebeldes usando trajes típicos com bandanas cobrindo as faces. Elas se apresentaram desse modo em protestos pelas ruas de San Cristobal ou da Cidade do México ou quando formavam um bloco humano contra as incursões do exército mexicano. Talvez o exemplo mais bem conhecido desse 'deslocamento' seja o caso da agente de polícia zapatista de fala mansa Ramona, que, mesmo sofrendo de uma doença terminal, aprendeu o espanhol para poder tomar de assalto a Cidade do México e o espaço cibernético quando ali chegou pela primeira vez como delegada do EZLN. As mulheres das comunidades civis do EZLN também têm escrito e insistido na ratificação das "Leis Revolucionárias das Mulheres" por parte do EZLN, declarando o seu direito de poderem escolher o seu esposo, determinar o número de crianças que elas queiram ter e participar igualmente em todas as atividades políticas e decisões da comunidade. Mulheres na Zona de Conflito também estabeleceram pequenas indústrias cooperativas, produzindo tecelagem e outros artesanatos para obter saídas criativas para o seu isolamento econômico.

Embora se possa argumentar que sejam subprodutos do movimento autônomo indígena neozapatista original, as distintas interpretações das mulheres sobre o que deveria significar tal autonomia cultural em nível comunitário exercem influências cada vez mais visíveis no cenário internacional. A participação das mulheres na Zona de Conflito vem despertando o interesse de muitos envolvidos na rede global de solidariedade criada em torno da rebelião. Livros e dissertações acadêmicas sobre as mulheres zapatistas,8 já foram publicados grupos de solidariedade criados, tais como o da Comissão Nacional por Democracia e o das Irmãs do México Além das Fronteiras. Também vão se abrindo espaços cibernéticos, como os websites interativos do Fórum sobre as Mulheres Zapatistas. As mulheres zapatistas e as mulheres não-indígenas, inspiradas pelos/as rebeldes neozapatistas da organização militar ou da base civil, tornaram-se importantes contatos na campanha internacional pelos direitos humanos e pela democracia em Chiapas e, em geral, no México. Por exemplo, a fundadora da Comissão Nacional pela Democracia no México, Cecilia Rodríguez, uma cidadã americana de descendência mexicana, tornou-se a 'embaixadora' do EZLN para os Estados Unidos, e a atriz e ativista mexicana Ofélia Medina continua sendo uma líder vociferante junto ao movimento mexicano em apoio às comunidades rebeldes. Mulheres como Teresa Ortiz, da ONG binacional sediada em San Cristobal, Cloudforest Initiatives, ajudam a patrocinar excursões internacionais de palestrantes cujas vozes não poderiam ser ouvidas de outro modo (assegurando, por exemplo, que a esposa indígena monolíngüe de um líder bilíngüe de Las Abejas ¾ o grupo alvo de um massacre paramilitar a civis em Acteal ¾ também tenha a oportunidade de falar durante a excursão internacional). Ajudam, também, a patrocinar um projeto de alfabetização comunitária, ou projetos alternativos de desenvolvimento econômico para cooperativas autônomas de mulheres na Zona de Conflito.

Volto-me agora a duas questões: a função da tecnologia emergente na tecedura dos espaços globais de resistência contra as injustiças econômicas, políticas e sociais; e as possibilidades que novas tecnologias poderão fornecer para a tecedura futura que conecte as lutas locais com os temas globais. Será que essas novas tecnologias vão nos alienar ainda mais da nossa humanidade e de cada um de nós, ou vão nos tornar mais unidos/as? Observou-se muitas vezes que a construção de auto-estradas nos Estados Unidos corresponderam ao fim do sentido de comunidade que havia nos centros urbanos. O crescimento rápido da muito falada information superhighway, dominada pelos interesses corporativistas, poderia ter conseqüências semelhantes para o sentido da comunidade no espaço cibernético. Por outro lado, o modelo mais descentralizado da Internet, com as suas possibilidades utópicas de construção de comunidades sem fronteiras, contesta o modelo Al Gore/IBM/Microsoft da information superhighway. A disputa pela apropriação do espaço cibernético está atualmente baseada na oposição entre esses dois modelos da net e da highway. A information superhighway não contesta estruturas de poder injustas, mas em vez disso reproduz velhos modelos de exploração em nome da democratização. Construída para propósitos comerciais e militares, a information surperhighway transforma seres humanos em uma base de dados. Alguns teóricos até falam do 'estupro' dos dados como sendo sua função.9 Em contraste, o modelo da Internet é baseado numa extensão virtual da humanidade que permite a criação de novos modelos de conexão, comunidade e comunicação descentralizada, e em que ainda é possível sonhar com estruturas sociais alternativas.

Várias teorias pós-modernas sobre o futuro da humanidade no contexto digital, assim como aquelas articuladas por Arthur Kroker e Michael Weinstein no seu livro Data Trash, falam do desaparecimento, ou invasão, do corpo humano.10 Quando tais teóricos tentam visualizar as manifestações do corpo no espaço cibernético, onde parâmetros físicos não existem, eles falam da 'virtualização' do corpo: o corpo eletrônico. A idéia do desaparecimento do corpo pode ser um conceito útil quando analisamos espaços discursivos moldados pela tecnologia emergente. Seja como for, a idéia do desaparecimento do corpo no espaço cibernético também pode ser problemática. Talvez isso ocorra devido ao papel importante que o corpo humano continua a ter quanto à definição de idéias de comunidade. No seu ensaio "Forms of Technological Embodiment", Anne Balsamo observa que

A história feminista do corpo pós-moderno começa com a suposição de que os corpos são sempre engendrados e marcados pela raça. O que falta [na idéia de que 'o corpo' é uma abstração idealista] é uma dimensão material que leva em conta as marcas incorporadas da identidade cultural. [...] O corpo nem sempre pode ser construído como uma entidade puramente discursiva. Por outro lado, ele nunca pode ser reduzido a um objeto puramente materialista. [...] O material e o discursivo são mutuamente determinantes e não-exclusivos. [...] O corpo material permanece um fator constante da condição pós-humana, pós-moderna. Ele tem certas qualidades materiais inegáveis que são, por seu turno, culturalmente determinadas e discursivamente governadas; qualidades que são ligadas à sua psicologia e aos contextos culturais dentro dos quais ele faz sentido, tais como as suas identidades de gênero e raça.11

Enquanto reconhece o poder das observações de Kroker em relação à 'cultura virtual' e ao desaparecimento do corpo, Balsamo questiona a idéia atualmente muito defendida de que vivemos em um mundo pós-corpo, onde o corpo humano é apenas uma construção pós-moderna de dados. Nós podemos adicionar à sua asserção a observação de que os aspectos materiais e discursivos 'mutuamente determinantes' do corpo continuam a funcionar enquanto as narrativas e as contranarrativas da modernidade e da pós-modernidade se chocam e se intersectam nos espaços globais.

