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Revista Estudos Feministas

versão impressa ISSN 0104-026Xversão On-line ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. v.10 n.2 Florianópolis jul./dic. 2002

https://doi.org/10.1590/S0104-026X2002000200013 

Vivências cotidianas de parteiras e 'experientes' do Tocantins

 

Daily practices of midwives and 'Experientes' of Tocantins

 

 

Benedita Celeste de Moraes Pinto

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

 

 


RESUMO

Através dos relatos orais, mediante as lembranças do passado de descendentes de antigos quilombolas, o presente artigo analisa as práticas cotidianas de parteiras, curandeiras e suas descendentes na região do Tocantins, no Pará - norte da Amazônia. Ao lado da assistência ao parto, essas mulheres desempenharam uma série de atividades relacionadas aos processos de curas e manipulação de plantas medicinais, bem como trabalhos para sobrevivência, muitos deles nem sempre considerados em outras regiões e culturas como sendo atividades compatíveis com o sexo feminino. Este artigo contribui, assim, para repensar a importância do estudo das práticas cotidianas para o conhecimento dos diferentes papéis exercidos por mulheres e homens, e também para repensar como se dá a relação entre gêneros, inclusive as formas de dominação em determinada sociedade.

Palavras-chave: parteiras, assistência ao parto, curas, oralidade e gênero na Amazônia.


ABSTRACT

Through the oral reporting of memories of the descendants of old "quilombadas", the present article analyzes the daily practices of midwives, healers and their descendants in the region of Tocantins, in Pará - north of the Amazon. Beside the attendance to childbirth, those women carried out a series of activities related to the processes of cures and manipulation of medicinal plants, as well as tasks for survival, many of them not always considered in other areas and cultures as being compatible with activities of the feminine sex. This article thus contributes to rethinking the importance of the study of daily practices for the knowledge of the different roles played by women and men in gender relations, including forms of domination in a specific society.

Key words: Midwives, attendance to childbirth, cures, orality and gender in the Amazon.


 

 

A vida cotidiana das parteiras e 'experientes'1 nos povoados rurais da região do Tocantins,2 no Pará, toma a mesma direção do rio da vida das demais mulheres que aí viveram ou, ainda, vivem. Elas são mães, esposas, avós, comadres, madrinhas e tias, que aprenderam com suas antepassadas a desempenhar afazeres tanto no mundo natural, executando as mais diversificadas formas de trabalho, como no plano sobrenatural, benzendo, recitando rezas e invocando encantarias, para obter ajuda na hora do parto e curar os males do seu povo. Ainda hoje, a presença dessas mulheres nos povoados rurais é indispensável. Entre os seus, são vistas como médicas, enfermeiras, farmacêuticas, capazes de fazer aliviar, com ungüentos, banhos, chás de ervas e rezas, as dores e os males da população que não conta com outro recurso.3

Essa região foi marcada pela existência de vários quilombos. Alguns deles foram destruídos; outros, jamais descobertos. Os quilombolas, diante das ameaças de reescravidão e dos riscos de aniquilamento, adentravam pelas matas, rios e igarapés e, no interior da floresta, organizavam novos mocambos, como ocorreu nos municípios de Cametá, Mocajuba e Baião. Ainda permanecem na região vestígios desses redutos negros, e suas histórias estão sendo reconstituídas a partir da evocação da memória e do exercício das lembranças de seus descendentes que vivem nos povoados remanescentes. Através dos relatos orais de velhos e velhas do Tocantins, emergem as histórias de vida de antigas parteiras, curandeiras ou experientes e benzedeiras, como Maria Felipa Aranha, Maria Luiza Piriá, Leonor, Virgilina, Guita, Juvita, Telene, Catita, Odete, Maroquita, Madalena, Beneditas, Raimundas e Marias, bem como de parteiros, destacando-se entre eles Sinfrônio, fundador do Quilombo de Paxibal.

