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Revista Estudos Feministas

versão impressa ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. v.10 n.1 Florianópolis jan. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2002000100004 

Angelita La Escapía e a fotografia viva de Marx: feminismo e passados presentes em Almanac of the Dead

LÚCIA HELENA DE AZEVEDO VILELA
Universidade Federal de Minas Gerais

 

 

Resumo: Análise de Almanac of the Dead à luz de teorias feministas e de uma perspectiva pós-moderna segundo a qual a noção de passados presentes é enfatizada através da exploração da metáfora da fotografia viva de Marx, mostrada no romance. A paixão da personagem Angelita pela fotografia de Marx é vista como uma forma de síntese entre a percepção indígena do tempo como eternos presentes - que é também resistência à opressão, uma vez que o passado não é jamais esquecido - e os conceitos marxistas de tempo e história.
Palavras-chave: pós-moderno, tempo, resistência, marxismo.

 

 

Em Almanac of the Dead,1 Leslie Marmon Silko lança um olhar multifocal sobre suas personagens, rejeitando, assim, a possibilidade de um sujeito unificado. A diversidade está não só na estrutura narrativa, caracterizada por várias histórias competindo entre si, mas na própria construção das personagens, que alternam ações pessoais e coletivas, e que são oriundas dos mais diversos locais e camadas sociais: líderes indígenas, especuladores imobiliários, dependentes de drogas, ecoterroristas, juízes e políticos corruptos. Com essa escolha de uma narrativa multifacetada, Silko abre um caminho para que se possa lançar um olhar sobre sua obra de uma perspectiva pós-moderna, já que, em seu processo de construção de histórias marginais, existe não só uma recusa implícita em aceitar uma voz autoral prepotente, capaz de falar por todos, como também uma negação da própria existência de um poder hegemônico e centralizador em termos amplos. A ausência de um centro de poder, tão cara a uma visão pós-moderna da realidade, está também no mapeamento da narrativa, que não se dá em um único local. Pelo contrário, os acontecimentos em Almanac of the Dead perpassam as fronteiras lingüísticas e geográficas entre os Estados Unidos, o México e o continente africano. Além disso, o tempo da narrativa se desdobra no tempo infinito da profecia e do mito, sem que, contudo, sejam desconsideradas as diferenças históricas. Silko realiza uma narrativa da trajetória de povos indígenas, sua resistência à opressão euro-americana, seu esforço para a recuperação da posse da terra, e do embate entre civilizações. Nesse contexto, passado e presente se mesclam em uma visão pós-moderna do tempo, como veremos mais adiante.

O próprio título do romance nos remete a um aspecto profético da narrativa referente a um manuscrito pré-colombiano que prevê não só a chegada de Cortés como o desaparecimento da presença européia no continente americano. Esse aspecto profético da narrativa de Silko traz à tona um questionamento de uma visão unificada da história, mas pode também ser visto como contraditório por sua combinação de enfoques. Como se sabe, o pós-moderno traz em si também a possibilidade das contradições. O aparente conflito entre a história e a profecia é estudado por Daria Donnelly, por exemplo, como uma tensão existente entre duas visões de história no romance:

Com Almanac Silko coloca de lado seu papel de escritora capaz de curar possíveis cicatrizes de uma herança tricultural (européia, da sociedade indígena laguna e mexicana) em favor de descrever uma América contemporânea à luz de uma profecia pan-indigenista de que a cultura européia irá futuramente desaparecer. O argumento central do romance é de que essa antiga profecia é visível em tudo que ocorre hoje. A fidelidade de Silko a uma história já escrita, avançando firmemente para seu fim, contradiz diretamente sua apresentação de história como uma luta incessante por uma dominação da narrativa. Diante disso, a sua combinação de uma análise sobrenatural da realidade, com uma inflexão gramsciana de marxismo, é idiossincrática. Mas pode ser que Silko esteja erigindo um ataque bidirecional contra o comércio e o pensamento, como de costume: erodindo hegemonias, através da atenção dada às histórias de pessoas em situação de opressão e marginalização e desestabilizando a consciência predominante ao colocá-la dentro de uma narrativa cósmica mais ampla, que é estranha à cultura dominante.2

Esse ponto de tensão entre duas visões, aparentemente contraditórias, mencionado por Donnelly caracteriza também outros momentos da narrativa de Silko. Essa tensão entre o mítico ou profético e o histórico está sintetizada na metáfora central desse trabalho que se revela no entrelaçamento entre o ordinário e o extraordinário na figura da personagem revolucionária de Silko, Angelita La Escapía, diante da fotografia de Marx. A combinação inusitada de tendências aparentemente opostas vem a confirmar, ao longo da narrativa de Silko e nos desdobramentos das ações das personagens, a hipótese levantada por Donnelly, ou seja, surge daí uma tensão capaz de erodir estruturas unificadas de pensamento estabelecidas por forças dominantes.

Para situar melhor a obra de Silko, é importante lembrar que, publicado em 1991, Almanac of the Dead chega ao público após 14 anos da publicação de sua obra mais conhecida, Ceremony (1977). Para alguns críticos norte-americanos, como Sven Birkerts, por exemplo, Almanac of the Dead situa-se na esfera da 'ficção radical',3 ou seja, lembra a ficção politicamente engajada do início do século XX. O crítico acusa Silko de ingenuidade e delírio, de fugir da realidade, ao retratar os oprimidos do mundo como capazes de se libertarem de seus entraves e retomarem o que, de fato, lhes pertence. Essa crítica se baseia na visão de Birkerts sobre as estruturas de poder e a psicologia do oprimido, considerando, portanto, a impossibilidade de povos oprimidos organizarem uma rebelião e libertarem a si próprios, como narra Silko em sua obra. O crítico não compreende que o conceito de tempo de Silko não se prende às convenções da história oficial. Para a autora, de acordo com sua protagonista, Angelita, o tempo não se limita às noções de passado, presente e futuro. A personagem afirma, por exemplo, que conhece Marx há séculos. Angelita se apaixona, essencialmente, pelo conceito de Marx de tempo e história, como lembra Caren Irr.4 Contrapondo-se ao ensaio de Birkerts, o estudo crítico de Irr esclarece que Silko trabalha com o conceito indígena de tempo e apropria-se da terminologia utilizada pelo crítico para denominar a obra como uma reescrita pós-moderna da ficção radical. Um exemplo do conceito de Silko do tempo é que, para Angelita, Marx habita o presente. Segundo ela, Marx é parte do presente, uma vez que enfatiza os paradoxos da memória, enquanto que seus seguidores situam-se no passado porque preferem esquecer esse passado. Angelita encontra uma correspondência entre a visão de Marx da história e o sentido de história para os povos indígenas, ou seja, a história está inserida em um presente constante, ou um passado presente. Como veremos mais adiante, Angelita admira Marx por ter se inspirado na organização comunitária dos povos indígenas e em seu cultivo constante da memória, através das narrativas orais. Quando Marx ouviu as histórias dos trabalhadores, das crianças oprimidas e das mães que precisavam drogar seus filhos com ópio para que pudessem trabalhar dezesseis horas por dia, ele estava buscando a história oculta dos povos silenciados para ativar o passado e torná-lo sempre presente. É esse conceito de história presente de Marx que fascina Angelita. Trata-se da noção indígena de passados presentes.

