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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.12 no.1 Florianópolis Jan./Apr. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2004000100003 

ARTIGOS

 

Engendrando desenvolvimento e etnicidade nas terras baixas do Pacífico colombiano

 

Ser y tener: engendering development and ethnicity in the Pacific lowlands of Colômbia

 

 

Kiran Asher

Clark University

Tradução de Ana Cecília Acioli
Revisão da tradução: Susana Bornéo Funck

 

 


RESUMO

Neste ensaio, exploro como as organizações e redes de mulheres afro-colombianas moldam e são moldadas por iniciativas do Estado para desenvolver e modernizar a região do Pacífico. Argumento que, agindo assim, elas mobilizam e vão além da retórica desenvolvimentista do Estado e do discurso de uma etnia negra 'gendrada' e da tradição das organizações políticas negras da região.

Palavras-chave: mulheres afro-colombianas, estratégias de desenvolvimento, políticas étnicas e de gênero.


ABSTRACT

In this paper I explore how Afro-Colombian women's organizations and networks shape and are shaped by state initiatives to develop and modernize the Pacific region. I argue that in doing so these mobilize and go beyond the developmentalist rhetoric of the state and the discourse of gendered black ethnicity and tradition of black political organizations in the region.

Key words: Afro-Colombian women, development strategies, gendered ethnicity in politics.


 

 

O Litoral Pacífico da Colômbia, ou a região Choco, é uma área rica em recursos naturais, que se estende do extremo sul do Panamá ao extremo norte do Equador, ao longo da costa do Pacífico. Em 1991, a Colômbia adotou uma nova Constituição que inclui leis e políticas com implicações contraditórias para a região do Pacífico e seus/suas habitantes. Por um lado, a Lei 70, de 1993, baseada no Artigo Provisório 55 da Constituição de 1991, reconhece os/as afro-colombianos/as (que compõem 90% da população da região) como um grupo étnico separado, com direitos a possuir terras coletivamente e utilizá-las dentro dos moldes tradicionais.1 Por outro lado, as reformas econômicas neoliberais esboçadas no 'Charter' de 1991 identificam áreas 'marginais', como as da região do Pacífico, para vários projetos de macrodesenvolvimento, com vistas a extrair seus recursos naturais e modernizá-las. Além disso, em consonância com os apelos da Constituição pela proteção do meio ambiente colombiano, as Terras Baixas do Pacífico, consideradas uma das áreas de mais rica biodiversidade do mundo, são o foco de extensivas medidas de preservação da biodiversidade.2

Desde o início dos anos 1990, o Estado colombiano tem lançado várias iniciativas de 'desenvolvimento sustentável', financiadas por instituições internacionais, visando a promover o crescimento econômico, preservar o meio ambiente e melhorar o padrão de vida local. Alegando sensibilidade às necessidades locais, o Estado solicita a participação das comunidades afro-colombianas nas suas intervenções. Dentro desse contexto, as mulheres afro-colombianas e suas organizações são os alvos centrais das iniciativas para o desenvolvimento da região. Ativistas negros/as alegam que esquemas de desenvolvimento baseados na lógica 'capitalista e externa' estão fora de sintonia com as práticas locais, e são incompatíveis com os direitos étnicos e territoriais prometidos para os/as afro-colombianos/as pela Lei 70. Esses/as ativistas defendem que as medidas estatais mais recentes para o desenvolvimento apropriam-se das lutas de gênero, étnicas e ambientais para servirem às suas agendas neoliberais. Conclamam, portanto, os/as afro-colombianos/as da região, inclusive as mulheres negras, para se engajarem nas lutas para preservar as práticas tradicionais e construir um "desenvolvimento culturalmente apropriado".

Neste ensaio, exploro como as organizações e redes de mulheres afro-colombianas são moldadas e moldam iniciativas de desenvolvimento regional assim como a dinâmica das lutas étnicas na região. Argumento que o ativismo das mulheres negras na região do Pacífico revela muito sobre desenvolvimento e etnia. Os esforços das mulheres negras podem ser vistos como sendo cooptados pelo Estado colombiano, usados como um veículo dos seus esquemas de modernização e diluindo, no processo, lutas mais amplas do movimento negro. Também podem ser lidos como construindo uma versão do desenvolvimento "culturalmente apropriado". Alternativamente, organizações e redes afro-colombianas podem ser compreendidas também como uma forma de as mulheres negras abordarem seus interesses através da participação tanto nas iniciativas desenvolvimentistas como nas lutas étnicas.

Este ensaio examina o ativismo das mulheres negras no contexto das mudanças políticas, econômicas e sócio-culturais mais amplas na região do Pacífico.3 Especificamente, mapeio como as afro-colombianas recorrem à linguagem e aos discursos do desenvolvimento apoiado pelo Estado e dos grupos negros para abordarem as suas próprias agendas, enquanto se constituem como sujeitos do desenvolvimento. Defendo que, agindo assim, elas se mobilizam e vão além da retórica desenvolvimentista do Estado e do discurso de uma etnia gendrada e da tradição dos movimentos sociais negros na região. Concluo discutindo como o ativismo das afro-colombianas complica a nossa compreensão de como operam as intervenções para o desenvolvimento. O ensaio mostra também como as subjetividades e o agenciamento das mulheres negras são moldados diferenciadamente, desigualmente e discursivamente pelas, e contra as, intervenções políticas e culturais na região.

 

Plan Pacífico: da "inércia do subdesenvolvimento" para o "desenvolvimento sem sujeitos"?

Um tráfico incessante de mercadorias e pessoas fluía ao longo do rio Atrato, em Quibdó (a capital do estado de Choco). Os prédios de gesso e cimento, delineando o malécon, rachavam e mofavam sob o intenso calor, com sua pintura, outrora brilhante, empolando e descascando na umidade do ar. Ao passar pelos vendedores, que compravam peças artesanais de ouro de mulheres e homens chocoanos, lembrei-me da vista aérea do rio Atrato enquanto voava para Quibdó. Contaminado com o mercúrio usado na mineração comercial, o rio Atrato parecia uma corda grossa e verde insinuando-se lentamente pela paisagem. Enquanto a mineração do ouro e de outros metais preciosos (juntamente com a extração da madeira e o comércio do marfim vegetal) tem sido a base da economia extrativa da região desde os tempos coloniais, a pesca, caça e a agropecuária são as principais atividades de subsistência das comunidades negras dos quatro estados do Litoral do Pacífico.

Refletindo sobre a situação da região durante uma visita a Quibdó nos anos 1980, Thomas Sanders, um ex-professor de Religião e membro do Universities Field Staff International, observou que "... o Choco continua a simbolizar um tipo de pobreza e de subdesenvolvimento em que cultura e raça têm influência".4 De acordo com Sanders, a região do Choco continuou a sofrer da mesma "inércia do subdesenvolvimento" que ele havia testemunhado durante sua primeira visita em 1970, apesar do aumento do preço do ouro no mundo. Para Sanders, o futuro da região residia no exercício do poder político e da responsabilidade econômica para desenvolver os ricos recursos naturais e humanos e melhorar o padrão de vida.5

Mais de uma década depois, um relatório feito pelo Departamento Nacional de Planejamento (DNP) reflete o diagnóstico de Sanders, observando que "a pobreza é a característica predominante do Pacífico".6 O relatório continua com uma ladainha dos fracassos do desenvolvimento - baixo padrão de vida, ausência de serviços básicos, altas taxas de analfabetismo, desnutrição, altas taxas de natalidade e de mortalidade infantil.7 As primeiras versões desses relatórios não fazem referência alguma a etnia ou gênero. Nem tampouco consideram as potenciais contribuições dos/as afro-colombianos/as ou das mulheres para o desenvolvimento da região. Ao invés, como Sanders, o DNP vê na riqueza em recursos naturais da região o potencial para desenvolvimento no futuro. Em 1992, depois de uma avaliação das condições e necessidades sociais, econômicas e ambientais do Choco, o Estado lançou o Plan Pacífico, uma iniciativa ambiciosa de "desenvolvimento sustentável" e modernização (financiada através de um empréstimo de US$ 73 milhões do Banco Mundial).8

O Plan Pacífico tem como objetivos:

1. dividir em zonas a região do Pacífico a fim de fazer um planejamento geral de atividades econômicas e ecológicas;

2. desenvolver a capacidade institucional do governo e alcançar a ordem territorial (ordenamiento);

3. melhorar a qualidade e o acesso a serviços básicos como assistência médica, educação, saneamento básico, eletrificação rural, telecomunicações e transporte;

4. elaborar práticas alternativas de produção a fim de promover o uso e a administração sustentável dos recursos naturais, e elaborar medidas para eliminar ou amenizar o impacto ambiental negativo da agroindústria extrativa e das operações da produção em larga escala.9

A nova retórica desenvolvimentista do Estado e das agências financiadoras multilaterais enfatiza a importância de envolver as comunidades locais, especialmente as mulheres, nos seus programas econômicos e sociais. Assim, os planejadores do Estado colocam que o Plan Pacífico vai tratar de questões sociais e ambientais e defender práticas culturais, solicitando a participação das comunidades locais, especialmente a das mulheres negras.