Desde a formação dos antigos quilombos na região, parteiras, curandeiras e benzedeiras vêm desempenhando múltiplos papéis, como chefes de famílias, organizadoras e condutoras de rituais religiosos, líderes fundadoras de povoados.4 Realizam muitos tipos de trabalho, alguns deles nem sempre considerados como tarefas femininas em outras sociedades e culturas. Além de cuidar dos filhos, cozinhar, varrer, lavar vasilhas e roupas, capinar, arrancar mandioca, carregar, pôr de molho, descascar, ralar, cortar lenha, espremer, amassar, socar, coar e torrar a farinha de mandioca, vistoriam a preparação de uma nova roça, caçam, pescam, constroem suas casas. Partejar, benzer e curar faz parte da missão que lhe foi dada por Deus - a vontade divina tem de ser acatada, mas não as isenta da labuta diária.

Nas histórias de vida da maioria das mulheres da região, o trabalho tem um lugar de destaque. Conforme suas memórias, jamais se curvam diante das dificuldades, do esforço físico, nem dos perigos. Nunca tomam a forma de um ser frágil, não importando a idade. Ressalto, como exemplo, o caso de Leonor, parteira de Paxibal, que, mesmo velha e cega, morava sozinha, cuidava de suas coisas e trabalhava na roça. A parteira e benzedeira Vieira, agora já sem a visão, também narra o que para ela era um tempo bom, quando podia trabalhar e não dependia dos outros. Tempo em que o acúmulo de inúmeras tarefas não significava só a busca do sustento de cada dia, mas também o desafio nas limitações e, principalmente, a busca de um tipo de independência muito valorizada pelas parteiras locais.

Suas figuras emergem como mulheres fortes, destemidas, independentes e valentes lutadoras, capazes de ultrapassar a chefia doméstica, onde são, na maioria dos casos, as principais provedoras da família. Assim, no cotidiano das parteiras, quando o assunto é trabalho, não existem diferenças entre os sexos. Como elas afirmam, "se faz de tudo, não tem como dizer que tem um trabalho de homem e outro de mulher, porque para se viver é preciso fazer de tudo".5

(...) Tem dia que eu chego que fui fazê um parto, eu chego e, vou pra roça arrancá mandioca, fazê farinha; e, tem vez que vou mariscá; Né? Mariscá, porque (...) a gente é pobre; né? Não da graça de Deus! Tem dia que falha o tustão pra gente comprá (...). A gente vai mariscá camarão de paneiro, lanciando (...). Caço; já cacei muito (...). De caçada, a tia dessa [da parteira Zilda] era minha comadre também, nós caçava de cachorro. O cachorro metia a caça no buraco do pau ou da terra, nós cavava até matá (...) Quando enxergava priguiça no pau, no tempo que tinha; ah, pra mim não tinha altura, preparava a peconha, ia batê onde ela estivesse. De lá eu jugava ela pro chão. É! [riso] É, tinha que caí! Sei ruçá, sei cuvá, sei plantá, sei capiná (...). Eu sei estilá azeite, eu sei ajuntá ucuúba, eu sei tapá pra camarão, eu sei tapá pra peixe. Tudo esse trabalho eu faço! Olhe, tem dia aqui (...) que eu chego, e, só arreio o paneiro aqui, que tô mariscando o dia inteiro sem metê uma bucada. Olha, o fulano já está lhe esperando (...). Eu largo, quando tem o café pronto eu ainda tomo, quando não tem, eu vou assim mesmo; sem tumá um gole de café. (Benedita Gomes, 82 anos - Vila de Juaba/Cametá)

Nas memórias das mulheres entrevistadas trabalhar para sobreviver é muito difícil, tanto para elas como para os homens. Mas na maioria dos povoados negros rurais por onde passei, as mulheres trabalham duas vezes mais do que os homens, pois partejar, benzer e curar não têm dia nem hora marcados, ou, como elas dizem, "não há tempo bom ou ruim, chuva ou vento, esteja escuro ou claro". Se recebem um chamado qualquer, é preciso ir atender. É uma questão de solidariedade, e só aquelas que receberam essa espécie de dom armazenam força e energia suficiente para cumprir a missão de ajudar, servir, aliviar a dor daqueles que precisam.

Anastácia, parteira e benzedeira do povoado de Umarizal, conta que uma noite estava deitada em uma rede, no quarto de sua casa, fazendo os filhos menores dormir, quando bateram à porta de sua casa. Era um homem desconhecido que estava procurando por uma parteira para atender sua mulher. Pediu ao marido de Anastácia que a deixasse ir e, ao receber a autorização, partiu com ela. Anastácia lembra que sentiu muito medo, pois era um lugar que ela não sabia onde ficava: "era nesse monturo mesmo, onde não tem morador, só mata mesmo". Era noite, na companhia de uma pessoa totalmente desconhecida, "um homem feio, mulhé, mas nessa coisa a gente não pode negar".