Assim, a narrativa de Silko não se enquadra, de forma alguma, em uma visão da cultura pós-moderna cujo foco se concentre no espaço apenas. O tempo de Silko combina uma percepção maia de eternos presentes com um desdobramento que abarca os discursos de toda a memória cultural dos povos indígenas norte-americanos, e com uma ótica pós-moderna que não admite a separação entre tempo e espaço. Além disso, o romance incorpora o potencial dos almanaques de carregar uma sabedoria holística sobre os fenômenos da natureza, funcionando como um elo entre o temporal e o atemporal.

A visão maia do tempo está em consonância com a da pós-modernidade quando esta última explicita uma noção da experiência como uma apreciação do presente ao mesmo tempo em que dialoga com o passado e o futuro. É importante lembrar que, nas sociedades indígenas, a ligação com os ancestrais é permanente. O almanaque torna-se, portanto, a marca da presença dos antepassados, reforçando a importância da memória, mas mostrando que não existe uma separação definitiva entre os vivos e os mortos. Esse tipo de relação dialógica de presente e passado caracteriza uma narrativa pós-moderna opositiva segundo a qual, como afirma Joseph Francese, o presente só pode ser compreendido e questionado em função do passado:

o presente só pode ser compreendido e administrado à luz de um passado, contido não apenas no discurso dominante, mas também nos contra-discursos que ele tende a deslegitimar. Uma perspectiva que abraça o passado pode olhar para o futuro e, principalmente, orientar-se no presente. Além disso, quando o sujeito vê a si mesmo sendo visto pelo que é o outro, a perspectiva panóptica de uma realidade policêntrica é valorizada.5

Esse tratamento do tempo amplia os horizontes da narrativa, fazendo com que as personagens transbordem as fronteiras culturais, criando uma noção unificada de tempo e espaço e proporcionando uma descrição dinâmica de sua constituição e de seu universo cultural capaz de fazer expandir também a sua compreensão pelo leitor. Essa realidade policêntrica a que se refere Francese está perfeitamente de acordo com o universo ficcional criado por Silko em Almanac of the Dead, já que uma visão eurocêntrica do sujeito é totalmente descartada. O descentramento é um conceito importantíssimo para uma visão pós-moderna do texto de Silko, uma vez que este está intimamente relacionado à noção de descolonização da América através de um desmantelamento de uma cultura européia. Com a sua recusa de um possível eurocentrismo espacial e ideológico, Silko está negando também a idéia de origem, um ponto fixo no continente europeu, de onde parte o mundo civilizado para a assim chamada conquista da América. A remoção dessa noção de centro é uma das razões para a existência de várias histórias competindo entre si em Almanac of the Dead, como já foi mencionado anteriormente. O descentramento reflete, ainda, a própria mitologia indígena de criação cósmica, que é realizada por meio de diversas forças em ação, de forma rizomática e não a partir de uma raiz única, centralizadora.

O conceito de descentramento permite, também, a possibilidade de uma percepção unificada do tempo¾espaço, que é focalizada por Andreas Huyssen em seu ensaio "Passados presentes: mídia, política, amnésia", no qual afirma que "a própria separação entre tempo e espaço representa um grande risco para o entendimento das culturas moderna e pós-moderna".6 Em Almanac of the Dead, as personagens realizam a transposição de fronteiras geográficas, ou seja, ultrapassam os limites do espaço. Ao transporem essas fronteiras, ultrapassam também as barreiras do tempo, explorando, por exemplo, a histórica luta indígena pela posse da terra desde a chegada dos europeus à América. Essa luta está intimamente ligada aos ancestrais. O espaço¾tempo torna-se, assim, um presente dinâmico, e as idéias que movem as personagens tornam-se ainda mais pungentes em seu conteúdo político-cultural. Ao criar condições para que suas personagens transponham limites, Silko está também fazendo com que suas idéias circulem dentro de um contexto histórico-geográfico. A memória dos povos indígenas irrompe, portanto, limites conceitualmente preestabelecidos por visões políticas opressoras para instalar-se em uma temporalidade dinâmica, sem perda do contexto histórico. Huyssen elucida a possível utilização da memória cultural em um tempo¾espaço presente:

Tempo e espaço, como categorias fundamentalmente contingentes de percepção historicamente enraizadas, estão sempre intimamente ligados entre si de maneiras complexas, e a intensidade dos desbordantes discursos da memória, que caracteriza grande parte da cultura contemporânea em diversas partes do mundo de hoje, prova o argumento.7

A utilização de estratégias literárias de acordo com essa noção de tempo¾espaço presente permite que fronteiras culturais e étnicas sejam transpostas com facilidade, já que não se baseia em oposições binárias de culturas, mas pressupõe uma rede dinâmica de relações culturais e étnicas.

