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Revista Estudos Feministas

versão impressa ISSN 0104-026Xversão On-line ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. v.10 n.2 Florianópolis jul./dic. 2002

https://doi.org/10.1590/S0104-026X2002000200001 

EDITORIAL

 

 

Luzinete Simões Minella

Coordenação Editorial

 

 

Este número da Revista Estudos Feministas resulta da ampliação e da consolidação de uma parceria iniciada em 1999 entre o Centro de Filosofia e Ciências Humanas e o Centro de Comunicação e Expressão da Universidade Federal de Santa Catarina. Tal parceria envolve atualmente a colaboração de várias pesquisadoras oriundas de diferentes áreas disciplinares, que se dividem nas tarefas de edição das diferentes seções da Revista, como pode ser observado na página de expediente. Inaugura-se, dessa forma, um modelo que incorpora a participação da maioria das integrantes do antigo Comitê Editorial Executivo e que se compromete em continuar atuando no sentido de manter a posição estratégica que, desde a sua criação, a Revista ocupa no campo da expansão e da consolidação dos estudos feministas e das relações de gênero.

Na síntese a seguir, pode-se observar que a maior parte das contribuições deste número se relaciona com a saúde reprodutiva, excetuando-se quatro dentre elas que exploram outros temas também relevantes. É o caso dos textos de Luciana Grupelli Loponte, Márcia Thereza Couto e Gabrielle Houbre, além da entrevista com Jane Flax.

A seção Artigos se inicia com a abordagem de Luciana Grupelli Loponte a respeito das relações entre sexualidades, artes visuais e poder, fundamentando-se nas contribuições de Michel Foucault sobre poder e discurso. Considerando as artes visuais como práticas discursivas, a autora analisa como as imagens sobre a sexualidade feminina, produzidas por diferentes artistas ao longo do tempo e em distintas sociedades, configuram uma 'pedagogia do feminino', fixando e construindo identidades sexuais e de gênero.

O artigo de Suely Gomes Costa contribui para repensar as relações de subordinação e cumplicidade entre mulheres que ocupam posições sociais desiguais, identificando nexos entre os padrões de domesticidade e os limites das lutas feministas pelos direitos sociais e assinalando que tais padrões imprimem sua marca na montagem dos sistemas protecionistas nacionais. Ao identificar, nas lutas pela universalização dos direitos reprodutivos, os sinais de uma mudança significativa no cotidiano das mulheres, a autora conclui o texto sistematizando alguns dos principais desafios e impasses que se colocam atualmente quando se tenta estabelecer relações entre feminismo e igualdade no âmbito da saúde reprodutiva.

O texto de Gabrielle Houbre analisa a importância crescente das romancistas a partir da Belle Époque na França, mostrando que de 1880 em diante se destaca uma verdadeira 'geração de romancistas', tendo algumas delas conseguido penetrar no cânone literário, como, por exemplo, Colette, Rachilde ou Anna de Noailles. Esse artigo constitui-se no único texto traduzido deste número da Revista, e sua inclusão se justifica porque a autora leva em conta que tal geração, ao contrário das precedentes, publicou muitos títulos e elaborou obras consistentes, o que configurou um verdadeiro fenômeno editorial com o crescimento do número das leitoras e, ao mesmo tempo, com repercussão entre os autores homens.

Rosely Gomes Costa discute as relações entre reprodução e gênero a partir dos dados de uma pesquisa empírica realizada em Campinas, São Paulo. Com o objetivo de analisar as representações masculinas sobre paternidade, a autora indica, primeiro, as associações existentes entre paternidade e masculinidade, e entre fertilidade e masculinidade, ressaltando as mediações de gênero. Segundo, reflete sobre as teorias da concepção, analisando como a teoria duogenética (a qual considera que pai e mãe participam, embora de modo desigual, do processo reprodutivo) informa as representações dos entrevistados sobre paternidade e maternidade.

O ensaio de Márcia Theresa Couto, por sua vez, revisa a literatura sobre dois grupos religiosos importantes no cenário atual - os pentecostais e as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) -, concluindo que as questões relacionadas ao gênero e à pobreza merecem uma maior atenção, não obstante os avanços já realizados.

A seção Ponto de Vista apresenta, inicialmente, uma entrevista com Jane Flax, a qual sugere a necessidade de aprofundamento do diálogo entre três importantes vertentes do pensamento atual: a psicanálise, a filosofia pós-moderna e a teoria feminista. Interseção entre gênero e raça, subjetividade, afetos, ações políticas e os limites da teoria política constituem alguns dos principais aspectos tratados. A densidade das respostas reflete a longa experiência acumulada por Jane Flax no âmbito das vertentes citadas.

Em seguida, o diálogo com Robbie Davis-Floyd antecipa algumas das questões que são abordadas no Dossiê, na medida em que a entrevistada sintetiza o contexto da sua trajetória como antropóloga e ativista do parto natural, analisando as diferenças internas ao campo de profissionais envolvidas/os e remetendo-se à experiência acumulada através da sua participação em várias iniciativas a favor da humanização do parto, principalmente nos Estados Unidos e no México.