(...) Aí eu cheguei. (...) Eu disse: Quedê a mulhé que tá com dor? Tá ai! Tava assim no canto; enrolada! Aí eu disse: levante! Aí ela levantou. Aí eu disse: cadê os panos? A dona Rosa respondeu pra mim, mas baixo: olhe, eu vou lhe dizê uma cuisa: não tem nada, nada, nada, nada! Nem fruta aumeno! Eu falei: meu Divino Deus! (...) Só homem. De mulhé era só ela e a dona Rosa (...), que ainda pegou uma saia dela, rasgou e puxou a barra da saia pra ela pudê deitá em cima. (...) Eu tinha levado duas, eu agarrei rasguei uma pra pegá a criança, pra não caí no chão. (Parteira e benzedeira Anastácia Ramos - Umarizal/Baião)

Além das longas caminhadas por lugares ermos e da carência de recursos básicos da população, as parteiras sofrem sono, fome, recebendo em troca apenas a recompensa de fazer o bem, de auxiliar as pessoas nos momentos que mais precisam. Há ocasiões em que passam horas, dias ou até semanas na casa da parturiente.

O tratamento dado à parteira varia conforme a situação financeira da família da parturiente. Em algumas casas elas são bem alimentadas, com café, almoço e jantar, e não são obrigadas a fazer qualquer trabalho doméstico, dedicando-se exclusivamente ao ato de ajudar a "vim ao mundo". Seu trabalho é retribuído com gentilezas, respeito, dinheiro ou "um agrado qualquer". Mas há ocasião que nada disso é possível, e então só resta à "parteira comer apenas brisa, beber água e trabalhar com a bença de Deus"6 para cumprir a missão de ajudar e livrar, quem precisar, do sofrimento. Elas têm plena consciência de que, na maioria das vezes, dependendo do lugar e da distância, elas são as únicas pessoas responsáveis pela saúde de seus habitantes. Pois, para essa população, a saúde, um direito universal, assegurado na Constituição Federal de 1988, ainda está muito longe da realidade.

Se tudo correr bem, partejar, curar, benzer pode representar acréscimo de poder e de prestígio para a parteira. O não se negar, como elas dizem, representa cumprir uma missão que lhes foi confiada por Deus através dos dons que receberam. Desse modo, servir uma pessoa que esteja precisando de socorro com um sofrimento qualquer, ajudar uma mulher na hora do parto, em qualquer hora do dia ou da noite, é um ato obrigatório, faz parte da missão que lhe foi dada por Deus, e a vontade divina tem de ser acatada. Porém, se alguma coisa não correr conforme o esperado, a vivência é de desvalorização, não apenas profissional, mas também moral, e de ameaça da perda do dom e da espiritualidade.

Se por um lado suas histórias de vida as revelam como mulheres respeitadas e valorizadas, por outro apontam para a falta de reconhecimento como pessoas prestadoras de serviços, sobretudo para as autoridades ligadas à saúde. Nos discursos médicos ainda são vistas apenas como mulheres curiosas, ignorantes, incapazes de dominar, no seu dia-a-dia, termos médicos e técnicas obstétricas.7

Rose Marie Muraro ressalta que, desde a mais remota antiguidade, as mulheres eram as curadoras populares, as parteiras, enfim, detinham saber próprio, que lhes era transmitido de geração a geração. As mulheres camponesas pobres não tinham como cuidar da saúde, a não ser com outras mulheres tão camponesas e tão pobres quanto elas. Elas eram as curadoras e as cultivadoras ancestrais das ervas que devolviam a saúde, e eram também as melhores anatomistas do seu tempo. Eram as parteiras que viajavam de casa em casa, de aldeia em aldeia, atuando como médicas populares para todas as doenças.8