Esse conceito de uma rede de relações permite a possibilidade de uma redefinição de fronteiras, caracterizada por um rompimento com demarcações de espaços de poder anteriormente cristalizados. Essa possibilidade encontra-se respaldada pela noção de ausência de centro da pós-modernidade. Em seu ensaio sobre pós-modernismo como uma pedagogia de fronteira, por exemplo, Henry Giroux observa que o discurso dominante da modernidade reduziu raça e antropologia cultural a um discurso do Outro, que freqüentemente reproduz a distância entre os centros e as margens de poder.8 Essa visão mostra o Outro como alguém a que faltam tradições comunitárias e peso cultural, já que se baseia no pressuposto da existência de um sujeito eurocêntrico que ocupa um ponto de convergência de poder. Giroux explica que, através de um enfoque pedagógico da noção de fronteira, por meio de uma percepção pós-moderna da história, é possível haver uma abertura de posicionamentos políticos no discurso e na representação. Em suas palavras, a perspectiva pós-moderna sugere "uma nova frente política dentro do discurso da representação".9 Em outras palavras, a eliminação da noção de um centro, que é uma das premissas das teorias pós-modernas, traz à tona uma política de transgressão.

Conforme essa perspectiva, é possível ter uma visão crítica que se afasta da noção de um sujeito eurocêntrico unificado, capaz de legitimar uma ideologia de colonização e marginalização dos Outros, os quais Giroux define da seguinte forma: "aqueles Outros que não se medem de acordo com os padrões de um 'eu' ou 'nós' irradiando poder de um centro do mundo".10 A visão do sujeito representado por Silko em Almanac of the Dead encontra, portanto, eco na visão do sujeito pós-moderno, uma vez que, como veremos mais adiante na análise da personagem Angelita, a narrativa apresenta um sujeito multifacetado, movido tanto por tradições ancestrais quanto por uma dinâmica própria do intelectual do mundo ocidental. Fronteiras culturais são um espaço em movimento, através dos constantes deslocamentos de tempo e espaço. De acordo com Giroux,

Um pós-modernismo de resistência desafia a noção liberal humanista de um sujeito unificado, racional como portador da história. (...) O pós-modernismo não só vê o sujeito como contraditório e multifoliado; ele rejeita a noção de que a consciência individual e a razão sejam os mais importantes determinadores da história humana.11

Como foi mencionado anteriormente na referência feita por Donnelly a uma 'herança tricultural' na obra de Silko, a simples menção de dados biográficos da autora aponta para uma multiplicidade étnica. Sendo a autora em parte indígena, (Laguna Pueblo), em parte mexicana e em parte branca,12 escreve de uma perspectiva que não é nem da cultura branca dominante e nem da sociedade indígena à qual pertence. Esse aspecto de sua biografia é um dado importante para a perspectiva da obra de Silko enfocada neste texto. Através da análise de trechos do romance Almanac of the Dead, meu argumento principal aqui é de que a autora alia o conceito indígena de tempo, caracterizado pela presença constante de sua memória cultural, ao conceito pós-moderno de passados presentes, da forma explicitada por Huyssen, e a uma visão de feminismo incorporada por sua protagonista Angelita La Escapía. Essa percepção do tempo se desdobra, assim, em uma visão de mundo baseada em um redimensionamento de fronteiras culturais e étnicas. Dessa forma, elementos da cultura indígena se entrelaçam com elementos da assim chamada cultura euro-americana, desafiando-os. A metáfora aqui escolhida é, como já dissemos, retirada do texto da própria Silko: uma fotografia de Marx. O processo de formar e fixar, por meio de um sistema ótico, a imagem de um objeto motiva uma reflexão de como culturas diferentes revelam sua maneira de assimilar e fixar idéias. Na materialidade da imagem impressa, o aspecto mágico da cultura oral indígena, que percebe a fotografia como algo capaz de capturar a alma, mistura-se à fascinação da personagem Angelita pela figura de Marx e por suas idéias, da forma como as apreendeu na cultura letrada euro-americana. Tal fascinação pela fotografia de Marx é uma conseqüência política da apropriação feita por Angelita de elementos da cultura euro-americana, subvertendo-a, a fim de desenvolver estratégias de luta pela recuperação da terra, revertendo um processo de colonização e realizando uma descolonização cultural. Na medida em que a fotografia se torna viva a ponto de despertar paixão, ela sintetiza o conceito de passados presentes, agindo como um catalisador de uma rede de relações culturais e étnicas, entre teorias 'brancas' e o saber ancestral indígena. A fotografia carrega, ainda, uma perspectiva de feminismo, já que a paixão que desperta em Angelita faz com que esta se revele como mulher liberta de opressão das sociedades patriarcais. Quando Angelita explicita sua rejeição ao controle de sua vida sexual pela comunidade, está também evocando uma recusa em aceitar o controle das funções reprodutivas da mulher e enfatizando sua força na escolha de seus próprios caminhos.

Em Almanac of the Dead podem-se encontrar elementos das culturas de origem da autora em uma rede de multiplicidade: o universo ficcional da obra revela uma fragmentação das personagens tendo como pano de fundo uma atmosfera de decadência, aliada a uma espécie de idolatria à tecnologia, trazendo à tona temas médicos como o da comercialização de plasma e de órgãos humanos. Nesse contexto, Silko mostra, ainda, o plano de um exército de sem-teto que pretende derrubar o governo. No amálgama de todo esse mundo fragmentado, na região desértica de Tucson, Arizona, a autora utiliza na narrativa a fórmula mítica dos almanaques maias que trazem o conhecimento da história, da tecnologia e da religião..

