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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584

Rev. Estud. Fem. vol.11 no.2 Florianópolis July/Dec. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2003000200006 

ARTIGOS

 

Mulheres atletas: re-significações da corporalidade feminina1

 

Women athletes: re-signifying the female body?

 

 

Miriam Adelman

Universidade Federal do Paraná

 

 


RESUMO

A participação esportiva das mulheres contribui para uma re-significação da corporalidade feminina? Lembrando da idéia de Susan Brownmiller, para quem a feminilidade representa, na sociedade moderna, uma "estética da limitação", e trabalhando com noções de gênero e corporalidade advindas particularmente da produção recente de Susan Bordo e Judith Butler, procuro identificar mudanças nas práticas e representações do corpo feminino que decorrem da atividade esportiva. Analiso depoimentos de atletas brasileiras profissionais, algumas praticantes de um esporte de elite (hipismo) e, outras, de um esporte mais popular (o vôlei). Incorporo também a análise de imagens culturais da atleta, como veiculadas nos meios de comunicação. Evidências de pesquisa de campo mostram que, se, por um lado, as atletas de fato participam da "desconstrução" de certos elementos da mencionada "estética da limitação", por outro, continuam em uma cultura na qual a atividade esportiva das mulheres pode 'comprometer a feminilidade' da atleta.

Palavras-chave: mulheres atletas, gênero e esportes, corporalidade.


ABSTRACT

How does women's participation in sport contribute to the re-signification of women's corporality? Considering Susan Brownmiller's notion that femininity, in modern society, can be understood as an "aesthetic of limitation", I also work with notions of gender and corporality taken from recent work by Susan Bordo and Judith Butler, in an attempt to identify changes in women's practices and representations of the female body propitiated by sporting activity. I analyze the testimonies of Brazilian women athletes, most of whom can be considered professionals, from two sporting fields: on the one hand, equestriennes engaged in the elite sport of showjumping, and on the other, women involved in the popular sport of volleyball. I also look at cultural images of women athletes as currently produced in mass media. he evidence that I obtain through field work leads me to identify conflicting tendencies of "deconstruction" of certain aspects of the above-mentioned aesthetics of limitation and persistent cultural concern for women's "masculinization" through sport.

Key words: women athletes, gender and sport, the body.


 

 

Aquele homem lá diz que as mulheres precisam de ajuda para subir nos coches, que precisam ser erguidas para passar sobre valetas e que sempre precisam ter os melhores lugares. Jamais alguém me ajudou a subir nos coches, a passar sobre uma poça de lama, ou me ofereceu o melhor lugar! E não sou eu uma mulher? Olhem para mim! Reparem nos meus braços! Trabalhei com o arado para plantar, levei os animais para as estrebarias, e nenhum homem pode mais do que eu. E não sou eu uma mulher? Trabalhei e comi tanto quanto um homem o pode fazer - isto é, quando havia o que comer - e também agüentei o chicote tão bem quanto eles! E não sou eu mulher? Tive treze filhos, e vi quase todos serem vendidos como escravos, e quando minha angústia de mãe me fez gritar apenas Jesus me ouviu, ninguém mais! E não sou eu mulher?

(Sojourner Truth, 1797-1833. Abolicionista, oradora, ativista pelos direitos das mulheres e dos afro-americanos, especialmente os escravos libertados e fugitivos. Nascida na escravidão, emancipou-se aos 30 anos de idade).2

 

1 Introdução: corpos femininos - da 'fragilidade' ao 'fitness'?

As palavras de Sojourner Truth falam poderosamente sobre uma época na qual o investimento histórico na 'fragilidade feminina' era muito claro. Demonstram também que na construção de noções de corporalidade feminina entrelaçavam-se relações de classe, raça e gênero. A 'verdadeira feminilidade' da meiga, gentil e fisicamente frágil mulher doméstica da cultura vitoriana, padrão hegemônico nas diversas sociedades ocidentais até o início do século XX, vinculava-se a um status social de elite, enquanto os diversos grupos de mulheres trabalhadoras careciam de qualquer oportunidade de proteção, ou de se poupar de trabalho físico duro. Mas, como modelo hegemônico da feminilidade, impunha-se com grande força, como norma que delimitava o campo das práticas femininas socialmente aceitas.

No Brasil, segundo a historiadora Maria Angela D'Incao,3 formas mais diretas de controle sobre o corpo e a sexualidade feminina, que imperavam na época colonial, iam gradualmente cedendo lugar ao nascimento de uma sensibilidade e uma ideologia da família características da cultura burguesa. No final do século XIX, essas novas formas de controle social se encontravam firmemente arraigadas, internalizadas pelas próprias mulheres, especialmente as da classe média e da elite, que se dedicavam em tempo integral aos afazeres domésticos, como mães e esposas, sendo muito limitadas em termos de outras oportunidades. Profissionais das áreas da medicina e da educação se juntavam à imprensa no esforço de 'educar as mulheres' como guardiãs do lar.

No contexto dessa cultura, a corporalidade feminina se definia em função da suposta missão das mulheres como reprodutoras. Se a elegância e a delicadeza eram 'atributos femininos' altamente valorizados, as práticas físicas permitidas se restringiam àquelas que se conciliavam com as idéias que prevaleciam sobre a natureza fraca do corpo e do sistema reprodutivo femininos. Houve um receio grande em relação ao exercício físico para as meninas, atitude que no final do século XIX começou a modificar-se timidamente, como pode ser observado na proposta de 1882 de Rui Barbosa, na qual as escolas primárias deveriam abrir "uma seção especial de ginástica [...], tendo em vista, em relação à mulher, a harmonia das formas femininas e as exigências da maternidade futura".4 No início do século XX, uma nova abordagem sobre o bem-estar físico das mulheres já permitia que algumas formas de atividade esportiva e exercício físico leves podessem ser consideradas benéficas para a saúde das 'futuras mães e esposas'. Mas, mesmo havendo uma clara prescrição sobre quais os esportes que se consideravam adequados às mulheres, estes deviam ser praticados só por mulheres jovens e solteiras, como foi no caso da natação:

A natação, na época, era um esporte cuja técnica não incluía desenvolvimento muscular, mas exercícios praticados em solo. Portanto, a despeito do pudor que impele a cobrir o corpo com roupas suficientes, trata-se de um esporte que se considerava que não masculiniza as mulheres. Ao mesmo tempo, esportes não eram [...] destinados ao corpo de mães ou de senhoras casadas, mas de senhoritas.5

No entanto, apareceram desde essa época algumas contradições, à medida que a noção da 'nova mulher' - ativa, independente e autônoma -6, que ganhava terreno nos EUA e na Europa, começava a influenciar a elite urbana brasileira, que mantinha fortes laços étnicos e culturais com a Europa.7 Artigos de jornal da primeira parte do século apresentavam relatos animados das aventuras de algumas mulheres esportistas que se distinguiam, entre outros aspectos, pela prática corporal diferente, que desafiava as normas da restrição e da delicadeza física femininas.