Segundo Maria de Nazareth Alvin de Barros, essas médicas sem formação acadêmica tinham um bom conhecimento dos segredos da natureza e sabiam como combater as dores de cabeça, os enjôos, as cólicas, as inflamações, as gripes e uma boa quantidade de mazelas, utilizando como remédio plantas eficazes. Muitas vezes, os médicos diplomados, após a aplicação de sangrias sobre sangrias, de purgantes sobre purgantes, eram obrigadas a admitir que muitos pacientes acabavam encontrando alívio para seus males nas mãos dessas mulheres que, sem qualquer estudo, dissertavam com desenvoltura sobre as propriedades de cada folha que utilizavam, assim como sabiam misturá-la de forma a aumentar seus efeitos e suas serventias. Todas essas práticas milenares, que sempre foram exercidas pelas mulheres e que lhe valiam a denominação de feiticeiras ou conhecedoras da magia branca, eram requisitadas não só pelo camponês inculto ou pelo povo da cidade, mas também pela nobreza, pelo clero e, até mesmo, pela realeza.9

Nesse sentido, são louváveis as afirmações de Maria Mary Ferreira e Marluze do Socorro Pastor Santos ao se referirem ao preconceito dos profissionais de saúde. Afirmam que nos últimos séculos as parteiras vêm sendo alijadas do processo de cura, exclusão que precisa ser repensada dentro da própria academia, vista a necessidade presente de se estabelecer parcerias10 capazes de promover um atendimento justo para as parturientes e seus filhos, bem como o reconhecimento e a remuneração aos trabalhos das parteiras tradicionais. Como já ressaltei anteriormente, a presença dessas mulheres continua sendo, nos povoados rurais, indispensável. Entre os seus, elas são vistas com uma aura de mulheres mágicas, ou de médicas populares, que têm o dom de fazer "vim ao mundo" e de tratar as diferentes doenças, dores e males do seu povo, que, vivendo em lugares longínquos, não conta, nem pelo menos, com um mínimo aparato médico de primeiros socorros oferecido pelo Estado.

Na Região Amazônica já há uma certa movimentação para a legalização dos trabalhos dessas mulheres. Isso pôde ser visto no I Encontro Internacional das Parteiras da Floresta11 na cidade de Macapá, capital do Amapá, entre os dias 18 e 21 de julho de 1998, que abordou, como principais questões, o reconhecimento e a remuneração das parteiras tradicionais pelo Ministério da Saúde. Na região do Tocantins, mais especificamente na cidade de Cametá, no Pará, no final da década de 1980, também já houve empenho de alguns profissionais ligados à área da saúde - responsáveis pelo curso de capacitação de parteiras tradicionais - para esse fim, tentando, inclusive, aposentar velhas parteiras 'curiosas' por tal trabalho.

Mas, apesar de laudos médicos, declarações da Promotoria de Justiça dessa cidade, além de toda a documentação de identificação dessas mulheres, enviada para o INSS, tal tipo de aposentadoria não foi possível, pois a profissão de parteira 'curiosa', ou parteira tradicional, não é reconhecida legalmente. Dessa forma, as velhas parteiras da região do Tocantins, em sua maioria, são aposentadas como trabalhadoras rurais.

As dificuldades e sofrimentos vivenciados pelas parteiras são percebidos pelas mulheres mais jovens da região. Algumas delas, entre 15 e 20 vinte anos, demonstram certas predisposições para a arte de partejar e benzer - na maioria, netas, bisnetas ou parentes de parteiras -, mas declaram não estarem dispostas a seguir pelos mesmos caminhos daquelas que se ocupam de tais funções:

Um dia desse, quase que eu pego o filho de uma amiga minha aqui, não tinha parteira no momento, a tia Raimunda tava pra Baião. Quando deu a dor ela me chamou, levamos pra Baião e, no barco quando dava a dor ela me chamava e, eu ali, se fosse a hora mesmo eu ia aparar a criança, porque eu acho que eu tenho essa herança. Mas graças a Deus se chegou no Hospital há tempo. Eu te digo, que é uma missão muito bonita; eu acho! Mas eu não quero essa vida pra mim. Eu vejo essas parteiras, benzedeiras e curadeiras daqui do Umarizal, Bailique, que só trabalham, não tem descanso algum; andam distância por esses centros, passando fome e tudo. No final da vida acabam cegas, doentes, cansadas; e, teimando viver com essa aposentadoria de merda, que os velhos recebem do governo, depois de uma vida toda de trabalho. É bonito, é pra fazer só o bem pros outros; mais eu não quero pra mim. Quero mesmo é dormir a noite toda na minha rede; não ter que acordar no meio da madrugada, no meio da chuva, frio. Deus me livre! A gora, eu beijo as mãos e pés dessas nossas pretas velhas aqui, que receberam quase todo esse pessoal daqui! O pessoal sente uma dor qualquer, aqui, lá estão elas fazendo chá, curando a dor; é bonito; elas têm coragem! Se aventuram em andar horas e horas no meio desse mato e, muitas vezes são obrigadas a fazerem partos complicados mesmo. São nossas valentes guerreiras! (Uma jovem, de vinte anos de idade, do povoado de Umarizal)