Com a abordagem do tema do levante de um exército de sem-teto, Silko faz com que sua obra se torne verdadeiramente imbuída do caráter profético do almanaque maia. Os acontecimentos ocorridos em Chiapas, após a publicação do romance, fazem emergir uma espécie de reforço desse caráter profético da narrativa, como aponta Daria Donnelly:

Em um ensaio recente, a própria Silko se mostra satisfeita e acha interessante o fato de que Almanac of the Dead parece ter prognosticado os então imprevisíveis levantes dos zapatistas maias em Chiapas em 1994. O romance acontece parcialmente em Chiapas e uma inquietação revolucionária ali existente marca o início de uma insurreição indígena e a retomada das Américas. Quando o livro foi publicado em 1991, apesar da extrema desigualdade na distribuição da terra e da violência praticada pelos donos de terras em Chiapas (tudo isso bem descrito por Silko), não havia indicativos de que uma resistência organizada poderia irromper ali. Um outro prognóstico, despercebido por Silko, é a semelhança entre as marchas pacíficas dos povos indígenas rumo ao norte, sob a liderança dos irmãos gêmeos, que ocorrem na última parte do romance e as três marchas indígenas sem precedentes que ocorreram em Chiapas, após a publicação do livro: mais especificamente o movimento rumo ao norte de 1992, "Ant March" (Xi Nich), de Palenque para a cidade do México, no qual os povos indígenas afirmaram seus direitos à posse da terra e a um governo autônomo A tendência profética de Almanac e seu tratamento de eventos contemporâneos reduzem as barreiras entre o mundo do livro e o mundo no qual o leitor vive de uma forma tão bem elaborada que o romance se torna um meio confiável através do qual se podem interpretar os acontecimentos globais em curso.13

Apesar de não ser a análise específica da questão dos movimentos sociais um dos objetivos deste trabalho, a menção a eles, através da citação de Donnelly, se justifica aqui por se tratar de um exemplo importante dos resultados de uma reflexão em que o profético e o histórico estão presentes. É como se um roteiro ficcional elaborado por Silko a partir de um almanaque mítico passasse a ser executado dentro de uma realidade histórica. Os acontecimentos históricos em Chiapas colocam por terra, também, a sustentação teórica de Sven Birkets, crítico do caráter revolucionário da temática de Silko, já mencionado anteriormente, que considera a marcha dos sem-teto absurda do ponto de vista histórico, já que, segundo ele, os oprimidos não estão habilitados para se libertarem de suas amarras e retomarem o que lhes pertence. Contrariando as premissas de Birkets, a obra de Silko provoca uma fissura em um pensamento hegemônico a partir da erosão paulatina de suas bases.

Assim, em meio a uma variedade imensa de fatos e argumentos, Almanac of the Dead apresenta, de diversas formas, teorias políticas disseminadas na narrativa. A combinação inusitada realizada por Silko de diferentes tempos e espaços geográficos passa dos Estados Unidos ao México, da África às Américas e chega ao chamado "Quinto Mundo". A combinação de tempos e espaços geográficos e a variedade de personagens descritas por Silko refletem o caráter provisório do sujeito pós-moderno, confrontado, no dizer de Stuart Hall, por "uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis".14 Como esclarece Hall, o próprio processo de identificação do sujeito tornou-se provisório e variável: "Esse processo produz o sujeito pós-moderno, conceitualizado como não tendo identidade fixa, essencial ou permanente".15 Ao colocar sua narrativa no trânsito entre fronteiras e retratar uma líder indígena engajada na luta pela devolução das terras de seu povo, Silko reforça sua identificação com as idéias de Marx, sem contudo limitá-las ao espaço geográfico e histórico do homem Marx ou do marxismo. A identidade de Angelita tem as características cambiantes do sujeito pós-moderno definido por Hall, já que não está imune às influências externas em um mundo em que a mulher indígena não pode negligenciar as realidades da opressão social e econômica e o importante papel que representam na questão de gênero.

O discurso da memória cultural de Silko, resultante da fusão tempo¾espaço, permite, portanto, que sua teia narrativa se desenvolva em diferentes espaços culturais e finalize com "Um Mundo, Muitas Tribos". O espaço cultural dedicado às Américas desdobra-se em "Montanhas" e "Rios". Nessa região fortemente conectada à terra, revelam-se as características surpreendentes da poderosa figura indígena feminina Angelita La Escapía. Tratarei aqui, de modo especial, da constituição da personagem central na seção de Almanac of the Dead intitulada "Angelita La Escapía Explica Engels e Marx" (p. 517-522). Todas as menções feitas a Angelita se referem a essa parte da narrativa. A memória cultural dos povos das Américas está viva nas palavras de Angelita: "A cada dia, desde a chegada dos europeus, em algum lugar na vastidão das Américas, o sol se levanta sobre a resistência e a revolução dos povos indígenas americanos. Ouçam a história que os europeus, até mesmo os marxistas, esperam que nós indígenas americanos esqueçamos" (p. 527). A narrativa polifônica da obra como um todo assume diferentes características, nos diversos capítulos e seções, à medida que diversos/as narradores/as assumem a palavra. Angelita, por exemplo, é inicialmente retratada através do olhar indígena masculino: "El Feo tinha ouvido histórias a respeito de Angelita. Ela era perigosa. Ria e fazia graça sobre tudo. Ela fazia as pessoas rirem até mesmo quando as assembléias e o assunto eram sérios ¾ Angelita fazia piadas até sobre rebeliões. Ela era perigosa" (p. 466). Esse homem cuja mãe decidira nomear El Feo ¾ proteção para sua beleza incomum ¾ confunde-se diante da força feminina concentrada na figura mítica de Angelita: "Grande anjo negro das 13 noites dos deuses antigos ¾ aqui estava o anjo que El Feo procurara durante toda a sua vida" (p. 468).