Os/as afro-colombianos/as envolvidos/as na interpretação e na implementação da Lei 70 (a Lei das Comunidades Negras) reagem de maneiras diferentes a essas intervenções apoiadas pelo Estado. Certos setores afro-colombianos, como os/as políticos/as negros/as aliados/as aos partidos políticos tradicionais da Colômbia, compartilham da visão do Plan Pacífico sobre a região do Pacífico e concordam com sua agenda.10 Em contraste, ativistas afro-colombianos, especialmente aqueles/as não coligados a uma política partidária formal, opõem-se a tais medidas modernizadoras. Janeth Rojas, uma feminista mestiça de Cali, com experiência em projetos de desenvolvimento a longo prazo na região do Pacífico, resume sucintamente as reações de muitos/as afro-colombianos/as:

Essa visão de desenvolvimento com respeito às comunidades negras baseia-se fundamentalmente em [a noção de] "ter" (TENER) mais do que na possibilidade de "ser" (SER). Com isso subentende-se que a melhoria de qualidade de vida é medida mais através da satisfação das necessidades básicas, melhores salários e aumento do consumo, do que do fortalecimento do direito de ser diferente.11

Talvez os mais notáveis críticos das iniciativas do Estado colombiano para o desenvolvimento sejam os membros de um grupo de intelectuais negros/as e ativistas que uniram forças coletivamente sob o nome de Processo de Comunidades Negras (PCN).12

Carlos Rosero, um antropólogo de Buenaventura e membro da liderança do PCN, rejeita a representação que o Estado faz da região e do seu povo como "marginal e pobre".13 Ele argumenta que o Plan Pacífico foi concebido nos escritórios de planejamento do governo e é uma forma de "desenvolvimento sem sujeitos", porque ignora as percepções, necessidades e agenciamento dos/as afro-colombianos/as.14 Rosero e outros/as citam como evidência o fato de que as primeiras versões do Plan Pacífico enfocavam primordialmente planos de macrodesenvolvimento e investimento a fim de promover a atividade econômica na região.15 Eles/as corretamente mencionam que as questões sócio-culturais e ecológicas foram introduzidas na agenda desse plano inicial após muito lobby de grupos étnicos e de ONGs ambientalistas.

Refletindo a respeito da onda anterior de desenvolvimento no Pacífico, os/as críticos/as observam como tais projetos - planejados na capital andina e incompatíveis com as realidades sócio-culturais da região - foram malsucedidos e fizeram surgir ondas de migração em direção a cidades do Pacífico e além.16 A população rural deslocada, inclusive um grande número de mulheres, foi incorporada à economia monetária como mão-de-obra barata na agroindústria e na cultura aquática, o que levou a um colapso dos sistemas de subsistência locais e, geralmente, deixou as comunidades mais empobrecidas que antes.17 Betty Ruth Lozano18 observa que a intensificação dos sistemas de acumulação de capital levou a uma duplicação ou triplicação da carga de trabalho das mulheres e reforçou a subordinação de gênero das mulheres negras, além das desigualdades de suas posições étnicas e de classe.

Libia Grueso, do PCN, que sempre trabalhou e continua trabalhando em várias agências estatais, argumenta que o Plan Pacífico é uma extensão de antigas estratégias para extrair recursos naturais, domesticar o 'capital humano' e inserir a região mais firmemente na economia de mercado.19 Os/as ativistas do PCN20 e outros/as21 afirmam que os planos do Estado para preservar a biodiversidade da região assume uma nova dimensão devido aos benefícios potenciais do desenvolvimento biotecnológico dos vastos recursos genéticos do Choco. Os/as ativistas do PCN expressam a sua oposição ao Plan Pacífico com base no fato de que a atenção dada a questões étnicas, ecológicas, culturais e de gênero (aspectos anteriormente considerados incompatíveis com a modernização capitalista) é uma forma de a dinâmica de lucro do capital globalizante se apropriar das lutas sociais e ecológicas e incorporar a 'diferença'.

Para os/as ativistas do PCN, o problema do 'desenvolvimento' é que planos desenvolvimentistas apoiados pelo Estado e a dinâmica institucional e mercadológica que se segue trazem "conflitos sobre os recursos, violência na busca de acesso a terras, políticas clientelistas, brigas por tijolo e cimento, a extinção de costumes ancestrais em prol do consumismo, a substituição de uma variedade de opções de vida por aquilo que apenas o dinheiro pode comprar, e a deterioração e contaminação do meio ambiente".22 Para o PCN, uma alternativa para o megadesenvolvimento capitalista e seus males reside nos sistemas locais de produção econômica e na luta dos/as negros/as para obterem os direitos prometidos pela Lei 70. Esses direitos incluem a afirmação da diferença étnica dos/as afro-colombianos/as, direitos territoriais legais coletivos para as comunidades negras e autonomia para desenvolverem estratégias políticas e econômicas "culturalmente apropriadas".23

Hernán Cortés, do Palenque de Comunidades Negras em Nariño, elabora a questão:

Entendemos que participar da vida econômica do país significa o direito de nos engajarmos e vivermos dentro de nossos próprios sistemas econômicos, e nos relacionarmos com o Estado a partir deles. Participar da vida política do país significa deixar claro para o Estado que temos nossa própria ordem. Participar da vida cultural do Estado significa termos a oportunidade de conhecer e desenvolver a nossa própria cultura.24

Um camponês afro-colombiano citado em Rojas articula essa preocupação em termos coloquiais:

Pra que serve água potável, eletricidade, escolas, clínicas, aeroportos, reservas florestais, grandes empresas e dinheiro se temos vergonha de sermos negros, se denunciamos nossas fazendas e vendemos nossas terras, se nos acanhamos de comer o que tiramos da floresta, ou as nossas comidas tradicionais, e se nos esquecemos de como fazer uma catanga [uma armadilha para lagostas], se abandonamos o território que tem sido a nossa vida, se todo esse desenvolvimento traz violência e pobreza? Nossa busca principal agora é pelo direito a "ser" [SER] sem negar a importância de "ter" [TENER] condições materiais para gozar a vida como camponeses dignos, aqui nos nossos rios.25

Em reuniões públicas, em negociações com o Estado, assim como em entrevistas e conversas, os/as ativistas do PCN chamam a atenção para as várias práticas de subsistência das comunidades negras - agricultura, pesca artesanal e caça, catação de mariscos, extração de vários produtos renováveis, como também extração de madeira e mineração em pequena escala. Observam que os/as afro-colombianos/as vivem na região desde o período colonial e desenvolveram esses sistemas de produção econômica ecologicamente sustentáveis baseados/as nas tradições africanas e ameríndias. Para os/as ativistas do PCN, são essas práticas 'ancestrais' e as relações sociais associadas a elas, baseadas no parentesco e nos laços de família, que representam o locus da etnia e da diferença dos negros, que devem ser o fulcro do "desenvolvimento culturalmente apropriado" na região. Leyla Arroyo, um outro membro ativo no PCN de Buenaventura, observa o seguinte:

Acredito que a identidade étnica está no centro do processo organizativo do povo negro. O reconhecimento das comunidades negras como um grupo étnico é uma de nossas maiores vitórias. Trabalhamos para que o nosso povo sinta orgulho de ser negro; reafirmamos quem nós somos, conquistamos auto-estima. [...] Acredito que podemos desenvolver uma visão de vida alternativa, um modelo econômico diferente, baseado nas nossas tradições, que seja justo e que inclua todos os aspectos da sociedade.26

Contudo, os/as afro-colombianos são marcados/as por muitas distinções regionais, ideológicas, de classe e de gênero. Dada essa heterogeneidade, os debates em torno do que significa ser 'negro/a' ou 'afro-colombiano/a' e o estágio incipiente das organizações negras em nível nacional, não existe uma visão comum ou politicamente viável de um "desenvolvimento culturalmente apropriado". Dentro deste contexto, os movimentos sociais de negros na região enfrentam o desafio de articular uma política negra coerente - que seja mais benéfica para a maioria das comunidades negras, mas que também leve em consideração as diferenças dentro destas. Essas diferenças incluem formas em que as 'tradições ancestrais', a identidade étnica, as práticas culturais e as intervenções desenvolvimentistas estejam implicadas umas nas outras, e em que estratégias políticas divergentes surjam dessas interações. Essas diferenças assumem uma importância particular no contexto das mudanças na região.

Na década de 1990, como resultado de novas iniciativas desenvolvimentistas na região e de esforços para implementar a Lei 70, houve um rápido crescimento de organizações populares, inclusive as redes de mulheres negras, em nível local e regional. As mulheres negras tornaram-se cada vez mais visíveis como líderes e participantes desses vários movimentos afro-colombianos, assim como de projetos apoiados pelo Estado. Durante meu trabalho de campo no Pacífico, procurei entender a crescente organização e ativismo das mulheres negras dentro do contexto das lutas pelos direitos étnicos dos negros e por desenvolvimento econômico.

 

Desenvolvimento e cooperativas de mulheres negras

Da janela do escritório da CoopMujeres, uma cooperativa na cidade de Guapi, no sudoeste do Pacífico, eu tinha uma vista nítida do rio que dava nome à cidade. No meio do rio, homens estavam construindo jangadas com longas toras de madeira (feitas manualmente, a machadadas e entrelaçadas com cipós) para serem vendidas rio abaixo. Na margem do rio, homens descarregavam bananas, cocos, laranjas, borojo, chontaduro e outras frutas tropicais, assim como peixes e moluscos de suas canoas. Perto, crianças tomavam banho e mulheres lavavam roupas e panelas na beira do rio. A praça principal da cidade, a uma quadra do rio e do hotel, estava repleta de comerciantes - na sua maioria, mulheres - vendendo produtos e peixes descarregados dos barcos, e também albahaca ou basílico e uma miríade de ervas medicinais trazidas de suas azoteas. Ao longo da praça, ficavam as lojas de produtos não-perecíveis, armazenados juntamente com os itens necessários para a vida nas áreas rurais e ribeirinhas do Pacífico: arroz, açúcar, botas de borracha, cordas, anzóis, gasolina, rum. Uma banca vendendo artesanato local, uma iniciativa do CoopMujeres, era a mais recente adição ao cenário.

Na sua visão geral da institucionalização do desenvolvimento na região do Pacífico, Álvaro Pedrosa27 observa que os primeiros planos de desenvolvimento para a região surgiram nas décadas de 1950 e 1960, durante o período de desenvolvimento do Terceiro Mundo pós-Segunda Guerra Mundial. Uma série de desastres naturais na região (inclusive um incêndio em Quibdó em 1966 e um maremoto em Tumaco em 1979) também abriram espaço para grandes projetos de reconstrução apoiados pelo Estado. Nas décadas seguintes, vários eventos, instituições e práticas - evangelização, concessões para florestamento, estudos para avaliar o potencial agroindustrial, desenvolvimento de culturas aquáticas, projetos para a construção de portos e canais - levaram o desenvolvimento e integração da região ao interior do país.28

No final da década de 1960, projetos de desenvolvimento como o PLADEICOP (Projeto de Desenvolvimento Integrado para o Pacífico Colombiano), do presidente Belisario Betancur, tinham as mulheres como alvos de projetos de bem-estar social, contra a pobreza e de saúde rural. Essas iniciativas continuaram na forma de programas de assistência como o El Plan de Hogares de Bienestar (Plano para Casas de Bem-Estar), que era parte do plano sócio-econômico do presidente Virgilio Barcos para a região do Pacífico.29 Programas do convênio entre a Corporación Autônoma Regional Del Valle Del Cauca e a Holanda introduziram novas tecnologias e técnicas para a intensificação da produção agrícola em pequena escala na região. Embora esses programas produtivos não visassem às mulheres, como Lozano e Rojas demonstram,30 eles incorporaram com sucesso as mulheres negras ao processo de desenvolvimento. Por exemplo, na região de Tumaco, no Pacífico Sul, mulheres, em grande número, foram empregadas em pequenas tarefas em fazendas de camarão e em plantações de palmeiras para a extração de óleo, e integradas ao setor agroindustrial. Em 1988, um PLADEICOP mais abrangente lançou um projeto direcionado às mulheres para facilitar a contribuição delas ao setor produtivo.31 Esses projetos de desenvolvimento correspondiam à tendência internacional das abordagens Mulheres-no-Desenvolvimento (Women-in-Development/WID), que defendia a necessidade de integrar as mulheres ao processo de desenvolvimento e demonstrava que, além da contribuição ao bem-estar da família, as mulheres são uma parte importante do setor econômico produtivo e devem ter acesso igual aos seus benefícios.32

Como a pequena descrição no início desta seção indica, as mulheres negras são uma parte ativa e visível da economia da região. Na década de 1980, mulheres padeiras, costureiras, peixeiras, vendedoras de frutas em Guapi e Tumaco formavam pequenos grupos em torno de suas atividades 'produtivas'. Na década de 1990, com verbas de instituições internacionais como a UNICEF, o PLADEICOP encorajou essas mulheres a montar cooperativas formais.33 Assim, a Cooperativa de Ahorro y Crédito de Mujeres Productivas de Guapi CoopMujeres foi formada com a ajuda do PLADEICOP em 1992. A Cooperatia de Ahorro y Crédito Ser Mujer foi formada de maneira semelhante no mesmo ano em Tumaco. De acordo com Nympha Aristesaval do Ser Mujer, 18 grupos de "padeiras, costureiras, mães comunitárias, vendedoras de peixe, moluscos e comidas de rua, produtoras de carvão e artesãs" uniram-se e formaram o JUNDEOMUT, Junta de Delegados de Mujeres de Tumaco, que se tornou o Ser Mujer, em 1993. Em Buenaventura, a Asociación de Organizaciones de Mujeres deBuenaventura apoiou ativamente as atividades produtivas das mulheres desde a sua criação em 1989.

O objetivo principal dessas cooperativas era o de formar grandes grupos consolidados para angariar um maior apoio institucional em termos de créditos e empréstimos, e aumentar o rendimento das mulheres através de uma melhor produção e comercialização de seus produtos artesanais e agrícolas. Apesar de a maioria dos membros ser afro-colombiana (dada a demografia da região), a associação às cooperativas não era restrita às mulheres negras. As mulheres das cooperativas receberam treinamento em administração de pequenas empresas, estabeleceram esquemas de crédito rotativo, a juros baixos, para as mulheres e grupos associados, e estabeleceram uma rede social, inclusive fundos de emergência para ajudar as mulheres nos períodos de crise doméstica mais graves. Entretanto, como Janeth Rojas observa,34 dentro das estruturas das cooperativas não havia espaço para discussões sobre questões como sexismo, violência doméstica e a discriminação étnica e racial, que fazia parte das experiências cotidianas das mulheres. Lozano35 observa que as cooperativas eram neutras no que dizia respeito a questões de gênero. Ou seja, de acordo com os objetivos das iniciativas de desenvolvimento mais amplas na região, financiamento, apoio e treinamento para membros das cooperativas eram direcionados a ajudá-las a tratar das suas necessidades materiais básicas, o que Rojas e outras chamam de a parte TENER de suas vidas.