Como já sabemos, nas décadas que se seguiram, as mulheres brasileiras foram, paulatinamente, conquistando uma presença no 'mundo público', como trabalhadoras, profissionais, participantes de movimentos sociais e da vida fora de casa em geral. Ao mesmo tempo, concepções normatizadas sobre a feminilidade continuaram exercendo influência muito grande, contribuindo para a limitação da prática esportiva das mulheres. Como sugere a historiadora Carla Bassanezi em sua análise de revistas femininas do período 1945-1964,8 até o início dos anos 70, as formas hegemônicas de representação da "Mulher"9 enfatizavam ainda 'papéis tradicionais', quer dizer, a identificação das mulheres com a família, o casamento e a domesticidade,10 indo inclusive contra a corrente da paulatina abertura do espaço público (principalmente por meio do trabalho assalariado) para um crescente contingente de mulheres que precisava de ou desejava acesso maior ao mesmo.

Em concordância com essa análise, no âmbito da prática corporal prevaleciam as restrições; tanto é que de 1941 a 1975 vigorava o Decreto-Lei 3.199, que estabelecia as bases da organização dos esportes no Brasil e incluía um artigo que colocava que "às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições da sua natureza".11

Evidência da grande força normatizadora dos conceitos da feminilidade construída, como sugere Susan Brownmiller, como uma estética da limitação,12 são as grandes dificuldades que as mulheres tiveram, nesse século, na luta por um lugar no mundo esportivo.13 A historiadora canadense Helen Lenskyj documenta as lutas de mulheres canadenses e norte-americanas para conquistar seus direitos no mundo esportivo desde o começo do século, mostrando que isso foi um verdadeiro questionamento da ordem de gênero que atingia o sistema de subordinação feminina nas raízes. Nas palavras dela,

A habilidade esportiva dificilmente se compatibilizava com a subordinação feminina tradicional da sociedade patriarcal; de fato, o esporte oferecia a possibilidade de tornar igualitárias as relações entre os sexos. O esporte, ao minimizar as diferenças socialmente construídas entre os sexos, revelava o caráter tênue das bases biológicas de tais diferenças; portanto, constituía uma ameaça séria ao mito da fragilidade feminina.14

Na atualidade, o mundo esportivo tem, em parte, incorporado a luta das mulheres para se apropriarem de espaços existentes e/ou para criar novos. A literatura internacional sobre as mulheres e as relações de gênero no esporte assinalam tanto os avanços quanto os pontos de conflitos, antigos e novos. Por exemplo, os esportes continuam sendo avaliados em termos de gênero, incluindo tanto os que se tornaram 'unisex',15 quanto os que são vistos como potencialmente 'masculinizantes' para as mulheres. Segundo a historiadora norte-americana Mary Jo Festle, as mulheres atletas sempre tiveram de encarar o preconceito social de dois tipos: primeiro, que suas 'diferenças físicas' as faziam muito menos competentes para o esporte do que os homens, e, segundo, que a prática esportiva as masculinizava, tornando-as mulheres 'anormais' e/ou lésbicas.16 Portanto, ela argumenta, mulheres atletas profissionais são quase obrigadas a adotar uma postura apologética, tomando o cuidado necessário de mostrar para o público que sua prática no esporte não compromete sua feminilidade.

Isso não significa que os padrões ou 'visão hegemônica' sobre a corporalidade feminina não tenham se alterado. De fato, com a ruptura ou declínio da domesticidade feminina, o padrão da fragilidade começa a ceder terreno a um novo ideal, mais adequado à noção da 'mulher ativa' que começa a construir-se, como já mencionei, nas primeiras décadas do século XX. Por outro lado, a cultura de beleza feminina da nossa sociedade - que se vale do atual poder das imagens, de uma forma sem precedentes históricos - atualizou-se a partir da incorporação dessa noção da 'mulher ativa', elaborando novos padrões que desembocam na atual ênfase no fitness. O corpo feminino 'ideal' é magro e firme, embora não 'musculoso demais' - e requer muitas horas de trabalho, de investimentos em tempo e dinheiro que, com certeza, não estão à disposição de uma boa parcela da população feminina. Como sugere Deborah Lupton, a ênfase que a atual cultura consumista dá à produção do corpo ideal faz duvidar de que o que se esteja promovendo seja um corpo feminino forte e livre; embora o women's fitness movement possa significar, para algumas mulheres, uma tentativa de resistir ao tipo de discurso que "representa o corpo feminino como fraco e submisso". Poderia muito bem ser avaliado também como "mais um exemplo da forma como os corpos das mulheres são sujeitos aos discursos dominantes, comprometendo-se com tirania narcisista da magreza".17

A persistência de grande ambivalência em relação ao significado da atividade física e esportiva das mulheres sugere que esta seja um dos mais importantes espaços de conflito relativos à definição da corporalidade feminina na atualidade, com certeza vinculado àquele outro campo de conflito, o da sexualidade. Portanto, torna-se interessante procurar entender exatamente o que está em jogo quando as mulheres se tornam atletas e, especificamente, atletas profissionais, identificadas com o esporte não só pelo prazer de praticá-lo, mas como forma de ganhar a vida e, ainda mais, participar de uma cultura, anteriormente masculina, que torna o/a atleta um símbolo do sucesso e da cultura nacional. Cabe perguntar em que medida a participação esportiva contribui para uma re-significação da corporalidade feminina, sendo possível também que prevaleça uma apropriação da atividade esportiva que consegue enquadrá-la dentro de padrões de normatividade social que reproduzem o controle (masculino, ou masculinista) sobre os corpos das mulheres.

 

2 Corporalidade feminina e controle social: abordagens teóricas

Para a teoria social atual, desde Foucault e Elias, até a teoria feminista contemporânea, os corpos se fazem por meio das relações sociais. Embora haja um debate que atualmente divide os que mantêm um pensamento mais radical (o corpo como produto da discursividade) e uma perspectiva que defende uma materialidade do corpo "anterior ao discurso" ou como de certa forma um substrato da cultura, os trabalhos de autoras/es que escrevem a partir de ambas as posições contribuem para pensar a questão da construção dos corpos como femininos e masculinos, relação fundamental em uma ordem de poder - ou biopoder, como diria Foucault - de gênero.