Silko revela, com a construção de Angelita, um modelo de mulher que, no dizer de Audre Lorde, arrancou de si os padrões de opressão. Para Lorde, "Como mulheres, precisamos arrancar pela raiz, de dentro de nós, padrões internalizados de opressão, se pretendemos ir além dos aspectos mais superficiais de mudanças sociais".16 A ficção de Silko ilustra uma visão política de combate à opressão de gênero e etnias. Diluído ao longo do texto, está o diálogo da autora com as teorias de gênero, transpondo, assim, as fronteiras culturais entre aquelas teorias e a memória cultural indígena. Ao revelar-se livre de opressão interna, Angelita se coloca como líder de um povo indígena sofrido e fragmentado a fim de tornar a sua cultura visível e incluir sua diferença cultural na sociedade majoritária, pela posse da terra e pelo reconhecimento de sua força enquanto grupo social economicamente poderoso. Essa visão, que perpassa o romance, pode ser conectada à perspectiva de Gayatri Spivak a respeito da política cultural em A Critique of Postcolonial Reason: Toward a History of the Vanishing Present.17 Nessa obra, Spivak defende uma política cultural de inclusão de diversas práticas culturais das minorias, dentro da educação escolar da sociedade majoritária, através de escolhas curriculares que incluam a discussão de temas culturais e sua repercussão nas artes, na literatura e no cinema. Na ficção de Silko a personagem Angelita La Escapía reflete, de forma emblemática, a própria resistência política da mulher à discriminação de gênero e etnia, já que sua luta pela devolução das terras indígenas implica também seu poder de liderança de homens e mulheres, tendo que vencer dificuldades impostas pelo convívio com a assim chamada sociedade euro-americana ¾ patriarcal por excelência. Ela parece se adequar à visão de Spivak sobre o papel político dos americanos hifenizados,18 de acordo com o que define como 'alfabetização transnacional' (transnational literacy): "poderiam repensar a si mesmos como possíveis agentes de exploração e não suas vítimas".19 Segundo Spivak, cabe aos americanos hifenizados, ou seja, aos representantes das diversas minorias étnicas e culturais, realizar um processo de descolonização cultural, combatendo a hegemonia cultural por meio de regras válidas nas relações econômicas da sociedade capitalista. Spivak defende que a estratégia das minorias étnicas seja de inclusão de elementos de suas culturas na educação da cultura majoritária.

Isso é feito por Silko com a construção de sua protagonista Angelita. Através do discurso de Angelita, Silko apresenta um paradigma de mulher como agente de produção cultural, assim como representa uma resistência emblemática a paradigmas de dominação cultural e econômica. Angelita resiste duplamente aos esquemas de subordinação, seja da mulher, seja das minorias étnicas levadas à espoliação econômica, espacial e cultural. Angelita não se vê como vítima em momento algum do romance. Esse conceito de uma política cultural, contrária à vitimização das minorias, é o que aproxima Silko e Spivak, além do fato de que as duas se revelam admiradoras de Marx. A alfabetização transnacional preconizada por Spivak pressupõe, portanto, uma luta pela inclusão da diferença na educação da sociedade majoritária, sem qualquer traço de vitimização e sim de exploração efetiva das pontencialidades das culturas minoritárias. Esse enfoque reflete a visão de Spivak de uma perspectiva pós-colonial de construção de identidades a partir da restauração de valores culturais danificados pelos processos de colonização. As contradições e os conflitos das sociedades pós-coloniais, que emergem no processo de descolonização cultural, só podem ser resolvidos a partir de uma perspectiva de inclusão dos valores culturais anteriormente abalados pela opressão e pela hegemonia cultural.

Em Almanac of the Dead, uma enorme distância separa o que El Feo entende por política, ou seja, uma dependência de partidos políticos, da forma como essa parece ser uma parte essencial de Angelita. Na visão de El Feo, "Angelita havia se embriagado com a política; uma oradora esfuziante que poderia, algum dia, congregar centenas e centenas de combatentes para o exército de El Feo" (p. 467). A visão de El Feo é do sentido estrito da palavra "política", por tudo o que foi imposto e engendrado por uma lógica capitalista, da qual ele não faz parte, mas da qual absorve uma ótica negativa que o afasta do poder por desilusão, preferindo apenas a rebelião:

A escuridão era o aliado dos pobres. Uma rebelião iria acender uma outra, outra e mais outra. El Feo não acreditava em partidos políticos, ideologia ou regras. El Feo acreditava na terra. Com o retorno das terras indígenas viria o retorno da justiça, seguido pela paz. El Feo deixava a política para Angelita, que adorava as intrigas e as rivalidades entre os assim chamados amigos (p. 513).

Angelita, entretanto, vê o mundo da política de forma ampla e com seus próprios olhos. Não se deixa levar pelas interpretações alheias. Sua percepção de Marx, por exemplo, é extremamente íntima e pessoal. Trata-se da visão de quem mastigou e digeriu os elementos, apropriou-se deles e reproduziu-os de maneira própria. Em uma assembléia indígena com a finalidade de se discutirem formas radicais de devolução das terras indígenas, Angelita dá a sua visão híbrida de Marx, na qual está incluída a leitura do indígena espoliado pelo homem branco:

"Agora quero lhes dizer uma coisa sobre mim mesma porque muitos rumores andam circulando. Rumores sobre mim e o marxismo. Rumores sobre mim e o fantasma de Karl Marx! (...) Isso é pessoal, mas as pessoas desejam saber o que eu penso; querem saber se sou marxista." Angelita sacode a cabeça negativamente. "Os marxistas não querem dar a terra indígena de volta. Nós dizemos para o inferno com todos os marxistas que se opõem à devolução da terra indígena! (...) Que os marxistas vão para o inferno! Que os capitalistas vão para o inferno! Que o homem branco vá para o inferno! Nós queremos a mãe terra. (...) O marxismo é uma coisa! Marx, o homem, é outra", Angelita havia dito ao dar início a sua defesa de Marx. Os assim chamados discípulos de Marx freqüentemente desgraçaram o seu nome, do mesmo modo como Jesus foi desgraçado pelos crimes de seus ditos seguidores, os papas da Igreja Católica (p. 519).

A percepção de política cultural de Angelita é, portanto, bem ampla e heterodoxa. Não faz concessões ao que contraria os ideais tribais de luta pela devolução das terras, mas não teme falar abertamente da sua própria teoria sobre o marxismo, por exemplo. A percepção de uma política cultural indígena híbrida, sintetizada por Silko em Angelita, revela semelhanças com o conceito de política cultural da forma como é elaborado por Gayatri Spivak, ou seja, como um 'jogo de diferenças'20 em um conjunto de mutações resumido por ela como um processo: "A cultura viva é sempre fugidia, sempre mutante".21 Spivak revela-se, então, uma estudiosa desse processo: "Sou, portanto, uma estudante de políticas culturais".22 Conclui seu raciocínio dizendo que sua agenda marxista é obsoleta e afirma: "Marx tentou fazer com que os próprios trabalhadores das fábricas repensassem a si mesmos como agentes de produção, não como vítimas do capitalismo".23 A analogia de Spivak entre o trabalhador das fábricas e os povos subordinados, colocando todos aqueles que estão marginalizados pelo sistema econômico mundial não como vítimas, mas como agentes de cultura, tem uma grande importância estratégica. Essa visão de Spivak encontra-se representada em Angelita. Tanto Silko quanto Spivak parecem reconhecer o poder daquilo que Raymond Williams chamou de materialismo cultural,24 ou seja, os aspectos culturais de uma sociedade são conscientemente transformados em uma prática de produção. A cultura é um bem e seus agentes devem ver a si próprios como exploradores desse bem e não vítimas.