Na esfera doméstica, a maioria das parteiras, benzedeiras e experientes, com as quais convivi, são mães de vários filhos e já tiveram ou conviveram com mais de um companheiro. Mesmo havendo a presença masculina, freqüentemente são as mulheres que chefiam a casa. Além de assumirem os próprios filhos, também assumem os netos legítimos e aqueles vindos dos que elas já ajudaram a nascer, que as chamam de mãe, madrinha ou tia.

O marido ou companheiro da parteira, estando ausente, jamais é apontado pelo nome, mas sim como o marido da parteira, benzedeira ou curandeira, ao contrário das outras mulheres, que são indicadas como a mulher do João, do Antônio, do Zeca.

No lar não se curvam por muito tempo diante da figura masculina. Não relutam em reivindicar que os companheiros, além das atividades da roça, destinadas à manutenção da família, também executem os trabalhos domésticos, "porque homem que se considera tem que saber de tudo um pouco. Lavar, cozinhar, varrer não diminui o valor dele em nada".12 E enaltecem o marido exemplar, que coopera em casa, que sabe ser companheiro, participa da criação dos filhos e de tudo que envolve sua família.

Olhe, eu já falei pra esse que vivi comigo agora, se tu não te ajeitar pra ir fazendo as iscuisa em casa, parece que até o fim do ano tu vai ganhá carta branca. Ele vai tê que pedí perdão pra mulhé dele e, volta com ela. Porque foi ela que jurou perante Deus pra aguentá ele em tudo. Eu não jurei nada, então não vou aturá homem, que não sabe fazê nada, que tira o calção e, deixa ali mesmo enrolado! Eu não aturo mesmo! Porisso eu ensinei os meus filhos fazerem os serviço de casa, pra ajudarem também mulher deles. O pai deles, o meu marido verdadeiro, sabia fazer comida, lavava, tomava conta de tudo, me ajudava muito. Mas era péssimo porque era muito mulherengo, aí eu mandei correr terra mesmo. Sabe quantas vezes vou deixar abusar dessa preta velha? Nenhuma! Homem nenhum! Eu disse: se tu gosta de mulhé, eu também gosto de homem, se tu quê namorá, eu quero muito mais. Ele queria sê livre, eu muito mais! Mandei pastá! E, olhe, que eu nunca me arrependi nesta minha vida. (Parteira e benzedeira Raimunda - Vila de Juaba/Cametá)

Nas constantes viagens para aparar criança ou benzer, a parteira geralmente vai sem restrição por parte do marido, que tem consciência dos trabalhos que ela executam. Os próprios maridos afirmam que é necessário que se faça isso, pois é uma questão de solidariedade: "pobre forma uma só família e pra que ele sobreviva é preciso que um preste auxílio ao outro".13

Em alguns casos os maridos acompanham a esposa quando esta vai atender a um chamado. Assim, a clientela, ciente de que o marido faz questão de acompanhar a esposa, acerta primeiro com ele antes de falar com a própria parteira. Em outros momentos, porém, as memórias das parteiras deixam insurgir lembranças de certos companheiros que eram negligentes, e que estavam mais interessados no que elas poderiam arrecadar como recompensa do que com a falta de segurança, o esforço físico, o cansaço e a fome que sofriam.