Por volta de meados da década de 1990, os esforços das ONGs regionais e da burocracia estatal local haviam institucionalizado com sucesso as cooperativas de mulheres da região. Por exemplo, em 1995 Ser Mujer em Tumaco tinha 220 membros; e CoopMujeres em Guapi, 122 membros. A Associação das Organizações de Mulheres de Buenaventura, agora chamada de Fundación para el Desarollo de la Mujer de Buenaventura (FUNDEMUJER), era a maior das três cooperativas, consistindo de 25 grupos de mulheres, com um total de 800 membros. Com uma história organizacional e institucional estabelecida, as mulheres negras começaram a questionar, nas cooperativas, sobre suas identidades étnicas e de gênero, e procuraram ir além das atividades produtivas.36

Em abril de 1995, houve um encontro entre o CoopMujeres de Guapi com um novo programa para mulheres negras fundado pelo governo do Canadá e administrado pela Fundación FES, uma fundação privada colombiana. Os executores desse fundo colombiano-canadense encontraram-se com membros das cooperativas para discutir suas propostas e planos para os anos seguintes. No encontro, Sylveria Rodríguez, a diretora do CoopMujeres, disse que os membros queriam direcionar novos fundos para o treinamento técnico das mulheres. Além disso, ela e membros da cooperativa queriam realizar oficinas sobre mecanismos de participação política, cidadania, relações interpessoais e familiares. Quando perguntada a respeito de oficinas sobre os direitos das mulheres, a resposta de Sylveria Rodríguez foi:

Já conhecemos os nossos direitos; agora queremos aprender como obter nossos direitos; ensinar a outras pessoas sobre os nossos direitos. Precisamos educar os nossos homens sobre os direitos das mulheres. No ano passado, comemoramos o Dia dos Pais no Coop Mujeres. Este ano, estamos tentando fazer com que cada membro "conquiste" o seu parceiro e o traga para a oficina.

No ano anterior, uma oficina sobre cozinha regional foi realizada paralelamente à comemoração do Dia dos Pais. Tal evento combinou atividades produtivas (cozinhar) com o resgate de tradições culinárias locais e exibiu as atividades dos membros das cooperativas para os pais e esposos presentes.

No dia seguinte ao encontro, Cipriana Diuza, uma professora e membro recente do CoopMujeres, contou-me que se engajou na cooperativa porque era "organizada, fundamentada, e ajudava ativamente mulheres solteiras, mães solteiras, mulheres pobres e chefes de famílias". Mas confessou ter curiosidade a respeito de "toda essa confusão em torno de ser mulher negra". Ela sentia que "nós somos mulheres negras, alegres, mas ainda escravizadas, ainda temerosas. Ainda precisamos aprender a valorizar o nosso dialeto, a nossa religião, as nossas danças". Mulheres nas cooperativas de Buenaventura, Guapi e Tumaco expressaram sentimentos semelhantes. Elas queriam manter o enfoque nas atividades produtivas geradoras de renda, mas também queriam expandir os objetivos e aspirações coletivas dos grupos para incluir um enfoque nas "identidades das mulheres negras". Talvez tenha sido esse desejo - a necessidade de enfocar o 'ser' enquanto mulheres negras sem abandonar as atividades 'tener' - que levou as cooperativas em Guapi e Tumaco a se denominarem Cooperativas Multiactivas de Mujeres, ao invés de Cooperativas de Poupança e Empréstimos para Mulheres.

A exigência de transformações dentro das cooperativas de mulheres no Pacífico corria paralelamente a, e eram moldadas por, mudanças em como as questões sobre 'mulheres' e 'gênero' apareciam nos discursos de desenvolvimento mais abrangentes. Influenciadas em maior ou menor grau pelas feministas e por profissionais do desenvolvimento no norte e no sul, as perspectivas integracionistas do WID estavam dando espaço a abordagens de Gênero e Desenvolvimento (GAD). O último tinha como objetivo transformar as relações de gênero existentes e 'empoderar' as mulheres para que se tornassem tomadoras de decisões importantes no lar e na comunidade, trabalhando para abordarem suas necessidades práticas, cotidianas.37 Foi a estrutura do GAD que implicitamente informou o Programa para Mulheres Negras do Pacífico, que ajudou a fase seguinte das organizações de mulheres na região. Esse programa era dirigido por Janeth Rojas, que não apenas era familiarizada com essas cooperativas de mulheres como também estava envolvida nos movimentos étnico-culturais da região.

O Programa para Mulheres Negras forneceu apoio administrativo e financeiro para os encuentros de mulheres negras da região - em Buenaventura, em 1990, e em Guapi, em 1992 - para discutir os direitos dos/as afro-colombianos/as, de acordo com a AT 55 e a Lei 70. No encontro de Guapi, uma rede de organizações de mulheres negras - La Red de Mujeres Negras Del Pacífico - foi formada com vistas a

... estabelecer comunicação e solidariedade entre mulheres diferentes e organizações mistas, promover as organizações de mulheres através da educação e do empoderamento, a fim de fortalecer a identidade étnica, estudar as realidades e as necessidades das mulheres e conscientizá-las sobre a administração e o uso sustentável dos recursos naturais e do meio ambiente.38

Muitas das mulheres negras presentes no encontro de Guapi afirmaram que os programas promovidos pelo Estado não refletiam adequadamente suas necessidades, nem abordavam suas realidades.39 Portanto, membros da La Red de Mujeres Negras Del Pacífico decidiram que um princípio fundamental da rede era "criar organizações de mulheres autônomas que manifestassem e refletissem nosso desenvolvimento, interesses e identidade étnica e cultural".40 CoopMujeres, Ser Mujer e Fundemujer estavam entre as muitas organizações ligadas à Red.

 

Vendo através dos olhos das mulheres negras: as redes afro-colombianas

Teofila Betancur é uma guapireña e membro ativo da Red de Mujeres Negras. Durante uma conversa com ela em Cali, em 1995, ela me disse: "As mulheres negras ajudaram a Lei 70 a partir da sua condição de mulher (ser mujer). Contudo, elas têm pouca ou nenhuma participação pública ou política enquanto mulheres negras. Isso também é verdade nas cooperativas de mulheres negras. As mulheres negras são discriminadas triplamente - enquanto pobres, enquanto mulheres e enquanto negras. Isso as leva a se subvalorizar. As mulheres negras na costa assim como nas cidades estão alisando, pintando ou fazendo permanentes em seus cabelos para ficarem 'brancas' e adotam hábitos da alta sociedade colombiana em uma tentativa de conseguir aceitação social. Isso representa uma perda de valores e de beleza. Então, membros da Rede organizaram oficinas de cabelos e concursos de penteados entre as mulheres negras de Guapi. Agora, mais de metade das guapireñas usam trancinhas, tranças e outros penteados afro-colombianos tradicionais. Precisamos trabalhar a partir da 'cabeça' para recuperar nossa identidade externa como mulheres negras, para refletirmos a respeito e afirmarmo-nos como negras".41

Teofila Betancur e suas companheiras acreditam que o enfoque nas identidades e na auto-estima das mulheres negras representa um verdadeiro primeiro passo em direção aos objetivos mais amplos da Red de trabalhar para a melhoria das mulheres negras e suas comunidades.42 Quando encontrei Teofila novamente em 1999, ela me disse que a seção da Rede em Guapi agora incluía 74 grupos locais, ribeirinhos e regionais de mulheres, no estado de Cauca. Cada grupo está envolvido em vários tipos de atividades, inclusive projetos 'produtivos' como o cultivo e a recuperação de grãos alimentícios e plantas medicinais nativas, assim como projetos de 'conservação' com foco nas práticas agrícolas e silvícolas para conservar o meio ambiente e a biodiversidade.43 De acordo com Teofila, as diversas atividades e projetos empreendidos por grupos dentro da Rede surgem de "suas necessidades, percepções e experiências como mulheres negras, e representam a sua força coletiva". Para simbolizar essa força, a Rede de Guapi adotou o nome Red de Organizaciones Femeninas del Pacífico Caucano Matamba y Guasá: Fuerza y Convocatoria de la Mujer del Pacífico Caucano, em que Matamba é o nome de uma vinha muito forte e Guasá, o nome de um instrumento musical tradicionalmente tocado por mulheres.

