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Revista Estudos Feministas

Print version ISSN 0104-026X

Rev. Estud. Fem. vol.13 no.2 Florianópolis May/Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2005000200015 

DOSSIÊ

 

Mulheres budistas como líderes e professoras

 

Buddhist women as leaders and teachers

 

 

Rita M. Gross

University of Wisconsin – Eau Claire

 

 


RESUMO

No budismo, o papel do professor de dharma (religioso) é a função mais prestigiosa, e o professor de dharma tem mais autoridade do que qualquer outro líder. Apesar de os ensinamentos budistas não conterem nenhuma doutrina que limite essa função ao homem, na prática, em toda a história budista, foram pouquíssimas as mulheres que se tornaram conhecidas como professoras de dharma. Algumas pessoas acham que essas práticas não prejudicam as mulheres, porque estas podem, ainda assim, receber os ensinamentos, fazer as práticas mais avançadas e obter altos níveis de esclarecimento espiritual. Contudo, eu afirmo que o fato de não haver professoras de dharma reconhecidas foi nocivo seja para as mulheres budistas, seja para o próprio budismo. Isso tem a ver com o legado das comunidades de monjas em muitas partes do mundo budista, com os baixos padrões de educação para as mulheres, com o fraco prestígio de que gozam as praticantes mulheres, com a falta de modelos para as mulheres e com a perda da sabedoria feminina na herança do pensamento budista. Até que as professoras de dharma não forem amplamente reconhecidas e honradas, o budismo continuará sendo perseguido por seu passado patriarcal, com o prejuízo de todos.

Palavras-chave: budismo, professor/a de dharma, comunidades de monjas (sangha), modelos.


ABSTRACT

In Buddhism, the role of the dharma (religious) teacher is the most prestigious role, and dharma teachers have more authority that any other leaders. Though the Buddhist teachings contain no doctrines that limit this role to men, in practice throughout Buddhist history, very few women have been publicly acknowledged as dharma teachers. Some people claim that this practice does not harm women because women can, nevertheless, receive teachings, do advanced practices, and attain high states of spiritual realization. However, I claim that the practice of not recognizing women as dharma teachers has been very harmful both to Buddhist women and to Buddhism itself. It has lead to the demise of the nuns' community in many parts of the Buddhist world, to lower standards of education for women, to lower prestige for women practitioners, to the lack of role models for women, and to the loss of women's wisdom from the heritage of Buddhist thought. Until women dharma teachers are widely recognized and honored, Buddhism will continue to be haunted by its patriarchal past, to the loss of everyone concerned.

Key Words: Buddhism, dharma teacher, nuns' community (sangha), role models.


 

 

Uma crítica feminista primária do budismo é que os homens ocupam todos ou a maioria dos papéis de liderança e de autoridades de ensino. A religião tem sido historicamente dominada por homens e as mulheres parecem exercer um papel menor em suas práticas e instituições. As feministas têm respondido com duas amplas soluções para esse problema. Uma solução óbvia seria promover mudanças estruturais nas políticas de liderança para assegurar que as mulheres sejam treinadas para se tornarem qualificadas a assumir esses papéis e, em seguida, garantir que as mulheres sejam promovidas às posições para as quais estão qualificadas. Outras feministas propuseram uma solução diferente, questionando se as organizações sociais hierarquizadas que caracterizam o budismo há séculos são realmente necessárias ou valem a pena serem preservadas. Assim como uma parcela de mulheres cristãs afirma não ter desejo de se tornarem padres em uma igreja que não foi transformada de uma organização hierarquizada em uma igualitária, também algumas budistas argumentam que a própria hierarquia é um fenômeno patriarcal e que não pode ser redimida permitindo ou encorajando as mulheres a assumirem posições de liderança e de autoridade de ensino.

Muitos ocidentais são muito suspeitosos da autoridade que um vajrayana ou um professor de zen dharma exerce sobre seu/s aluno/s e da devoção e lealdade ao professor que é estimulada nos estudantes. Especialmente após os escândalos envolvendo várias formas de abuso de poder que abalaram o budismo norte-americano na década de 1980, as suspeitas sobre o poder hierárquico quase ilimitado aumentaram. A maioria das organizações budistas norte-americanas reconsiderou quanta autoridade elas estavam pretendendo conceder aos seus professores e líderes, assim como quais aspectos de suas vidas comunitárias e espirituais elas estão querendo permitir que os professores supervisionem. Juntamente com o impulso para uma participação igualitária das mulheres no budismo, muitos observadores do budismo ocidental encaram a demanda crescente por democracia nas instituições budistas como a pedra de toque do budismo moderno.