Organizado diligentemente por Maria Lúcia Mott, o Dossiê destaca a temática Parto, instrumentando as/os profissionais da área através da reunião de várias contribuições inéditas oriundas de diferentes instituições e de distintos países: Scarlet Beauvalet-Boutouyrie analisa a situação das parteiras-chefes da Maternidade Port-Royal, em Paris, no século XIX; Françoise Thébaud aborda a medicalização do parto e suas conseqüências no período entre as duas Guerras Mundiais na França; Aya Homei investiga as condições do parto no Japão entre 1868 e a década de 1930, desenhando uma série de coordenadas históricas que permitem compreender o surgimento das novas parteiras no contexto da modernização da sociedade.

Na seqüência, Benedita Celeste de Moraes Pinto registra as vivências cotidianas de parteiras e 'experientes' do Tocantins; Maria Luiza Gonzalez Riesco e Maria Alice Tsunechiro discutem a formação profissional de obstetrizes e enfermeiras obstétricas; Sonia Nussenzweig Hotimsky e Augusta Thereza de Alvarenga confrontam os modos segundo os quais as/os 'acompanhantes' têm sido usualmente definidos nos âmbitos médico, sanitarista e jurídico, com uma proposta de parto ambulatorial 'alternativo' em São Paulo; Carmen Susana Tornquist problematiza as relações entre natureza e maternidade, dialogando com o ideário da humanização do parto.

O Dossiê inclui, também, uma bibliografia comentada sobre a assistência ao parto no Brasil entre 1972 e 2002, o que certamente será de grande utilidade para as/os pesquisadoras/es da área.

A seção Resenhas inclui seis contribuições, com o objetivo de divulgar obras relevantes elaboradas no campo dos estudos de gênero e do feminismo no país e no exterior. As três primeiras abordam as relações entre feminismo e religião; corpo e subjetividade; e homossexualismo no cinema brasileiro. As três últimas encontram-se afinadas com o tema do Dossiê, destacando a análise de duas obras de Michel Odent sobre o "renascimento do parto" e a "cientificação do amor"; as relações entre sexo e gênero na medicina; e, finalmente, as rotinas e valores hospitalares que configuram o processo de nascer como um rito de passagem na sociedade ocidental.

Levando em conta a importância, a riqueza e a complexidade do processo eleitoral ocorrido no Brasil em 2002, informamos que pretendemos, nos próximos números, incluir textos que destaquem a participação das mulheres nesse processo.

Informamos, ainda, às/aos nossas/os leitoras/es que se encontra em andamento um projeto, financiado pela Fundação Ford, que visa à implementação da versão eletrônica da Revista Estudos Feministas, combinada com a criação de um portal e de um consórcio de publicações feministas. O portal visa, inicialmente, à digitalização da REF e será ampliado gradativamente para outras publicações. Esclarecemos que a implantação da REF On-line não substituirá a distribuição de sua versão impressa e que as/os nossas/os assinantes terão ao seu dispor, a partir do próximo ano, as duas modalidades.

O impulso inicial para a discussão da articulação entre o portal e o consórcio, visando à divulgação e à distribuição das publicações feministas através da implementação de estratégias comuns, deu-se através do I Encontro Brasileiro de Publicações Feministas, realizado nos dias 7, 8 e 9 de agosto de 2002 em Florianópolis. Nesse evento foram debatidos os seguintes tópicos: história das publicações feministas no Brasil; avanços, impasses e desafios editoriais; estratégias de colaboração; critérios para organização de um Dossiê sobre Publicações Feministas e agenda do II Encontro Brasileiro e I Encontro Internacional de Publicações Feministas, que ocorrerá durante o segundo semestre de 2003.

Através dessas ações, a equipe editorial da REF pretende reforçar o diálogo já existente com outras publicações feministas, para facilitar o acesso e ampliar o debate na área. Um exemplo dessas ações se refletiu na presença da Revista em vários eventos relevantes no decorrer de 2002: II Fórum Social Mundial; Conferência Nacional de Mulheres Brasileiras; 23.a Reunião Brasileira de Antropologia; XVII Encontro Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística (ANPOLL); VIII Encontro da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC); I Encontro Brasileiro de Publicações Feministas; III Encontro Internacional de Estudos Feministas de Língua Francesa, realizado em Toulouse, França; Encontro Internacional Fazendo Gênero V - Feminismo como Política; XXVI Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS); XI Encontro Anual da Rede Feministas Norte e Nordeste de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher e Relações de Gênero (REDOR) e I Simpósio Sergipano de Pesquisadoras/es sobre a Mulher e Relações de Gênero; I Seminário Nacional de Antropologia da Saúde e III Jornada Paranaense de Antropologia da Saúde.

Vale ressaltar que, no momento, a equipe editorial está se organizando para garantir a presença da Revista em vários eventos que se realizarão durante o ano de 2003.

Finalizando, agradecemos a todas/os as/os colaboradoras/es que encaminharam seus textos para apreciação, bem como às/aos pareceristas ad hoc pelas críticas e sugestões que muito contribuíram para o aprimoramento das idéias apresentadas neste número. Manifestamos nosso reconhecimento a toda a equipe da Revista, ao Programa de Apoio às Publicações Científicas do CNPq, à Fundação Ford e às/aos nossas/os assinantes, por terem firmado compromissos que estimulam a sua continuidade. A Manoalvim agradecemos a autorização para o uso da imagem de sua obra na capa deste número.

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