Apesar de as organizações e o ativismo de mulheres negras terem uma história institucional diferente no estado de Choco, no noroeste, a Red de Mujeres Chocoanas está também tentando concentrar sua atenção nas necessidades materiais imediatas, assim como nos muitos interesses a longo prazo das afro-colombianas.44 Em 8 de março de 1995, a Red de Mujeres Chocoanas organizou uma comemoração em Quibdó que coincidisse com o Dia Internacional da Mulher. Durante uma oficina sobre "Mulheres: igualdade e desenvolvimento", uma das participantes escreveu:

O termo "desenvolvimento" traz visões de progresso, casas de cimento, água corrente, eletricidade, mas e desenvolvimento como igualdade para as mulheres? Na nossa família, no nosso município, se não tivermos igualdade para as mulheres, então, não pode haver desenvolvimento.

Durante o resto da oficina, o diversificado grupo de mulheres rurais e urbanas refletiu sobre questões de desigualdade, violência doméstica, opressão sexual, discriminação racial, a ausência de mulheres negras em cargos públicos, e outras experiências que as afetam enquanto mulheres de Choco. No dia seguinte, durante uma marcha pela cidade de Quibdó, as faixas das muitas associações de mulheres organizadas sob os auspícios da Rede refletiam as suas preocupações cotidianas. Enquanto muitas enfocavam o 'desenvolvimento', assim como suas práticas e identidades étnicas, culturais e de gênero, as faixas carregadas pelas mulheres da OBAPO (Organización de Barrios Populares de Quibdó), um grupo ativista negro, abordava os direitos legais e constitucionais das mulheres e dos grupos étnicos.45

Mercedes Segura e suas compañeras no Fundemujer recordaram as experiências no encontro de 1990, realizado em Buenaventura. Elas observaram que o encontro abriu espaço para as mulheres negras refletirem sobre a forma como percebiam suas identidades étnicas e de gênero, para perguntarem sobre os seus direitos à terra, e para discutirem estratégias de como reivindicar esses direitos. Depois de uma ligeira pausa, Mercedez continuou: "e então tivemos que discutir as formas de lidar com o nosso inimigo número um, o amigo-homem". Explicando melhor sua afirmação enigmática, Mercedes disse que o "inimigo número um, o amigo-homem" tratava-se de uma alusão não apenas aos homens em casa, como também aos homens inseridos nas lutas mais amplas dos/as negro/as na região. Os membros do Fundemujer afirmam:

Queremos ver as lutas étnico-políticas com os olhos de mulheres negras. Mas o PCN não quer as duas lutas juntas. A opinião deles é que a luta de gênero enfraquece a luta étnica.46

Apontando exemplos das muitas mulheres negras que estavam envolvidas no processo de mobilização para a ratificação da AT 55, membros do Fundemujer ecoaram a observação de Teofila de que as mulheres negras e suas organizações desempenharam um papel crucial na luta pela Lei 70. Mercedes, Patrícia, Dora e Myrna observaram também que as mulheres negras ofereceram um apoio logístico importante (cozinhando para o encontro, administrando o escritório, controlando as finanças) dentro do PCN. No entanto, como Teofila, elas sentiram que os membros do PCN não reconheceram nem valorizaram o trabalho e a importância das mulheres negras enquanto mulheres.47 De acordo com elas, até as mulheres que têm um papel importante no PCN não possuem uma "consciência de gênero". Patricia Moreno continua:

Armando [do PCN] disse que eles tinham medo que nós falássemos sobre gênero e esquecêssemos a luta étnica. Eles acham que questões de gênero vindas do "interior" [referindo-se às capitais andinas da região e do país] irão diluir a luta étnica. Isso os apavora. Eles acreditam que nós não sentimos a nossa própria opressão. São as forças externas que nos "pesquisam". Como se não sentíssemos nossa subordinação sexual e física!

Os ativistas do PCN contestam tal caracterização de seu posicionamento em relação às mulheres e às questões de gênero. Eles enfatizam que não apenas reconhecem o papel central desempenhado pelas mulheres negras na vida social, cultural e política do Pacífico, como também admitem a necessidade de se abordar questões de gênero dentro do PCN.48 Entretanto, reiteram seu posicionamento firme em relação às intervenções do Estado na região, inclusive "a nova política de gênero". Os membros do PCN afirmam que as relações de gênero são relações sociais fundamentais, e que a dinâmica entre homens e mulheres negras são mais bem abordadas através de lutas para se conquistar direitos étnicos e não através de programas estatais direcionados às mulheres. A posição do PCN é a de que as organizações e redes de mulheres negras funcionando de maneira independente dos movimentos étnicos mais amplos da região terminariam sendo cooptadas pelo Estado e outras entidades sob o disfarce de uma "nova política de gênero".

Diferentemente, os membros da Red de Mujeres Negras querem trabalhar para resolver suas questões étnicas e de gênero, coletivamente enquanto mulheres negras, mas organizacionalmente independentes de qualquer coalizão com o PCN. Patricia Moreno, do Fundemujer, explica:

Não queremos nos perder nessa confusão geral sobre o Pacífico. Queremos aprender com as lutas das mulheres mestiças e com as lutas dos/as negro/as. Não queremos militar contra ninguém, nem queremos ser apropriadas.

Das conversas e interações com membros da Red e do PCN, fica evidente que ambos os lados concordam com a necessidade de um "desenvolvimento culturalmente apropriado" para as comunidades negras. De fato, trata-se de um sentimento compartilhado por muitos/as afro-colombianos/as dentro e fora dos grupos organizados. Contudo, as duas coalizões discordam sobre como trabalhar em direção a esse desenvolvimento. Eles/elas também têm percepções divergentes das necessidades das mulheres negras e das lutas de gênero. Como conseqüência dessas diferenças, os dois lados também não chegam a um acordo sobre como se engajar nas iniciativas desenvolvimentistas do Estado para a região.

Os ativistas do PCN insistem em manter distância das intervenções desenvolvimentistas, alegando que tal autonomia é imperativa para que se possam construir modelos econômicos alternativos, baseados em práticas tradicionais dos/as negros/as. Por outro lado, as mulheres da Rede participam de iniciativas estatais para se engajarem em projetos que atendam suas "necessidades práticas e materiais" e defendam as tradições afro-colombianas. Afirmando a primazia da etnia, a Red de Mujeres Negras exige que os programas de desenvolvimento apoiados pelo Estado ampliem seus mandatos para tratarem de seus interesses enquanto mulheres e enquanto negras. Elas invocam simultaneamente suas experiências e percepções enquanto mulheres negras para tratarem de seus interesses independentemente das lutas para implementar a Lei 70. A linguagem e os termos utilizados pelas redes de mulheres negras revelam a influência da retórica do desenvolvimento e de gênero, assim como das lutas políticas negras por direitos étnicos.

Conseqüentemente, a organização das mulheres negras poderia ser desconsiderada como um outro exemplo de institucionalização ou apropriação pelo Estado de recursos materiais e culturais das lutas locais. Ou poderia ser louvada como um exemplo da sua capacidade de agenciamento e de ativismo, baseada nas suas identidades étnicas e de gênero, para contestar as forças hegemônicas do desenvolvimento apoiado pelo Estado. Abaixo, ofereço uma leitura diferente do ativismo das mulheres negras. Argumento que as subjetividades e atividades das mulheres negras são moldadas através e contra as intervenções políticas e culturais na região.