Nos textos cibernéticos que são encontrados no espaço discursivo em Chiapas, podemos observar a circulação simbólica de corpos indígenas e/ou corpos femininos; isto é, corpos humanos marcados como 'outro' no discurso hegemônico cultural. Na literatura latino-americana, desde o período colonial, o corpo feminino tem sido muitas vezes representado como o lugar mediador de discursos da nação, da raça e da etnia, e do poder. Com a figura da mulata no Caribe e no Brasil, ou a figura de La Malinche no México, por exemplo, os corpos das mulheres não-brancas servem como lugares de figuração da invasão de discursos culturais que também os definem, marcam e oprimem. Desde 1994, corpos indígenas e corpos femininos 'marcados' circulam como entidades discursivas no espaço discursivo de 'Chiapas', mas o corpo eletrônico ou virtual como representação também depende das condições materiais para ser transformado em símbolo eficaz de resistência às estruturas de poder opressor. As 'galerias virtuais de fotos' de comunidades indígenas em territórios rebeldes colocadas na Internet por fotógrafos, jornalistas e ativistas ilustram a importância que essas 'marcas' de raça (e de gênero e etnia, já que as imagens favoritas das máquinas fotográficas parecem ser de mulheres vestidas em trajes típicos) adquirem em um contexto visual de pobreza e isolamento físico (da selva ou das plantações de milho) para comunicar a luta neozapatista à comunidade transnacional. Outras imagens favoritas são aquelas de soldados indígenas do EZLN em botas de borracha levando espingardas de madeira falsas, tais quais acessórios de teatro, ou fotos de mulheres adolescentes das comunidades rebeldes, descalças, com bandanas cobrindo seus rostos e levando bebês às costas, repelindo as linhas militares com os seus braços nus e pardos.12 Nós não podemos desligar o corpo eletrônico que resiste no espaço cibernético das suas referências às condições materiais do corpo físico ¾ condições que são muitas vezes determinadas pela maneira como as questões de raça e/ou gênero são inscritas nas narrativas modernas de identidade.

 

Direitos (pós)humanos e o corpo digitado

Não é uma coincidência que o discurso de direitos humanos, com o seu foco nas condições materiais de nossa existência, estruture os textos produzidos nesse espaço eletrônico. Na Internet, corpos femininos indígenas servem como sites de mediação eficazes, ou como pontes entre as comunidades de resistência indígenas isoladas em Chiapas e os espaços nacionais e globais, pois esses sites revelam, em um nível material e simbólico, as rupturas nos discursos do neoliberalismo e da globalização econômica. Os indígenas e/ou corpos femininos circulam no setor 'Chiapas' do espaço cibernético não só como objetos de discurso intelectual, mas também como sujeitos na performance multimídia do teatro de resistência, que é a vida diária na Zona de Conflito. Entre centenas ou até milhares de tais atuações rebeldes 'virtualizadas' em vários dos websites mexicanos, norte-americanos, europeus e japoneses, um exemplo é quando Irma, uma agente do EZLN, em uma entrevista transmitida por Quicktime, fala sobre a sua falta de oportunidades ao crescer em uma comunidade empobrecida e isolada do altiplano, e sobre as razões para unir-se ao exército rebelde.13 Tradicionalmente, Irma era duplamente invisível como indígena e como mulher, mas sua voz calma e digitalizada e seu corpo trajado de uniforme camuflado surgiram de 'nenhuma parte' da selva Lacondan vizinha e ressonaram nas telas de computadores em todo o mundo. Em videofilmagens espontâneas, em jornais on-line, nas webpáginas das organizações não-governamentais nacionais e transnacionais, circulam imagens visuais e aurais de mulheres e crianças desarmadas que usam os seus corpos e vozes (gritando "¡Fuera el ejército, fuera!")14 para impedir o exército mexicano de invadir as suas comunidades. Grupos paramilitares, assim como o exército mexicano, continuam usando a tortura e a violência sexual como armas de guerrilha de baixa intensidade na Zona de Conflito. Mas as torturas e os estupros, estratégias de controle social que inscrevem a retórica do poder no corpo do outro, adquirem diferentes significados no Chiapas Virtual. Proclamando 500 anos de sofrimento, mulheres indígenas contam as suas histórias pessoais de opressão e violação, e os seus testemunhos são amplificados e circulados pelo espaço cibernético juntamente com os testemunhos de mulheres ativistas, figuras de mediação não-indígenas. O exército e grupos paramilitares têm atribuído a essas mulheres uma categoria indígena 'virtual' por causa do seu ativismo mediador nos espaços discursivos e físicos de Chiapas. Isso é uma manifestação dos perigos e riscos que podem acompanhar a afirmação de solidariedade, muitas vezes repetida, de que "todos somos índios; todos somos Chiapas". Por exemplo, Cecilia Rodriguez, a líder da Comissão Nacional por Democracia no México e representante do EZLN nos Estados Unidos, foi violada sexualmente em 1995 por paramilitares. O seu testemunho escrito, marcado pela coragem e por contínuo ativismo e solidariedade para com as comunidades rebeldes, foi reproduzido por listas de mala direta mundiais e ilustrou cartazes de solidariedade a Chiapas, distribuídos de forma impressa e também pela Internet, por conta da cooperativa de artistas Resistant Strains, de Vermont, Estados Unidos.

Houve muitos outros exemplos de violência sexual sofrida por ativistas indígenas e não-indígenas na Zona de Conflito. No entanto, esses atos de intimidação e repressão não silenciaram suas vozes, mas, sim, resultaram na sua amplificação através da rede de solidariedade que continua a crescer. Os testemunhos desses homens e dessas mulheres tornam-se um símbolo de resistência que inspira mais solidariedade e mais resistência virtual fora da zona física de conflito. Embora seja importante distinguir entre atos físicos de resistência contra ocupação militar e ações paramilitares que põem 'corpos na linha de fogo' (e outros tipos de resistência que não o fazem), a resistência virtual e a emergência do espaço discursivo de Chiapas têm sido importantes para levantar o nível de consciência sobre as lutas daqueles corpos resistentes e para articular simbolicamente tais lutas com outras, mundo afora. Muitas vezes, essas ligações tornam-se mais do que simbólicas. Espectadores(as)/leitores(as) de textos eletrônicos no espaço de 'Chiapas' acham que a sua interação com esses textos torna-se o estímulo para ações futuras ligando discurso e práxis. Zonas da paz criados por observadores internacionais de direitos humanos tornam-se anteparos humanos entre o exército e as comunidades em Chiapas, milhares de ativistas participam de 'Reuniões para Humanidade e Contra Neoliberalismo' nos níveis 'Continental', 'Intercontinental' e 'Intergalático' patrocinados pelos/as rebeldes em Chiapas e no estrangeiro, e tribos indígenas dos Estados Unidos e Canadá organizam peregrinações para fora dos Estados Unidos e do Canadá a fim de assinar os seus próprios acordos comercias alternativos com os seus correlativos nas comunidades maias.

