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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.10 no.1 Florianópolis Jan. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2002000100021 

Fronteiras identitárias e pós-colonialismo

 

A voz da crítica canadense no feminino
HANCIAU, Nubia Jacques et al. (Orgs.).
Rio Grande: Editora da FURG, 2001. 320 p.

 

 

No curso da década de 1990, Brasil e Canadá, países até então distantes, aprofundam suas relações cujos caminhos revelam-se, em certa medida, contraditórios: de um lado, pode-se falar no antagonismo comercial, na luta por mercados emergentes, como é caso dos constantes atritos entre a Bombardieu e a Embraer, para ficarmos no terreno da indústria de aviação; de outro, uma constante e profícua aproximação no campo cultural, especialmente a partir da criação, no Brasil, dos Núcleos de Estudos Canadenses, em geral vinculados a Instituições de Ensino Superior; cabe referir, ainda, a organização da Abecan, associação que congrega pesquisadores e professores brasileiros cujo trabalho está centrado nos estudos canadenses.

Em 2001, como resultado precisamente da referida aproximação no plano cultural, foi lançado, pela Editora da Fundação Universidade Federal do Rio Grande, A voz da crítica canadense no feminino, livro organizado pelas pesquisadoras Nubia Jacques Hanciau, Eliane Amaral Campello e Eloína Prati dos Santos, profissionais vinculadas a dois Núcleos de Estudos Canadenses: as duas primeiras, ao sediado na Universidade da Editora; a última, ao localizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Trata-se de publicação constituída por onze ensaios críticos de autoria de escritoras canadenses, anglófonas e francófonas, em excelentes e criteriosas traduções que estiveram a cargo de especialistas de várias universidades brasileiras.

A publicação, cujo objetivo primeiro foi o de colocar à disposição dos leitores de língua portuguesa material não raras vezes de difícil consulta, vai muito mais além, pois conseguiu estabelecer um belo e instigante painel do pensamento crítico canadense de autoria feminina/feminista, concebido na contemporaneidade. O texto de abertura, "Vinte páginas entrecortadas de silêncio", de Nicole Brossard, realiza, na forma de um ensaio-depoimento, uma profunda reflexão sobre o lugar e o papel do/a escritor/a em um tempo marcado pela globalização e pelo desenvolvimento do chamado neoliberalismo, época, mais do que nunca, em que as fronteiras identitárias, tal como foram concebidas originalmente no século XIX, correm o risco do desaparecimento. A reflexão dobre a identidade da nação e sobre a identidade do/a escritor/a conduzem a autora à discussão do entre-lugar da escritura, como um espaço povoado sempre de múltiplas, ancestrais e contemporâneas vozes, responsáveis pela configuração da literatura como expressão híbrida que se constitui, invariavelmente, na consideração da diferença. O texto de Brossard chega mesmo à postulação do que poderíamos chamar de uma retórica do silêncio, como o lugar de onde o escritor fala em meio à turbulenta polifonia caracterizadora da pós-modernidade.

O segundo texto, "Calçolas do Império: a ilusão do transvestismo", de Diana Brydon, dá continuidade, ainda que por outro viés, à reflexão sobre a questão da identidade, aqui fundamentalmente centrada na questão de gênero, que é igualmente considerada em suas interferências na construção da idéia de nação no Canadá. Brydon, observando sugestão presente em Empire Bloomers, de Margaret Atwood, elege como fio condutor de seu ensaio a idéia de transvestismo, que é investigada em suas manifestações e utilização no campo da literatura, da história e da cultura e em sua repercussão na organização e constituição do Estado canadense. Ensaio fortemente amparado na teoria e na crítica feministas, o texto de Brydon coloca sua ênfase no exame dos estereótipos de gênero a partir dos quais organizou-se a sociedade canadense, no âmbito de um processo colonial europeu, branco e masculino.