Os bens culturais estão intimamente ligados à identidade com o local e o contexto cultural. Nesse ponto, a Angelita, concebida por Silko, revela sua ligação com o local quando defende como causa principal de sua luta a devolução das terras indígenas. Liga-se, ainda, ao global quando transpõe fronteiras culturais, através da educação e do mundo acadêmico, quando retira da ideologia branca aquilo que lhe interessa. Dessa forma, Angelita é ficção viva e se coloca em espaço teórico semelhante àquele definido de forma autobiográfica por Gloria Anzaldúa como a fronteira. A personagem feminina criada por Silko assemelha-se àquela definida por Anzaldúa, na medida em que se rebela e se recusa a submeter-se às imposições de sua cultura de origem. "É uma parte de mim que se recusa a aceitar ordens de autoridades externas. (...) É aquela parte de mim que odeia restrições de qualquer ordem, até mesmo aquelas auto-impostas," diz Anzaldúa.25 A perspectiva teórica de Anzaldúa, em seu espaço da fronteira, é definida por ela como um espaço de embate contínuo: "Apesar de minha crescente tolerância, para esta chicana a guerra de independência é constante".26 Por se tratar de um espaço híbrido, em que a diferença está em evidência, as ameaças são constantes, já que não é um espaço de imobilidade, mas dinâmico. Por esse motivo, a luta pela independência é constante, como enfatiza Anzaldúa. Angelita conhece bem esse espaço e sabe que não pode esmorecer para não se tornar sua vítima. Por que esse é um espaço de guerra? Como diz Spivak, a cultura está sempre em movimento. As armadilhas das sociedades patriarcais estão presentes nas culturas mexicana, anglo-americana e até mesmo na indígena mestiça. Anzaldúa chama a atenção para o fato de que essa tirania da visão patriarcal do mundo está dentro até mesmo das próprias mulheres, que podem se sentir culpadas por não ficarem calladitas ou se recusarem a seguir o papel de se tornarem esposas e mães e preferirem seguir sua própria carreira profissional. No espaço da fronteira, uma mulher rebelde como Angelita tem de lutar contra o estigma de mujer mala, como diz Anzaldúa.27

A abordagem da resistência da mulher indígena é também um ponto de semelhança entre Silko e Anzaldúa: "Minha identidade chicana está fundamentada na história de resistência da mulher indígena".28 A capacidade de resistir aproxima as definições de mulher das duas autoras. A mulher de Anzaldúa é fascinada pelo espaço da dualidade sexual: "Existe algo instigante em ser tanto masculino como feminino, em se ter acesso aos dois mundos".29 Sob esse aspecto, a mulher retratada por Silko difere da de Anzaldúa, já que se apóia no poder ancestral da mulher indígena, assim definida por Paula Gunn Allen: "As tribos vêem as mulheres de forma diferente, mas nunca questionam o poder da feminilidade. Algumas vezes vêem a mulher como amedrontadora, às vezes como pacificadora, algumas vezes como onipotente e onisciente, mas jamais retratam a mulher como tola, indefesa, simplória ou oprimida".30 Assim como Silko, a narrativa de Anzadúa reflete a memória coletiva dos povos mestiços. Entretanto, para cada uma delas, o processo da memória inclui a seleção dos aspectos que lhes importa lembrar. Jennifer Browdy de Hernandez aponta essa característica de Borderlands/La Frontera: "Para Anzaldúa, o processo de lembrar é inseparável do processo de seleção: ela precisa retirar e escolher dos modelos culturais que herdou a fim de reconstruir sua própria identidade".31 Na construção de Angelita, Silko seleciona, dos modelos culturais herdados, aspectos referentes à preocupação com a herança coletiva e à sexualidade feminina ancestral. Angelita não admite intromissões em sua vida particular, especialmente em sua intensa sexualidade e especulações sobre seus relacionamentos amorosos: "Quanto a questões sobre sua vida pessoal, Angelita contra-atacava ¾ 'E daí?' ¾ com um queixo tão endurecido que o questionador ficava com medo de abrir a boca novamente" (p. 517). Entre as referências aos relacionamentos amorosos de Angelita, havia, ainda, insinuações a respeito de sua paixão pelo fantasma de Marx. Daí sua irritação diante dos que tentavam invadir sua privacidade. Angelita alia a força ancestral da mulher indígena à da intelectual mestiça ¾ Silko ¾ capaz de traduzir Marx em termos simples para os membros de seu grupo indígena. É importante lembrar que a mulher indígena é freqüentemente associada ao mito da mulher-aranha ¾ capaz de gerar infinitas idéias e de congregar os povos em suas teias. Marx, o homem europeu, é esmiuçado e explicado, em termos simples, por Angelita para homens e mulheres indígenas de diferentes gerações em seus argumentos para a defesa da devolução das terras, com a finalidade de congregá-los para a luta. Relembrando a força ancestral que lhe é culturalmente conferida, a protagonista Silko é agregadora do grupo étnico no qual se inclui historicamente e por escolha política.