Os processos de mediação no espaço discursivo em 'Chiapas' também têm suas próprias contradições. O EZLN abriu esse espaço para desconstruir instituições baseadas em estruturas de poder desigual e para promover a construção de outros modelos mais inclusivos. Contudo, muitas feministas, assim como outros críticos, indicam que o militarismo do EZLN reproduz velhos modelos patriarcais de resolução de conflito, constituindo-se, por isso, em um molde inautêntico para a construção de novos modelos sociais e políticos. Outra contradição é que, apesar das possibilidades de não-intermediação (amplificação mais direta das vozes indígenas via Internet), a necessidade de mediação por parte de intelectuais não-indígenas não foi eliminada. Nas suas funções de intelectuais e/ou militantes e na sua produção simbólica dentro e fora das fronteiras físicas das comunidades autônomas indígenas em Chiapas, aqueles/as que participam na rede de solidariedade transnacional neozapatista ainda servem como mediadores/as entre as vozes indígenas e os espaços de privilégio ao qual pertencem.

Apesar do fato de que ativistas e escritores prolíficos do espaço cibernético (como o professor da Universidade do Texas Harry Cleaver e seu grupo Acción Zapatista) afirmem que a rede de solidariedade neozapatista seja um espaço descentralizado, em que relações desiguais de poder globais não são reproduzidas, há uma certa desigualdade que não pode ser apagada, mesmo em um espaço cibernético utópico. Nós podemos afirmar que há possibilidades utópicas para a construção de novas comunidades democráticas no espaço cibernético, mas o fato é que só os mais privilegiados têm o acesso direto a esse espaço. A participação em A Revolução Irá Ser Digitada,15 o website interativo de alta tecnologia de Actlab, no Zapnet, por exemplo, exige equipamento de última geração e o mais recente software de busca do tipo plug-in. Nem todos os nódulos da rede de solidariedade são tão exclusivos: há muitos grupos de notícias, quadros de aviso e arquivos menos avançados tecnologicamente. De qualquer maneira, computadores são portas ao espaço cibernético, e em áreas mais economicamente marginalizadas, como Chiapas, o acesso e o treinamento para o uso de hardware geralmente não existem. Comunidades indígenas dependem da mediação de estrangeiros e de alguns mexicanos ligados à Internet para poder ter entrada no espaço cibernético. O fato de as comunidades de resistência em Chiapas solicitarem doações de máquinas fotográficas e computadores indica, por parte dessas comunidades marginalizadas, o nível de consciência sobre o poder desses novos métodos de comunicação. Com acesso a esse tipo de equipamento, os indígenas em Chiapas e outros grupos marginalizados do mundo inteiro podem documentar os atos de resistência das suas vidas diárias. Assim foi que a organização binacional Projecto de Mídia Chiapas foi criado. Essa organização, filiada à Rede de Solidariedade do México, patrocina delegações dos Estados Unidos e do México que incluem artistas de vídeo indígenas e outros mexicanos com experiência e treinamento em projetos alternativos de mídia. Esses peritos mexicanos treinam os seus correlativos em Oventic e Morelia (no coração do território neozapatista, na parte rural de Chiapas) e acompanham delegados internacionais que levam equipamentos doados. Esse programa permite a essas comunidades "contarem as suas histórias, em suas próprias palavras", para poder contestar a imagem muitas vezes pouco correta da realidade veiculada pela imprensa convencional ¾ imagem esta que irá influenciar tomadas de decisões externas com impacto nas comunidades. Dentro do Projecto de Mídia Chiapas, vídeos são mandados a estações de televisão ou são enviados como 'cartas-vídeo' para as comunidades indígenas ou para outras áreas do México ou de outros países. Em breve, as comunidades em Chiapas que participam do projeto também poderão registrar as violações de direitos humanos e inseri-las na Internet em 'tempo-real'.16

 

O Ciborgue Zapatista

A idéia de que essas comunidades marginalizadas podem, dentro do contexto de luta por autonomia, articular as rupturas no discurso de globalização econômica e subverter processos de alienação pós-modernos, no sentido de transformá-los em processos de rearticulação de comunidade e de realidade material em um nível global, mostra os paradoxos presentes nesse espaço discursivo tecno-logicamente mediado. Zapatistas virtualizados são uma lembrança das condições materiais da vida humana. Corpos indígenas e/ou femininos no espaço discursivo do Chiapas eletrônico representam simbolicamente todos os grupos que são excluídos dos projetos globais neoliberais; são corpos que se recusam a desaparecer sob a Nova Ordem Mundial. O neozapatismo marca uma nova etapa na Revolução Mexicana; um novo estágio de resistência indígena sem fronteiras. Também sugere modelos subversivos inovadores que atravessam fronteiras para estabelecer ligações intertextuais ou hipertextuais entre atos anteriormente isolados de produção simbólica e de crítica cultural. Em vez de visualizar a rede global neozapatista como um fenômeno relacionado ao 'corpo em desaparecimento', talvez seja mais produtivo vê-la como resultado do nascimento do Ciborgue Neozapatista, um conceito que ao mesmo tempo incorpora e atravessa fronteiras. Anne Balsamo observa que

o ciborgue ¾ o "ser humano-tecnológico" ¾ tornou-se uma figuração familiar do sujeito da pós-modernidade. Por qualquer outra coisa que possa insinuar, esta junção conta com uma re-conceitualização do corpo humano como figura de fronteira pertencendo simultaneamente a pelo menos dois sistemas anteriores de significados incompatíveis ¾ "o orgânico/natural" e "o tecnológico/cultural". À medida que o corpo é re-conceitualizado não como uma parte fixa da natureza, mas como um conceito de fronteira, nós testemunhamos uma luta de forças ideológicas opostas entre sistemas de significação contrários que incluem e, em parte, definem as lutas materiais dos corpos físicos.17

