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Revista Estudos Feministas

versão impressa ISSN 0104-026Xversão On-line ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. v.10 n.1 Florianópolis jan. 2002

https://doi.org/10.1590/S0104-026X2002000100018 

Resenhas

 

Um olhar sobre os 'olhares'

 

Entre o amor e a palavra: olhares sobre Arriéte Vilela
BRANDÃO, Izabel (Org.).
Maceió: Edições Catavento, 2001. 204 p.

 

 

A literatura, como toda forma de arte, inspira, expira, transpira, pensa e re-presenta as diversas realidades políticas, sociais e históricas no seio das quais é produzida.

Neste momento, cabe perguntarmos: qual o status da literatura em uma época em que o pensamento teórico tem se caracterizado pelo questionamento de suas próprias certezas e referências? Como fica a relação entre 'autor/a' e obra; 'autor/a' e 'realidade' diante do dilema teórico acerca da legitimidade do sujeito humanista, conhecedor e organizador do conhecimento? Vale lembrar que, quando interrogamos se existe ou não um 'eu' ou um 'nós' por trás de suas ações/construções, não estamos tentando eliminar ou apagar o sujeito; mas apenas interrogar as condições em que é produzido e sob as quais opera. Sabemos que a forma como o sujeito é reiterativamente interpelado pelas instituições e autoridades determina, delimita, e alicerça aquilo que é considerado 'humano'. Entretanto, cabe ressaltar que o 'humano' jamais é produzido em contraposição ao que não é humano, mas sim pelas exclusões e pelos apagamentos – ou seja, a partir de tudo o que não é articulado culturalmente ou, como diria Derrida, através do excesso ou de tudo aquilo que ex-orbita os discursos hegemonicamente instituídos. Em outras palavras, tudo aquilo que é excluído e culturalmente ininteligível é o que 'delimita' o humano, e, ao mesmo tempo, assombra-o com a constante possibilidade de ruptura e rearticulação.1

Hoje em dia, a arte e a literatura não apenas não estão alheias a esses questionamentos, como muitos deles nasceram e são elaborados no próprio fazer literário. Mediante o questionamento das noções tradicionais da representação em si e suas possibilidades e a partir do momento em que a 'natureza' e o 'ser' não mais se colocam em estado 'puro' para serem explorados pelo/a artista, e a própria cultura não mais se situa como um agente externo de transformação do 'referente', temos uma literatura, chamada pós-moderna, que tem que lidar com uma 'realidade' e com um 'sujeito' encapsulado por imagens culturais, que tomaram o lugar da 'natureza', ainda existente para boa parte dos modernos. Sem referentes, diante de variações, em vez de fixidez, resta à literatura, mimética por natureza e princípio, a representação de representações de representações (mis-en-abysme), em um desencadeamento infinito de espelhos, cada vez mais dissociados do 'real'.

Assim, desiludida com o referente, a literatura desce do pedestal das Belle Letres, e encurta a distância entre a 'alta cultura' e a 'cultura de massa'. Temas antes considerados 'inapropriados' para a literatura passam a fazer parte de seu organismo pulsante, dando margem a uma imensa diversidade de estilos pessoais, que implodem os próprios conceitos de gêneros literários.

E é nesse contexto conturbado, incerto, polêmico, controverso, que se insere a obra de Arriéte Vilela.

Arriéte, escritora alagoana, de Marechal Deodoro, em sua obra transita exatamente pelos espaços ex-orbitantes, ex-cêntricos; pelos espaços do passado re-visitado, do presente que se lhe escorrega, nos veios da fantasia, irrecuperável e indizível, no entanto, teimosamente laborado pela palavra.

Nesse mesmo contexto, de uma literatura que se recusa rótulos, de um texto que encontra sua lógica dentro de sua própria ilogicidade, é que se insere a primeira coletânea de ensaios críticos acerca da obra de Arriéte, bravamente organizada pela professora Izabel Brandão.

O livro intitulado Entre o amor e a palavra: olhares sobre Arriéte Vilela reúne trabalhos de professores/as e alunos/as da pós-graduação em Letras da UFAL, que, como sugere o próprio título, oferecem múltiplas perspectivas e possibilidades de leitura do texto de Arriéte, que vão desde análises de cunho marxista e sociológico a abordagens psicanalíticas, fenomenológicas, que buscam na fortuna teórica/crítica/mitológica das culturas ocidentais e orientais elementos para melhor entender, 'elucidar', iluminar, enfim, ler o texto de Arriéte.