Em sua teoria sobre a performatividade do gênero, Judith Butler enfatiza o caráter fluido das construções de identidades e corporalidades de gênero. Ela afirma que reconhecemos o corpo só enquanto corpo "generificado"; portanto torna-se essencial uma espécie de fenomenologia feminista, que nos permite entender a construção desses corpos por meio dos atos concretos e mundanos do cotidiano.18 Produzem-se corpos femininos (submissos?) e masculinos (poderosos?) em uma espécie de "repetição ritualizada", por meio da qual as normas sociais são reproduzidas e estabilizadas. Mas a mesma ênfase nos processos interacionais por meio dos quais 'fazemos gênero' coloca esses processos como possíveis espaços de transgressão das normas e re-significações:19 O gênero

se institui através da repetição estilizada dos atos [...] através da estilização do corpo [...] como a forma mundana em que gestos e movimentos do corpo, assim como vários tipos de encenações, constituem uma ilusão de um obediente self generificado [...] uma façanha performativa na qual o público social mundano - que inclui os atores mesmos - acaba acreditando e encenando de acordo com a crença. Se a base da identidade de gênero é a repetição estilizada dos atos através do tempo [...] então as possibilidades de transformação do gênero se encontram nas relações arbitrárias entre os atos, na possibilidade de outras formas de repetição, na quebra ou repetição subversiva desse estilo.20

Autoras como Susan Bordo21 e Sandra Bartky22 ampliam noções advindas do conceito de biopoder de Foucault. Bartky argumenta que a "modernização do poder patriarcal" se expressa especificamente na produção de corpos femininos dóceis e disciplinados, "...corpos mais dóceis que os corpos dos homens".23 Trata de um poder que está "em lugar nenhum e em todos os lugares", e mais baseado na auto-vigilância do que na coerção.24

Bordo examina detalhadamente os processos atuais da construção de corpos femininos, tanto no sentido de práticas corporais (regimes exaustivos de exercício, dieta, cirurgias cosméticas ligadas à fantasia do 'aperfeiçoamento' do corpo, segundo padrões estabelecidos de beleza, e preocupações - em proporções obsessivas - com a aparência, a moda, como ditado por uma indústria cultural que sustenta a cultura do narcisismo) quanto no sentido das imagens culturais nas quais tais práticas se apóiam. Um 'projeto do corpo' - que talvez seja o projeto da feminilidade (pós)moderna - torna-se preocupação central ou 'tormenta central' da vida de milhares de mulheres. Evidências da centralidade desse projeto vêm também do trabalho da historiadora norte-americana Joan Brumberg,25 que interpreta um século de diários de meninas adolescentes. Ela observa que as meninas de outras épocas escreviam principalmente sobre os desafios de amadurecimento do caráter; hoje em dia, a preocupação central gira em torno da apariência física e da apresentação do corpo para os outros. Para essas meninas, a auto-estima parece depender muito mais do tamanho do nariz, da cintura ou das pernas do que da maneira como desenvolvam capacidades de relacionamento com o mundo.

Segundo Bordo, a busca da feminilidade "é ainda apresentada como o caminho mais importante de aceitação e sucesso para as mulheres em nossa cultura".26 Essa feminilidade pode ser entendida como uma "estética da limitação", tanto no que se refere ao comportamento quanto à corporalidade femininos: "a feminilidade é produzida através da aceitação de restrições, da limitação da visão, da escolha de uma rota indireta"; é "uma estética forte que se constrói em cima do reconhecimento da falta do poder"; é uma estratégia de sobrevivência "baseada nas concessões [abertas]" e na "imposição de restrições".27

O corpo 'feminino' é padronizado em termos de tamanho (altura, corpulência, etc.), forma ('curvas', firmeza ou ausência de musculatura, etc.), postura e movimento. Tem, segundo Bartky, uma forma 'feminina' de estar no espaço que é de limitação: de deferência e diminuição, em lugar de expansividade. Nessa construção, o que está em jogo são as energias e os recursos do corpo feminino, uma verdadeira batalha política,28 em que, evidentemente, tem muito para ganhar ou perder. A cultura comercial atual parece jogar o tempo todo com esses recursos, precisando, para fins consumistas, de um certo equilíbrio entre uma postura mais 'ativa' (de desejo, ou 'apetite') e de negação desses elementos (pela exposição de corpos femininos magérrimos e em posturas 'passivas', quer dizer, de 'entrega' para o espectador).29

Nesse contexto, a recusa das mulheres à limitação pode talvez ser entendida como resistência. Queremos entender o que significa, para as mulheres atletas, a entrega à atividade esportiva, podendo representar uma espécie de empowered femininity, se for constatada como entrega a uma atividade autodeterminada, orientada para a realização de metas e prazeres, mesmo que esses transgridam normas relativas à feminilidade, no sentido de postura, movimento, atitudes 'agressivas' ou 'competitivas', etc. Existe, por outro lado, a possibilidade de a atividade esportiva feminina se adaptar à feminilidade normativa e à atual cultura do corpo, que subordina a capacidade à apariência e a autodeterminação à reprodução de padrões socialmente prezados.

 

3 Falas de atletas

Decidi estudar o que a prática esportiva significa para mulheres atletas, procurando descobrir como ou em que medida a atividade esportiva contribui para a subversão de práticas e representações da corporalidade feminina e, dessa forma, para a produção de novos e mais diversificados sentidos sobre o 'ser mulher'. Enfoco aqui as experiências de mulheres atletas profissionais,30 escolha feita pelo grau de investimento que elas têm no esporte, em termos de recursos, tempo e identidade. Analiso o que significa, para elas, ser atletas profissionais, dentro do contexto da cultura brasileira atual, e qual a relação da sua participação esportiva com as definições sobre aquilo que é normativamente 'feminino'. Trabalho com a hipótese de que a participação esportiva pode, em determinadas condições, tornar-se uma forma de resistência à feminilidade no sentido aqui usado, isto é, como uma estética e uma prática da limitação.

Fiz a opção por dois grupos de atletas, claramente diferenciados em termos do tipo de esporte ao qual se dedicam: por um lado, praticantes do hipismo clássico, um esporte de elite no qual homens e mulheres participam como concorrentes das mesmas competições; por outro, o vôlei, esporte 'popular' que de fato está se tornando um canal de mobilidade para algumas mulheres e, nas palavras de uma das entrevistadas, a "segunda grande paixão (esportiva) nacional".

Entrevistei cinco amazonas do hipismo clássico, todas residentes em Curitiba, participantes de competições profissionais de âmbito nacional e/ou internacional, e todas elas dedicadas profissionalmente ao mundo eqüestre.31 A oportunidade de entrevistar algumas jogadoras de vôlei da atual seleção nacional apresentou-se com a estada das mesmas na cidade de Curitiba no mês de junho do ano corrente; entrevistei também uma ex-jogadora da seleção brasileira, nesse momento com 39 anos, e que continua convivendo profissionalmente com o mundo do vôlei e do esporte nacional.