Tomada como uma coalescência de muitas variações/mutações pelas quais tem passado no espaço discursivo de Chiapas, a figura de um zapatista com máscara de esquiador ¾ tal como é (co)imaginada e diversamente definida em vários contextos inter e hipertextuais ¾ tornou-se um ícone de ciborgue. A tensão constante entre a naturalidade visceral propriamente dita do discurso zapatista, o discurso cibernético de solidariedade e a naturalidade tecnológica/artificial do espaço de Chiapas deram à luz essa função dinâmica de ciborgue. O ciborgue atravessa fronteiras entre o material e o artificial, entre 'carne' e 'máquina'. Desde o aparecimento do ensaio inovador de Donna Haraway "A Cyborg Manifesto: Science, Technology, and Socialist Feminism in The Late Twentieth Century" (um divisor de águas nos meados de 1980), o ciborgue, como símbolo cultural, representa o potencial subversivo do que Haraway chama de "acoplamentos produtivos" de articulação política radical.18 O neozapatista como símbolo adquire a sua qualidade de ciborgue ao circular entre os textos multimídia moldados por uma tecnologia emergente somente imaginada na época em que o ensaio de Haraway foi escrito. O Ciborgue Zapatista é um símbolo mediador cuja eficiência como signo continua a adquirir camadas de significância global exatamente em função desse tipo de associação que atravessa fronteiras entre elementos muitas vezes contraditórios. A imagem de zapatista pode ter sido originalmente baseada nos corpos dos/das rebeldes indígenas, mas esses corpos são desde então escaneados e, depois, regenerados eletronicamente. Deixando de ser propriedade intelectual do EZLN, do subcomandante Marcos, ou de qualquer jornalista, o Ciborgue Zapatista anti-copyright toma forma e adquire vida própria ilegítima no seu próprio espaço cibernético. Entretanto, com o Ciborgue Zapatista, nós podemos ver que a observação de Anne Balsamo quanto ao corpo duplo material/discursivo em espaços pós-modernos é verdadeira. No Zapnet, VR quer dizer Resistência Virtual, assim como Realidade Virtual. O signo quixotesco do zapatista inclinado sobre moinhos de vento multinacionais no espaço cibernético continua a apontar para a existência material dos corpos que são deixados para trás no outro lado da tela enquanto a Nova Ordem Mundial é digitada. 'Resistência virtual' global através de e-mail e Internet torna-se mais e mais sofisticada quando protestos interativos coordenam não só campanhas de inundação de e-mails dirigidos às figuras políticas no México, nos Estados Unidos ou nas Nações Unidas, mas também enormes protestos do tipo sit-ins eletrônicos nas bolsas de valor. Essas campanhas procuram revelar e tornar pública a cumplicidade multinacional corporativista diante da repressão militar no território rebelde, assim como expressar apoio à resistência dos/das rebeldes de Chiapas à globalização políticas neoliberais.19

Como o ciborgue de Haraway, os zapatistas no espaço cibernético viraram "criaturas da realidade social assim como criaturas de ficção".20 Os 'zaps' são uma construção ficcional/retórica do espaço discursivo de Chiapas, uma imagem gerada por computador extremamente significativa que atrai nossa atenção em uma era de conexões rápidas na Internet e de uma rápida barragem de imagens multimídia, que nos aponta para aqueles/as deixados/as do outro lado da tela ¾ aqueles/as que são procurados/as em função dos seus olhos atentos e dedos rápidos em maquiladoras21 na fronteira dos Estados Unidos com o México, naquela terra de ninguém. Será que Zapnet é uma cibermetaficção pós-moderna, ou uma rede de testemunhos de direitos humanos que registra, precisamente, as vítimas de carne-e-osso da interseção de narrativas incompatíveis da modernidade? Podemos sugerir que Zapnet é ambas as coisas. O ciberzapatista funciona como o nosso guia para o Chiapas Virtual nos moldes da ficção de Haraway, que mapeia "realidade social e corpórea".22

O Ciborgue Zapatista como imagem retórica multimídia é produto de um espaço discursivo transnacional em torno das recentes e contínuas contendas por autonomia cultural, democracia, e justiça social e econômica nas comunidades indígenas no México. Minha análise do poder desse instrumento retórico de nenhuma forma tenciona diminuir a atenção sobre os homens e as mulheres nas comunidades rebeldes em Chiapas que continuam a dedicar os seus corpos e vozes às lutas contínuas e diárias por dignidade. O Ciborgue Zapatista deve a sua força e a sua 'humanidade' à determinação desses indivíduos e suas comunidades. A resistência indígena nas Américas está firmemente enraizada em um sentido de continuidade histórica, já que permanece contestando modelos coloniais de injustiça, exclusão e opressão ainda vigentes, embora mascarados pela retórica dos 'pós'. O debate esotérico sobre a natureza do 'mundo pós-moderno' muitas vezes parece desligado da realidade vivida nas comunidades autônomas de Chiapas, ou em quaisquer outras comunidades comprometidas com a resistência contínua contra a opressão com base nas lutas 'modernas' em torno da identidade, da formação nacional e do desenvolvimento. Mas Zapata e outras inúmeras testemunhas mortas dos 500 anos de resistência indígena tornaram-se 'os fantasmas na máquina'. O ciberzapatismo como fenômeno transnacional deve a sua capacidade para 'transgressões frutíferas' de fronteiras aos modelos "transgressores"23originais da selva Lancondan. A coalescência de significados de Chiapas como signo desde o dia 1º de janeiro de 1994, todavia, advém, em grande medida, da mediação desse embate diário por meio da amplificação e representação intertextual e hipertextual em uma produção simbólica estruturada por tecnologias emergentes. O Ciborgue Neozapatista é capaz de nos des-locar ao nos convidar a atravessar fronteiras geográficas, étnicas e de classe, e a participar, na qualidade de leitores(as)/escritores(as)/espectadores(as)/atores(atrizes) de textos/performances de uma guerrilha multimídia, de esforços de resistência virtual contra projetos globais neoliberais. O Ciborgue Zapatista é mais eficiente na sua habilidade para nos des-locar: para nos incitar a afirmar e transgredir diferenças, e para entrever novas 'uniões radicais' na busca de solidariedade com outros indivíduos e grupos. O ciberzapatista nos convida a abandonar os nossos corpos em vôos utópicos de imaginação sobre o futuro da humanidade, mas ao mesmo tempo enraíza profundamente a sua retórica em um sentido de história e de realidade material que nos faz lembrar da nossa própria localização, bem como da dos camponeses no México, tal como elas são ditadas pelas relações de poder locais e globais.

O meu uso do conceito de ciborgue para explorar o zapatista no espaço cibernético como signo de oposição toma uma grande dose de licença poética ao lidar com o instrumento retórico de Haraway. O ciborgue de Haraway foi visualizado como um modelo para a formação de uma rede que iria cruzar as fronteiras entre feministas e fazer novas conexões parciais entre outros grupos de oposição para poder se re-apropriar de novas tecnologias do complexo industrial militar que ameaçou provocar um armagedon nos meados da década de 1980. Mas a chamada original de Haraway para novos modelos de militância social que subverteriam visões totalizantes a partir da evocação de 'uniões radicais' continua sendo relevante. Como ela própria explica, "isto é um sonho não de uma língua comum, mas de uma heteroglóssia infiel poderosa... Significa tanto construir como destruir máquinas, identidades, categorias, relações, histórias de espaço".24 Nos primeiros anos do século XXI, tal ciborgue de oposição procura transgredir fronteiras e fazer ligações 'ilegítimas' para poder se re-apropriar do espaço cibernético das suas origens militares e do seu controle pelo capital multinacional, que iria converter seres humanos em bases de dados. O Ciborgue Zapatista é um símbolo de sobrevivência na nossa era de globalização e virtualização. Esse 'ciborgue da oposição' neozapatista transgride fronteiras globais e locais no esforço de evitar, como Kroker e Weinstein tão eloqüentemente disseram, a "carcaças ao longo do information superhighway".25 A explosão do espaço discursivo global des-centralizado ao redor da rebelião aponta para o desenvolvimento de novos modelos imaginativos na tecedura de conexões, os quais não só transcendem as origens militares (ou de defesa) da tecnologia que emoldura esse espaço, mas também vão além da questão de identidade militar do EZLN.