 

Através de ser y tener: constituindo etnia, gênero e desenvolvimento no Pacífico

Ponderando sobre uma política de desenvolvimento para e por mulheres no Pacífico colombiano, Maria Del Rosario Minaescreve:

Temos um interesse básico: trabalhar conjuntamente entre nós mesmas e com outras para propor uma política de desenvolvimento para as mulheres afrodescendentes da região do Pacífico que corresponda à nossa existência básica (SER), a partir da qual seja possível identificar as condições e necessidades materiais e sociais (TENER) que garantam essa existência.49

Para Mina, um enfoque nas necessidades materiais não se choca com a recuperação e o orgulho da identidade. Pelo contrário, na sua formulação da "política de desenvolvimento para mulheres negras do Pacífico", 'ser' (existir) e 'tener' (ter as necessidades que garantam essa existência) estão dialeticamente ligados. Para as mulheres negras do Pacífico, participar dos projetos de modernização do Estado não significa apenas abandonar suas identidades e tradições para conquistar aquilo que o desenvolvimento promete. Pelo contrário, para as mulheres negras, engajar-se no desenvolvimento significa engajar-se na luta pelo poder de definir o que se entende por 'necessidades' e de criar meios de atendê-las. Isso requer que as mulheres se engajem estrategicamente com o poder estatal e com suas intervenções desenvolvimentistas, assim como com as lutas étnicas. Também requer que recorram ao seu conhecimento das práticas tradicionais e culturais de sobrevivência no Pacífico. Minha discussão sobre o ativismo das mulheres afro-colombianas refere-se a pelo menos duas questões sobre o debate em torno do desenvolvimento: primeiro, as lutas dos grupos locais contra o Estado e a modernização; e, segundo, os problemas do ativismo político e 'agenciamento' das mulheres do Terceiro Mundo.50

A década de 1980 presenciou muitos países latino-americanos enfrentando graves crises financeiras, tumultos políticos e levantes sociais. Estudiosos/as dos novos movimentos sociais (NMSs) na América Latina afirmam que coalizões pouco organizadas de trabalhadores/as de fábricas, camponeses/as, mulheres e grupos étnicos surgiram de protestos espontâneos contra o Estado e forças do capitalismo tardio.51 De acordo com tais estudos, esses atores populares tão heterogêneos não buscam inclusão nem participação nas estruturas econômicas e políticas existentes. Ao contrário, esses novos movimentos sociais baseiam-se nos idiomas locais da cultura popular ou da tradição para resistir às forças homogeneizantes de modernização do Estado, pedem espaços autônomos para afirmarem múltiplas identidades sociais e imaginam modelos econômicos e políticos alternativos inspirados nos conhecimentos locais.52 São essas perspectivas que informam o estudo de Escobar e Pedrosa da "antropologia da modernidade" e dos movimentos sociais afro-colombianos da região do Pacífico.53 Eles chamam a atenção para a necessidade de se estudar os modelos tradicionais da vida cultural e econômica tais como os das comunidades afro-colombianas. Defendem que tais conhecimentos 'híbridos', baseados na cultura local e em novas tecnologias, criarão alternativas para a modernização capitalista.

Enquanto me mantenho crítica em relação às promessas de modernização do Estado e à globalização, sugiro que as abordagens dos NMSs subestimam o grau em que 'desenvolvimento' e práticas 'tradicionais' estão dialeticamente relacionadas.54 Mesmo a noção dos NMSs de modelos híbridos de resistência não questiona o direcionamento teleológico das práticas desenvolvimentistas. Isso implica que as comunidades locais incorporam ou adaptam tecnologias 'modernas', enquanto deixam intactos os aparatos da modernização.55 Tal posição nos diz pouco sobre como práticas desenvolvimentistas podem ser transformadas através de aplicações em diferentes locais e através da história. Como Akhil Gupta observa,

... é importante manter a tensão entre o poder universalizante e globalizante do desenvolvimento e suas controversas e questionáveis adaptações em locais histórica e culturalmente específicos.56

Nas suas análises críticas das teorias liberais e suas reformulações dos movimentos sociais marxistas ocidentais, Lisa Lowe e David Lloyd deixam de lado a temporalidade quando sugerem que "antagonismos da modernidade" surgem em múltiplas localidades e emergem "simultaneamente à, e em relação à, própria modernização".57 Ou seja, a regulação do Estado e a intrusão capitalista produzem, e tornam-se, locais de contradição e objetos de contestação no momento de suas intervenções. Da mesma forma, Michael Watts58 situa as alternativas para o desenvolvimento e as literaturas dos NMSs histórica e analiticamente, a fim de argumentar que o desenvolvimento e os movimentos contra ele estão implicados uns nos outros. Afirma que as buscas que vemos hoje por alternativas às forças destrutivas do capitalismo precisam começar a examinar como o moderno e o não-moderno produzem um ao outro em inúmeros locais.

Minha discussão do ativismo das mulheres negras no Pacífico mostra que gênero desempenha um papel crucial nessa produção e contestação do desenvolvimento. Enquanto os primeiros estudos acerca de gênero e desenvolvimento retratavam as mulheres como vítimas e recipientes passivas das políticas de bem-estar social, estudos feministas recentes revelam a multiplicidade de localidades e de questões em torno das quais uma diversidade de mulheres age.59 Feministas pós-coloniais como Chandra Mohanty, Aihwa Ong e Gayatri Spivak60 elucidam como estruturas do capitalismo, discursos de desenvolvimento e de gênero, patriarcados locais e noções de cultura constituem as subjetividades das mulheres de maneiras específicas e são utilizados para reforçar certos significados e práticas, e para evitar outros. Essas feministas chamam a atenção para a natureza dinâmica e oposicional da dominação e da resistência das mulheres dentro de relações desiguais de poder. Por exemplo, em Women Workers and Capitalist Scripts, Mohanty61 enfoca não apenas a exploração de mulheres trabalhadoras do Terceiro Mundo pela atual expansão capitalista, com também "seu agenciamento enquanto trabalhadoras, em nome dos interesses comuns das mulheres trabalhadoras, baseado na compreensão de localidades e necessidades compartilhadas, e nas estratégias/práticas de organização que estão ancoradas na, e levam à, transformação das vidas cotidianas das mulheres trabalhadoras".62 Similarmente, no seu estudo sobre as operárias de fábricas na Malásia, Ong63 discute como essas mulheres camponesas que se tornaram assalariadas são moldadas pelas, e resistem às, relações industriais capitalistas.

O exemplo das cooperativas de mulheres negras e da Red de Mujeres Negras destaca como as subjetividades e as organizações afro-colombianas são moldadas pela linguagem e pelas práticas de instituições para o desenvolvimento e suas políticas de gênero atuais. Por sua vez, as mulheres negras utilizam-se dos termos e recursos das iniciativas desenvolvimentistas e dos discursos culturais predominantes na região para abordar as suas necessidades e subverter as agendas tanto do Estado como das lutas étnicas. Através dessa constituição mútua, elas ajudam a institucionalizar as intervenções do Estado e, simultaneamente, a romper as operações desenvolvimentistas, canalizando os recursos e discursos estatais para tratar de suas necessidades étnicas e de gênero. As mulheres negras da região do Pacífico estabelecem uma ligação retórica e prática entre o seu ser e tener para falar de suas experiências, analisá-las e propor formas de superar sua marginalidade sócio-cultural, econômica e política. Mesmo constituídas como sujeitos do desenvolvimento na agenda política e econômica do Estado, as afro-colombianas estão recuperando suas vozes e se estabelecendo enquanto agentes ativas da história social.

 

Notas

1 A nova Constituição também inclui direitos étnicos e territoriais extensos a comunidades indígenas. Ver COAMA, 1994-1995; Christian GROS, 1991; Robert DOVER e Joanne RAPPAPORT, 1996; e Enrique SÁNCHEZ et al., 1993, para uma discussão de como os povos indígenas se engajam nessas mudanças.

2 Ver Kiran ASHER, 2000; e Arturo ESCOBAR, 1997, para discussões detalhadas sobre a inter-relação de questões econômicas e ambientais e de como elas afetam os/as habitantes da região.

3 Este ensaio se fundamenta em 16 meses de trabalho etnográfico de campo na região do Pacífico conduzido em 1993, 1994, 1995, 1997 e 1999. Meu engajamento inicial com as organizações de mulheres negras foi baseado no meu desejo de entender como a etnia e a auto-identidade negra estavam sendo concebidas dentro das cooperativas de mulheres negras, assim como no meu desejo de descobrir até que ponto mulheres negras organizadas estavam envolvidas com a Lei 70 e o PCN. Estava interessada também em avaliar como as mulheres viam suas atividades dentro do contexto das transformações sócio-políticas na região. Contudo, durante o curso de diversos encontros, conversas e observação participativa, consegui desenvolver uma visão muito mais ampla do ativismo das mulheres negras e, na verdade, das lutas políticas e étnicas da região.