Entre as questões colocadas nos vários ensaios, chamou a minha atenção a problemática da 'escritura e da autoria feminina', trabalhadas nos textos de Izabel Brandão e de Jerzuí Tomaz, por se tratar de uma questão extremamente complexa e, diria, até arriscada de se abordar. Muito se fala de o texto de Arriéte, sobretudo Fantasia e avesso, ser 'transgressor', como o faz muito bem Edilma Bomfim; muito se fala também dos embates entre a 'autora' e a linguagem, como o faz de maneira perspicaz Roberto Sarmento.

Percebe-se claramente, no texto de Arriéte, o dilema entre linguagem-instrumento e linguagem-entrave; 'autora'-mulher e linguagem patriarcal.

Assim, acredito que falar de uma 'escritura feminina' é imensamente útil e pertinente, quando se sabe que os valores em que se baseiam os padrões de qualidade literária têm sido predominantemente masculinos, e que as próprias teorias narrativas estão enraizadas na leitura de textos escritos por homens. Portanto, é fundamental uma intervenção sob o viés de gênero. Contudo, temo que o construto 'escritura feminina' pode se constituir em um risco, quando sugere que 'mulher escritora' é uma categoria monolítica, que pode ser representada de forma homogênea. A realidade nos mostra que a categoria 'mulher' é múltipla, diversa, heterogênea; assim sendo, o mesmo pode ser dito a respeito da categoria 'mulher escritora'. O perigo é que uma visão homogeneizante apague as diferenças e as especificidades locais e culturais de raça, etnia, classe social, orientação sexual.

Obviamente, toda discussão acerca da especificidade da 'escritura feminina', seja pelo viés da psicanálise – um discurso falogocêntrico, vale lembrar, como o faz Jerzuí Tomaz – , seja por qualquer outro viés, é mais que válida, visto que essas questões estão longe de ser esgotadas.

Para finalizar, queria destacar a argúcia com que Izabel Brandão, em seu ensaio "Fantasia e avesso: entre papoulas, mel e máscaras", trata da questão do amor em Fantasia e avesso, como uma quase re-escritura d'O Banquete, de Platão. Izabel Brandão parece-me ser a única, até então, a dizer de fato a que diz respeito o "amor clandestino" de Fantasia e avesso, quando afirma que o livro "rompe com o amor-norma que permeia a sociedade ocidental e exalta-se/esbalda-se na proposta do amor entre iguais do sexo feminino" (p. 71).

Mas, apesar de o eu-narrador ser potencialmente feminino, o amado é gendrado no masculino, lembra-nos Izabel. Eu acrescentaria que a incerteza, em si, com relação aos gêneros do/a amante e do amado/a que se segue, e que tem marcado as mais diversas análises do livro, revela a sua maior fortaleza enquanto narrativa, se entendermos por narrativa "qualquer discurso que se mobiliza pelo desejo de construir uma história, um relato dos limites e das fronteiras de gênero, subjetividade e conhecimento".2 As possíveis identidades de gênero são construídas e desconstruídas no desenrolar do próprio fio narrativo, e assim cria-se uma ambigüidade de gênero que inaugura novos espaços discursivos, onde se inscreve o 'outro', o 'ex-cêntrico'. Exatamente porque é no espaço da narrativa que a 'mulher escritora' pode negociar a contradição entre uma identidade naturalizada e identidades múltiplas, contingentes, bordadas no avesso do discurso patriarcal. Portanto, é através da narrativa que se pode fraturar e reverter o processo, que chamaria de 'aculturação identitária'.

Assim, dentro de um momento histórico, inevitavelmente, e, fundamentalmente, contraditório, repleto de incertezas e interrogações, gostaria de ressaltar a dupla importância dessa coletânea organizada por Izabel Brandão: primeiro, como uma produção acadêmica séria, corajosa, comprometida, rica nas suas múltiplas abordagens; segundo e, acima de tudo, como um estudo crítico sobre uma escritora alagoana, contemporânea, viva. Fato raríssimo na história da crítica literária, sobretudo, na história de um país e de um estado nos quais é tão difícil produzir conhecimento.

 

 

1 BUTLER, Judith. Bodies that Matter: On the Discursive Limits of "Sex". New York: Routledge, 1993. p. 7-9.
2 ROBINSON, Sally. Engendering the Subject: Gender and Self-Representation in Contemporary Women's Fiction. Albany: SUNY Press, 1991. p. 17.

 

ANA CECÍLIA ACIOLI LIMA
Universidade Federal de Alagoas

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