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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.13 no.2 Florianópolis May/Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2005000200001 

EDITORIAL

 

 

As agruras econômicas que exigiram tanto a nossa atenção e que conviveram com a elaboração do número anterior foram em parte reduzidas. Alguns dos projetos que enviamos foram atendidos. Assim, conseguimos retomar nossa rede de distribuição de publicações, através da ajuda do Institute of International Education, graças à intermediação, sempre valiosa, da Fundação Ford. Com isso, ficou garantida, até o final de 2005, a participação em importantes eventos militantes e feministas da Revista Estudos Feministas e de todas as nossas parceiras que publicam na área e desejarem participar. Temos, então, agora, recursos para custear passagem e hospedagem para a divulgação das publicações feministas.

O CNPq, que em novembro de 2004 havia prometido enviar um reforço de recursos para as publicações on line, finalmente cumpriu a promessa, no início de julho, permitindo que pudéssemos colocar no Portal Feminista todos os números da Revista Estudos Feministas e, ainda, abrir para novas publicações. Já estamos em contato com a revista Espaço Feminino e os Cadernos Pagu. A revista Gênero, da Universidade Federal Fluminense, continuará sendo disponibilizada na página do Portal.

Um outro projeto para o qual tivemos a felicidade de conseguir ajuda foi o de Produção e Divulgação de Textos Feministas, junto à Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, que permitirá que a impressão gráfica da Revista seja garantida.

Toda essa resposta dos órgãos financiadores tem nos estimulado a buscar novos caminhos e, quem sabe, dar um novo salto. Temos feito reuniões e conversado muito sobre a possibilidade de criar um Instituto de Estudos de Gênero. Esse Instituto congregaria as atividades e o material do Fazendo Gênero evento que realizamos a cada dois anos –, as diversas linhas de pesquisa ligadas aos vários programas de pós-graduação e departamentos, assim como o material e o equipamento da Revista Estudos Feministas.

A idéia de criar um instituto congregando as atividades que realizamos é bastante antiga, remontando aos anos 1980 quando da realização dos primeiros eventos, na Universidade Federal de Santa Catarina, abordando os temas "Mulher" ou "Mulheres". Discussões acaloradas sobre se devíamos ou não institucionalizar o movimento, que se queria militante, impediram na época a concretização do projeto. Hoje, a necessidade de espaço físico compatível com tudo que fazemos, a dispersão das atividades e o montante de projetos em andamento levam-nos a buscar um mínimo de institucionalização de nossas atividades.

Temos também nos empenhado em participar e divulgar o edital de pesquisas e o "I Prêmio Construindo a Igualdade" da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres/Presidência da República, do Ministério da Ciência e Tecnologia, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. Esses recursos destinam-se a todas as pessoas que estudam ou militam na área de "mulheres, gênero e feminismo". Certamente essa oportunidade irá estimular, sobremaneira, os estudos nos quais temos nos empenhado, proporcionando um crescimento significativo de seu campo de atuação.

A elaboração do número 2 do volume 13/2005, que agora entregamos ao público, foi permeada, também, por acontecimentos na política do país que nos deixaram muito preocupadas e que foram alvo de longas conversas e discussões. Aquilo que a mídia tem denominado de "crise política" tem atingido nossas esperanças. Entretanto, tem também permitido que nosso olhar, voltado para uma perspectiva histórica, permita ver que talvez esta seja uma oportunidade que o país está tendo de voltar-se para suas próprias práticas políticas – tão antigas e tão arraigadas – e refazer seus caminhos. Seria interessante investigar o que uma perspectiva feminista ou "de gênero" poderia trazer para tal projeto, tema que já foi várias vezes abordado nas páginas da REF. Nossas esperanças de curto prazo, que parecem tão ameaçadas, são permeadas por uma vontade de acreditar que o futuro trará um reforço da ética e alguma mudança nessas práticas que tanto nos envergonham.