No entanto, do ponto de vista da prática budista, existem limites com relação ao quão igualitárias e democráticas as instituições budistas podem se tornar. Apesar de já ter havido abuso de poder, e isso puder voltar a ocorrer, alguns aspectos da vida budista necessitam da autoridade de uma linhagem e de um professor. É importante separar quais questões podem ser decididas democraticamente ou através de um consenso, e quais aspectos da vida budista não podem ser submetidas à regra da maioria. Senioridade e autorização para ensinar sempre tiveram um papel importante na vida budista porque o dharma é sutil e facilmente mal compreendido. É perigoso para pessoas que não entendem bem os ensinamentos budistas e que não o tenham praticado por muitos anos decidir o que deve ser ensinado ou qual técnica de meditação empregar. Muitos ensinamentos budistas fundamentais, tais como as Quatro Verdades Nobres ou o Não-Eu (em sânscrito anatman),1 vão tão contra as esperanças e os medos comuns das pessoas que jamais seriam o resultado do voto popular, que é o motivo pelo qual a democracia é uma ferramenta pobre para decidir o que deve ser ensinado em um centro dharma budista. De fato, diz-se que, após sua experiência de iluminação, o Buda pensou que seria sem sentido ele ensinar aquilo que havia vivenciado porque as pessoas não iriam querer ouvir o seu dharma. Professores com autoridade não deverão se tornar desnecessários ao budismo genuíno no futuro próximo. Devido ao relacionamento professor–aluno ser tão importante em tantas formas de budismo, os estudantes são geralmente orientados a se informar muito bem sobre um professor antes de se vincularem a ele. Depois de alguém pedir um treinamento dharma é muito tarde para debater com o professor sobre qual treinamento se deseja receber.

Por outro lado, muitos aspectos da vida institucional budista podem ser tratados de forma mais igualitária. O orçamento, por exemplo, deveria ser decidido por membros que saibam o que é necessário e como levantar o dinheiro, não por um professor de dharma que pode facilmente utilizar mal os recursos. A transparência financeira é absolutamente necessária, pelo menos nos centros dharma na América do Norte, Europa e outras partes do mundo não tradicionalmente budistas. Políticas de associação, decisão entre alugar ou comprar um prédio, onde se instalar e muitas outras questões podem e deveriam ser decididas de forma democrática em vez de autoritariamente. De fato, todas as questões pertinentes à vida comunitária podem ser decididas pela comunidade em vez do professor de dharma. A autoridade do professor de dharma se restringe ao dharma, aos ensinamentos e práticas do budismo, não a sua vida institucional. Muito embora os professores de dharma possuam autoridade espiritual, eles devem ser submetidos ao julgamento da comunidade caso demonstrem comportamento inadequado como, por exemplo, má conduta sexual, apropriação de fundos, ou outros comportamentos não-dharmicos.

Em muitos sanghas budistas ocidentais a liderança é dividida em duas formas principais: liderança administrativa e ensino. Algumas vezes a mesma pessoa exerce ambas, porém, freqüentemente, existe uma especialização. Mulheres, em geral, são lideranças administrativas e alguns centros procuram ter co-diretores, um homem e uma mulher. Algumas vezes argumenta-se que, devido às mulheres terem assumido papéis administrativos importantes em organizações budistas ocidentais, o problema de discriminação de gênero foi resolvido.

Entretanto, as coisas não são assim tão simples. O principal papel de liderança no budismo é, e sempre foi, aquele do professor de dharma; a liderança administrativa jamais vai se sobrepor ao papel do professor de dharma. E a expectativa, desde os primórdios do budismo até hoje, é de que os homens serão os professores de dharma. Tenho argumentado por muitos anos que a falta de professoras no budismo tradicional é o maior problema para as mulheres budistas, sendo este o setor da vida budista com maior necessidade de reformas feministas.2 No restante desses comentários eu explicarei por que é assim e o que pode ser feito a respeito.