Kroker e Weinstein escrevem sobre interesses corporativos no information superhighway que ameaçam liquidar o aspecto 'público' da internet. Por seu turno, de uma maneira que prefigurou o esforço atual sobre a apropriação do espaço cibernético no fim dos anos 1990, Haraway sugere que "networking é ao mesmo tempo uma prática feminista e uma estratégia da corporação multinacional ¾ tecelagem de teias cibernéticas é para ciborgues de oposição".26 Hoje, podemos ver que a Internet é um instrumento que está disponível para os dois lados da luta. Muitos interesses procuram construir fronteiras no que é imaginado por outros como espaço utópico, sem fronteiras. Organizações militares e de segurança, como a Agência de Inteligência Aérea das Forças Armadas dos Estados Unidos, patrulham o espaço cibernético e estão engajadas na 'guerra da Internet' contra todos os usos 'subversivos' perceptíveis da mesma, incluindo as atividades 'conectoras' das ciberguerrilhas neozapatistas. Em desvantagem no jogo global da propaganda, o governo mexicano, então dominado pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI), aprendeu com a sua oposição e investiu intensamente para estabelecer a sua própria presença eficiente e 'legítima' na Internet, inclusive com sites especiais dedicados à perspectiva do governo sobre o conflito em Chiapas. Esses sites contêm textos completos de relatórios patrocinados pelo Estado sobre o massacre de Acteal (que contradizem os fatos descobertos por investigadores externos de direitos humanos) e vídeos de discursos do presidente sobre campanhas de serviço social e progresso econômico em Chiapas. Assinaturas gratuitas dos comunicados à imprensa do presidente Zedillo estiveram disponíveis em e-mail.27 Embora a histórica derrota eleitoral do PRI possa ter assinalado mudanças no clima político do país, a administração presente continua a expandir o ataque de Zedillo à nova mídia.

 

Movimentos transnacionais cibernéticos sociais: ficção ciberpunk ou futuro (virtualmente) real?

Os primeiros seis anos de rebelião neozapatista em Chiapas e de minhas pesquisas sobre o espaço discursivo dessa rebelião coincidiram com o ciclo presidencial de seis anos no México. Os/as rebeldes mantiveram um cessar-fogo no verão de 1994 para poder promover um esforço civil objetivando mudanças democráticas através de eleições limpas. Mas outra vitória do PRI naquelas eleições foi desanimadora para aqueles/as que procuravam uma grande abertura democrática no México e uma mudança de direção através da urna. Com as negociações com o governo mexicano em uma crise perpétua, o EZLN passou os anos seguintes tentando construir uma frente civil, primeiro por meio de uma convenção nacional democrática a la Woodstock, em Aguascalientes, e, depois, através de conferências 'para a humanidade e contra o neoliberalismo', tanto em território rebelde quanto no estrangeiro. Mas embora a Internet seja reconhecida como o elemento-chave que atrai a atenção do mundo para o discurso e a atuação neozapatistas, ela canalizou o que até então se delineava como um crescimento gratuito e quase orgânico do espaço discursivo multimídia acerca das atividades rebeldes. Líderes rebeldes e ativistas que tentaram planejar conferências na Internet e campanhas em nome da Frente Zapatista de Liberação Nacional acharam difícil controlar ou direcionar o que havia sido quase um fenômeno de geração espontânea. Esse espaço cresceu rapidamente porque era descentralizado, mas tal descentramento significava que a Frente Zapatista, centrada na sociedade civil, não podia impor a forma ou predizer a natureza das ligações que iria fazer em torno da resistência de Chiapas no espaço cibernético três anos depois que o fenômeno começara. Muito se tem dito em relação à manipulação da imprensa pelos/as rebeldes, porém, embora Marcos fosse um perito ao se preparar para entrevistas e eventos da mídia, ele e outros ativistas tiveram dificuldade para 'dirigir' com êxito a circulação da imagem de rebelde no espaço cibernético. Aquela imagem ainda está em freqüente circulação, mas o website do EZLN continua sendo só um entre muitos websites que formam nodos em um espaço discursivo descentralizado.

Assim como os/as rebeldes correram o risco tático de abrirem um espaço cujos parâmetros não podiam moldar, e cujo conteúdo não podiam predizer, eles também correram o risco de não patrocinar nenhum candidato político específico em 1994 ou 2000, pedindo por um diálogo aberto e pela construção de mais instituições democráticas que permitissem à 'sociedade civil' determinar o futuro do México através de debate e consenso. Mas se os/as rebeldes neozapatistas tinham esperanças de que a queda do PRI através da pressão civil por reforma eleitoral e por democracia fosse necessariamente indicar o triunfo da nova esquerda no México, uma nova esquerda que colocasse a nação de volta no caminho 'verdadeiro' da revolução, essa esperança foi destruída. Enquanto os/as rebeldes e a Frente Zapatista lutavam para despertar nas pessoas uma consciência de que a imagem do México como Primeiro Mundo era uma falsa realidade, e encorajavam aqueles/as ¾ para quem a realidade do México era inaceitável ¾ a sonhar com uma sociedade aberta e de instituições democráticas, os/as eleitores/as mexicanos/as em 2000 retiraram o PRI do poder, mas elegeram um candidato com as maiores tendências autocráticas ¾ Vicente Fox, o candidato da ala direita do Partido de Acción Nacional (PAN).

Enquanto el conflicto em Chiapas aparecia tão amiúde nas manchetes em 1994 quanto as eleições nacionais, ou, muitas vezes, aparecia nas mesmas proporções que as eleições, o mesmo não aconteceu ao final do ciclo eleitoral mexicano seguinte. O conflito em Chiapas era um dos mais urgentes assuntos discutidos pela política nacional durante as campanhas eleitorais, mas não se tornou a mesma metáfora que fora usada, em 1994, para mudanças (segundo alguns) ou para desastres (segundo outros) nas áreas política, social e econômica. A eleição que expulsou o PRI não assinalou que o México tivesse se tornado democrático de um dia para o outro. Podemos ver que essas eleições fizeram parte de um processo de transformação, um processo que permanece, até certo ponto, em aberto. Ao procurar fazer um balanço dos primeiros seis anos de neozapatismo ¾ real e virtual ¾ que terminou com a eleição do primeiro presidente do México revolucionário não pertencente ao PRI, deparei-me, em vez disso, com o fin abierto, que é tão característico da narrativa hipertextual.