O contraste entre os dois 'mundos esportivos' aqui pesquisados é muito grande, permitindo inclusive identificar alguns fatores que afetam o conteúdo de gênero das atividades esportivas, como vemos nas próximas seções. O vôlei, esporte de alta visibilidade nacional, divide-se em ligas femininas e masculinas. Nos últimos tempos tem atraído alto investimento (público e privado) vinculado a tentativas de afirmar a cultura nacional e representá-la positivamente para o mundo. A Seleção Nacional Feminina tem se sobressaído muito, atraindo atenção e recursos renovados. O hipismo permanece mais restrito a uma elite, tanto na prática quanto no seu consumo (como 'espetáculo esportivo') e com algumas outras particularidades relevantes: apesar de seu vínculo histórico com o exército, vem facilitando, nas últimas décadas, uma grande ascensão feminina, sendo identificado, algumas vezes, como um esporte que "promove a igualdade entre os sexos".32

Considero também a questão da imagem das atletas na mídia impressa, pelo papel que essa mídia tem na produção de significados sobre o que é ser mulher, ou ser homem. A literatura internacional sobre as mulheres no esporte tem apontado a ausência relativa das atletas na mídia, o que se constata facilmente aqui mesmo com uma rápida olhada na seção esportiva dos jornais nacionais. Trabalho principalmente com a seção esportiva da Folha de S. Paulo, procurando identificar, no discurso e na iconografia, formas de representação da Mulher e das mulheres atletas.

Comecei as entrevistas pedindo que as atletas falassem sobre como se deu sua iniciação na atividade esportiva, e é desde esse primeiro momento que surgem contrastes interessantes entre os dois grupos de atletas. Todas as amazonas citaram um interesse próprio, desde pequenas, pelo cavalo e pela equitação, que despertou por meio de algum contato casual com o meio. Marcela, de 24 anos, e com experiência em competição internacional, começou a montar aos 11 anos: "Eu fui a primeira amazona na família. Foi por vontade mesmo, por gostar de bicho e gostar do esporte. Numa viagem para Fortaleza, assisti a um campeonato numa praça; aí eu fiquei pedindo, pedindo até a minha mãe me colocar." Adriana, veterinária e amazona, teve uma determinação tão grande que se envolveu no esporte contra a vontade dos pais: "Quando eu vi isso aqui [prova de salto na Sociedade Hípica Paranaense] eu fiquei maluca. Meu Deus do céu, que maravilha! Eu falei para meus pais que eu estava a fim de entrar na hípica para aprender a montar e eles disseram que não, que é muito perigoso, para menina não!".

Entre as jogadoras de vôlei as histórias variam. Duas das cinco falaram que chegaram ao esporte "por acaso". Mara,33 hoje com 26 anos, conta: "Eu, quando comecei, tinha 12 anos. Era só no colégio que eu treinava. Comecei a treinar porque tinha problemas de coluna e o médico indicou para eu fazer um esporte, natação ou vôlei. Então entrei na Escolinha por causa disso, não por paixão. Depois eu fui gostando... Se ninguém falasse 'vai treinar, vai treinar'... porque eu era alta aí ficavam o técnico do basquete e do vôlei me disputando... 'Eu não quero nada', eu falava. Eu comecei fazer por acaso. Não por livre e espontânea vontade. Foi o médico que falou". O depoimento da Carol, 19 anos, a mais nova jogadora da atual Seleção, é parecido: "Eu também comecei por acaso. Eu não fazia nada, só estudava, fazia alguns cursos de inglês, fazia dança, e meu pai falou que eu tinha que praticar algum esporte, alguma coisa, que eu estava muito à toa em casa à tarde. Eu falei: 'Eu não, não quero me envolver com esporte'. Ele falou: 'A senhorita vai entrar, sim'. E me levou num colégio que tinha aula, o amigo dele era professor... Fiquei uns seis meses e já fui para o Minas; ele me levou para o Minas porque eu era bem alta".

Outras duas jogadoras enfatizaram que sempre gostaram muito de esporte, começando como brincadeira de colégio. No caso delas, no entanto, o envolvimento mais sério também se deu em função de sua identificação como possíveis talentos, sobressaindo-se, principalmente, por causa da sua altura. Elisa, 20 anos, conta: "A gente estava sempre brincando de jogar vôlei e um clube me chamou para jogar, para fazer um teste, mas também era só brincadeira; eu não estava levando nada a sério. Eles gostaram de mim, falaram que eu era alta. Porque lá na minha cidade, todo mundo é baixinho".

A extraordinária altura aparece, no depoimento das quatro, como um fator crítico, como um estigma inicial - uma espécie de anomalia de feminilidade - que se concilia a partir da prática esportiva. Carol conta que ser uma mulher muito alta "tem uns probleminhas terríveis. Sempre era a última da fila na escola. Você passa em qualquer lugar e chama a atenção. No shopping center todo mundo sai das lojas para ver. É impressionante... E tudo mundo fala: 'Você não pode usar salto alto, você fica enorme. Como você vai arrumar namorado desse tamanho!". E Mara: "E eu ainda mais na minha cidade (do Nordeste). Todo mundo é baixo. Eu andava na rua, parecia atração turística. Todo mundo ficava olhando e falando: 'Nossa, você é muito grande!'. Eu pensava: 'Aí, meu Deus, preciso sair deste lugar'. Eu não aguentava mais!".

O mundo esportivo, para as amazonas, não é mais um 'mundo masculino'. Todas enfatizaram a grande participação das mulheres no meio dos esportes eqüestres, e todas se mostraram relativamente conscientes dos processos históricos de mudança - tanto na sociedade em geral quanto no mundo hípico34 - dos quais elas aparentemente se sentem beneficiárias e participantes. Quatro das cinco amazonas que entrevistei afirmaram não ter sentido nenhum tipo de obstáculo institucional (quer dizer, proveniente das instituições e organizações do hipismo) nas suas carreiras; a quinta disse, sem querer fornecer muitos detalhes: "Você (como mulher) tem que conquistar sua posição porque os mesmos preconceitos que existem na sociedade em geral existem aqui". De fato, desde os anos 1980, a Confederação Eqüestre Nacional e as federações locais realizam provas exclusivamente para amazonas, fenômeno que foi interpretado positivamente por minhas entrevistadas, como sinal do interesse das organizações esportivas em promover o avanço das mulheres no hipismo clássico. Mas o fato de manter um espaço separado para as mulheres competirem é uma questão complicada: cabe perguntar se isso não reforça noções de inferioridade feminina. Esse problema não passa despercebido pelas amazonas, pois duas das minhas entrevistadas enfatizaram que, embora elas mesmas participem todo ano dos grandes campeonatos femininos, as maiores amazonas do país todas elas do Rio de Janeiro e de São Paulo evitam participar. Como uma delas explica bem: "Acho bacana, acho legal [as competições para amazonas]... mas não que tenham uma função importante, pois nós participamos junto com eles [os cavaleiros] e ganhamos deles!" .