A tendência de os homens monopolizarem os papéis de ensino no budismo pode ser rastreada em até dois fatores: as culturas machistas nas quais o budismo foi fundado e nas quais ele sempre foi praticado, e algumas das regras da vida institucional budista. Embora o budismo não seja tão patriarcal ou desvantajoso para as mulheres como algumas críticas feministas querem fazer crer, o budismo não possui qualquer registro de oposição ao patriarcado ou ao domínio masculino. Atualmente, algumas pessoas realmente mistificam a razão pela qual Buda aparentemente concorreu para o domínio masculino de sua cultura, mas existe pouca dúvida de que ele o fez. Os registros históricos, os quais podem ou não se referir ao Buda propriamente dito, retratam não apenas o Buda concorrendo para o domínio masculino em seu tempo, mas também estabelecendo regras que garantiriam o domínio masculino no seu sangha e tornariam difícil ou impossível para as mulheres atingir o status de uma importante professora de dharma. Regras monásticas de senioridade declaram que todas as monjas são juniores com relação até mesmo ao monge ordenado mais recentemente. Esta é a primeira das oito regras especiais que o Buda exigiu que as mulheres aceitassem antes de ordená-las como monjas. Todas as outras regras também subordinam as monjas aos monges. Regras tais como as que proíbem as monjas de criticarem ou admoestarem os monges tornam difícil às monjas se tornarem professoras de monges.3 Também está registrado que quando Prajapati, a primeira monja, sugeriu que a senioridade deveria levar em conta o tempo de ordenação e não seu gênero, o Buda retrucou que, mesmo nas seitas com lideranças pobres, os homens jamais encararam as mulheres como suas superiores e, portanto, como poderia tal comportamento ocorrer em sua própria sangha?4

Enquanto tais regras relativas à hierarquia institucional tornavam difícil para as mulheres serem professoras reconhecidas de dharma, é importante reconhecer que não limitavam as capacidades espirituais das mulheres de forma alguma, e que outras regras protegiam as monjas da servidão e do assédio dos monges. Pelo menos no período inicial da história do budismo, as monjas são retratadas como vivendo um estilo de vida idêntico ao dos monges. No anteriormente negligenciado, mas agora famoso, Theringatha (Canções das Anciãs),5 as monjas são retratadas como iguais aos homens em suas conquistas espirituais. Esse retrato das monjas budistas como equivalente espiritual dos homens corrige a avaliação polarizada do potencial das mulheres budistas que prevaleceria para alguém que só soubesse das Oito Regras Especiais. Muito embora em períodos posteriores da história budista as monjas fossem treinadas muito mais pobremente do que os monges, tais práticas não faziam parte das regras da disciplina monástica, não tendo nada a ver com as normas budistas. É triste ouvir histórias de monjas budistas serem ensinadas a cantar mecanicamente devido à visão de que a elas faltava a capacidade de fazer melhor, mas é importante lembrar que tais práticas não são genuinamente budistas.

Alguns argumentam que a dominação masculina institucional não fere as mulheres budistas, conquanto elas recebam o mesmo treinamento que os homens. Alguns comentaristas argumentam que a questão do budismo é praticar e atingir a iluminação, e não atingir prestígio e reputação como professor. Alguns afirmam até mesmo que o domínio institucional masculino beneficia as mulheres. Sem quaisquer esperanças de atingir status e fama como professoras de dharma, as mulheres ficariam livres para praticar bem e com sinceridade, aliviadas das oito preocupações terrenas (dor e prazer, fama e má reputação, elogio e censura, ganho e perda). Argumenta-se, por outro lado, que os homens freqüentemente levam a vida monástica como uma carreira e se tornam mais preocupados com seu prestígio e posição do que com sua prática e conquistas, o que perverte o propósito do estudo e da prática budistas. Porém, se as coisas realmente se dessem dessa forma, as mulheres seriam efetivamente as professoras de dharma, pois as suas conquistas seriam mais genuínas!

No entanto, eu argumentaria que um arranjo institucional que torna difícil ou impossível para as mulheres tornarem-se professoras altamente respeitadas de dharma fere efetivamente as mulheres em pelo menos cinco aspectos.