Ao escrever a rebelião como uma meta-rebelião, Marcos fez uma performance rebelde para o mundo como se fosse um teatro grego de máscaras e ícones provocando uma catarse mundial. A solidariedade com Chiapas passou a ser um meta-texto para militância e transformação sociais, e, encorajando conexões com outras lutas, Marcos também correu o risco de apresentar a resistência maia como símbolo de tudo para todos ¾ uma missão impossível que deverá, ao final, desencadear desilusão para alguns. Ao final, talvez um retrato mais fiel da rebelião ¾ em vez de um retrato de indivíduos buscando o "re-encantamento da humanidade"28 ¾ será aquele que manterá o movimento pela autonomia indígena em Chiapas vivo, sem transformá-lo em um fiasco de sonhos e promessas irrealizados, de uma frouxa rede transnacional de almas buscando salvação global. Por certo nenhum dos pequenos grupos de marginalizados do México rural deverá esperar carregar nos ombros, para sempre, o peso simbólico dos medos, das necessidades espirituais e das fantasias do mundo. O slogan do EZLN ¾ "Para nosostros, nada, para todos, todo"¾ poderia provar ser ironicamente apropriado, já que o exército continua a se infiltrar nos últimos vestígios do território zapatista, re-impondo as regras de velhas instituições, tirando proveito das rupturas nas estruturas sociais, políticas e econômicas da região causadas pelo deslocamento populacional interno e pela violência paramilitar, e tentando impedir a sobrevivência e disseminação da resistência através de estratégias de guerrilha de baixa intensidade.

Assim como os altiplanos de Chiapas, o espaço cibernético também é um não-lugar contestado, e não se sabe por quanto tempo a Internet permanecerá aberta como espaço para resistência. Com o crescente esforço corporativista e político contra o 'entrelaçamento' da rede e do sentido da Web, fica a dúvida se o Ciborgue Zapatista continuará suas mutações para poder oferecer um modelo relevante de oposição para a apropriação do ciberespaço e a construção de novos modelos de mediação e solidariedade global. A circulação neozapatista no espaço cibernético é possível graças à energia às vezes descoordenada mas, mesmo assim, persistente de um movimento virtual que tem mantido seu momentum eletrônico transnacional por um período de tempo cuja extensão talvez seja sem precedentes, mas que agora parece estar sendo um pouco desacelerado, pois websites e listas de e-mails são atualizados com menor freqüência. Enquanto ativistas experientes e dedicados assumiram o desafio em prol da criação de uma rede de solidariedade global articulada pelos/as rebeldes, a visibilidade dos neozapatistas também vem de um flerte quase erótico entre os/as rebeldes (geralmente através de Marcos) e ícones pop e também figuras conhecidas de uma cultura literária mais elitizada.

O perigo das causas apoiadas e transformadas em modismos por celebridades da cultura pop, artistas e escritores/as não era desconhecido ¾ nos anos de 1980 e 1990 campanhas pop a favor do uso de artefatos de pêlos artificiais, ou da libertação do Tibete, ou de denúncia da pena de morte sentenciada a um prisioneiro inocente podiam ser vistas, por espectadores/as já um pouco insensibilizados/as, como uma série de produtos oferecidos no mercado pela mídia do tipo 'Clube da Causa do Mês', que se tornou vítima das excentricidades e superficialidades da moda. Com maior visibilidade na mídia pop, surge, então, a vulnerabilidade, já que uma causa digna torna-se moda ultrapassada e outra mais 'quente'. Essas causas, sem importar quão justas ou merecedoras de nosso apoio, também se tornam vítimas de nossa 'fadiga de compaixão' se elas não nos oferecem uma fonte inovadora de espetáculo.

A narrativa de hipertexto global de solidariedade e crítica aos/às rebeldes de Chiapas foi inspirada pelo apelo neozapatista de "!No nos dejen solos!" após os primeiros dias de conflito armado em janeiro de 1994 e de retaliação e táticas antiinsurreição por parte dos militares. O slogan da Convenção Democrática Nacional do EZLN ¾ "Para nosotros nada, para todos, todo" ¾ suplicou-nos que acabássemos com aquela 'fadiga de compaixão' através do argumento de que todas as causas são somente uma causa, e que, de algum modo desconcertante, os índios mascarados carregando AK-47, foices, ou apenas usando suas vozes, estão lutando por nós, seres desesperançados/as, e não o contrário, nós por eles/elas. De certa forma nasce uma relação simbiótica entre o Chiapas virtual e o Chiapas real. A idéia lançada em comunicado após comunicado, testemunho após testemunho, é que sem o ciberzapatismo as comunidades neozapatistas 'desaparecerão', como tantos outros/as rebeldes invisíveis ao longo da história ¾ mas que, também, sem essas comunidades indígenas muitos de nós jamais teríamos visto aquele lugar com o qual sonhamos diante do arco-íris cibernético, aquele espaço utópico hipertextual reservado para compartilharmos 'histórias espaciais' e construir modelos virtuais de interação humana. A ligação efetiva do material e do virtual é um modelo que reconhecemos através da ficção (científica) e com o qual sonhamos em nossa vida real. No espaço simbiótico de Chiapas, a morte do ciberzapatismo também poderá literalmente significar a morte dos/das rebeldes na Zona de Conflito ocupada pelo exército e economicamente marginalizada. Essa relação simbiótica dá uma urgência de 'vida real' ao épico de ficção científica em busca daquele elemento místico que dá vida às "de dados".29

Não é nenhuma novidade a idéia de que a preocupação e a ação globais em torno de qualquer movimento social ou questão de direitos humanos dependem de como o assunto é 'mantido vivo' e promovido pela mídia. Ao final dos anos 1990 e nos primeiros anos do século XXI, porém, a relação simbiótica entre resistência virtual por meio da tecnologia cibernética (com suas crescentes conexões com vários tipos de mídia) e a presença física de militantes de movimentos sociais tornou-se ainda mais pronunciada. No espaço discursivo de Chiapas, com a ressonância do apelo "no nos dejen solos", vemos que a resistência virtual pela circulação de lutas através de textos multimídia inspira e fortalece os ativistas desse movimento fisicamente engajados na resistência, assim como esses ativistas inspiram e fortalecem a resistência virtual. Os guerrilheiros virtuais que manipulam a mídia têm dado fôlego ao movimento rebelde na Zona de Conflito em momentos em que maiores ajudas pareciam fúteis, e a resistência dos/das rebeldes, do mesmo modo, alimentou o movimento virtual em épocas em que a atenção mundial se voltava para outros lugares. Resta-nos ver como é que essa vulnerável relação simbiótica atuará nos próximos anos.

 

Processando os dados (mutantes)

Os/as rebeldes são acusados de não possuir ideologia por se recusarem a formar um partido político de vanguarda. Por outro lado, a 'sociedade civil' mexicana e global é encorajada a fazer articulações, consultar e formar alianças através das fronteiras de etnia, classe, gênero e geopolítica seguindo o modelo comunitário de consulta (ampla e democrática) dos processos decisórios dos/das rebeldes ao nível local. Para a confusão de muitas pessoas de direita e de esquerda, não se promoveu uma narrativa totalizante de identidade nacional ou global. A fraqueza apontada na falta de uma visão totalizadora tornou-se uma das maiores forças de apelo do fenômeno neozapatista, já que os/as rebeldes adquirem capital simbólico através da circulação de textos tradicionais e eletrônicos. A força da rebelião neozapatista, um movimento social difícil de definir por causa de seu duplo parâmetro material/virtual e de suas ligações com outros movimentos, encontra-se no crescimento e evolução do espaço discursivo de Chiapas, em vez de situar-se no resultado exato da 'Revolução'. A 'revolução' tem ocorrido no processo de criação e leitura da narrativa aberta em hipertexto dessa resistência. Entretanto, esse espaço, de conscientização social e de construção comunitária, depara-se com um futuro incerto, tal como ocorre com as comunidades indígenas autônomas em Chiapas, as quais instigaram sua criação.