A visão de um passado presente se concretiza no discurso de Angelita através da descrição do impacto das idéias de Marx em sua existência. Após o primeiro contato com a obra do pensador alemão, a grande metáfora utilizada por Silko é a da fotografia ¾ instatâneo de passado-presente. Para Angelita, a fotografia de Marx torna-se um ponto misterioso: agrega a tecnologia e a ideologia do homem branco à crença indígena na vida existente na matéria. Angelita tem de lidar com a suspeição dos indígenas mais velhos: "Esse tal de Marx é um outro Jesus?" (p. 517). As mulheres mais velhas mostram sua desconfiança:

aí estava o perigo de se olhar fixamente para uma fotografia. Uma fagulha da alma do homem havia sido capturada ali, nos olhos da imagem de Marx na página. As irmãs mais velhas haviam dito que Angelita deveria ter sido mais cuidadosa. Todos sabiam de histórias sobre vítimas enfeitiçadas por fotografias de estranhos mortos há tempos, há muito afastados do mundo exceto por um rastro da luz do espírito que permanecera na fotografia (p. 518).

Angelita torna-se, assim, aquela que filtra o conhecimento ocidental a sua maneira, sem esquecer-se das crenças e tradições de seu povo, pois aí reside a sua força e sua liderança. Para ela o marxismo é uma coisa e Marx, o ser humano, é outra. Ou seja, ela retira da leitura de Marx aquilo que se adapta ao contexto de opressão dos povos subalternos. Toma, assim, a decisão de não morrer sem explicar ao povo de sua comunidade as idéias de Marx. É importante que saibam que Marx se inspirou na organização comunitária dos povos indígenas para suas formulações teóricas. Marx compreendeu que as histórias se tornam vivas com a energia das palavras de seu narrador. Entretanto, Angelita revela que, como europeu, Marx não entendeu muita coisa direito. Não compreendeu, por exemplo, que o poder das histórias pertence aos espíritos dos mortos, ou seja, que os vivos estão ligados aos seus ancestrais pela força da tradição espiritual e cultural que os une. A vida das histórias narradas está na memória cultural que carregam consigo. Dessa forma, a interpretação das idéias de Marx por Angelita faz com que a intérprete se torne superior ao original. Apesar de mostrar-se aparentemente cética diante da crença indígena no efeito mágico da fotografia, Angelita se rende:

Ela confessou a El Feo que nunca havia acreditado no que os antigos diziam a respeito da fotografia até que viu a foto de Marx. Uma fagulha de energia pertencente a Marx e somente a ele se alojava nos olhos ardentes da imagem; emanações dessa energia se desprenderam da página e atingiram Angelita. Mas foi somente quando ela ouviu suas histórias que ela se apaixonou por Karl Marx (p. 522).

A fotografia se torna, assim, um poderoso prisma através do qual podemos olhar a personagem construída por Silko. Angelita recusa-se a aceitar a opressão e a submissão reservada aos povos subordinados. Constrói sua própria estratégia para a retomada das terras indígenas, a partir de Marx, mas sem se render a uma possível hegemonia de idéias marxistas. Recusa-se a aceitar o papel de prisioneira de uma simultaneidade de opressões ¾ sintetizada por Marilyn Frye na metáfora das barras invisíveis da gaiola, que se tornam visíveis se olhadas de uma distância que permita a visão do conjunto de fatores opressivos.32 Aponta para uma direção do que deveria ser uma política cultural para a mulher indígena, filtrando as teorias do homem ocidental a sua própria maneira e utilizando-as como ferramenta para sua libertação das amarras engendradas pelo poder econômico e político. Angelita realiza uma apropriação bem-sucedida das idéias veiculadas pela indústria cultural. Parece lembrar e questionar as idéias de Walter Benjamin sobre a reprodução mecânica das imagens ao conferir à fotografia de Marx a aura de original. A memória de Marx é combinada com a memória cultural indígena. A personagem feminina retratada por Silko demonstra, assim, sua independência diante de um instrumental teórico amplo. Torna-se a mediadora entre a ideologia do Ocidente e a memória cultural indígena.

A vida conferida à foto de Marx revela, ainda, a possibilidade de que as fotos expostas em museus deixem de ser meros objetos para tornarem-se documentos vivos. Esse aspecto traz à tona a realidade do repatriamento dos restos mortais indígenas aos povos a quem pertencem, analisada por Russel Thornton em "Who Owns Our Past?".33 Esse fato político revela a reivindicação dos povos indígenas do direito de guardar a memória de seus ancestrais como também de se desvincularem da imagem de subordinação sobre eles criada pelo homem branco: a de serem peças de museu. A musealização da memória cultural indígena é uma tentativa ideológica de anulá-la. Através do romance Almanac of the Dead, Silko expressa sua visão de uma política cultural includente da mulher e das minorias étnicas como agentes e não como vítimas do sistema político-econômico. Sua ênfase na causa da devolução das terras indígenas é emblemática da busca de um valor ancestral da ligação dos povos indígenas com a terra, desvinculada da noção capitalista de propriedade. A recuperação dos objetos culturais pelos povos indígenas, assim como a Angelita de Silko, são formas de conferir aos fatos a sua qualidade de passado presente. Em ambos os casos, é possível verificar a visão dos povos indígenas e da mulher da forma como observa Spivak, ou seja, como agentes e não como suas vítimas. Assim como Anzaldúa, Silko seleciona dos modelos culturais que herdou aquele que reflete a força ancestral de resistência da mulher indígena: mítica em sua força agregadora, híbrida e independente em suas idéias, absorvendo e reconstruindo à sua maneira as formas de resistência à opressão cultural e econômica, ou seja, sua visão de política cultural está alicerçada na noção de passados presentes da pós-modernidade.