Embora o parto seja um acontecimento entre mulheres e as parteiras sejam as preferidas, foram reconstituidas, através das lembranças de velhos e velhas do Tocantins, histórias de homens, principalmente no povoado de Umarizal, que, além de possuírem o dom de benzer e curar, também são lembrados como parteiros. Atendiam em geral suas companheiras, como era o caso do parteiro Joaquim Ferreira, esposo da parteira Ana Vieira, que fazia somente os partos dela. Segundo as velhas e os velhos de Umarizal, Joaquim Ferreira teria o dom de partejar assim como sua mãe, que teria "mostrado para o filho todo o andamento do parto, porque ela conhecia que ele tinha trazido esse dom".14

Sinfrônio foi outro parteiro conhecido na região. Além do benzedor, experiente e parteiro, ele fundou o quilombo do Paxibal.

O velho Sinfronio ele era parteiro. (...) O meu cunhado, que era marido da minha irmã aqui, da Ana Vieira, ele era meio parteiro. Era! Ele era meio parteiro porque os filhos dela quem pegava era só ele. Agora o pai dessa cumadre Bini, Velho Benedito Tibulsio, ele era também meio parteiro, mas ele morava lá no Bailique. Ele fazia parto, uma viajada ele fez o parto dela, da filha dele, e, uma viajada eu vi ele fazê o parto de uma mulhê lá no bailique (...) duma cumadre minha, eu era bem novinha mesmo (...) Ele se avechava assim, quando era mulhé do outro; né? Aí foi entrou meio envergonhado. Aí, chegou lá ele falou: dona Joana [parteira que estava atendendo no momento], cubra bem ela que eu vou entrá lá. Aí ela cubriu, jogou um pano assim por cima dela. Aí ele entrou, pegou na barriga dela, apalpou, puxou lá um pouco. Depois ele saiu, foi, sentou bem assim atrás da casa. (...) Ele devia tá rezando alguma oração. Aí ele falou: olhe, dona Joana, a senhora fique lá de prontidão pra apará a criança. Quando a criança vim nascendo me fale. Aí ele foi, foi rezando, rezando, rezando e, a finada da dona Joana falou assim: Olhe seu Benedito, a criança tá nascendo. Ele falou: pois é! Deixe nascê! Aí não demorou muito o minino berrou pro quarto. Aí ele veio por lá, depois ela teve tudo, pronto! Ele fazia isso. Eu vi ele fazê! (Felicidade Campelo - Fêcidade - Umarizal/Baião)

Benedito Tibulsio, da povoação de Bailique, antigo refúgio de negros fugidos, e o benzedor Raimundo Leite também são lembrados como parteiros. Raimundo Leite era parteiro da sua mulher, a benzedeira Joana Coelho, mais conhecida por Vieira, e constantemente chamado para atender os partos considerados difíceis.

Os homens considerados 'meio parteiros', como dizem meus informantes do povoado de Umarizal, tinham as mesmas características místicas do líder Sinfrônio: eram benzedores, rezadores, experientes ou curadores. Porém, somente partejavam se tivessem uma parteira auxiliar. Raras vezes ficavam na frente da mulher em trabalho de parto para receber a criança, havendo necessidade de uma parteira para fazer tal trabalho. De longe, na companhia dos seus guias ou companheiros, recitando rezas e simpatias, o parteiro ordenava à parteira o que tinha de ser feito.

Concordo com Joana Maria Pedro quando afirma que não basta identificar, em determinados momentos da história, de que forma eram divididos os papéis entre os sexos; é necessário apontar as relações que se estabeleciam e que os determinavam. "Identificar papéis sexuais pode apenas servir para naturalizá-los, enrijecendo-os. É preciso, antes de mais nada, perceber, também, personagens vivendo papéis trocados. Mulheres e homens que, apesar do sexo biológico, viveram, em muitas ocasiões, papéis que pertenceram ao outro gênero. Este tipo de pesquisa pode nos levar a perceber que o futuro que almejamos, uma sociedade sem gênero, mas não sem sexo, já foi, em parte, vivida por muitas pessoas no passado, mesmo pelas limitações impostas pelos papéis de gênero."15

 

Referências bibliográficas

BARROS, Maria Nazareth Alvin de. As deusas, as bruxas e a Igreja: séculos de perseguição. Rio de Janeiro: Record; Rosa dos Tempos, 2001.        [ Links ]

FERREIRA, Maria Mary; SANTOS, Marluze do Socorro Pastor. "Parteiras tradicionais: visibilidade de um trabalho milenar". In: ____. A mulher e a modernidade na Amazônia. Belém: GEPEM/CFCH/UFPA, 1997.        [ Links ]