Primeiro está a simples prática. Conforme Nancy Auer Falk demonstrou em seu artigo "The Case of the Vanishing Nuns: The Fruits of Ambivalence in Ancient Indian Buddhism" ("O caso das monjas desaparecendo: os frutos da ambivalência no budismo indiano antigo"), a subordinação institucional das monjas aos monges pode muito bem ter sido responsável pelo desaparecimento da ordem das monjas em algumas regiões do mundo budista.6 A questão do motivo pelo qual a ordem das monjas declinou e morreu na Índia e no mundo theravada foi freqüentemente colocada, porém, poucos atribuíram tal declínio à subordinação formal das monjas aos monges. Falk argumenta que a causa imediata do declínio da ordem das monjas foi econômica: as monjas simplesmente não recebiam muito suporte econômico, o que tornava mais difícil ainda sua sobrevivência. Mas ela rastreia a falta de suporte econômico ao fato de os patrocinadores leigos preferirem dar suporte para os professores de maior prestígio – todos os quais eram monges, devido às regras que proíbem as mulheres de ensinar aos homens. Mesmo uma professora excelente simplesmente não poderia conseguir o mesmo número de seguidores que um homem, dado que ela só poderia ensinar a outras mulheres ou aos leigos. Conseqüentemente, ela atrairia menos suporte econômico para si mesma e para sua ordem. Isso era uma grande parte de uma espiral descendente que condenou a ordem das monjas em algumas partes do mundo budista.

Segundo, visto que as mulheres não se tornariam professoras de qualquer modo, a visão de que elas realmente não precisavam de muito treinamento ou mesmo de certos ensinamentos se fortalecia. Combinado com crenças culturais acerca da inferioridade intelectual e espiritual das mulheres, tal pensamento levou à difusão da prática de não educar bem as monjas budistas. Por exemplo, a monjas budistas tibetanas geralmente não eram ensinados filosofia e debate, ou como desenhar mandalas de areia, sob o argumento que elas não precisariam ou não usariam tais habilidades. Recentemente, as monjas budistas tibetanas receberam treinamento em tais habilidades, mas não sei de qualquer mulher a quem tenham sido ensinadas as "danças do lama" ou que tenha executado essas danças que tornam o budismo tibetano tão famoso. Um dos meus próprios professores é um fenômeno raro – uma mulher rinpoche ou professora de uma linhagem. Ela conta uma história sobre sua própria juventude: quando ela e sua irmã estavam sendo treinadas, algumas pessoas diziam que, como elas eram meninas e, portanto, jamais iriam ensinar, não era importante para elas estarem presentes quando certos ensinamentos estivessem sendo transmitidos. Conforme me recordo da história, a mãe arrumou de elas estarem presentes de qualquer modo! Essa lógica de nem ao menos ensinar as mulheres representa não uma espiral descendente, mas um círculo vicioso. Por as mulheres serem consideradas intelectual e espiritualmente inferiores, é dito que não precisam ser treinadas, mas em seguida sua falta de conquistas, devido a sua falta de treinamento, é usada como justificativa para não ministrar a elas ensino e práticas avançados.

Terceiro, pela falta de suporte econômico e pelo preconceito comum de que as mulheres – não-professoras por definição – não precisavam ser bem educadas, não é surpreendente que, mesmo em partes do mundo budista onde a mulheres poderiam se tornar monjas, aquela opção não fosse atraente e as monjas granjeassem pouco prestígio. Em muitos casos, uma família ficaria constrangida de ver uma filha tornar-se monja, enquanto que, se um filho se tornasse monge, ele traria grande honra para a família. Como resultado disso, as mulheres eram freqüentemente desencorajadas a se tornarem monjas ou a se engajarem em séria disciplina espiritual. De modo geral, parece claro que a maioria dos budistas preferia as mulheres como esposas e mães do que como monjas. Isso era verdade mesmo nos tempos do Buda. O louvor às generosas patrocinadoras mulheres7 contrasta significativamente com a relutância com que se considera o Buda como tendo permitido que mulheres se tornassem monjas. Assim, as mulheres possuidoras de genuína vocação espiritual freqüentemente não encontravam qualquer apoio para esse chamamento, o que certamente as feria.

A quarta maneira pela qual as regras e práticas que tornam difícil ou impossível às mulheres se tornarem professoras altamente respeitadas de dharma é particularmente devastadora. As mulheres praticantes não têm um modelo a ser seguido. Tenho escutado que, uma vez que o dharma está além de gênero, tal questão é irrelevante. Argumenta-se que, uma vez que o dharma é o mesmo, quer seja ensinado por um homem, quer seja por uma mulher, não faria qualquer diferença se houver poucas ou nenhuma professora de dharma. Foi-me dito que é trivial e indigno até mesmo levantar tais preocupações. Mas eu retruco que, se o dharma está mesmo além de gênero, então não deveria haver disparidade entre o número de homens e de mulheres no seu ensino. Também afirmo que o dharma é o que é porque é genuinamente livre e neutro com relação a gênero, mas, se apesar disso historicamente existem tão poucas professoras mulheres, então a falha está em outro lugar claramente, na tendência budista de adotar sem pensar quaisquer arranjos sociais que encontrar na cultura em seu entorno, uma tendência que pode ser rastreada até às origens do budismo.