O texto de Louise Dupré, que dá seqüência à antologia, debruça-se sobre duas obras de Denise Desautels, que são analisadas a partir do exame do trabalho realizado com a temporalidade, especialmente no que diz respeito à questão da memória: a primeira, obra híbrida do ponto de vista formal, La promeneuse et l'oiseaux, espécie de relato poético que apresenta um eu lírico a pensar sobre si, sua infância e sua própria escritura, é situada no âmbito da poesia do Quebec concebida no curso dos anos 1970; a segunda, Ce fauve, le bonheur, narrativa de cunho autobiográfico que faz correr, paralelamente, dois planos temporais: o do percurso da narradora e o da própria história, que é constantemente evocado em suas ocorrências significativas para a compreensão da história local e universal. Dupré, valendo-se de teoria de Julia Kristeva sobre o problema da temporalidade, em que se estabelece uma fronteira entre o tempo masculino (linear) e o feminino (cíclico), conclui seu ensaio afirmando ser a obra de Desautels um exemplo de uma visão cíclica do tempo e muito semelhante, senão igual, àquela típica do eu lírico.

"Por uma escrita da resistência: escritoras negras do Canadá", de Bárbara Godard, constitui o quarto ensaio incluído em A voz da crítica canadense no feminino. Nele, a autora discute, entre outras questões, o multiculturalismo, a condição racial e social das escritoras como fatores de inclusão/exclusão no plano das discussões empreendidas pela crítica canadense contemporânea. Registra que, apesar de recente, a teorização feminista começa a incluir, para além da reflexão sobre gênero, os problemas de ordem social e política que envolvem a produção literária de escritoras imigrantes (asiáticas, africanas, latino-americanas, etc.), normalmente excluídas de qualquer referencial canônico, seja ele de orientação masculina, seja ele de orientação feminista. Formula, então, o desafio a ser enfrentado pela crítica literária, especialmente a de orientação feminista, no sentido de dar conta da diferença, aqui entendida não como uma condição de gênero, mas, sobretudo, como uma questão racial que necessariamente repercute na representação dessas escritoras e, conseqüentemente, de sua identidade no âmbito de suas próprias obras.

A antologia tem seqüência com o ensaio de Mary Jean Green, que aborda a obra de Madeleine Ouellette-Michalska. A autora, a partir de um texto marcado por forte coerência, empreende a leitura da produção de Ouellette-Michalska, que é analisada em seu duplo plano: o ficcional e o teórico. Nesse percurso, Mary Jean focaliza, entre outras obras, La femme de sable, La termitiére, Le plat des lentilles, L'échapée des discours de l'oeil, La tentation de dire e La Maison Trestler, procurando mostrar como a escritora canadense vai, gradativamente, atingindo o estágio de uma inscrição do feminino que havia advogado em seus escritos teóricos. Tal inscrição, segundo a ensaísta, tornou-se possível porque Ouellette-Michalska logra atingir o equilíbrio entre o sujeito feminino e os outros, o corpo e a memória, a ficção e a teoria, o presente e o passado, rompendo com o discurso masculino da história, da autobiografia e do próprio romance.

A análise da narrativa é o motivo dos dois ensaios subseqüentes: o primeiro, de Barbara Havercroft, debruça-se sobre Journal pour Mémoire, de France Théoret, em uma tentativa de desvelamento das estratégias narrativas utilizadas pela romancista em seu relato de feição autobiográfica, no qual se destacam a intertextualidade, a ruptura com a linearidade temporal dos acontecimentos e, sobretudo, a agentividade do discurso, responsável por uma ação transformadora do/a escritor/a e da sociedade; o segundo, de Helen Hoy, focaliza Honour the Sun, da escritora Ojibway Ruby Slipperjack. Em sua análise, Hoy aponta para a necessidade da leitura do silêncio, das lacunas discursivas existentes na narrativa que, organizada em forma de diário, suscita a reflexão sobre a diferença e sobre a função do silêncio (resistência?) no âmbito de uma sociedade multicultural como a canadense.