O preconceito estaria, segundo elas, mais arraigado na cultura do que nas instituições esportivas. São as famílias, as portadoras dessa cultura, agindo de forma a dificultar o avanço das meninas em um esporte que envolve risco físico considerável ("quem monta algum dia leva tombo": as quedas são parte do cotidiano do esporte). Marcela identificou como problema que, segundo ela, atrapalha a iniciação esportiva das meninas a atitude dos pais de segurá-las, ou de interferir no seu treinamento: "Às vezes a mãe chega para o professor: 'olha, a fulana não está muito bem hoje'. Então, o professor pega mais leve. Com o menino, geralmente, é o contrário. O pai já chega e fala: 'pode pegar pesado; puxe a orelha dele'... Então, é como se o professor já tivesse um consentimento para pegar mais no pé do menino que da menina". Helena comentou que os pais geralmente dão mais apoio às ambições competitivas dos meninos, considerando o interesse das filhas no esporte como mero hobby. Adriana citou, em um sentido parecido, um mecanismo que opera limitando a evolução das meninas como atletas: "As meninas começam a pular um metro e dez e aí uma de duas coisas acontecem: ou elas têm medo da altura e começam a não pular mais alto ou elas querem subir e aí o pai não aceita... É sempre um apoio maior para o menino, pois os pais acham que é um esporte um pouco mais violento e preferem que a menina vá dançar jazz ou ballet. Se os pais vêem a menina cair ou se machucar, já o pai começa a cortar. Se o menino tiver uma cicatriz na cara é uma coisa; agora a menina não, né?".

É interessante notar que todas as amazonas entrevistadas rejeitaram a tal tendência feminina ao medo; elas, nesse sentido, expressaram uma auto-imagem que as distinguem daquelas outras meninas e mulheres que sucumbiram ao medo; foram arrojadas desde pequenas, 'daquelas meninas mais malucas", como disse Andressa, ou, como Marcela enfatiza, simplesmente muito empolgadas, o suficientemente para aprender bem as técnicas e desconsiderar o risco.

Também minimizaram as alegações comuns sobre diferenças de estilos e habilidades entre amazonas e cavaleiros. Quer dizer, o hipismo, apesar de ser um esporte 'misto', não está isento de interpretações sobre o que é, dentro do esporte, mais 'masculino' ou 'feminino', repetindo-se muito a idéia de que as mulheres são mais docéis e meigas, mais interessadas no animal e menos na competição, mais sensíveis na forma de lidar e desenvolver uma 'comunicação' com o animal.35 Mas, entre as mulheres que entrevistei, prevaleceu a convicção de que as diferenças são mínimas, ou nulas. Para Helena, "não existe diferença nenhuma entre homens e mulheres em termos dos resultados que obtêm". Adriana fez uma distinção entre as mulheres que montam por prazer e aquelas que competem com seriedade, explicando: "Os homens podem ser mais agressivos, mas as mulheres que competem nos mais altos nívéis são igualmente competitivas: elas pensam no serviço que têm para fazer, não no carinho pelo bicho... Eu por exemplo não faço essas coisas violentas como agredir o cavalo, mas sou bastante competitiva; eu gosto do meu cavalo, mas ao mesmo tempo o uso para competir; eu quero competir, quero ganhar de todo mundo".

Segundo as amazonas, o grande obstáculo para as mulheres se profissionalizarem no esporte provém ainda da cultura brasileira da família, que incorpora a desigualdade de gênero. Mostrando ser muito críticas nesse sentido, todas reclamaram do sacrifício que é exigido das mulheres em nome da família, que se contrasta com o apoio familiar que o homem recebe como atleta. Marcela, que é solteira, comenta: "As brasileiras, chega uma hora que elas desviam um pouco do esporte, ou pela família ou pelos filhos ou pela profissão... fica muito complicado a conciliação de uma família e o esporte. É campeonato todo final de semana, são viagens... Você vê nos campeonatos os homens que estão competindo são casados com mulheres que não montam, mas elas estão todas ali na arquibancada com as crianças no restaurante. Em compensação, as mulheres ou elas são casadas com homens que também montam ou elas estão sozinhas, eles não acompanham; não existe mesmo um companheirismo, já ouvi tantas reclamações!". As duas amazonas casadas que entrevistei se consideraram "excepcionais" nesse sentido. Tânia, mãe de duas adolescentes, considera-se com sorte, pois as duas filhas compartilham sua paixão pelo hipismo, acompanhando-a diariamente desde pequenas, participando também dos treinos, aulas e campeonatos. Adriana acrescentou com orgulho que seu marido, embora não monte e seja de outra área profissional, é muitas vezes, nos campeonatos de amazonas, "o único marido sentado nas arquibancadas com a bandeirinha".

Essa postura contrasta fortemente com as atitudes expressas pelas jogadoras de vôlei. Várias das quais se empenharam em defender a 'feminilidade' da sua atividade esportiva, comparando-a com outros esportes praticados em equipe, como o basquete, o handebol e o futebol: "Nunca gostei de basquete. Para a mulher, acho que torna muito masculina. Se você comparar as jogadoras de basquete com as de vôlei, você vê a diferença no físico. Elas são mais troncudas; têm um jeito diferente - eu não gosto!". A mesma preocupação com a 'masculinização' do corpo da atleta foi repetida por outra jogadora: "O basquete é uma coisa muito masculina. Jogam com aquela bermudona e o corpo delas é mais quadradão... O vôlei já é uma coisa mais feminina. Tem mais atrativos do que o basquete. E isso muita gente fala: a gente vai lá, jogar com aquela sunguinha bonitinha, shortinho colado, chama a atenção!".

O desprezo pelos outros esportes, 'mais masculinos', e pelas atletas que os praticam leva a sugerir que utilizam essas comparações para sua autodefinição e para a construção da própria imagem. Duas delas enfatizaram que não gostariam que filhas suas chegassem a jogar esses esportes, citando o vôlei e a dança como atividades físicas muito mais adequadas. Também se compararam com as cubanas, suas históricas rivais, que também têm a fama de muito fortes, agressivas demais ("São umas tanajuras!"). As brasileiras, elas enfatizaram, "já são diferentes": valem-se da técnica mas, subentende-se, não abrem mão da sua feminilidade. O paradoxo, no entanto, emerge: as brasileiras tiveram de se sujeitar a um regime de treinamento puxado para poder, finalmente, vencer as cubanas: "A gente tinha aquela diferença muito grande comparando com as cubanas. O biotipo delas é muito forte... nós brasileiras éramos muito técnicas mas [sem] a força necessária para ganhar do time delas. Então começaram a fazer muita musculação para a gente ganhar mais força, pouca corrida... malhar todo o dia, fazer peso, para que todo mundo pudesse ficar forte para... ficar de igual para igual com elas... Eu acho que também para as cubanas é uma coisa natural já: elas não fazem essa musculação toda que a gente precisa fazer, já é delas mesmo".

Mostraram-se, ainda, preocupadas com sua imagem, enfatizando a "vaidade feminina" das mulheres da equipe, inclusive os convites que de vez em quando elas recebem para trabalhar como modelos. Há uma valorização do corpo forte e sadio, que deve ser relativamente musculoso e sempre feminino: "Se eu não jogasse vôlei, eu iria cuidar do meu corpo com certeza, malhar todo o dia. Acho bonito. Mas não gosto de uma coisa muito masculina; quem tem tendência a ganhar músculo muito fácil, acho que fica meio masculino. Quando você coloca uma blusa de manguinha é capaz de estourar a blusa Mas um corpo legal eu acho saudáve". A feminilidade parece realizar-se por meio dessa tão prezada vaidade. Elisa afirma: "A gente está jogando, não pode usar brinco, essas coisas. Mas quando a gente sai, passa um batom, coloca uma saia. Tem que ter essa vaidade, para se sentir mais mulher".