É impossível argumentar que os modelos que se pareçam não fazem diferença. Do ponto de vista da verdade absoluta, certamente os modelos que se pareçam são irrelevantes. Porém, os estudantes não começam no nível da verdade absoluta. Começamos em um nível muito confuso de verdade relativa – nem mesmo uma verdade relativa precisa, mas em um nível de simples erros, de realmente pensar que a corda é uma cobra, para usar de uma analogia de ensino comum no budismo.8 É muito fácil ver o budismo como uma serpente que não é muito útil para as mulheres, quando muitos ou todos os professores são homens. Uma estudante inteligente e perspicaz naturalmente perguntaria se pessoas como ela se beneficiariam desse caminho. Vale a pena se envolver profundamente com o estudo e a prática do budismo se à pessoa é dito que ela terá muito poucas chances de sucesso devido ao seu gênero? Se essas poucas chances de conquistas reais são demonstradas diariamente pela falta de alguém que pareça consigo nos papéis mais destacados do budismo, a pessoa vai se perguntar por que as mulheres deveriam levar a sério o budismo.

Eu mesma certamente já experimentei esse dilema. Com relação à maioria das outras questões básicas sobre o caminho, os budistas são muito menos defensivos e existe uma grande preocupação em encontrar meios hábeis de ajudar as pessoas a ver que a suposta serpente é, na verdade, uma corda e que a corda é em si uma ilusão. Se gênero é irrelevante, como é comumente reclamado pelos budistas, o único modo de demonstrar tal irrelevância é o sábio meio de transformar as mulheres em professoras, ao invés de continuar a se basear em práticas e regras que são fundamentalmente não-budistas, ainda que antigas. Certamente, para as mulheres serem transformadas em professoras, elas devem ser primeiro treinadas completamente, o que é difícil em circunstâncias nas quais todas as mulheres são definidas como subordinadas a qualquer homem, quaisquer que sejam as suas conquistas relativas ou senioridade.

Finalmente, a quinta maneira de tornar difícil ou impossível para as mulheres se tornarem professoras de dharma fere as mulheres do modo que pode ser o mais devastador de todos. Se há poucas ou nenhuma professora, as experiências ou pontos de vista femininos estão para sempre perdidos na história e as mulheres que conseguem atingir altos níveis de realização, apesar de todos os obstáculos que enfrentam, estão fora dos registros históricos. Então essa dificuldade intercepta a quarta dificuldade: a falta de um modelo para as mulheres praticantes. O modelo pode muito bem ter existido, porém não foi reconhecido e, por conseguinte, não foi registrado, ou registrado somente em fontes obscuras que não são amplamente conhecidas. Gênero pode ser por fim irrelevante, conforme muitos professores de dharma argumentariam, mas essa irrelevância está situada em um mundo relativo e samsárico que presta muita atenção para o gênero. Dada essa situação, embora a experiência do despertar seja a mesma para homens e mulheres, seus caminhos até ela podem muito bem ser diferentes, em muitos casos.

Se as mulheres não são reconhecidas como professoras de dharma, suas biografias espirituais provavelmente também não estarão disponíveis para iluminar os caminhos de outros praticantes. Mas os homens precisam dessas biografias para contrapor as suas próprias tendências culturais para sentimentos de superioridade, enquanto que as mulheres precisam dessas biografias para inspiração. Algumas tradições budistas, em especial a tibetana, baseiam-se grandemente na história de vida de grandes mestres e praticantes como fonte de inspiração para os alunos atuais. Mas qual será o caminho para uma mulher que foi ensinada que seu renascimento é menos livre e menos favorecido que o de um homem,9 que tem poucos modelos e que provavelmente foi desencorajada a pensar em si mesma como uma praticante séria? Como poderia ela chegar à conclusão da irrelevância do gênero e o que sua experiência com as normas de gênero convencionais significa em seu caminho? Suas experiências específicas como mulher, em um mundo e religião dominados pelos homens, serão diferentes daquelas de um homem e devem ser registradas como guia para outros praticantes, tanto homens quanto mulheres. Mas quem registra as experiências de uma professora não reconhecida? Porque ela não é reconhecida e suas experiências não são registradas, o exemplo de seu caminho para a realização, aquelas experiências específicas, são perdidas, dando a impressão de que as mulheres são, realmente, menos livres e menos favorecidas que os homens, porque tão poucas parecem ter atingido muito sucesso ao longo do caminho.