A vulnerabilidade dos movimentos sociais nutridos pela mídia, que mencionei anteriormente, é algo que se pode observar recentemente em muitos esforços organizacionais transnacionais em torno de questões comuns no passado recente. Margaret Keck e Kathryn Sikkink observam que tal organização transnacional é às vezes mais eficaz em alguns momentos que em outros, dependendo do vigor dos nodos da rede e da eficácia das conexões entre eles. Entretanto, tais redes são, por definição, não estagnadas, e, quando as atividades se desaceleram ou deixam de existir em torno de uma questão específica, uma boa parte da rede pode ser remodelada e reutilizada quando uma questão nova ou relacionada começa a circular. Podemos ver que o poder da evolução das narrativas hipertextuais do ciborgue, articulando questões locais e globais, tem se tornado mais evidente nos últimos tempos. A evolução/mutação do espaço discursivo em torno do neozapatismo e do conflito de Chiapas está provando ser uma lição eficaz em termos de ativismo social no contexto da globalização. O processo de ligar o local ao global no Ciber-Chiapas vem inspirando uma nova geração de ativistas e re-inspirando uma geração mais idosa. Ofereço dois exemplos de testemunho pessoal, em que me vejo instruída por meus/minhas próprios/as alunos/as quanto ao significado do fenômeno Chiapas em relação ao processo de criação de movimentos que transgridem fronteiras. Um de meus alunos de graduação expressou uma sofisticada conexão entre seu apreço pelo modelo neozapatista de construção de coalizão inclusiva na 'sociedade civil' e sua experiência como ambientalista gay numa comunidade rural do Pacífico Noroeste dos Estados Unidos, onde cresceu. Essa comunidade era composta de lenhadores sem poder cujas crianças buscavam adquirir poder através de filiação a grupos extremistas de direita.

Outra aluna voltou do agora infame protesto em Seattle contra a Organização Mundial de Comércio depois de passar uma noite hospitalizada devido ao espancamento e a tiros de bala de borracha recebidos da polícia quando fazia parte de uma corrente humana pacífica em volta do prédio onde se reunia a OMC. Pouco antes de partir para o protesto em Seattle, ela participara de uma sessão de debates no campus sobre a crise em Chiapas em que tentou explicar sua inspiração para ações sociais e políticas. Afirmou que obtivera essa inspiração ao conversar com delegadas das comunidades zapatistas que conhecera durante uma conferência sobre globalização econômica em Washignton, D. C., alguns meses antes. Em Seattle, onde entrelaçou os braços com desconhecidos representantes de grupos de 'interesses especiais' variados (lenhadores, ambientalistas, sindicalistas, feministas, advogados de direitos da criança, grupos religiosos, etc.), ela se lembrou da insistência das mulheres maias de que a força do seu movimento apoiava-se no 'processo por si próprio' e não em qualquer objetivo predeterminado.

A força desse processo também foi demonstrada pela presença maciça de pessoas reunidas nos comícios de apoio e pelas boas-vindas aos/às rebeldes neozapatistas que marcharam até a Cidade do México, apesar do fato de que o México elegera uma administração de direita vários meses antes. Com o seu avanço, a fé neozapatista na sabedoria da sociedade civil mexicana (e global) ainda poderá provar-se correta. Afinal, o poder das narrativas hipertextuais e suas múltiplas e criativas veredas de conexão global e local, material e virtual, não poderá ser melhor ilustrado do que por meio desse tipo de catalisador de uma massiva formação de coalizões pró-resistência que temos visto, recentemente, coalescer em protestos de enormes proporções.

As contradições que encontramos nas narrativas hipertextuais, como aquelas que minha aluna descobriu em circulação na coalizão sociopolítica em Seattle, são sintomas dos 'acoplamentos radicais' que determinam a natureza 'ciborgue' de tais espaços discursivos. As contradições no hipertexto em que o Ciborgue Zapatista navega ¾ como, por exemplo, as tensões entre autonomia indígena e hibridismo cultural ¾ ocorrem não em função da integração de narrativas contestadoras a uma nova narrativa mestra global, mas, sim, da dupla afirmação e transgressão de limites e fronteiras. Tais tensões merecem mais análises profundas no futuro do que recebem neste estudo. O uso da metáfora do hipertexto reafirma a idéia de analisarmos os movimentos sociais e identidades nacionais ou étnicas como textos (epopéia, teatro, narrativa, espetáculo, etc., conceitos esses utilizados como metáforas úteis em minha pesquisa), ao mesmo tempo que reafirma a idéia de transgredirmos as fronteiras entre os gêneros com o objetivo de abordar a natureza híbrida dos espaços discursivos multimídia estruturados e mediados por tecnologias emergentes. O hipertexto tanto transgride como reafirma as fronteiras entre ator/atriz e espectadores/as, escritor/a e leitor/a, ser humano e máquina. A relação entre teatro de resistência material na Zona (física) de Conflito e o crescimento do Ciber-Chiapas proporciona um exemplo da natureza hipertextual dos movimentos sociais transnacionais contemporâneos enraizados em condições locais específicas. A luta de Chiapas nos deixará o legado de um novo processo de tecedura de teias digitais com resistência material. Meu modelo de análise do espaço discursivo de Chiapas e dos deslocamentos e re-localizações que nele ocorrem é aqui apresentado com a esperança de que será relevante às investigações de outros movimentos de resistência local ou global que, sem dúvida, continuarão a ser emoldurados e instilados por tecnologia cibernética de maneiras cada vez mais sofisticadas. Tanto nas análises de hipertextos como nas narrativas hipertextuais, o meu fim poderá ser o seu princípio.

 

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[Recebido em julho de 2001 e aceito para publicação em novembro de 2001]

 

 

The Zapatista Cyborg: Weaving a Virtual Poetics of Resistance in Cyber-Chiapas
Abstract: The global circulation of Neo-Zapatistas and non-Indigenous solidarity activists as symbols of resistance in cyberspace between 1994 and 2001 suggests the need for new ways to read social movements in the digital age. A feminist reading of the dual local/global characteristics of the discursive space surrounding the Maya rebellion in Chiapas both affirms and contests prevalent postmodern theories about the relationship between the human body and cybernetic technologies. This hybrid space both transgresses and affirms borders between actor and audience, writer and reader, human and machine. The relationship between the theater of material resistance in the physical Conflict Zone and the growth of virtual resistance in Cyber-Chiapas illustrates the 'cyborg' material/technological nature of the Chiapas rebellion.
Keywords: Zapatista, Chiapas, Mexico, Internet, feminism, social movements.