Evidencia-se, nesse discurso, que as jogadoras mesmas reproduzem os estereótipos da atleta, sentindo-se na obrigação de se defender contra o preconceito, mesmo quando negam a sua existência: "Eu acho que a gente é muito feminina. Às vezes, as pessoas acham atleta machão. A gente procura ser bem feminina, para ninguém 'encher o saco'. Por ser atleta, ter um corpo definido, todo mundo já [acha]... então procuramos aflorar mais o feminino. Não tem preconceito não, pelo contrário.

As jogadoras vêem a dedicação ao esporte como uma obrigação que não se concilia facilmente com o que algumas delas claramente identificam como "o desejo de toda mulher" de casar e ter filhos. Uma delas, ainda muito jovem, afirma que pretende jogar "só até os trinta e três anos", idade a partir da qual pretende retirar-se para uma vida "normal", dedicada à casa, marido e filhos. Quando perguntei sobre a ausência de mulheres no papel de técnicas e treinadoras, ela explicou da seguinte forma: "A maioria não se interessa mesmo. A mulher, é difícil encontrar alguma que fale 'Eu quero ser técnica'. Tudo mundo quer casar e ter filho, curtir sua vida. Você acha, a mulher vai parar de jogar vôlei e ficar aí na quadra ainda? Não há casamento que resista também a isso!".

Mas há exceções. Mencionaram várias vezes o exemplo de uma jogadora, mãe de quatro filhos e que continua jogando, mesmo com uma idade bem acima da média da atual Seleção. Outra jogadora, Larissa, 29 anos, e a única que discordou fortemente da desqualificação de outros esportes como "masculinizantes", expressou também uma visão diferente sobre o esporte como projeto de vida para as mulheres. A fala dela assemelhou-se mais à das amazonas, e todas elas criticaram as dificuldades que continuam sendo socialmente impostas para a conciliação de esporte e vida familiar. Larissa assinalou que, pelo "fato de ser atleta, você abre mão de muita coisa, principalmente a mulher. É diferente para o homem que é jogador: ele pode casar, ele pode ter o filho dele. E a gente não tem um tempo para programar: 'Quero ter um filho'. Se a gente quer dar continuidade, tem que ter um planejamento. Não dá assim: 'Ano que vem, quero ter um filho'. Ano que vem tem Olimpíada". Fala da sua própria trajetória, e da sua total dedicação ao esporte, que, segundo ela, até hoje foi total: "Desde o momento que eu optei por ser jogadora, eu abri mão de tudo. Quando eu comecei a representar o Brasil, para mim então foi o máximo, o orgulho para a minha família... Você pensa que milhões de brasileiros estão esperando para ver você jogar, que tem um monte de meninas que queriam estar no lugar que a gente está hoje... Acho que eu nunca sonhei em casar, uma coisa que nunca passou pela minha cabeça... Agora estou começando a pensar, mesmo porque eu estou com 29 anos, uma idade de organizar minha vida fora da parte profissional. Mas desde que não atrapalhe meus objetivos dentro do esporte".

 

Conclusões

A fala dessas atletas sugere algumas formas em que a prática esportiva se constrói como um campo de definição e redefinições de significados sobre o corpo feminino, a feminilidade, e o ser mulher. As diferenças encontradas nos discursos das amazonas e das jogadoras de vôlei, embora não possam ser consideradas representativas das atletas dessas categorias em geral (já que não implementei, para fins desta pesquisa, uma técnica particular de amostragem), sugerem que há contextos e fatores sociais que influenciam profundamente o modo como a prática esportiva feminina articula a significação e re-significação do 'masculino' e do 'feminino'.

Ressaltam-se diferenças significativas entre as jogadoras e as amazonas. Embora algumas dessas diferenças relacionam-se com questões de classe social, quero enfatizar também as especificidades institucionais e simbólicas de cada um desses campos esportivos. Em outro lugar,36 refleti sobre o envolvimento histórico das mulheres nos esportes eqüestres, observando que há na literatura e tradição cultural ocidental uma associação - às vezes quase mítica entre a mulher que cavalga - a amazona37 - e a liberdade feminina. As amazonas que eu entrevistei pareciam incorporar essa associação na visão de sua própria prática esportiva, o que foi ressaltado por várias delas em diversos momentos das suas narrativas, que contêm claras histórias de resistência: por exemplo, quando identificam sua iniciação no esporte com um profundo desejo próprio, ou quando se referem à oposição que elas ou outras mulheres enfrentaram, advindas de famílias que as buscavam proteger dos 'perigos do esporte'.

Se bem que a caraterística da equitação de 'esporte misto' - no qual mulheres e homens competem juntos - contribui para a construção de discursos igualitários, é importante ressaltar que nem sempre foi assim. Muito pelo contrário, tal situação representa o desfecho de um longo processo de lutas femininas para ocupar espaço nos esportes eqüestres, e representa também uma conquista específica da segunda metade do século XX.38 Com certeza, sendo a equitação um esporte de elite, as mulheres que o praticam - geralmente de camadas da sociedade muito privilegiadas - teriam certos recursos materiais e culturais que as mobilizam tanto para o acesso ao esporte em si quanto, em um sentido mais geral, para o acesso aos processos de negociação que permitem a ampliação das esferas sociais de participação e poder (empoderamento) femininos. Isso se verifica no caso das amazonas brasileiras que eu entrevistei, todas elas mulheres brancas e de famílias de classe média ou de elite, inseridas em um meio onde há expectativas (mesmo quando ambivalentes) de que as jovens se realizem através da educação, da profissionalização e do acesso aos recursos mais diversos da esfera pública. As oportunidades que tiveram, quando desde pequenas descobriram sua "paixão" pelo cavalo e pela equitação, surgiram em um contexto maior que era, em um certo sentido, muito mais de incentivos do que de limitações. Assim, seu envolvimento em um esporte de alto risco pode ser visto como um cenário onde os conflitos entre possibilidade e limitação produzam tensões interessantes, criando um terreno fértil para o desafio a noções de fragilidade ou inferioridade femininas. Por outro lado, como esporte que recebe relativamente pouca atenção do público e da mídia, as atletas desse esporte tampouco recebem muita 'cobertura'. Fora dos holofotes, sua 'feminilidade' não se torna uma questão que envolva a sensibilidade coletiva, como é o caso das jogadoras de vôlei. As amazonas parecem ter menos insegurança nesse sentido, e se dedicam à prática esportiva mais como um fim em si.