Às vezes, a falha pela perda dessas histórias e modelos reside não nos budistas de uma época específica, mas sim naqueles que mantêm os registros. Mulheres podem ser reconhecidas em seus contextos como praticantes e professoras muito competentes, mas ninguém parece pensar em registrar seus ensinamentos, como seria feito no caso de um professor homem equivalente. Ou, se os registros são mantidos, eles não são lembrados tão freqüentemente quanto os registros de professores homens. Por exemplo, os Therigatha foram registrados mas, até as recentes cátedras feministas sobre o budismo, a maioria dos estudiosos do budismo ocidentais e a maioria dos praticantes ocidentais nunca havia ouvido falar neles. Mulheres muito talentosas eram relativamente comuns no budismo tibetano, mas os primeiros professores de que os alunos ocidentais do budismo tibetano ouviram falar eram todos homens. Praticantes ocidentais do zen budismo recitam diariamente uma longa linhagem, ausente de nomes femininos até que algumas mulheres diligentemente reconstruíram uma linhagem de professoras de dharma.10

Devemos então concluir que, embora gênero seja em última análise irrelevante, até que as convenções sexistas e machistas sejam eliminadas da prática budista, o gênero importa, sim, no mundo relativo. Como argumentei muitas vezes, a visão budista pode ser livre e neutra quanto a gênero, mas as práticas e as instituições budistas não o são. E visão e prática deveriam estar em consonância uma com a outra, e não em contradição.11 Entre as práticas budistas que honram o gênero muito mais do que merecem ser honradas, nenhuma é mais devastadora do que a onipresente tradição de não honrar ou reconhecer mulheres como professoras de dharma, a qual se funda na igualmente devastadora prática de não treiná-las competente e completamente. E essa prática, certamente, tem suas origens nas noções sexistas de inferioridade feminina e da necessidade de os homens serem considerados superiores às mulheres em todos os casos.

Porque muitos budistas ocidentais são totalmente desconhecedores da história do budismo e do fato de os budistas geralmente aceitarem as práticas sociais de sua matriz cultural, é importante circular essa informação amplamente. Existem razões válidas para o porquê de tantos não-budistas encararem o budismo como uma religião altamente patriarcal que é bastante desvantajosa para as mulheres, e nós deveríamos estar familiarizados com nosso próprio lado negro.

No entanto, também ocorre que o budismo mudou muito no mundo nos últimos 30 anos. Há um florescente movimento mundial de mulheres budistas e muito progresso foi feito em reestabelecer o sangha das monjas e em melhorar o treinamento que elas recebem. O treinamento disponível para as mulheres leigas também melhorou muito e o budismo ocidental é quase totalmente um movimento leigo nesse ponto. Entre os budistas ocidentais muitas mulheres também foram reconhecidas como professoras de dharma, mais nas comunidades zen e vipassana do que entre os ocidentais que praticam o budismo tibetano. No entanto, a maioria dos observadores diria que algo sem precedentes está ocorrendo entre os budistas ocidentais: aproximadamente metade dos professores de dharma ocidentais são mulheres.

A que devemos essas grandes mudanças na prática budista? Certamente ao fato de que elas estão muito mais alinhadas com os ensinamentos budistas fundamentais do que as práticas sexistas e machistas tradicionais. Mas eu tenho argumentado que pelo menos parte da inspiração e da motivação para essas mudanças é resultante da segunda onda do feminismo, a qual mudou tudo em nossas vidas para melhor, para sempre.12

 

Glossário

Dharma: uma palavra em sânscrito usada no budismo para significar "os ensinamentos" ou "a verdade".

Professor/a de Dharma: um/a professor/a budista de meditação e de ensinamentos budistas.

As Quatro Nobres Verdades: a lista dos mais básicos ensinamentos do budismo, que foram proclamados pelo Buda em seu primeiro sermão.

"Danças do lama": elaboradas danças com costumes e máscaras executadas por monges do budismo tibetano.