4 SANDERS, 1982, p. 1.

5 SANDERS, 1982, p. 3.

6 DNP, 1995, p. 2.

7 De fato, tal percepção da região e de seu povo ainda circula. Por exemplo, em um Fórum Internacional de Políticas sobre "Etnia, Política, e Direitos à Terra: Coletivo das Comunidades Afro-Latinas na Costa do Pacífico da Colômbia", em 19 de fevereiro de 2002, palestrantes do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento caracterizaram a região em termos do seu "extremo isolamento" e seu povo como "pobre e analfabeto".

8 Em 1994, o Banco Mundial aprovou um empréstimo de US$ 39 milhões como parte da primeira fase de um projeto agrícola de prevenção à degradação da terra na região para lançar um programa de administração dos recursos naturais. No mesmo ano, o Banco Interamericano de Desenvolvimento aprovou um empréstimo de US$ 140 milhões para um projeto de modernização agrícola para ser executado pelo INCORA, o instituto colombiano de incentivo agrícola.

9 DNP, 1994 e 1995.

10 William VILLA, 1995.

11 Janeth ROJAS, 1994, p. 21.

12 O PCN (Processo Organizativo das Comunidades Negras) é uma coalizão de diversas organizações negras formais e informais das capitais regionais e áreas rurais do Valle del Cauca, Cauca e Nariño (os três estados do sudoeste do Pacífico), assim como de representantes de organizações da Costa Atlântica e da capital Bogotá. Grupos do estado de Choco, que fica ao noroeste, preferiram se organizar separadamente.
Minhas discussões sobre o posicionamento e estratégias do PCN baseiam-se em vários encontros e conversas com membros de organizações do PCN durante trabalho de campo na região. Líderes do PCN, como Carlos Rosero, Libia Grueso, Hernan Cortés e Leyla Andréa Arroyo também expressam seus pontos de vista em seminários, conferências e fóruns com vistas a discutir os direitos dos/as negros/as, que são amplamente publicados em minutas ou anais das conferências. Baseio-me nesses pareceres coletados durante o meu trabalho de campo e forneço citações paralelas de fontes publicadas sempre que possível.

13 Tais críticas ao desenvolvimento são ecoadas largamente por acadêmicos/as e ativistas, no norte e no sul. Por exemplo, os/as vários/as colaboradores/as do Dicionário do desenvolvimento: um guia para o conhecimento como poder (Wolfgang SACHS, 1992) analisam certos conceitos-chave do desenvolvimento - tais como Planejamento, Pobreza, Produção, Progresso, Padrão de Vida, etc. - em um esforço de expor os limites do pensamento acerca do desenvolvimento e de imaginar uma "era pós-desenvolvimento". Esses/as críticos/as argumentam que, através de alegações enganosas de superioridade dos sistemas econômico e político do Ocidente, os discursos sobre o desenvolvimento constroem um Terceiro Mundo 'subdesenvolvido' e impõem uma 'racionalidade' e conhecimento ocidental a esses espaços.

14 ROSERO, 1996, p. 182.

15 Alguns projetos propostos no Plan Pacífico  pelo Conselho Nacional de Política Econômica e Social (CONPES) e pelo Departamento Nacional de Planejamento (DNP) da Colômbia incluem: a construção de estradas ligando centros regionais-chave com centros de troca e comércio andinos, construindo oleodutos e usinas hidroelétricas, e construindo e modernizando vários portos. Ver em Diego PIEDRAHÍTA e María Estella PINEDA, 1993, uma lista detalhada e uma descrição das propostas desses projetos. Ver também www.dnp.gov.co para uma visão geral das agendas de desenvolvimento da Colômbia.

16 Gustavo de ROUX, 1990-1991; Alvaro PEDROSA, 1996; ROJAS, 1994.

17 Por exemplo, a pesquisa de Carmen Diana DEERE e Magdalena LEÓN (1981), em três regiões andinas que se desenvolvem com maior rapidez na Colômbia e no Peru, mostrou que o maior envolvimento de mulheres no trabalho agrícola caminha lado a lado com o empobrecimento geral de grandes setores rurais. Ver também seu volume editado Rural Women and State Policy: Feminist Perspectives on Latin American Agricultural Development (DEERE e LEÓN, 1987) para discussões sobre como as políticas agrícolas do Estado afetem as mulheres em várias partes da América Latina e da bacia caribenha.

18 LOZANO, 1996.

19 GRUESO, 1998; GRUESO et al., 1998.

20 OCN, 1996; ROSERO, 1995 e 1996.

21 Julio CARRIZOSA UMANÃ, 1993; Arturo ESCOBAR, 1996; ROJAS, 1994; Juan Pablo RUIZ, 1993.

22 PCN, s/d, p. 2.

23 Como era de se esperar, há debates intensos na Colômbia, inclusive entre negros/as, sobre o que constitui a etnia e a diferença 'afro-colombiana'. Muitas pesquisas têm enfocado a forma como as diferenças culturais e de identidade dos/as negros/as ou afro-colombianos/as são entendidas e construídas pelos movimentos sociais negros depois da Lei 70. Ver ASHER, 1998; Eduardo RESTREPO, 1998 e 2001; e Peter WADE, 1996, para algumas discussões importantes. Ver também ensaios nos volumes editados por Juana CAMACHO e Eduardo RESTREPO, 1999; e Mauricio PARDO, 2001. Na sua pesquisa extensa sobre afro-colombianos/as, Peter WADE, 1991, 1993 e 1995, também traça um esboço de como idéias sobre negritude enquanto 'raça' e cultura desempenham um papel crucial na construção da identidade nacional e da política colombianas. Similarmente, Carlos AGUDELO, 2001, e Mauricio PARDO e Manuela ALVAREZ, 2001, discutem como os movimentos sociais negros são moldados pelas políticas do Estado colombiano com respeito à sociedade civil. Esses/as autores/as também mostram como o Estado também se constitui através de suas interações e institucionalização da sociedade civil, inclusive das políticas culturais afro-colombianas.

24 CORTÉS, 1994, p. 26.

25 ROJAS, 1994, p. 21.

26 Mary Lucía HURTADO, 1993, p. 29-30.

27 PEDROSA, 1996.

28 ESCOBAR e PEDROSA, 1996; e ESCOBAR, 1995.

29 ESCOBAR, 1995; e LOZANO, 1996.

30 LOZANO, 1996; e ROJAS, 1996.

31 LOZANO, 1996; e ROJAS, 1996.

32 O livro de Ester Boserup Women's Role in Economic Development (1970) teve um papel importante ao demonstrar que as mulheres contribuem consideravelmente nos setores produtivos do Terceiro Mundo, especialmente na agricultura, e lançou os fundamentos da abordagem "Mulheres-no-Desenvolvimento". A pesquisa de Boserup também mostrou que a primeira geração de projetos de desenvolvimento não atingiu a maioria das mulheres, já que elas não tinham acesso a crédito, a tecnologia e a treinamento no setor agrícola moderno (Rosi BRAIDOTTI et al., 1994, p. 78). Para uma discussão detalhada e análise do impacto do desenvolvimento econômico no trabalho e no status das mulheres, ver SIGNS, 1981, que inclui o artigo de Deere e León citado acima.

33 Minha discussão das cooperativas de mulheres baseia-se nos seguintes encontros: com Sylveria Rodríguez, Cypriana Diuza e outros membros do CoopMujeres, em Guapi, em 5 de abril de 1995; com Patricia Moreno, Dora Alonso, Mercedes Segura Rodríguez e Myrna Rosa Rodríguez, do Fundemujer, em Buenaventura, em 23 de agosto de 1995; e com Jocelina Ceballo, Nympha Aristisaval e outros membros do Ser Mujer, em Tumaco, em 2 de outubro de 1995.