MURARO, Rose Marie. "Breve introdução histórica". In: KRAMER, Heinrich; SPRENGER, James. O martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro: Record; Rosas dos Tempos, 1998. p. 5-17.        [ Links ]

PEDRO, Joana Maria. "Relações de gênero na pesquisa histórica". Revista Catarinense de História, Florianópolis, n. 2, p. 35-44, 1994.        [ Links ]

 

 

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1 'Experiente', na região, é um termo empregado para designar a função correlata com o curandeiro ou pajé.
2 A microrregião de Cametá, ou região do Tocantins, é composta pelos seguintes municípios paraenses: Abaetetuba, Baião, Cametá, Igarapé-Miri, Limoeiro do Ajuru, Mocajuba e Oeiras do Pará. No entanto, para este estudo, minhas pesquisas se desenvolvem em alguns povoados negros rurais dos municípios de Cametá e Baião.
3 Este artigo trata-se de uma abordagem que enfoca algumas questões que fazem parte da pesquisa Parteiras, 'experientes' e poções: o dom que se apura pelo encanto da floresta, orientada por Maria Odila Leite da Silva Dias.
4 Como exemplo de liderança feminina em alguns quilombos da região e, posteriormente, em seus povoados remanescentes, deve ser citada Negra Maria Felipa Aranha, que liderou o quilombo do Mola, um quilombo fundado na segunda metade do século XVIII, constituído por mais de 300 negros, que, sob a liderança dessa mulher, viveram ali por vários anos sem serem 'ameaçados' pelas forças legais. Maria Luiza Piriá, sucessora dos saberes místicos e da liderança de Maria Felipa Aranha, também marcou sua passagem no quilombo do Mola, organizando e chefiando rituais religiosos e administrando a própria vida dos quilombolas que ali viveram. Maria Juvita foi mais uma dessas mulheres, que fizeram a sua própria história no Tocantins. Ao migrar do Mola, fundou e liderou por muitos anos o povoado de Tomásia, e, após sua morte, suas descendentes a substituíram na liderança e chefia do povoado. As negras Leonor, Virgilina, Francisca, Maximiana e tantas outras, ao se embrenharem na mata, ajudaram a constituir o quilombo do Paxibal, no município de Baião.
5 Parteira Custódia Vieira, do povoado de Umarizal, Baião.
6 Domingas Neri, do povoado de Umarizal, Baião.
7 Como se pode verificar, por exemplo, na seguinte afirmação: "Elas não sabem de nada; é só conversa fiada esse negócio de virar criança. Não concordo e nem aceito esse modo delas ficarem puxando, amassando a barriga da mulher grávida com a desculpa de que endireitam criança que está torta ou, então, está de pé. Isso não existe. A criança se movimenta mesmo no útero e, sendo um parto sem complicação alguma, qualquer pessoa é capaz de fazer o parto. Esse negócio de certas banhas que elas utilizam, passam na barriga da mulher para ajudar no parto e, ainda, a raspa de paxiba, de pau, que tiram para curar o umbigo do nenê não adianta nada; são apenas simpatias. E, em muitos casos, podem até causar infecções; essa é a grande verdade!" (declaração de um médico da cidade de Cametá, durante uma conversa informal, em 14 de fevereiro de 2002).
8 MURARO, 1998.
9 BARROS, 2001, p. 337.
10 FERREIRA e SANTOS, 1997, p. 107.
11 Encontro promovido pelo governo do Estado do Amapá, em conjunto com a rede nacional de parteiras tradicionais e com a ONG Cais do Parto de Recife. O Amapá foi escolhido para sediar esse encontro por ter um trabalho pioneiro com parteiras tradicionais. O evento aconteceu no momento em que o Ministério da Saúde passou a remunerar o trabalho de parto das enfermeiras obstétricas e obstetrizes. Antes, só o médico ganhava, mesmo que o parto fosse realizado por uma enfermeira obstétrica.
12 Parteira Raimunda, da Vila de Juaba, Cametá.
13 Raimundo Vilhena (Dico), 89 anos, de Umarizal, Baião.
14 Felicidade Campelo, de Umarizal, Baião.
15 PEDRO, 1994, p. 42.

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