 

Tradução de Regina Borges e Dário Borim Jr.
Revisão de Claudia de Lima Costa

 

 

1 Uma versão preliminar mais reduzida deste trabalho foi publicada na edição de outono1999 do boletim Feministas Unidas sob o título "Virtual Voices, Electronic Bodies: Women and the Poetics of Resistance in Cyber-Chiapas".
2 Ver Sarah GRUSSING, 2000.
3 Sadie PLANT, 1995, p. 45.
4 Um formato tradicional de impressão não possui o alcance ilustrativo de um documento multimídia de hipertexto eletrônico, e por essa razão convido os/as leitores/as a visitar alguns dos websites dedicados à conscientização sobre a crise em Chiapas. Um bom ponto de partida é a extensa bibliografia de links da Acción Zapatista, no Zapatistas in Cyberspace: An Annotated Guide to Resources and Analysis.
5 "O conflito armado em Chiapas é uma guerra de tinta, de palavra escrita, uma guerra na Internet. Chiapas, anote por favor, é um lugar onde não houve um disparo nos últimos 15 meses. Os disparos duraram dez dias, e desde então a guerra tem sido uma guerra da palavra escrita, uma guerra pela Internet" (um byte sonoro freqüentemente citado de um discurso proferido em 25 de abril de 1995 por José Angel Gurria, então secretário de Relações Exteriores do México, no World Trade Center).
6 Para mais detalhes sobre a idéia de Chiapas como uma colônia interna, sobre a história de lutas pela conscientização e sobre a sofisticada organização política na década de 1970 entre as comunidades de campesinos, ver George COLLIER, 1994.
7 Arturo Sanabria, representante do México junto à ONG Gestión de Servicios de Salud, em conferência proferida no Frente del Norte, uma organização de solidariedade aos zapatistas sediada em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos.
8 Ver, por exemplo, Rosa Rojas, Chiapas: ¿y las mujeres qué?, originalmente publicado em dois volumes em espanhol, no México, por La Correa Feminista, e agora disponível on line em inglês. Ver também o filme Zapatista Women (de Guadalupe Miranda e María Ines Roque, 1995, com título em espanhol Las compañeras tienen grado), de grande circulação no início da crise.
9 Arthur KROKER e Michael WEINSTEIN, 1994.
10 KROKER e WEINSTEIN, 1994.
11 Anne BALSAMO, 1995, p. 219-220.
12 Ver, por exemplo, a reprodução da foto de La Jornada na página Pastors for Peace Chiapas Organizing Information.
13 ACTLAB, 1999.
14 Como conseqüência do massacre de dezembro, 1997, em Acteal, voluntários junto à Organização Chiapas Schools trabalhavam na construção da primeira escola secundária em território rebelde e fizeram cinco horas de filmagem 'em tempo real' de um confronto, em uma vila desarmada, entre mulheres e crianças e as tropas federais ¾ estas em número infinitamente superior àquele dos habitantes da comunidade. Embora não tenha sido oficialmente 'publicado', esse vídeo circulou na sua impressionante forma original (sem cortes) através da rede de solidariedade no México e nos Estados Unidos. Pude vê-lo em março de 1998. Outra ONG, Cloudforest Initiatives, patrocinou a produção de um vídeo sobre o massacre em Acteal e suas conseqüências, intitulado Victims of the War in Chiapas. As cenas foram tomadas por artistas de vídeo locais. Muitas dúzias de projetos similares têm circulado imagens de corpos em confronto com as linhas militares e com a violência paramilitar.
15 Todo o projeto de web interativa está disponível em formato CD-ROM e no site <www.actlab.utexas.edu:80/~zapatistas/rev.html>
16 CHIAPAS MEDIA PROJECT, 1999.
17 BALSAMO, 1995, p. 215.
18 O artigo de Donna HARAWAY, publicado em português como "Um manifesto para os cyborgs: ciência, tecnologia e feminismo socialista na década de 80". In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (Org.). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 243 -288 (N. R.).
19 Por exemplo, ver o arquivo de artigos, descrição de ações de protesto, etc. em torno do caso da reportagem do Chase Manhattan Bank (1995), apelando para que o governo mexicano "eliminas-se" os zapatistas para a proteção de investimentos estrangeiros no México. Está disponível no arquivo Chiapas95 no endereço: <gopher://mundo.eco.utexas.edu:70/1m/mailing/chiapas95.archive/chase>
20 HARAWAY, 1991, p. 149.
21 Fábricas que exploram mão-de-obra barata e ilegal nas zonas de fronteira entre Estados Unidos e México (N.T.).
22 HARAWAY, 1991, p. 150.
23 O rótulo "transgresores de la ley" foi primeiro atribuído aos/às rebeldes pelo ex-presidente do México, Salinas, em 5 de janeiro de 1994, durante uma conferência coletiva. Esse rótulo é geralmente usado em referências governamentais ao EZLN e também foi apropriado para vantagens retóricas pelos/as próprios/as rebeldes.
24 HARAWAY, 1991, p. 181.
25 KROKER e WEINSTEIN, 1994, p. 8.
26 HARAWAY, 1991, p. 170.
27 Chiapas Press Room Special Coverage: <www.presidencia.gab.mx/welcome/chiapas/chiapas.htm>.
28 Termo usado por Murray BOOKCHIN, 1996.
29 Nasci nos anos 1960 nos Estados Unidos e escrevo de um lugar com o privilégio (às vezes questionável) de acesso a programas Star Trek para televisão, romances de ficção científica e filmes ciberpunks de Hollywood. Enquanto que minhas narrativas mestras ciberpunks possam se diferenciar daqueles/as que lêem de outros lugares, a globalização da mídia e da tecnocultura faz com que muitas das nossas histórias espaciais compartilhem das mesmas narrativas globais, com apenas pequenas variações locais. Compartilhar 'leituras' radicais dessas histórias espaciais sob perspectivas locais poderia ser um poderoso instrumento de resistência política e social. Entretanto, aqui escolho passar por cima de algumas representações questionáveis de raça e gênero nessas ficções, de modo a explorar algumas metáforas básicas que ilustrarão nosso modelo de 'tecedura' cibernética social radical. Nas formas de vida simbiótica de ficção cibernética, tal como o personagem alienígena (no corpo 'hóspede' de uma mulher bela) no popular programa de televisão americano Star Trek: Deep Space Nine, a fusão codependente de duas distintas entidades vivas juntas define uma existência que, se separada, não pode sobreviver. O Seven-of-Nine da Star Trek Voyager também não pode viver sem seus implantes Borg, que lhe dão habilidades superiores para processar informação e ainda para formar uma identidade de 'colméia' com outros indivíduos. No recente megas-sucesso de Hollywood, The Matrix, o ferimento ou morte virtual de rebeldes nas suas batalhas em espaço cibernético causa sangramento físico ou morte de corpos recostados. E, obviamente, o personagem andróide Data do Star Trek: The Next Generation é a figura máxima de ciborgue como máquina em busca de sua própria humanidade.