O oitavo ensaio de A voz da crítica canadense no feminino vem assinado por Nancy Huston, prolífera e premiada romancista canadense. Organizado na forma de um diário, compreendido entre os dias 4 e 19 de julho de 1993, o texto relata visita da escritora ao seu país natal (Canadá), após muitos anos de um auto-exílio que contemplou passagens por New Hampshire, Boston, Nova York e Paris, cidade onde fixou residência. A viagem, que possibilita o resgate de imagens vinculadas à infância e à adolescência, enseja, em verdade, instigante reflexão sobre a identidade canadense, marcada, no mínimo, pela duplicidade lingüística, responsável, quem sabe, pela ambigüidade que perpassa todas as discussões a respeito da identidade do país.

"O trabalho das mulheres: os irônicos desafios feministas", de Linda Hutcheon, constitui o nono ensaio da antologia. Originalmente capítulo do livro Splitting Images (1991), o texto de Hutcheon, a partir da leitura e análise da obra de escritoras e de artistas plásticas canadenses, procura afirmar a ironia como um tropo retórico utilizado como resistência e crítica à ordem dominante patriarcal. A ironia, nessa perspectiva, seria um meio utilizado pelas mulheres artistas no sentido de subverterem a ordem estabelecida através do investimento na duplicidade do discurso irônico. Além disso, embora focalizando de passagem a questão da identidade canadense, a autora vincula a recorrência ao discurso irônico em obras de artistas canadenses à dualidade identitária do Canadá, em suas múltiplas manifestações.

Lucie Lequin é a autora de "Movimentos da transcultura", texto em que focaliza o papel da literatura produzida no Quebec por escritoras consagradas e por aquelas cujas vozes não encontraram ainda maior ressonância no meio acadêmico ou mesmo junto ao público leitor. Nesse percurso, em que investiga a natureza da escrita das mulheres migrantes, lança indagações a respeito das noções de extraterritorialidade, intercultura, desterro, desenraizamento, ambivalência, vistas como categorias indispensáveis para a compreensão e dimensionamento da produção das autoras migrantes. Além disso, pela própria natureza de seu objeto de investigação, a autora não consegue fugir à discussão sobre a questão da identidade dessas autoras, do país e, conseqüentemente, da literatura por elas produzida.

A voz da crítica canadense no feminino se encerra com o texto "O outro romance familiar: filhas e pais na ficção de escritoras quebequenses dos anos 90", de autoria de Lori Saint-Martin. Apoiada na análise de obras de escritoras como Gabrielle Gourdeau, Ying Chen e Monique La Rue, entre outras, a ensaísta aponta para a transformação da literatura quebequense dos anos 1990 no que tange ao tratamento conferido às relações entre pai e filha: se em décadas anteriores, especialmente nas manifestações feministas dos anos 1970, havia a necessidade de exorcizar a figura do pai, nos anos 1990, o tema é redimensionado e dá forma ao que a autora nomeia de "o outro romance familiar".

A leitura de A voz da crítica canadense no feminino revela, de um lado, a variedade de vozes, múltiplas e multifacetadas, que marca o ensaio crítico feminino/feminista canadense na contempo-raneidade; de outro, a recorrência a um tema, presente na quase totalidade dos ensaios, que é o debate sobre a questão da identidade, sobretudo naqueles aspectos por ela assumidos em tempos de pós-colonialismo. Mais do que isso, aponta para a ruptura de conceitos ancestralmente aceitos e referendados no âmbito das práticas culturais, em um movimento que, ao recusar o homogêneo, investe no reconhecimento da diferença e da polifonia como marcas definidoras do discurso artístico contemporâneo. Nessa perspectiva, o conjunto de ensaios que integra A voz da crítica canadense no feminino transcende as fronteiras de seu país de origem e contribui para o enriquecimento do debate em torno de questões relevantes para a compreensão da escrita literária na contemporaneidade.

 

CARLOS ALEXANDRE BAUMGARTEN
Fundação Universidade Federal do Rio Grande