A opção de Silko por retratar uma grande variedade de personagens, com todas as suas contradições, conflitos e marginalidade, nos leva, como já foi enfatizado anteriormente, a olhar sua obra sob um enfoque à luz de conceitos retirados de uma visão pós-moderna. Isso se justifica não só pelo caráter muitas vezes fragmentário do tratamento das personagens e da narrativa como também e, principalmente, porque o conceito pós-moderno de passados presentes, utilizado neste trabalho da forma explicitada por Huyssen e Francese, nos permite olhar o presente não só com olhos imemoriais ¾ característicos de um tempo da profecia e do mito, capazes de fazer ruir estruturas hegemônicas de pensamento ¾, mas também com olhos firmes no contexto focalizado, sem perder o contato com a história. É importante ressaltar aqui que Silko não se sente à vontade em ter sua obra identificada como pós-moderna. Segundo Donnelly, "ela tem resistido energicamente a esse rótulo porque acredita que o pós-modernismo separa a conexão entre linguagem e comunidade, história e cosmologia.34 Essa percepção do pós-moderno, entretanto, não se justifica quando se olha pelo viés escolhido aqui, ou seja, de um conceito que reúne passado e presente de forma vibrante, sintetizada neste pela fotografia viva de Marx. Pode ser que Silko tema que a identificação de sua obra como pós-moderna retire dela seu forte vínculo político, social e cultural. A ênfase no conceito de passados presentes elimina, entretanto, o estigma colocado no pós-moderno por alguns de seus oponentes, que acusam essa abordagem de ser a-histórica. Esse aspecto é rebatido por Linda Hutcheon: "O pós-modernismo ensina que todas as práticas culturais têm um subtexto ideológico que determina as condições da própria possibilidade de sua produção de sentido. E, na arte, ele faz isso ao deixar em aberto as contradições entre a sua auto-reflexividade e sua fundamentação histórica".35

A confluência aqui realizada entre o pós-moderno e conceitos retirados dos estudos feministas, especialmente o de opressão de Marilyn Frye, está em consonância com os estudos pós-coloniais na medida em que estes definem como povos outrora colonizados qualquer população sujeita à dominação política por uma outra população. Assim, a interseção teórica realizada aqui para a análise da obra de Silko ganha uma dimensão particular, colocando ênfase na figura revolucionária de Angelita como líder indígena de povos oprimidos em busca do retorno do que lhes pertence por direito, ampliando o contexto com um enfoque feminista a partir da contribuição do pensamento de Spivak e de Anzaldúa. Como foi dito no início, a obra de Silko rejeita a percepção de um sujeito unificado e de um pensamento determinado por um discurso dominante, cabendo, assim, uma perspectiva pós-moderna, que, como a define Francese, pode ser panóptica e policêntrica. Diante dos olhos de Angelita, a fotografia de Marx é capaz de irradiar fagulhas de vida, conectando-se a um pensamento indígena ancestral sobre a alma humana. Torna-se vibrante porque não está vinculada a uma corrente de pensamento única, e sim a uma visão multifacetada de uma personagem mítica e histórica.

 

Referências bibliográficas

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[Recebido em setembro de 2001e aceito para publicação em março de 2002]

 

 

Angelita La Escapía and the Live Photograph of Marx: Feminism and Present-Pasts in Almanac of the Dead
Abstract: This article offers an analysis of Almanac of the Dead, by Angelita La Escapía, in light of feminist theories and of a post-modern perspective on time, emphasizing the notion of present pasts through the exploration of the metaphor of a live photograph of Marx, shown in the novel. The passion the character Angelita demonstrates for the photograph of Marx is seen as form of synthesis between the Native American perception of time as eternal presents ¾ which is also resistance against oppression insofar as the past is never forgotten ¾, and the Marxist concepts of time and history.
Keywords: postmodern; time; resistance; Marxism.

 

 

1 SILKO, 1992. As citações subseqüentes de Almanac of the Dead são dessa mesma edição e terão no texto apenas o número das páginas entre parênteses.
2 DONNELLY, 1999, p, 246. Tradução minha.
3 O crítico é citado por Caren IRR,1999. O ensaio mencionado é de Sven BIRKERTS (1991, p. 41).
4 Para IRR (1999), "The source of Angelita's interest in Marxism is Marx's concept of time". (p. 234)
5 FRANCESE, 1997, p. 109. Tradução minha.
6 HUYSSEN, 2000, p. 10.
7 HUYSSEN, 2000, p. 10.
8 GIROUX, 1993.
9 GIROUX, 1993, p. 461. Tradução minha.
10 GIROUX, 1993, p. 461-462. Tradução minha.
11 GIROUX, 1993, p. 467. Tradução minha.
12 Ian OUSBY, 1996, p. 870. Tradução minha.
13 DONNELLY, 1999, p. 247-248. Tradução minha.
14 HALL, 1997, p. 14.
15 HALL, 1997, p. 13.
16 LORDE, 1984, p. 636. In: RIVKIN e RYAN, 1998. Tradução minha.
17 SPIVAK, 1999.
18 Americanos hifenizados são aqueles que possuem identidade nacional mista. (N. R.)
19 SPIVAK, 1999, p. 357. Tradução minha.
20 SPIVAK, 1999, p. 356. Tradução minha.
21 SPIVAK, 1999, p. 357. Tradução minha.
22 SPIVAK, 1999, p. 357. Tradução minha.
23 SPIVAK, 1999, p. 357. Tradução minha.
24 Joseph CHILDERS e Gary HENTZI, 1995, p. 64. O termo 'materialismo cultural', conforme Childers e Hentzi, foi criado por Raymond Williams para descrever uma forma de atividade crítica, segundo a tradição marxista, que parte da idéia de que a cultura deve ser compreendida como um processo social integral. Williams mantém o materialismo, mas foge da armadilha de tentar entender todas as atividades cultutais como meros efeitos de base econômica.
25 ANZALDÚA, 1998, p. 888. Tradução minha
26 ANZALDÚA, 1998, p. 887. Tradução minha.
27 ANZALDÚA, 1998, p. 888.
28 ANZALDÚA, 1998, p. 891. Tradução minha.
29 ANZALDÚA, 1998, p. 890. Tradução minha.
30 ALLEN,1992, p. 44. Tradução minha.
31 HERNANDEZ, 1996, p. 45. Tradução minha.
32 Refiro-me à metáfora utilizada por FRYE (1998) para explicar a opressão da mulher. De perto, são vistas apenas as barras, das quais se poderia escapar, mas, quando se afasta delas, é possível perceber que o conjunto de barras combinadas impede a libertação (p. 48).
33 Refiro-me ao ensaio de THORNTON (1997, p. 386) em que o autor revela a importância da recuperação de sua memória cultural por uma delegação cheyenne em cerimônia ocorrida na Smithsonian Institution.
34 DONNELLY, 1999, p. 249. Tradução minha.
35 HUTCHEON, 1988, p. xii. Tradução minha.