Mandala: desenhos baseados em círculos e quadrados que representam o universo. São feitos de areia colorida no começo de uma elaborada cerimônia do budismo tibetano.

No-Self: um importante ensinamento budista que afirma que os seres humanos não têm um self ou alma estável e permanente.

Rinpoche: uma palavra tibetana que significa "o/a precioso/a", sendo assim chamado/a um/a professor/a muito importante.

Samsara (mundo samsárico): o mundo como é percebido convencionalmente por pessoas sem muita compreensão espiritual. É triste por ser cheio de sofrimento e insatisfação. Isto é, entretanto, devido à inadequação das pessoas e não ao mundo em si mesmo.

Sangha: um termo em sanscrito usado no budismo para significar "a congregação" ou "a comunidade".

Budismo vajrayana: uma forma de budismo que se originou no Tibete, que enfatiza a prática da meditação e a relação professor/aaluno/a.

Vipassana: uma forma do budismo que se originou no Sudeste Asiático e que é amplamente praticada na América do Norte hoje em dia.

Zen budismo: uma forma de budismo que se originou no Japão e que enfatiza a prática de meditação e a relação professor/aaluno/a. 

 

Referências bibliográficas

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GROSS, Rita M. Buddhism After Patriarchy: A Feminist History, Analisys, and Reconstruction of Buddhism. Albany, NY: SUNY, 1993.        [ Links ]

______. "Buddhism." In: SHARMA, Arvind, and YOUNG, Katherine K. (eds.). Her Voice, Her Faith: Women Speak on World Religions. Boulder, CO: Westview, 2003. p. 87-90.        [ Links ]

KYABGON, Traleg. The Essence of Buddhism: An Introduction to its Philosophy and Practice. Boston and London: Shambhala Publications, 2001.        [ Links ]

RHYS-DAVIDS, C. A. F., and. NORMAN, K. R. (trans.). Poems of Early Buddhist Nuns (Therigatha). Oxford: The Pali Text Society, 1989.        [ Links ]

TRUNGPA, Choguam. Cutting Through Spiritual Materialism. Berkeley: Shambhala, 1971.        [ Links ]

 

 

Tradução de José T. M. Bacellar e Rosa Weiss
Copyright ã 2005 by Revista Estudos Feministas
1 Esses ensinamentos não podem ser facilmente resumidos e são discutidos em qualquer introdução ao pensamento budista. Fontes especialmente recomendadas incluem Traleg KYABGON, 2001, p. 1-9 e p. 158-164; e Choguam TRUNGPA, 1971, p. 121-164.
2 Ver, por exemplo, meu livro principal: Rita M. GROSS, 1993.
3 Sobre as oito regras especiais ver GROSS, 1993, p. 36.
4 GROSS, 1993, p. 37.
5 Uma introdução muito útil a esse texto é um volume que inclui tanto uma tradução antiga quanto uma mais moderna traduzido pelo Sr. C. A. F. Rhys-Davids e pela Sra. K. R. Norman (RHYS-DAVIDS e NORMAN, 1989).
6 FALK, 2001, p. 196-206.
7 GROSS, 1993, p. 49-50.
8 O budismo ensina que aquilo que parece ser ao nosso sentido comum em geral não é preciso, mas, devido a aceitarmos tais aparências assim mesmo, fazemos muitas escolhas ruins. Tomamos aquelas aparências por realidade porque elas parecem bastante reais. O centro de muitos ensinamentos budistas consiste em aprender a distinguir a aparência da realidade e, portanto, encontrar a paz. Uma das analogias mais comuns é de alguém que, andando em um caminho ao anoitecer, vê algo deitado atravessado no caminho e, em pânico, supõe ser uma perigosa serpente. Mas é apenas uma corda, e assim todas as precauções tomadas com base na crença de que seria uma serpente são contraprodutivas. Além do mais, após uma investigação mais detalhada, a corda mesma se mostra menos substanciosa porque é composta de muitas fibras.
9 Há uma crença popular muito difundida no budismo de que o renascimento da mulher é menos favorável do que o do homem. Para uma análise dessa crença ver GROSS, 2003.
10 Eu analisei esse problema de manutenção dos registros como "androcentrismo quádruplo". Ver GROSS, 1993, p. 18-19.
11 Para uma análise mais completa, ver GROSS, 1993, p. 209-224.
12 GROSS, 1993, p. 215-221.