As jogadoras de vôlei, por seu lado, são muitas vezes mulheres negras e/ou oriundas das camadas populares. Entre as que eu entrevistei, a iniciação no esporte, não em poucos casos, deu-se em um contexto muito diferente das amazonas, de possibilidades mais limitadas de acesso à educação, ao estudo e à cultura. Prevalece, nos seus relatos, a visão de uma escolha feita em um contexto de relativa ausência de alternativas, o que facilitou que fatores como a altura física pudessem figurar como mais determinantes na iniciação esportiva do que uma vontade ou "paixão" própria. De fato, para elas se reproduz um fenômeno comum do cenário esportivo brasileiro: o esporte se torna uma grande oportunidade de ascensão social, mas o jogador ou a jogadora insere-se nele como 'mais uma peça' nesse complexo esportivo nacional e internacional que o sociólogo inglês Joseph Maguire denominou global sport media complex.39 Nesse contexto, a realização da pessoa como atleta necessariamente se subordina à reprodução dos valores dominantes - valores que dizem respeito a gênero, corpo, 'sucesso', 'nação', entre outros.

As jogadoras, portanto, permanecem muito mais presas do que as amazonas às ambigüidades e ambivalências sobre esporte e feminilidade que imperam na sociedade brasileira atual. Vemos por exemplo que hoje, embora não existam mais barreiras legais à participação das mulheres em determinados esportes, o sex-typing dos esportes é prática corrente, e alguns são representados como mais 'masculinos', mais 'femininos' ou mais 'unissex'. As jogadoras de vôlei que entrevistei desenvolvem toda uma estratégia defensiva de identificação com esportes 'masculinizantes' e com atletas mulheres que transitam nesses espaços comprometidos, como, eu sugiro, uma forma de fortalecer sua própria feminilidade. Parece, pois, uma forma de apresentação do 'sujeito feminino' que retrata precisamente o que Festle40 chama de "postura apologética" (a constante afirmação da feminilidade), que as mulheres atletas são quase obrigadas a adotar, pelo menos aquelas que sentem a necessidade de se manter dentro dos comportamentos normatizados. Mas isso também reflete o lugar que as jogadoras vêm ocupando dentro da cultura nacional na atualidade, através do que, me parece, de certa forma, elas têm se tornando repositórios de alguns valores ainda caros à sociedade brasileira, sobre o que é 'ser mulher' - precisamente aqueles valores vinculados à defesa da 'feminilidade ameaçada' pelos atuais processos de mudança nas relações de gênero.

Se voltarmos à questão teórica sobre os 'usos' dos corpos, parece que a situação das jogadoras as adapta bem à noção foucaultiana do corpo dócil, disciplinado, embora não seja um corpo feminino frágil. Como já coloquei, são jovens que desde a infância ou adolescência são incentivadas - pelo tipo de corpo que possuem - a se dedicar com seriedade ao esporte. Geralmente provenientes de famílias pobres ou trabalhadoras, elas tornam-se atletas com altos salários mais pouca autonomia, pressionadas, sujeitadas a regimes exaustivos de exercício e treinamento, controladas pelos técnicos, pela equipe (a organização esportiva) e também pelo que elas mesmas vieram a representar: a Mulher brasileira.41 Encarnam - e não sem orgulho - noções de glamour feminino atlético. E mostram que o fitness se concilia com a feminilidade como repositório da normatividade; quer dizer, reformulam certas idéias sobre o corpo feminino, suas formas e sua capacidade, alterando algumas fronteiras ou parâmetros (por exemplo, permitem-se uma 'força' e musculatura 'femininas'), mas sem se libertar de definições altamente normativas do masculino e do feminino, e sem abrir mão de todo um sistema de autovigilância que a manutenção da feminilidade exige.

Por outro lado, a maior (e relativa) liberdade das amazonas em relação aos constrangimentos normativos, assim como a ampliação em geral da participação e do reconhecimento das mulheres atletas profissionais, sugere que o esporte pode tornar-se um terreno de resistência, quer dizer, de re-significações do feminino que colocam as mulheres na posição de sujeito - onde elas mesmas definem outras formas de 'ser mulher'. Com certeza, a abertura do futebol e de outros esportes populares trazem avanços nesse sentido.

No entanto, um breve olhar sobre as formas de representação das atletas na mídia impressa indica que essas imagens culturais - com todo o poder que têm sobre o imaginário social atual - constituem um importante espaço de produção discursiva sobre a feminilidade, onde se expressa o mesmo tipo de contradições e ambigüidades presentes nos depoimentos das atletas. Já assinalei que durante muito tempo o esporte era uma esfera de atividade social dos e para os homens. Nesse contexto, o mesmo conceito de 'mulher atleta' carregava-se de um conteúdo de transgressão, e pode-se argumentar que as mulheres que se afirmavam como atletas - particularmente as profissionais - estavam contribuindo para a desestabilização das definições vigentes da feminilidade, e talvez mesmo para o 'empoderamento' das mulheres. Mas o que acontece hoje é que de certa forma a participação esportiva das mulheres ganhou legitimidade, e há uma grande produção sobre a atleta que se insere no cenário maior da produção discursiva midiática e na sua política 'disciplinar' de gênero. Lembro-me aqui do livro de fotografias de atletas homens e mulheres participantes das últimas Olimpíadas, disponível nas livrarias e aeroportos internacionais na época, que se dizia uma 'celebração' da beleza dos corpos dos atletas homens e mulheres e que entre outras coisas também exemplificava a tendência crescente à objetificação do corpo masculino. Como muitos pesquisadores atuais da sociologia do esporte vêm argumentando, cada vez mais a forma e o tamanho do corpo do atleta são tão importantes quanto seu desempenho esportivo; embora isso tenha um peso particular na produção da imagem feminina, trata-se da forma como o esporte, através do acima referido global sport media complex, participa da produção de conceitos sociais sobre quais os tipos de corpos masculinos e femininos que nossa cultura valoriza ou despreza. Assim, na definição social de quais os "corpos que contam" - which bodies count, como diria Judith Butler - incorporam-se mensagens conflitantes sobre gênero. Por um lado, afirma-se a capacidade da atleta e se representam corpos femininos 'fortes' e fisicamente competentes como 'desejáveis', criando-se paralelamente formas estetizadas de representar o corpo de atletas homens muito parecidas com as formas correntes de exposição do corpo das atletas. Por outro, persiste o recurso a noções profundamente estereotipadas e normatizadoras do que uma atleta 'pode' ou 'deve', que, com certeza, refletem as profundas ansiedades do nosso momento sobre o que é, "afinal de contas", uma mulher.42

 

Referências bibliográficas

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Recebido em agosto de 2002 e aceito para publicação em setembro de 2002

 

 