********

Abrimos o presente número, na seção de artigos, com um texto que focaliza a raça, a nação e a heteronormatividade. Licia Fiol-Matta desmascara a posição de defensora dos povos indígenas pretensamente adotada por Gabriela Mistral – poeta, educadora e prêmio Nobel chilena. A condição de "mulher-raça" de Mistral é analisada pela autora como um discurso útil à instituição de uma normatividade sexual e racial.

Destacando a presença de profissionais da saúde, especialmente ginecologistas, nos programas de televisão, L. Graciela Natansohn analisa as representações veiculadas por esses programas a respeito da menstruação e das vicissitudes a ela vinculadas.

Os assassinatos de 300 mulheres em Ciudad Juarez, na fronteira norte do México, são interpretados por Rita Segato como um ritual que pretende "selar, com a cumplicidade", através de execuções cruéis, um pacto de silêncio. Esse pacto garantiria lealdade para confrarias mafiosas que operam na fronteira entre México e Estados Unidos.

Encerramos a seção de artigos com a história do trabalho social narrada por Évelyne Diebolt. A autora mostra que, a partir da brecha fornecida pela lei de 1° de julho de 1901, na França, as mulheres, até então proibidas de participar de inúmeros espaços de atuação política, puderam "ingressar com toda força na cidadania". Nesse artigo a autora descreve as inúmeras associações sanitárias e sociais criadas pelas mulheres, pioneiras na constituição do conceito de serviço social.

Um ensaio instigante é o que Paola Zordan nos apresenta, revisitando um tema já bastante discutido – as bruxas. A partir de uma leitura dos historiadores clássicos, a autora observa a maneira como esses textos constroem imagens que ora glorificam, ora execram a bruxa, focalizando suas práticas e ligando-as com a sexualidade.

Neste número estamos publicando, também, uma entrevista com a conhecida teórica feminista do cinema Laura Mulvey. Essa cineasta inglesa, conhecida por sua clássica interpretação do "olhar como masculino", tem se notabilizado pela produção de "uma crítica feminista ao cinema narrativo tradicional" e de outras possibilidades de perspectiva e de linguagens a partir do "contra-cinema". Em entrevista a Sônia Maluf, Cecilia Mello e Vanessa Pedro, Mulvey discute o momento em que produziu seu mais famoso texto, Prazer visual e cinema narrativo, escrito há 30 anos. Fala ainda de seu trabalho como diretora de cinema e do trabalho de outros diretores, especialmente os dos cinemas iraniano e africano. Analisa, ainda, sua trajetória e o rumo de suas investigações teóricas.

Na seção Dossiê, Maria José Rosado-Nunes e a equipe formada por Adriana Tanese Nogueira, Míriam Verri Garcia e Neusa Steiner abordam as discussões de Gênero e Religião. Nesses textos a religião é analisada como um lugar de investimento masculino por excelência. A presença visível das mulheres nas práticas religiosas não implica que elas definam as crenças, as políticas pastorais e organizacionais das instituições religiosas das quais são fiéis seguidoras. Nesse dossiê, autoras de diferentes países focalizam a diversidade de formas de expressão religiosa e as maneiras como a complexa construção social das religiões é atravessada pelas relações de gênero, classe e raça.

Encerrando este número, as resenhas divulgam estudos e pesquisas recentes, dando conta das últimas publicações nacionais e internacionais na área do gênero e do feminismo. Abordam temas como a família em desordem; juventude e sexualidade; o gênero e a etnia no romance Úrsula; a feiticeira na ficção das Américas; a autoria feminina; filoarqueologia literária; o pós-modernismo no romance português e, até mesmo, histórias de Santa Rita.

Queremos ainda, para finalizar, agradecer a todas as pessoas e instituições que têm colaborado para que a Revista Estudos Feministas continue sendo um veículo de comunicação entre a academia e a militância, nas lutas pela igualdade de gênero. Agradecemos, especialmente, às pessoas que enviaram artigos, às que deram pareceres, às que têm formado a equipe que dá sustentação à revista e, ainda, às instituições de fomento que acreditaram nas possibilidades de atuação da Revista.

 

Joana Maria Pedro
Susana Bornéo Funck