34 ROJAS, 1996.

35 LOZANO, 1996.

36 ROJAS, 1996, comunicação pessoal.

37 As relações de gênero são consideradas um subgrupo das relações sociais de poder e dominação em níveis domésticos, comunitários, regionais, locais, nacionais, internacionais que moldam e limitam tanto o trabalho 'produtivo' como o 'reprodutivo' das mulheres. Para discussões detalhadas sobre como as mulheres e as questões de gênero são abordadas nas instituições desenvolvimentistas, inclusive apanhados e análises críticas das abordagens do WID e do GAD, ver BRAIDOTTI et al., 1994; Naila KABEER, 1994; e Irene TINKER, 1990.

38 Olivia BALANTA et al., 1997, p. 37-38; e ROJAS, 1996, p. 218.

39 ROJAS, 1996.

40 BALANTA et al., 1997, p. 38; e ROJAS, 1996, p. 218.

41 Norma Rodríguez, presidente da Fundação Equatoriana para a Cultura Negra, também observa que o uso de 'penteados africanos' é uma estratégia original para revalidar a identidade cultural negra e construir a auto-estima das mulheres negras (Mariella SALA, 1995).

42 A discussão sobre a Rede de Mulheres em Guapi baseia-se em conversas com Teofila Betancur, em agosto de 1995, e com Yolanda García, Luz Marina Cuero, Teofila, Eden e outros membros da Rede em Guapi, Cauca, em 9 de julho de 1999. Também retiro informações de manuscritos publicados e não-publicados sobre e pela rede de mulheres, e de um videoteipe do segundo encontro da rede de mulheres da região de Cauca e Nariño, realizado em Timbiqui, Cauca, no período de 1 a 4 de maio de 1997.

43 Ver ASHER, 2002, para uma análise mais detalhada sobre o envolvimento de mulheres negras (inclusive do grupo de Teofila) em projetos de desenvolvimento sustentável e de preservação da biodiversidade, no estado de Cauca, no sudoeste colombiano. Ver Juana CAMACHO, 1999 e 2001, para uma discussão sobre o papel central das mulheres na administração de recursos agrícolas e da biodiversidade, e na manutenção de redes sociais nas áreas costeiras do estado de Choco, no noroeste.

44 Observação participativa no seminário e na marcha organizada pela Red de Mujeres Chocoanas, no Dia Internacional da Mulher, 8 de março de 1995, e em entrevistas com as organizadoras do evento, Adriana Eliza Fox Porro e Nimia Teresa Cuesta.

45 Talvez a explicação por que as mulheres da OBAPO resolveram se organizar sob os auspícios de uma organização negra resida no fato de que a maior parte das posições de liderança na OBAPO é de mulheres.

46 Isso me traz à mente as reflexões de Audre Lorde sobre o movimento negro nos Estados Unidos:
"Dentro das comunidades negras onde o racismo é uma realidade viva, as diferenças entre nós geralmente parecem suspeitas e perigosas. A necessidade de unidade é normalmente mal interpretada como uma necessidade de homogeneidade, e o olhar de uma feminista negra, confundido com traição dos nossos interesses comuns enquanto um povo" (LORDE, 1992, p. 51).

47 Ver ASHER, 1997, para uma discussão sobre a questão contraditória da presença de mulheres negras como líderes em movimentos sociais negros e a sua invisibilidade enquanto mulheres negras nessas organizações.

48 OCN, 1996, p. 256-260.

49 MINA, 1995h.

50 O ativismo das mulheres afro-colombianas baseado na ligação entre 'ser' e 'tener' também problematiza a caracterização da luta das mulheres do Terceiro Mundo como sendo ou lutas 'femininas' para atender às 'necessidades práticas' ou lutas 'feministas' pelo poder de redefinir as relações de gênero e contestar as posturas políticas e econômicas do Estado. Ver Marianne MARCHAND, 1995, para uma discussão sobre como essas visões sobre as lutas das mulheres são aplicadas para uma melhor compreensão do ativismo das mulheres.

51 Susan ECKSTEIN, 1989; David SLATER, 1985; e Arturo ESCOBAR e Sonia ALVAREZ, 1992.

52 A literatura dos NMSs é influenciada em vários níveis pelos debates pós-estruturalistas nas ciências sociais e humanas e textos 'anti-desenvolvimento' que surgiram nas décadas de 1980 e 1990. Muitos/as estudiosos/as e ativistas do Terceiro Mundo (ESCOBAR, 1992; SACHS, 1992; e Vandana SHIVA, 1988) denunciam os projetos desenvolvimentistas como um subgrupo da modernidade hegemônica, eurocêntrica. Baseando-se em trabalhos recentes em historiografia pós-colonial, eles chamam a atenção para a necessidade de se reconhecer racionalidades 'não-ocidentais'. De acordo com esses/as críticos/as, alternativas às tendências homogeneizantes e excludentes do capitalismo global são encontradas nas práticas tradicionais dos grupos locais.

53 ESCOBAR e PEDROSA, 1993 e 1996.

54 Ou para usar a frase de Verónica Schild, questiono a "separação tão definida entre Estado e sociedade civil" (SCHILD, 1998, p. 111), que está implícita em muito da literatura dos NMSs sobre as lutas locais contra o desenvolvimento. Escrevendo sobre o projeto de democratização e modernização do Estado chileno na década de 1990 e seu impacto nos movimentos de mulheres, Schild concorda com os/as estudiosos/as dos NMSs de que o povo contesta e luta contra as reformas estatais hegemônicas. Contudo, ela nos alerta que os termos dessa contestação são predeterminados. A pesquisa de Schild mapeia como o Estado recruta os esforços das profissionais e ativistas feministas no Chile para construir novas formas de cidadania compatíveis com seu projeto modernizante neoliberal.

55 Há um número crescente de estudos críticos sobre desenvolvimento baseados em abordagens pós-estruturalistas e em reformulações do pensamento marxista. Esses estudos enfocam os discursos do desenvolvimento e seus efeitos discursivos não-intencionais, assim como a natureza dialética da relação entre desenvolvimento e modernização, e as resistências a esses processos. Ver ESCOBAR, 1995; James FERGUSON, 1990; Timothy MITCHELL, 1991; e também o volume editado por Frederick COOPER e Packard RANDALL, 1997; Jonathan CRUSH, 1995; e Richard PEET e Michael Watts, 1996.

56 GUPTA, 1998, p. 16.

57 LOWE e LLOYD, 1997, p. 4. No ensaio introdutório de seu livro The Politics of Culture in the Shadow of Capital, Lisa Lowe e David Lloyd observam: "[...] discutimos 'cultura' como um terreno no qual cultura, política e economia formam uma dinâmica inseparável. Isso requer não apenas uma análise crítica das teorias liberais culturais, políticas e legais, que são o correlativo social da economia capitalista, mas também um inventário das alternativas de sobrevivência em muitas localidades em todo o mundo. Nosso interesse não é identificar o que reside 'fora' do capitalismo, mas aquilo que surge historicamente em 'contraste' a ele e para contestá-lo" (LOWE e LLOYD, 1997, p. 1-2).

58 WATTS, 1995.

59 Nas décadas de 1980 e 1990, houve uma conscientização crescente acerca da presença das mulheres e de seus papéis nos movimentos sociais e políticos em toda a América Latina. Muito tem sido escrito sobre os protestos populares e a participação política das mulheres latino-americanas - conferir Sonia ALVAREZ, 1990; Jane JAQUETTE, 1994; e Elizabeth JELIN, 1990. Essa literatura presta muito pouca atenção sobre como 'raça' e etnia se intersectam com gênero, ou sobre como afetam as lutas para e contra o desenvolvimento. Essa tendência está começando a mudar - por exemplo, ver FEMPRESS, 1995, número especial sobre mulheres negras latino-americanas; Sallie WESTWOOD e Sarah RADCLIFFE, 1993; e ESTEROS, 1997, número especial sobre mulheres afro-colombianas. Entretanto, muitas questões interessantes sobre as disjunções e laços entre os movimentos de mulheres latino-americanas e o ativismo de mulheres afro-latinas permanecem inexploradas.

60 MOHANTY, 1991; ONG, 1987 e 1988; e SPIVAK, 1989.

61 MOHANTY, 1997.

62 MOHANTY, 1997, p. 3.

63 ONG, 1987.

 

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