Copyright © 2003 by Revista Estudos Feministas.
1 Trabalho apresentado na XXIII Reunião Anual da ANPOCS, em Caxambu, MG, em outubro de 1999.
2 Fonte: Katy CONBOY, Nadia MEDINA e Sarah STANBURY, 1997, p. 231. Tradução livre.
3 D'INCAO, 1997.
4 Citado por Fúlvia ROSEMBERG, 1995, p. 280.
5 ROSEMBERG, 1995, p. 282.
6 Ver Nancy COTT, 1987, e Elaine SHOWALTER, 1993.
7 Cynthia RONCAGLIO, 1996.
8 BASSANEZI, 1996.
9 Resgato aqui a discussão que Teresa DE LAURETIS, 1984, faz de diferença entre "a Mulher" (uma produção discursiva, uma narrativa ou 'mito' masculinista) e as mulheres como sujeitos que não se reduzem aos termos de tal discurso. Ela enfatiza a importância de indagar sobre o que está em jogo nas noções culturais da feminilidade que uma sociedade produz: "to question the ways in which the relation between woman and women is set up,and to uncover'/discover/track down the epistemological models, the pressupositions and the implicit hierarchies of value that are at work in each discourse and each representation of woman" (p. 6).
10 Como BASSANEZI, 1996, explica, essas revistas se destinavam a um público leitor de mulheres de classe média urbana. Tratavam temas de interesse para esse grupo, cujos valores interpretavam, transformando suas inquietações, expectativas e ansiedades na produção de discursos com os quais essas mulheres poderiam se identificar. Com certeza, sua maior tarefa era traduzir os conflitos e mudanças nas relações de gênero e de classe da época em 'receitas de vida', o que significava ajudar as leitoras "a se enquadrarem no mundo em que [estavam], vivendo melhor neste mundo e exercendo 'corretamente' sua 'feminilidade'" (p. 16-17).
11 Regulamentado em 1965, por uma deliberação do Conselho Nacional dos Desportos, proibindo às mulheres a prática de qualquer tipo de luta, futebol de salão, de praia, pólo aquático, pólo, rugbi, halterofilismo e beisebol (ROSEMBERG, 1995, p. 284).
12 Citada por BORDO, 1997b, p. 133.
13 Discuto a relação dessas questões com a liberdade sexual na próxima seção.
14 LENSKYJ, 1986, p. 11. Tradução livre.da autora.
15 Quer dizer, muitos esportes não são mais vistos como 'masculinos'; tanto homens quanto mulheres podem competir nos âmbitos amador e profissional. No entanto, as competições esportivas nos níveis profissional e semipro-fissional continuam separando homens e mulheres, com pouquíssimas exceções (sendo os esportes eqüestres quase únicos nesse sentido).
16 FESTLE, 1996, p. 265.
17 LUPTON, 1995, p. 145. Tradução livre. Ela pergunta se o tal movimento seria "merely another example of the way that women's bodies are subjected to dominant discourses, pandering to the narcissistic 'tyranny of slenderness'; or is it expressing women's need to resist the stereotypical discourse that represents their bodies as weak and submissive?".
18 BUTLER, 1997.
19 Re-significação da corporalidade feminina: uso o termo no sentido da subversão de significados referentes a corpos femininos disciplinados, dóceis, ao serviço do sujeito masculino, etc.
20 BUTLER, 1997, p. 402. Tradução livre.da autora.
21 BORDO, 1997a.
22 BARTKY, 1997.
23 BARTKY, 1997, p. 132. Tradução livre.
24 Segundo BARTKY, 1997, "the absence of formally identifiable disciplinarians and of a public schedule of sanctions serves only to disguise the extent to which the imperative to be 'feminine' serves the interests of domination" (p. 143).
25 BRUMBERG, 1997.
26 BORDO, 1997a, p. 33.
27 BROWNMILLER, 1984, p. 15 e 19. Tradução livre.
28 BORDO, 1997a, p. 36.
29 Susan Bordo, em seu trabalho sobre a codificação do corpo feminino na cultura comercial atual, sugere que o corpo feminino magérrimo e passivamente exposto representa um "estar por cima" do desejo e das necessidades "materiais" de alimentação, sexo, etc.: "living without desire or longing of any kind" (BORDO, 1997b, p. 112). No mesmo texto, enfatiza o poder dessas imagens culturais, que, como ela afirma no título do artigo, "are never just pictures".
30 Algumas das amazonas entrevistadas talvez não entrassem na categoria de atletas profissionais, já que ganham a vida com atividades complementares; no entanto, dedicam-se inteiramente a atividades ligadas ao mundo eqüestre.
31 Duas delas têm dedicação exclusiva ao hipismo, complementando sua participação pessoal na competição com o treinamento de cavalos e caveleiros; uma combina a prática esportiva com estudos na área de medicina veterinária; outra, estudante de zootecnia, sustenta sua prática esportiva ministrando aulas de equitação; a quinta é veterinária formada que também gerencia a criação de cavalos de salto em um haras de propriedade familiar.
32 Essa observação tornou-se manchete de uma série de artigos publicados na Folha de S. Paulo, em 1995, enfocando a participação feminina nesse esporte. No entanto, como os mesmos artigos advertem, o Brasil, nesse sentido, 'corre atrás' de outros países, e na Europa e principalmente nos EUA as mulheres vêm predominando nas equipes nacionais (HIPISMO..., 1995).
33 Todas as jogadoras de vôlei aparecem no texto com pseudônimo, assim como algumas das amazonas, segundo a vontade que elas me manifestaram.
34 Para uma discussão sobre a história da participação feminina nos esportes eqüestres, ver Miriam ADELMAN, 1998a.
35 Essa foi a posição adotada, em entrevista à Folha de S. Paulo, por um dos grandes cavaleiros brasileiros atuais. Mas, polemizando no mesmo artigo, uma das maiores amazonas do momento contra-argumenta: "Já vi muitas amazonas brutas e que obtêm ótimos resultados. Como também há cavaleiros muito sensíveis. Essa sensibilidade varia de pessoa para pessoa, não depende do sexo" (HIPISMO..., 1995).
36 ADELMAN, 1998a.
37 Basta pensar aqui no significado desse termo adotado na língua portuguesa para se referir às mulheres que montam; traz a referência à mítica mulher guerreira que com sua atividade e atitudes desafia as convenções e limitações impostas às mulheres pelas culturas patriarcais.
38 Para uma breve discussão a respeito ver ADELMAN, 1998b. Para uma história mais detalhada, ver Jackie C. BURKE, 1997.
39 Conceito que vincula a produção global e local do esporte como espetáculo envolvendo os meios de comunicação na transmissão dos jogos, na publicidade e na propaganda de bens e serviços relacionados às organizações e instituições esportivas com as demandas esportivas que vão sendo produzidas, por exemplo de roupas e outros artigos de consumo popular que podem ser comercializados para uso no esporte ou utilizando a imagem do/a atleta, o marketing da imagem do/a atleta como 'herói', etc. (MAGUIRE, 1999).
40 FESTLE, 1996.
41 Entre as evidências que uso para argumentar sobre isso, encontram-se os próprios depoimentos delas em relação ao contato com o público e com a mídia, sua auto-apresentação (por exemplo, o contraste com as cubanas) e as formas com que a mídia impressa as apresenta.
42 Para um excelente tratamento da questão das "ansiedades de gênero" do nosso tempo, ver o livro de Lynne SEGAL, 1999.

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